Os primeiros anos de Mary, Rainha da Escócia!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em oito de Dezembro de 1542 o Palácio de Linlithgow estava em festa: Marie de Guise, rainha consorte de Jaime V, dera à luz um herdeiro para o trono, depois de já ter engravidado de dois garotos que sequer sobreviveram à primeira infância. Entretanto, o terceiro filho do casal de monarcas não seria o tão esperado varão que pacificaria o reino da Escócia, mas sim uma bela garotinha, que desde o seu berço estava destinada a viver momentos de grande felicidade, e muitos outros de extrema tormenta. Contudo, o acontecimento exigia um enorme banquete para a nobreza e membros da família real, com as iguarias doces e salgadas das mais requintadas, algumas inclusive importadas. Os camponeses se juntavam aos montes em volta dos muros da residência real, na esperança de poder espiar um pouco da celebração e entoar vivas à sua princesinha. Afinal, agora que a coroa novamente tinha um herdeiro legítimo (nesse caso, uma herdeira), a sucessão dos Stuart estava garantida. Quem, todavia, não estava muito contente com os acontecimentos era o próprio pai da criança, que jazia moribundo em seu leito no Castelo de Falkland, após ter sofrido uma dura derrota para o exército inglês na batalha de Solway Moss.

Um dia depois do nascimento da filha, a notícia finalmente chegara aos ouvidos de seu real pai, que em tom de desagrado teria pronunciado a profética frase: “Duma mulher nos veio a coroa, com uma mulher perdê-la-emos”¹. E como essas palavras se mostrariam verdadeiras com o passar dos anos, embora naqueles dias de início de Dezembro talvez só Jaime V fosse capaz de prevê-las. Segundo Stefan Zweig,

“… ser uma Stuart e uma rainha da Escócia é uma herança duplamente sombria, pois a nenhum Stuart até então foi concedida felicidade ou duração neste trono. Dois reis, Jaime I e Jaime III, foram assassinados, Jaime II e Jaime IV pereceram em campo de batalha e a dois de seus sucessores, a esta criança inconsciente [Mary Stuart] e a seu neto consanguíneo, Carlos I, o destino reservou crueldade ainda maior: o cadafalso” (ZWEIG, 1942, pag. 13).

Jaime V da Escócia e Marie de Guise, pais de Mary Stuart.

Jaime V da Escócia e Marie de Guise, pais de Mary Stuart.

Conta-nos este referido autor que aquele país era constantemente alvo de lutas intestinas pelo poder entre as principais famílias do reino, como, por exemplo, os clãs dos Gordons, Hamiltons, Arrans, Maitlands, Crawfords, Lindsays, Lennox e Argylls. Sendo assim, para um rei da Escócia constituía-se numa tarefa bastante complicada dominar todas essas facções, uma vez que aquela nobreza não se sentia obrigada a manter laços de vassalagem para com seu soberano, a menos que pudesse tirar alguma vantagem disso.

Contudo, devido ao fato de uma família odiar a outra, manter um Stuart como representante da coroa era um fator de equilíbrio para a balança política do reino.  Sobre isso, o próprio Jaime V teria dito a Marie De Guise (no período dos esponsais de ambos em 1538) que “a minha força e a de meus antepassados sempre repousaram na burguesia da cidade e na Igreja e tenho de perguntar a mim próprio se esta força ainda perdurará por muito mais tempo”. Revela o soberano que ao longo de todos os anos de seu reinado fora graças ao apoio popular que conseguira manter o seu cetro. Entretanto, com a reforma religiosa querendo adentrar o solo escocês, um dos alicerces do poder dos Stuarts, ou seja, o catolicismo estava começando a ruir e, em vista disso, a situação não mais se mostrava favorável para os herdeiros daquela dinastia de grandes guerreiros. Não obstante, havia o perigo da ameaça externa, representada pela a Inglaterra, que nunca omitiu suas pretensões de anexar o país vizinho aos seus próprios domínios. Em novembro de 1542, Jaime comandara uma invasão retaliatória mal planejada contra as tropas de Henrique VIII pelo controle de um faixa de campo agreste localizada a oeste de Liddesdale. Traído por seus lordes, que abandonaram o campo de batalha, o rei da Escócia sofrera uma de suas mais humilhantes derrotas, com mais de mil súditos feitos prisioneiros.

Tendo apenas 31 anos, Jaime V já estava fatigado da coroa, e após o desastre de Solway Moss, desabara no leito em Falkland, quieto e sombrio. Quando recebera a noticia do nascimento de Mary, simplesmente virara seu rosto para a parede num gesto de indiferença, e assim permaneceu, sem dar qualquer resposta. Quadro dias depois estaria morto, e aquela pequena princesinha recém-nascida era agora Soberana da Escócia. Imediatamente, duas facções entraram em confronto pelo poder: uma era a dos católicos, liderados pela rainha-mãe Marie de Guise e pelo rico Cardeal David Beaton; o outro vértice, que, por sua vez, representava a massa protestante, era encabeçado por James Hamilton, conde de Arran. Este último, como era descendente do rei Jaime II, além de ser o próximo na linha de sucessão caso a pequena monarca morresse, proclamou-se “governador do reino” em três de janeiro de 1543, tendo para isso o apoio de uma minoria pró-inglesa. Em fato, pretendia Hamilton exercer a regência do país até que Mary atingisse a idade de 12 anos, porém, como a maioria dos escoceses ainda eram católicos, não recebera completo apoio dos súditos. Henrique VIII, ciente dos atritos que inflamavam a política do reino vizinho, decidira se aproveitar desse momento de fraqueza para traçar um plano que unisse as duas coroas sob a liderança da Inglaterra: casar a rainha com Eduardo, príncipe de Gales.

Castelo de Stirling, fortaleza erguida em terreno elevado para a qual Marie De Guise e sua filha se refugiaram.

Castelo de Stirling, fortaleza erguida em terreno elevado para a qual Marie De Guise e sua filha se refugiaram.

Entretanto, o “grande Harry” iria esbarrar nos interesses da própria mãe de Mary Stuart, que era francesa, e assim como seus conterrâneos, não nutria sentimentos fraternais para com os ingleses. Para se proteger das pretensões daquele monarca, em julho de 1543 a rainha mãe se refugiou com sua filha no castelo de Stirling, enquanto o Cardeal Beaton tentava apaziguar o estado de tensão dos ingleses por meio do tratado de Greenwich, que viabilizava o casamento entre aquele bebê de seis meses e o príncipe herdeiro de cinco anos (embora em seu íntimo Marie De Guise soubesse que nunca cumpriria esse acordo). Fortaleza medieval, porém embelezada pelo antigo rei, Stirling pertencia à mãe de Mary pelo seu contrato matrimonial com Jaime V. Com a criança sob sua tutela, o poder de Marie ficava indiscutivelmente mais forte, e, portanto, convidou o embaixador de Henrique VIII, Sir Ralph Sadler, para lhe fazer uma visita, na qual despiu a frágil garotinha para provar “que sua filha de fato crescia rápido”, e que logo “seria uma mulher alta, se puxasse à sua mãe”. Todavia, as intensões do diplomata e de seu Senhor logo seriam frustradas devido a uma virada na roda dos acontecimentos: o regente Arran abandonou o apoio aos ingleses e à religião protestante, e uniu-se ao partido oposto.

Desse modo, a Escócia escapava se tornar mais uma possessão inglesa e abria caminho para outras alianças políticas, a exemplo da França. A vingança de Henrique VIII, contudo, não tardaria a chegar. Ele lançaria um ataque surpresa ao reino vizinho em maio de 1544, dando ao seu cunhado Edward Seymour, conde de Hertford, as seguintes instruções:

“Ponha tudo sob fogo e espada, deixe tão arrasada e desfigurada a cidade de Edimbugo que, quando houver saqueado e obtido o que puder, reste para sempre uma memória perpétua da vingança de Deus [neles] ateada por sua falsidade e desobediência” (apud DUNN, 2004, pag. 97).

A série de invasões, incêndios, massacres e pilhagens que os ingleses iriam realizar na Escócia, devido à quebra do tratado de Greenwich, ficariam conhecidas nos compêndios da História britânica como “Namoro Bruto”. Porém, naquele ano de 1544 a saúde daquele soberano já estava bastante debilitada pela doença e velhice e, por isso, ficara claro que a unificação dos reinos não se daria por meio de sua autoridade, porém, na de seus sucessores. Com a morte de Henrique VIII em janeiro de 1547, assume o trono seu filho e Edward, então com nove anos de idade. Sendo assim, a regência do governo fora concedida ao tio do pequeno rei, o mesmo que liderara a invasão da Escócia pelas tropas inglesas: Eduardo Seymour, agora duque de Somerset.

Tropas escocesas na batalha de Pinkie (1547).

Tropas escocesas na batalha de Pinkie (1547).

Conta-nos Jane Dunn que por essa época Mary havia se tornado uma criança bastante orgulhosa, inteligente e charmosa tendo, já em tenra idade, vencido inúmeros perigos: desde riscos de doença neonatal até os malefícios do reino vizinho.  Assegura ainda esta autora que era demasiado importante para a Inglaterra garantir a Escócia contra seus inimigos continentais (ou seja, a França), e que Somerset estava cada vez mais decido a sequestrar Mary da mãe e assim cria-la sob os auspícios da religião protestante. Em 10 de setembro de 1547, que ficou conhecido como “Sábado Negro”, novamente as tropas inglesas arrasam os escoceses, sob o comando incompetente do conde de Arran, em Pinkie Cleugh. Este último, porém, sairia ileso do combate que destruiria seus melhores e mais hábeis soldados. Ficara claro, a partir de então, que aquele país não era mais seguro para a rainha menina, e uma medida enérgica precisava ser tomada já.

Desenho de Mary Stuart aos 9 anos de idade.

Desenho de Mary Stuart aos 9 anos de idade.

Em meio ao furor da batalha, sem que ninguém suspeitasse, Mary Stuart tinha sido levada na calada da noite do castelo de Stirling para a segurança do Convento de Inchmahome, que ficava isolado numa pequena ilha no lago Menteith. “Ali, perfeitamente escondida, afastada do mundo agitado e inquieto, vivia a criança insciente à sombra dos acontecimentos, enquanto a diplomacia diligente sobre terras lhe tecia o destino” (ZWEIG, 1942, pag. 20). Alude-nos Stefan Zweig nessa passagem à presença de um novo agente no caminho daquela rainha de cinco anos, que era ninguém menos que Henrique II, rei da França. Propusera este monarca um acordo matrimonial que Marie De Guise jamais poderia recusar: casar sua filha com o Delfin Francisco. Com efeito, após a conclusão do consórcio, em sete de Junho de 1548, a enérgica criança viajaria junto com suas amigas (as quatro Marias: Mary Fleming, Mary Beaton, Mary Livingstone e Mary Seton) para o reino mais luxuoso de toda a Europa, onde receberia uma educação de primeira qualidade e cresceria forte e feliz sob os olhos da família de sua mãe².Após esse desfecho, estaria concluída a primeira infância da notória soberana dos escoceses, e dada à largada para um período dourado na sua trajetória, mas também repleto de provações.

Notas:

¹Alude Jaime V a Marjory, filha de Roberto I Bruce, que governou a Escócia de 1306 a 1329.

²Mary Stuart aportara em Roscoff (França) em 13 de agosto de 1548.

Referências Bibliográficas:

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Record: 2004.

STEPANEK, Sally. Os Grandes Líderes: Maria Stuart. Tradução de José Carlos Barbosa dos Santos. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. Tradução de Odillon Gllotti. – Rio de Janeiro: Guanabara, 1942. pp. 376.

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