Mulheres diabólicas ou pretensamente estereotipadas?

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A História, particularmente a ocidental, está repleta de personalidades que ainda fazem ferver o imaginário popular. Conhecidas mais por um caráter extravagante do que por qualquer outra coisa, tais celebridades do passado se destacam por determinado comportamento que marcou a época em que viveram. Nesse contexto, é difícil encontrar alguém que ao escutar a frase “O Estado Sou Eu” não a associe à figura de Luís XIV, rei da França (embora alguns pesquisadores venham tentando desconstruir essa afirmação). Igualmente interessantes são as tramas por trás da vida desses agentes: como eles agiam, amavam, se relacionavam e, de forma um pouco mais controversa, que crimes cometeram? Esta última indagação nos guia para um submundo de curiosidade e medo, na medida em que nos deparamos com o procedimento de alguns personagens que ficaram estereotipados pela sociedade como violentos e sanguinários. Atualmente, talvez o melhor exemplo do que acaba de ser dito seja Adolf Hitler, que liderou um verdadeiro massacre contra outros povos durante o período da segunda guerra mundial.

Contudo, cabe a nós perguntarmos: onde ficam as mulheres nessa questão? É pertinente perceber que em quase todos os períodos da história, são os homens quem ganham maior destaque, quais quer que sejam suas ações. Em alguns casos, a conduta deles é até mesmo perdoada, ou eclipsada por outros feitos. Por outro lado, quando uma mulher cometia qualquer delito considerado grave, era punida, conforme acontecera durante a idade média com a perseguição da igreja católica a bruxas e demais pessoas consideradas hereges. Com efeito, esse acossamento perdura até os dias atuais, mas com um caráter diferente: a acusação moral. A condenação das atitudes femininas se faz notável em diversas épocas, principalmente quando a questão do comportamento sexual está envolvida. Consideradas por muitos como o sexo frágil, a elas foram atribuídas grandes atrocidades que chocaram – e ainda chocam – os olhos da idade contemporânea. Sendo assim, o objetivo desse texto é apresentar o perfil de algumas mulheres que foram taxadas como “diabólicas”, na tentativa de procurar entender o porquê de elas terem sido rotuladas assim.

1 – Lucrécia Bórgia (1480-1519).

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Filha de um dos Papas mais detestados da história, Alexandre VI, Lucrécia Bórgia ficaria conhecida como uma envenenadora de maridos. Muitos ainda se recordam da falácia na qual Lucrécia era possuidora de um anel que continha em seu interior a “cantarella” (o veneno dos Bórgia). De acordo com os rumores, a dama utilizava-se deste artifício para se livrar de seus cônjuges, apoderando-se da herança dos mesmos. Entretanto, os fatos apontam para um caráter muito mais dócil por parte daquela mulher, que desde cedo fora usada como peão no jogo de alianças matrimoniais pela sua família. Ao que tudo indica, não era Lucrécia a responsável pela morte de dois de seus consortes, mas sim seu irmão, que queria utilizá-la para estabelecer novos laços com famílias mais poderosas através do casamento. Entretanto, a hipótese de que ela era culpada por tais crimes (iniciada pelos inimigos da família Bórgia) atravessou os séculos que se seguiram à morte da mesma, e perduram até os dias de hoje.

2 – Rainha Maria I da Inglaterra (1516-1558).

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Filha do rei Henrique VIII com Catarina de Aragão, a primeira rainha coroada da Inglaterra passou para a história conhecida pelo epiteto de “A Sanguinária”. Declarada ilegítima em virtude da anulação do casamento de seus pais pelas leis da igreja anglicana, Maria passara anos em desfavor, tendo sido inclusive ameaçada várias vezes por não se submeter à autoridade do rei no que dizia respeito à religião protestante. Na medida em que crescia, tornava-se uma mulher profundamente abatida e triste, cujo único consolo era a sua fé católica. Após uma série de tumultos, ela finalmente acendera ao trono no ano de 1553, e instaurou o catolicismo novamente como religião oficial daquela ilha. O processo, contudo, fora bastante complicado, e Maria iniciou no país uma verdadeira fase de medo, protagonizado pela inquisição. Estima-se que tenha, em cinco anos de reinado, mandado para a fogueira cerca de 300 protestantes, sendo por isso rotulada como uma mulher sanguinária. O curioso nesse caso, porém, é que o pai dela, em 38 anos de governo, ordenara à execução de mais de 72.000 súditos, e que sua irmã, Elizabeth I, não fizera por menos. Todavia, apenas Maria ficou conhecida como a cruel, enquanto os demais membros de sua família nem tanto.

3- Condessa Elizabeth Bathory de Ecsed (1560-1614).

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A famosa “Condessa de Sangue” figura entre as mulheres mais assassinas da história, já tendo servido de inspiração para muitos escritores e cineastas. E quem não se interessaria pela vida de mulher acusada de ser obcecada pela juventude ao ponto de se banhar em sangue para preservar a própria beleza? De acordo com os registros, Elizabeth tivera uma infância nada tranquila, presenciando o assassinato de suas irmãs e depois se casando com um homem conhecido por sua violência em batalha. Em uma época na qual era comum a nobreza castigar a criadagem desobediente, é provável que a condessa tenha exagerado nesse aspecto, causando a morte de algumas servas. Logo, as acusações de assassinato em torno dela aumentaram, e fora dada uma ordem de investigação contra a mesma. Em 1610 fora encontrado um caderno de propriedade de Elizabeth contendo o nome de aproximadamente 650 vítimas, e então a condessa fora considerada culpada por todos os crimes e sentenciada a permanecer trancada numa cela escura pelo resto de seus dias. Pesquisas recentes, contudo, avaliam a possiblidade de a condenação de Elizabeth Bathory ser uma trama do rei da Hungria para se livrar das dívidas que tinha para com a condessa e de se apoderar dos bens da família dela.

4 – Delphine Lalaurie (1775-1842).

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Socialite de Nova Orleans, Delphine LaLaurie (ou Madame LaLaurie, como era chamada), possui uma história bastante controversa, e, ao mesmo tempo, bizarra, se quisermos dar ouvidos ao comentários da época. Casada com o traficante de escravos Jean Blanque, LaLaurie enviuvou cedo e passara a administrar suas propriedades. Em 1835, um incêndio se espalhara pela cozinha de sua mansão, aparentemente provocado por dois de seus cativos. Segundo rumores, o fogo fora propalado com o objetivo de chamar a atenção das autoridades para o que Delphine cometia no sótão do imóvel: experiências cirúrgicas com os escravos. Dizem que suas vítimas foram encontradas com várias partes do corpo amputadas, bocas costuradas e órgãos sexuais trocados. Além do mais, Madame LaLaurie teria feito uma cirurgia em um dos prisioneiros para transformá-lo numa espécie de homem caranguejo, relocando vários membros do corpo do mesmo. O interessante nesse caso, é que a suposta criminosa jamais pagara por seus atos, o que põem em dúvida a exatidão dos mesmos.

5 – Mary Ann Cotton (1832-1873).

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O caso da inglesa Mary Ann Cotton possui um caráter um tanto peculiar. Casada por três vezes e mãe de doze filhos, ela perdeu sua família para uma enfermidade que, ora fora diagnosticada como “febre gástrica”, ora como “doença intestinal”. Mary Ann casara-se aos 20 anos com William Mowbray, e dele tivera cerca de oito descendentes. Contudo, as crianças faleceriam muito cedo da suposta crise, incluído o marido desta (em 1865). Em seguida, ela contraíra novas bodas com George Ward, que também faleceria do mesmo mal. A imprensa, contudo, estranhou a semelhança da causa das mortes, e passou a investigar o passado daquela senhora. Enquanto isso, ela seguia sua existência “tranquila”, usufruindo da pensão que lhe havia sido concedida, até que a vida dela fora exposta pelas autoridades: não apenas seus maridos e filhos haviam padecido de febre gástrica, como também sua mãe, um amigo e mesmo um amante. Resultado: ela fora julgada e declarada culpada por todos os crimes, e sentenciada a ser enforcada lentamente. De acordo com as conclusões da perícia, ela teria envenenado a própria família.

6 – Belle Gunness (1859-1908).

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A história de Belle Gunness (norueguesa que vivia em Chicago) se assemelha, em alguns aspectos, à de Mary Ann Cotton. Só que enquanto esta havia sido taxada louca, a outra passara para a história como uma mulher gananciosa, que matara seus filhos e maridos para se apoderar do dinheiro dos mesmos. Não obstante, Belle Gunness possuía uma característica que a destacava entre suas contemporâneas: tinha cerca de 1,83m de altura. Segundo estimativas, ela fora autora de 20 homicídios, incluindo namorados e pretendentes. Contudo, apenas seis destes foram comprovados, entre os quais os de Myrtle e Lucy, filhas de Belle. A acusada, por sua vez, não fora julgada nem muito menos presa, visto que aparentemente morrera em um incêndio criminoso. Seu corpo, entretanto, estava sem a cabeça – que jamais seria encontrada. Não obstante, o laudo da perícia apontou que os supostos despojos de Gunness apresentavam uma estatura menor, o que deixa na mente das pessoas a dúvida de se fora ela mesma quem morrera no incêndio, ou se o corpo pertencia a uma mulher não identificada, enquanto que a verdadeira Belle poderia ter fugido.

7 – Ilse Koch (1906-1907).

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Durante o regime nazista na Alemanha, diversos crimes contra outros povos, entre eles os judeus e outras culturas, foram cometidos. Todavia, não apenas homens se destacaram nesse quesito, com bem o provou Ilse Koch, mais conhecida como “a maldita Buchenwald”. Casada com o membro da SS, Karl Otto Koch, ela fora acusada de manter uma coleção bastante peculiar: Ilse teria arranca a pele tatuada de vários presos para revestir a cúpula das lamparinas de sua casa. Não obstante, ela teria sido vista andando nua pelos campos de concentração portando um chicote para açoitar aquele que ousasse lhe dirigir um olhar. Com o fim da Segunda Guerra Mudial, Ilse fora presa e se enforcara dentro da própria cela.

Conclusão:

De acordo com o que foi até aqui exposto, é possível perceber que muitos dos crimes imputados a estas mulheres se baseavam mais em rumores que, com o tempo, foram aumentados a ponto de ganharem características monstruosas, do que em fatos concretos. Não afirmo com isso que elas eram inocentes. Muito pelo contrário. Contudo, o que se faz pertinente é outra investigação acerca de tais casos, baseada em novas fontes, a fim de separar o que é verídico do que é invenção. Nesse sentido, o que podemos extrair da vida de tais personagens, é que muitas delas tiveram uma infância bastante difícil, ou se aliaram a pessoas conhecidas por práticas violentas. Em outros exemplos, foram usadas como bode expiatório para crimes que possivelmente não eram de todo responsáveis. Com efeito, vivemos em uma sociedade na qual apontar os crimes de pessoas que já morreram, e que, portanto, não estão mais aqui para se defender, é muito mais cômodo do que prestar atenção nas atrocidades sociais que são cometidas diante de nossos próprios olhos.

Referências Bibliográficas:

GRILLANDI, Massimo. Lucrécia Bórgia. – São Paulo: Círculo do Livro, 1984.

LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV – XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.

PENROSE, Valentine. Erzsébet Báthory a Condessa Sanguinária. Tradução de Helder Moura Pereira. – Lisboa: Assírio & Alvim, 2004.

Sites:

BergamotasSuperinteressante.

Texto escrito para o Causas Perdidas

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6 comentários sobre “Mulheres diabólicas ou pretensamente estereotipadas?

  1. Verdade, bela conclusão de vocês. Muitas dessas mulheres serviram de “bode expiatório” de pessoas que foram as verdadeiras culpadas por tais atos, mas que fique claro que não estou as defendendo.

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  2. Seria interessante se vocês tivessem mencionado à respeito do filho que ela teve na cadeia, Uwe, em 1947, cuja paternidade é desconhecida. Ilse chocou as pessoas com essa gravidez, sendo que ela havia sido mantida isolada e recebera visitas apenas de interrogadores americanos, sendo que em sua maioria eram judeus. Reflito sobre uma questão: estupro ou Ilse aproveitou-se do fato de que uma gravidez poderia livrá-la de uma sentença de morte, como poderia ter acontecer? Difícil responder. Em 1967, Ilse tomou uma refeição normal antes de escrever uma última carta ao filho, Uwe. Nela disse que havia sido bode expiatório dos escalões mais altos do Partido Nazista. Segundo a história oficial, depois de ter feito essa carta, Ilse emendou alguns lençóis e enforcou-se na prisão. Bom, eu, pessoalmente, não acredito muito nesse suposto “suicídio”, afinal, ela estava conseguindo cada vez mais a aproximar-se de seu filho, então por que mataria-se? Será que ela estava esperando “fixar” essa relação com ele afim de morrer “em paz”? Quando soube da morte da mãe, no dia seguinte, Owe disse que dedicaria sua vida a limpar o nome da mãe. Ah, sobre os supostos abajures feitos de pele humana: testes mais tardes provaram que era feitos de PELE DE CABRA, não humana. Há muito coisa escondida por traz de toda essa história. E sobre os artefatos que os Aliados encontraram na casa dela, em 1945, tenho dúvidas… Ela saiu daquela casa em 1943, por causa da acusação que o marido dela, Karl, estava sofrendo, pelos próprios nazistas. Como saber se outras pessoas não instalaram-se lá sem o conhecimento dela? Bom, o próprio general Lucius D. Clay disse que um julgamento justo para ela seria algo impossível, e alegou que nçao haviam provas para mantê-la presa por mais tempo (quando colocou sua sentença para 4 anos). Mas por conta da pressão pública Ilse permaneceu presa.

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