Comentários da série “The Tudors” – Capítulo 1×05

“Nas cortes da Europa do século XVI, com reis que se casam por política e não por amor, era comum que os monarcas procurassem com amantes o consolo que não encontravam no leito conjugal. Em alguns casos, desses relacionamentos eram gerados frutos que, muitas vezes, foram reconhecidos pelos pais com títulos nobiliárquicos, tal como fez Henrique VIII com seu bastardo, Henry Fitzroy. Pobre Soberano! Na esperança de que aquela criança poderia sucedê-lo, desconhece que uma poderosa sombra ronda o palácio: a morte”.

O tempo avança no palco da corte inglesa: é o ano de 1527, e o rei está mais do que contente pelo fato de seu filho bastardo com Bessie Blount ser uma bela e robusta criança, presenteando-o com os títulos de Duque de Richmond e Somerset. Quem não gostou muito disso foi Catarina de Aragão, que viu sua filha Maria ser preterida a um menino nascido fora de um matrimônio legal. Neste quinto capítulo da primeira temporada de “The Tudors”, a rivalidade entre a rainha e o cardeal Wolsey fica mais evidente. Sam Neill e Maria Doyle Kenedy dão um show de atuação nas cenas em que aparecem juntos: ela, com seu orgulho espanhol frente a um homem de linhagem comum e a quem culpa pelos seus infortúnios; ele, com seu ar de deboche, como se acreditasse que a esposa de seu amo não constituísse ameaça alguma para os seus planos. Um infeliz engano da parte dele, devemos concordar.

Catarina de Aragão (Maria Doyle Kennedy) cai em prantos após o rei lhe contar que queria a anulação do casamento deles.

Catarina de Aragão (Maria Doyle Kennedy) cai em prantos após o rei lhe contar que queria a anulação do casamento deles.

Por outro lado, a situação de Catarina é nada confortável, pois seu sobrinho, o Imperador Carlos, não cumpriu com sua palavra e traiu o rei e as pretensões deste ao território francês. Sendo assim, Henrique se sentiria mais do que na obrigação de procurar consolo nos braços daquela a quem devota seu amor: Ana Bolena. Nesse episódio, temos a tão interessante troca de correspondências entre o rei e sua Lady, recheadas dos mais “sinceros” sentimentos. O mais interessante nisso é que até hoje não dispomos das respostas de Ana às cartas de Henrique VIII (provavelmente destruídas por ele), mas na série esse correio entre ambos é recriado com base nas pistas deixadas pelo soberano em suas próprias missivas para a amada. Desse modo, é possível observamos como mademoiselle boullan lidava com o afeto do rei e manipulava-o (se é que podemos usar essa palavra), na intensão de que este se casasse com ela.

Uma vez que a provável suplente de Catarina de Aragão já fora escolhida, resta apenas cuidar de um caso embaraçoso: o divórcio, ou melhor, a anulação daquilo que nunca foi um casamento. Sob esse aspecto, foi demasiado chocante a cena em que Henrique (Jonathan Rhys Meyers) conta para a esposa de que eles viviam em pecado, enquanto ela estava concentrada em seu universo de santos e orações. Desolada, ela cai no chão em prantos, como se um punhal lhe tivesse sido atravessado no ventre. Como já disse em comentários de episódios passados, Kennedy faz uma magnífica atuação de seu personagem. É possível sentir pela expressão dela toda a dor e transtorno da rainha ao receber dos lábios do próprio rei a notícia de que o casamento deles era inválido.

Wolsey (Sam Neill) e os altos membros da Igreja Católica em Inglaterra decidem sobre a validade do casamento real.

Wolsey (Sam Neill) e os altos membros da Igreja Católica em Inglaterra decidem sobre a validade do casamento real.

Mas como jugar se a dispensa do papa para o matrimônio de Henrique VIII com a viúva de seu irmão era de fato condizente com as leis canônicas? Seria preciso, então, um tribunal eclesiástico, composto de altos membros da igreja católica em Inglaterra para decidir essa questão. Seguindo as intenções de seu amo, o cardeal Wolsey convoca seus pares para avaliar esse assunto, enquanto o rei segue para o castelo de Hever após receber de Ana um pingente contendo uma donzela dentro de uma embarcação com um diamante pendendo da proa. Ali vemos o rei e sua amada se entregando à paixão e por pouco não a consumam. É nesse instante, entretanto, que Henrique tem a ideia de honrar a “virgindade” de Ana Bolena até que eles estivessem casados, contrariando, assim, a resolução de muitos historiadores de que a iniciativa do sexo só após o matrimônio fora da própria Ana.

E onde fica Catarina nessa história? Com efeito, ela já sabe que aquela camareira de seu séquito é o alvo das paixões de Henrique e, a partir de então, começa a disputa entre esses dois titãs do século XVI: Ana, lutando para conseguir a coroa, enquanto a rainha brigando para conservá-la em sua cabeça. A cena em que Natalie Dormer e Marie Doyle Kennedy trocam olhares desafiadores, por sua vez, é bastante significativa, e revela muito do que acaba de ser dito. No outro vértice da trama, o tribunal chefiado pelo cardeal Wolsey não chegou a uma conclusão quanto à validade do casamento real, resolvendo, então, levar a decisão do caso ao papa Clemente. Henrique, todavia, gostou nada de ouvir essa resposta, e, portanto, deixa no ar uma ameaça àquele príncipe da Igreja, caso ele não conseguisse o divórcio.

Catarina de Aragão já sabe que Ana Bolena (Natalie Dormer) é o alvo das paixões de seu marido.

Catarina de Aragão já sabe que Ana Bolena (Natalie Dormer) é o alvo das paixões de seu marido.

Antes de encerrar meus comentários sobre este capítulo, gostaria de fazer algumas considerações: após o casamento de Charles Brandon e Margareth Tudor, os dois são banidos da corte, conforme a história original (só que nesse caso não foi Margareth, e sim Maria, a irmã mais nova do rei). Entretanto, volto a tocar no assunto da falta de entrosamento entre Henry Cavill e Gabrielle Anwar, visto que as cenas em que aparecem juntos são pautadas apenas no sexo, e nada mais. Há também a inclusão de um relacionamento homossexual entre o músico Thomas Tallis (vivido por Joe Van Moyland) e Sir William Compton (vivido por Kris Holden-Ried), para demonstrar como a sodomia sempre esteve presente na História, embora de forma escondida em determinadas épocas. Não obstante, vemos com um pouco mais de frequência o personagem George Bolena (Padraic Delaney), embora destituído de qualquer função significativa.

Contudo, a roda da fortuna sempre gira, e às vezes, aqueles que estavam por cima terão agora que se contentar em observar sua iminente queda, tal como o cardeal Wolsey, crente de que o papa decidiria em favor da anulação do casamento real. Mas, para o seu infortúnio e também do seu nobre amo, o vigário de cristo se encontra prisioneiro do Imperador e, nessas circunstâncias, uma resolução rápida esta fora de cogitação. Todavia, a má sorte de Henrique VIII não se resume a apenas isso: seu pequeno filho bastardo, aquele a quem nobilitara no início do capítulo, morrera acometido de uma praga que dizimou boa parte da população inglesa naqueles anos¹, a febre do suor, e nem mesmo os que estavam mais próximos da realeza escaparão deste terrível mal. A morte, como se sabe, vem para todos, e até os reis não estão imunes a ela!

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC


¹ De acordo com os registros históricos, Henry Fitzroy não morreu quando criança, mas sim em 1536, já estando nessa época, inclusive, casado. 

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5 comentários sobre “Comentários da série “The Tudors” – Capítulo 1×05

  1. Esse ep foi da Maria Doyle Kennedy! Reinou realmente e me emocionou, a cena em que o Henry VIII conta que o casamento será anulado, deu para “ouvir” o seu coração quebrar, acabei me vendo em desespero junto com a Catarina! Como já disse na primeira análise, foi a Maria q me fez gostar mais da Catarina de Aragão, pois ela brilhou nesse papel! Ahh a cena da troca de olhares, a prova de como uma cena quase sem diálogos pode ser boa quando se tem duas atrizes sensacionais! Palmas para Maria e minha querida Natalie Dormer! Sam Neil é outro que detona, amo odiar o Cardeal Wolsey, que está tão próximo da queda! Adoro as trocas de cartas, e a intensidade que o romance entre Henry e Ana já está se desenvolvendo (primeira briguinha,kkkkkk)! George só vai aparecer por enquanto para vermos a dinâmica entre os irmãos, construindo assim o que ocorrerá no futuro (George no quarto da Ana a noite….)
    Pobre Henry Fitzroy , escolheram um ator tão fofinho e mais uma mudança histórica… Tenho q concordar com as cenas entre Margaret e Charles, os atores n tem química! Ótima análise, bjs!

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    • Muito obrigado, Camila!
      Também sou um grande admirador do trabalho da Maria Doyle Kennedy, pois ela soube, como poucas, captar a essência deste personagem. Apesar de não ter uma tez leitosa e cabelos louro avermelhados como os da verdadeira Catarina de Aragão, ela compensa essa falta em muitos outros aspectos, que, por sua vez, a distinguem entre as demais atrizes que compõem o elenco da série. Abraço!

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  2. Olá Renato.
    Assisti poucos capítulos dessa série por ser muito fantasiosa, basta ver o Henrique VIII que escolheram. Henrique Fitzroy nunca foi considerado herdeiro já que filhos bastardos não herdam nada, portanto até o momento Maria era a herdeira. Henrique VIII se apaixona por Ana Bolena que se recusa a se tornar mais uma amante. Ana tinha uma relação com Henry Percy, o filho do Conde de Northumberland, e o objetivo deles era pedirem a permissão ao Rei para casar, o que foi feito. Mas como Henrique VIII não conseguia esquecê-la, através do Cardeal Wolsey nega o pedido e insiste na relação, ela revoltada resolve que só aceitaria se se casasse com ele. Quanto às bobagens de que ela o traiu, foi mais uma armação do arrogante Rei que não queria passar por mais uma separação que não deu em nada da primeira vez. Jane Seymour já estava com ele há algum tempo já que se casam 10 dias após a morte de Ana Bolena.
    Séries são boas distrações, mas sempre é bom conhecer a história.
    Abraços,
    Poliana

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    • Olá, Poliana.
      “The Tudors” é uma série que até hoje atrai pessoas, assim como consegue afastá-las, especialmente por certa falta de compromisso com a história factual. Entretanto, como a ideia de representação não está ligada necessariamente à fidelidade, mas sim à recriação, então Michael Hirst modificou os acontecimentos para deixá-los mais consumíveis aos olhos do telespectador. Contudo, não só em séries a história é alterada, mas também em muitos filmes, cujo enredo é contextualizado em determinada época do passado. Para a pessoa que já leu sobre o assunto, isso com certeza será um choque, mas temos sempre que ter na consciência de que aquilo é uma representação e não o relato fidedigno dos fatos.
      No mais, Ana Bolena e Henry Percy não pediram para se casar, ou procuraram o rei para aprovar tal união. Foi o Cardeal quem acabou descobrindo o namoro entre eles e tratou de separar os dois, de acordo com George Cavendish, testemunha do ocorrido, em seu livro “Life of Wolsey”. Isso tudo aconteceu em 1522 e nessa época Henrique não estava interessado em Ana, pois no momento outra Bolena ocupava suas atenções: Maria.
      Forte abraço!

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    • Desculpe Renato, mas só vi seu comentário agora. Penso que tudo que tem uma história já escrita sobre o assunto é melhor que seja seguida o mais próximo da realidade possível, afinal também serve para informar as pessoas sobre o passado. Sobre George Cavendish ter escrito sobre a vida de Cardeal Wolsey, mais uma vez há uma deturpação da história. É certo que Ana Bolena e Henry Percy não haviam pedido a aprovação do rei para tal união já que nem os pais de Henry Percy eram a favor, mas Ana Bolena e Henry Percy já tinham se prometido um ao outro. Mas tal proibição partiu do rei que se interessou por Ana Bolena e ordenou ao Cardeal Wolsey que proibisse qualquer ligação entre os dois. Aí sim Ana Bolena resolve que se não teria o que queria também não seria mera amante do rei.
      Abraços e um feliz 2014!!
      Poliana.

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