Comentários da série “The Tudors” – Capítulo 1×08 (o melhor episódio da temporada!)

“1529 foi um ano bastante turbulento para a história inglesa: de um lado, temos o rei, apaixonado por uma mulher mais jovem, e em conflito com sua consciência; do outro, a rainha, que segue com a crença inabalada na legitimidade de seu casamento, e disposta a lutar com quem quer que seja para mantê-lo. Esses dois agentes, que outrora partilharam uma vida em comum, agora se enfrentarão perante uma corte judiciária, da qual não apenas o destino de ambos está em jogo, como também o da nação inteira”.

O oitavo capítulo da primeira temporada de “The Tudors” talvez seja o mais interessante de todos os anteriores, especialmente pela precisão histórica com a qual os fatos são encenados. É neste episódio que ocorre a representação de um dos acontecimentos mais dramáticos do processo de separação entre Henrique VIII e Catarina de Aragão: o tribunal legatício de Blackfriars, onde a validade do matrimônio real seria julgada pelos cardeais Wolsey e Campeggio, que viera da Itália, como enviado papal, para avaliar o caso do rei da Inglaterra. Por enquanto, os monarcas deveriam partilhar das mesmas refeições, e inclusive o leito, mas apenas por questões de aparência. Afinal, Henrique pretendia mostrar que ainda continuava a manter suas obrigações como marido, embora sentisse mais nada pela sua esposa além de respeito. Contudo, quem não gostou de saber disso foi Ana Bolena, cada vez mais impaciente por uma resolução favorável para cuidar dos preparativos de seu próprio casamento.

Nesse episódio, o protestantismo de Ana Bolena (Natalie Dormer) fica mais evidente.

Nesse episódio, o protestantismo de Ana Bolena (Natalie Dormer) fica mais evidente.

É curioso perceber que nos episódios anteriores, Michael Hirst pouco destaque dera às inclinações protestantes de Ana, apresentando-a mais como uma mulher sedutora do que como uma das damas mais instruídas de seu tempo. Porém, nesse capítulo essa imagem se perde um pouco, especificamente na cena em que Cromwell (interpretado por Fames Frian) entrega à favorita do rei o livro de William Tyndale, “A obediência do Homem Cristão”, que será apresentado por esta ao próprio Henrique VIII. Todavia, o destaque deste episódio não fica para Natalie Dormer, ou muitos menos para Jonathan Rhys Meyers, mas sim para a épica rivalidade entre o cardeal Wolsey (Sam Neill) e a rainha Catarina de Aragão (Maria Doyle Kennedy). É o desespero dele, juntamente com a atitude obstinada daquela, que movem a trama de modo a arrancar o fôlego do telespectador do início ao fim. Nesse caso, os demais personagens atuam como meros coadjuvantes desses dois atores, que vestiram seus respectivos papéis com bastante competência e brilhantismo.

Com a vinda do cardeal Campeggio como legado papal, Catarina pressente que desde o início não lhe será concedido um julgamento imparcial, especialmente após entrevistar os advogados que lhe foram designados: o arcebispo Warham e o bispo Tunstall, que tentaram convencê-la a retirar-se para um convento e deixar o rei livre para contrair segundas núpcias. Tal como na história original, a rainha bradou que “Deus a havia feito para o estado do matrimônio e era assim que ela pretendia morrer”. A obstinação de Doyle nas telas se assemelha em muitos aspectos com de sua personagem, uma vez que Catarina de Aragão acreditava que era rainha da Inglaterra pela vontade divina e lutaria por isso até o fim. Não adiantava o rei tentar mudar sua cabeça por meio de agentes pessoais, pois que ela jamais cederia a tamanha afronta desencadeada por seus inimigos, e por “uma mulher cuja ambição era destruir aquele reino”. Ela era a filha de grandes reis e como tal se mostraria perante seus juízes e a corte legatícia.

Um desesperador Cardeal Wolsey (Sam Neill) se ajoelha perante Catarina de Aragão, implorando que esta aceite a vontade do rei.

O desesperado Cardeal Wolsey (Sam Neill) se ajoelha perante Catarina de Aragão, implorando que esta aceite a vontade do rei.

Wolsey, por sua vez, pressente que o cerco está se fechando em torno de si. Ele sabe que se não conseguir a anulação do casamento, a cólera de Henrique VIII cairá sobre sua cabeça, e ninguém será capaz de salvá-lo. Em uma das primeiras cenas ele chega até ao ponto de se ajoelhar perante Catarina, implorando que esta se retire para uma vida de castidade. O irônico nessa passagem é que, conforme a própria rainha evidenciara em sua réplica, o cardeal mantinha uma amante com a qual possuía dois filhos, de modo que era a pessoa menos indicada a aconselhar castidade para alguém. Nesse caso, tanto Wolsey quanto Campeggio, apesar de serem homens da Igreja Católica, representavam a decadência da mesma, principalmente no que diz respeito ao celibato. Desse modo, não é de espantar que muitos súditos estivessem insatisfeitos com a posição privilegiada que os clérigos ocupavam no país, algo que foi evidenciado em episódios passados, através dos clubes secretos onde se reuniam protestantes convictos, entre eles o próprio Thomas Cromwell, secretário de Wolsey.

Com efeito, o chanceler sabia que o poder papal estava declinando dentro da Inglaterra, e a menos que ele e Campeggio chegassem a uma conclusão favorável, Henrique resolveria a questão da anulação por contra própria, mesmo que isso significasse o rompimento com Roma. É curioso ver o desespero de Wolsey chegar a níveis extremos, a ponto de ele apelar pela violência contra seu colega cardeal, pois, como o próprio duque de Norfolk enfatizara, “a cólera do príncipe era a morte”. Entretanto, esse capítulo ainda apresenta alguns detalhes curiosos, como o desfecho do personagem Thomas Tallis (Joe Van Moyland), que resolveu se casar com uma mulher, apesar de suas inclinações homossexuais; interessante também é o personagem da rainha Cláudia de Valois (Gabriella Wright), que passa uma difícil lição de moral para Charles Brandon (Henry Cavill) sobre a fidelidade conjugal; Margareth Tudor (Gabrielle Anwar) também esta de volta nesse episódio, para tentar convencer seu irmão (embora sem sucesso), a não se casar com a filha de Thomas Bolena.

Catarina de Aragão (Maria Doyle Kennedy) se defende perante o rei, durante o julgamento.

Catarina de Aragão (Maria Doyle Kennedy) se defende perante o rei, durante o julgamento.

Enquanto Ana estava convicta de que seu casamento com o rei estava certo (conforme podemos interpretar a partir da escolha de seu novo moto: “É assim que será. O povo pode resmungar.”), as coisas não sairiam de acordo como ela planejava, visto que Catarina ainda não estava vencida, muito pelo contrário! A cena final foi uma das mais emocionantes de toda a temporada: a rainha se dirige sorridente para o tribunal, e, com o apoio do povo nas costas e a hostilidade dos pares, profere um emocionante discurso perante Henrique VIII, no qual apela para a consciência do mesmo e implora por justiça imparcial. Em seguida, ela se retira da câmara, ovacionada por uma multidão de espectadores, na medida em que deixava a corte legatícia atônita. Naquele dia, porém, a rainha se saíra vitoriosa, em todos os sentidos. Mas o grande perdedor do processo não fora o rei ou sua amada, e sim o cardeal Wolsey. O infeliz destino desse personagem, contudo, só os próximos capítulos poderão revelar.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

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2 comentários sobre “Comentários da série “The Tudors” – Capítulo 1×08 (o melhor episódio da temporada!)

  1. “Ainsi sera, groigne qui groigne” – Realmente esse ep foi ótimo, a cena final do tribunal foi tão esplêndida, q me peguei ovacionando junto com o povo,kkkkkkk! Maria Doyle, na época, me ganhou completamente nesse ep, ela foi demais em todas as cenas, mostrando o quanto Catarina era tão forte quanto sua mãe Isabel tinha sido! Adoro todo o orgulho, a certeza a fé q a Doyle demonstra, ela nasceu pra interpretar Catarina de Aragão! Sam Neil é ótimo tbm, e por mais q eu odeie Wolsey, o seu desespero me fez ficar com muita pena!

    Já o fato de mostrarem a inclinação de Ana pela fé protestante, acho q já estava mais q na hora, Ana era sim uma mulher sedutora e tentadora, porém ela n é só isso, a própria Natalie Dormer discutiu sobre isso com o Michael Hirst, é por isso q aos pouquinhos vemos as outras nuances da nossa querida Bolena (na 2 temporada isso é mais latente).

    Ótima review, bjs!

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    • Muito obrigado pelo comentário, Camila. Maria Doyle Kennedy é realmente uma atriz incrível. Imagino o comportamento da rainha Catarina bem semelhante ao interpretado por ela. Abraço!!!

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