A representação do professor no desenho animado South Park

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Assunto já bastante debatido entre os principais ciclos de estudos acerca do ensino nas escolas, o papel do professor vem sendo questionado ao longo dos anos por diversos veículos de informação e representação midiática. Ente eles, talvez os filmes constituam o melhor exemplo a ser sugerido, como é o caso de O Sorriso de Monalisa (2002), em que a protagonista (Julia Roberts), uma acadêmica cheia de ideias revolucionárias para sua época, é enviada para uma escola de garotas treinadas para serem boas donas de casa. Através da arte, a professora consegue fazer com que aquelas jovens amadureçam seus pensamentos e comecem a sonhar com uma carreira profissional que não necessariamente esteja vinculada ao lar. Sem dúvida se trata de uma mensagem belíssima, na qual o papel do professor é apresentado como o de alguém que guia seus alunos para um caminho de prosperidade, algo que, por sua vez, está longe de se configurar na realidade de algumas escolas brasileiras do século XXI.

South-Park-ClassroomProvavelmente, uma das produções que mais apresentam o professor em todo o seu ambiente de frustação, porém de forma cômica, é o desenho animado South Park. Transmitido desde sua criação em 1997 pelo canal de TV por assinatura Comedy Central, e desenvolvido por Trey Parker e Matt Stone, South Park (Parque Sul em português) é uma pequena cidade norte-americana onde o frio e a neve nunca cessam de cair. É o lar de personagens caricatos, como a criança Eric Cartman e o professor Garrison, além de ser o palco de situações tão improváveis que só a mente de um escritor poderia conceber. Estabelecendo sempre um diálogo entre realidade e fantasia, a presente produção traz em si duras críticas à sociedade dos Estados Unidos e aos padrões capitalistas que governam a vontade das pessoas.

Entre os temas abordados, o universo escolar talvez seja o mais interessante, pois é onde todos os protagonistas interagem das formas mais diversificadas: desde as guerras entre grupos de alunos, até as situações envolvendo o contexto da própria sala de aula. É nesse espaço (sempre representado da forma mais tradicional, com cadeiras dispostas em filas) que o telespectador irá deparar-se com a caricata figura do Senhor Garrison. Homossexual assumido, tal personagem é o professor da escola de South Park, alguém decepcionado com sua vida social e profissional. Passados alguns episódios, essa mesma figura se submete a uma cirurgia para mudança de sexo, passando a ser conhecido como Senhora Garrison. Todavia, como o personagem irá perceber ao longo dos episódios, sua vida não irá modificar-se em decorrência de tal procedimento, continuando, dessa forma, a levar sua existência tediosa e frustrada.

No outro vértice da trama, há o personagem Eric Cartman, que representa o típico aluno desordeiro e que passa a maior parte de seu tempo bolando planos e conspirações para fazer seus amigos seguirem-no, ou do contrário puni-los. Todavia, o pensamento por traz dessa maquiavélica figura é muito mais profundo. Cartman é claramente inspirado em Adolf Hitler, famoso por estar à frente da Alemanha nazista no período da Segunda Guerra Mundial. O criador do desenho animado, por sua vez, incluiu neste personagem específico todos os preconceitos do referido ditador, incluindo seu ódio por Judeus, homossexuais e estrangeiros.

Na foto da esquerda, o professor Garrison com seu fantoche. Na direita, o mesmo professor após sua cirurgia de mudança de sexo, quando passou a ser a Sr.ª Garrison.

Na foto da esquerda, o professor Garrison com seu fantoche. Na direita, o mesmo professor após sua cirurgia de mudança de sexo, quando passou a ser a Sr.ª Garrison.

Nesse caso, é notável o desprezo de Eric pelo seu professor frustrado tanto em sua vida amorosa quanto profissional, e quando ele tem a oportunidade de assumir qualquer forma de poder, seja como monitor de corredor ou suplente em algum cargo escolar, não hesita em usar de sua posição para massacrar seus colegas e em seguida reunir provas fajutas que o inocentem de seus atos. Dado à extrema criatividade com que tais situações são reproduzidas, o telespectador provavelmente ficará mais entretido com o caráter cômico das cenas do que com a possível verdadeira mensagem que está por traz daquilo tudo, ou seja, a fragilidade do sistema educacional norte-americano.

As situações vividas pelos personagens de South Park se encaixam no perfil das escolas brasileiras em muitos aspectos. Em primeiro plano, ali observamos um intricado jogo de personagens vivendo as situações mais impossíveis que alguém conseguiria imaginar, mas que, de certa forma, constituem-se numa dura crítica aos padrões nos quais se assenta a sociedade capitalista, representada pelos Estados Unidos. Em diversas escolas, das quais acredito que as instituições públicas são o maior alvo, notamo-los como o professor, impotente diante de uma turma de desordeiros, sente seu trabalho desvalorizado e, portanto, se desestimula frente à sua posição de quase inércia. É o que acontece com o professor Garrison, que nas primeiras temporadas do desenho animado andava acompanhado de um fantoche, talvez para fazê-lo pensar que sua vida não era tão solitária quanto parecia ser. Na falta de um amigo, ele cria um ser imaginário, ao qual conta todos os seus desejos e segredos mais íntimos, entre eles a sua própria homossexualidade, (que só vai ser exposta pelo mesmo à sociedade da qual faz parte apenas algum tempo depois).

Antes disso, por viver em um estado emocional de tensão, descontava todas as suas frustrações nos alunos em forma de atividades extremamente complicadas, em um prazo de entrega bastante curto. Essa característica do personagem, por sua vez, se altera conforme suas inclinações de humor na vida privada: quando está feliz, distribui notas 10 para todos; porém, do contrário, exerce seu falso poder em sala de aula para se vingar de pessoas que, aparentemente, têm nenhuma relação com seus problemas íntimos. Segundo Jussara Hoffmann,

“… Algumas vezes, ocorre a educadores conscientes do problema [relativo à educação] apontar aos alunos as falhas do processo, criticá-las a contento e profundidade, exercendo, entretanto, em sua sala de aula, uma prática avaliativa improvisada e arbitrária” (HOFFMANN, 2005, pag. 11).

Vai essa autora ainda mais além, e aponta os vários contrastes existentes entre a prática do professor na sala de aula e seu discurso pedagógico. Em vários casos, percebemos que a maioria dos profissionais da educação defendem uma reformulação nas práticas de ensino sem, contudo, deixar de exercer ações que apontam como arcaicas. Tal atitude, por sua vez, é muito bem representada nas cenas vivenciadas pelos estudantes da escola de South Park.

Inspirado em Hitler, o personagem Eric Cartman é o terror da Escola de South Park.

Inspirado em Hitler, o personagem Eric Cartman é o terror da Escola de South Park.

É comum em sala de aula o professor (que não é detentor do conhecimento e sim um mediador do mesmo), utilizar dos meios avaliativos para punir seus alunos, seja por mau comportamento, ou devido a algum problema íntimo deste profissional. Ainda de acordo com Hoffmann, o professor leva para seu ambiente de trabalho muitas de suas experiências pessoais, seja ele enquanto aluno, ou como cidadão da sociedade na qual se insere. Entretanto, “é a partir da análise de situações vividas pelos professores no seu cotidiano, através da expressão e manifestação de suas dúvidas e anseios, que poderemos avalia-los a reconduzir suas ações e compreendê-las numa outra perspectiva” (HOFFMANN, 2005, pag. 16).

Todavia, tal questionamento é raramente efetuado pelo professor (e depois professora) Garrison, que é constantemente desestimulado por sua turma de alunos e se deixa com facilidade levar por atritos envolvendo seres externos ao ambiente escolar. Essa situação, por sua vez, não é tão diversa do âmbito educacional brasileiro. Muito pelo contrário! Constantemente é veiculado pela mídia relatos de alunos insatisfeitos com o ensino empregado por seus professores, e professores decepcionados com a desenvoltura de sua classe. Que a educação brasileira não caminha em trilhos estáveis todos nós sabemos e muitos teóricos já gastaram demasiada tinta e papel para escrever sobre tal assunto. Contudo, como adotar um meio eficaz para, se não erradicar, pelo menos corrigir parte do déficit educacional do país? Essa sem dúvida é causa principal pela qual tantos estudiosos vêm dialogando ao longo de todos esses anos.

Da esquerda para a direita: Kenny McCormick, Eric Cartman, Stan Marsh e Kylie Blofovski.

Da esquerda para a direita: Kenny McCormick, Eric Cartman, Stan Marsh e Kylie Blofovski.

Com efeito, o problema não consiste apenas no profissional desestimulado, mas também naqueles que agem para que tal agente se encontre em tal estado de apatia. Nesse caso, refiro-me primeiramente aos alunos. Em South Park, as crianças Stan Marsh (protagonista do desenho), Eric Cartman (personagem inspirado em Hitler), Kylie Blofovski (membro da comunidade Judaica) e Kenny McCormick (personagem que representa o núcleo social pobre da produção e cujas falas sempre são abafadas pelo seu capuz) vivenciam as situações mais desconcertantes na sala de aula, humilhando constantemente o professor Garrison, ou sendo punidos por este com alguma avaliação severa. Deixando-se de lado o caráter cômico de tais cenas, percebemos que por trás delas ha de fato uma acusação aos padrões de ensino das escolas públicas norte-americanas, sem, porém, oferecer uma saída para a mesma. Em segundo lugar, existem os personagens da Direção da escola, que não possuem também qualquer domínio sobre as crianças, mas que, não obstante, impõem um sistema de ensino arcaico às mesmas.

Essa metodologia de ensino, por sua vez, não é apenas penosa para o professor, mas também para os próprios alunos, que encaram o ir para a escola como uma obrigação imposta pelos seus pais e não como algo prazeroso. Dessa forma, a construção do conhecimento em sala de aula se torna tanto penosa para o profissional da educação, quanto para os próprios estudantes. Para José Eustáquio Romão,

“… debita-se na conta do próprio aluno e de sua família a razão de seus insucessos. Com este mito, a escola exime-se de toda a responsabilidade decorrente de sua natureza institucional. Esconde-se como casa de produção de saber, como espaço de organização da reflexão, que deve levar em consideração e adaptar-se, com seu aparato didático-pedagógico, às características específicas da ‘cultura primeira’ da clientela que recebe, para mostrar sua cara seletiva, discriminatória e de mera verificadora das dificuldades que pessoas oriundas de outro universo têm de se adaptar ao sistema simbólico produzido pelas classes dominantes” (ROMÃO, 2008, pag. 45).

Revela este autor um costume bastante difundido entre a mentalidade das famílias brasileiras, e ratificado por algumas escolas, de que a educação tem que vir exclusivamente de casa. Negando esta teoria, Romão nos mostra que a instituição tem sim um papel fundamental na produção de saberes e, portanto, na qualificação das práticas educativas de determinado aluno.

Trazendo essa perspectiva mais uma vez para o contexto da série, observamos como o professor (e depois professora) Garrison se sente desestimulado pela imposição metodológica exercida pela escola de South Park e seu estado de inércia para com os próprios alunos, cansados daquela prática educativa. Destarte, por acreditar que aqueles estudantes são desordeiros devido à falta de instrução no seio familiar, emprega a avaliação como forma antes de punição e julgamento (ou seja, um acerto de contas), do que como um momento de contemplação dos saberes por parte daquelas crianças. Observando que o sistema é daquele jeito, e que pouco pode fazer para alterá-lo, entrega-se ao mesmo e continua a levar sua vida de desilusões, cumprindo seu trabalho simplesmente como quem segue uma cartilha, pouco se importando com a educação dos alunos. Infelizmente, essa é uma realidade das quais muitas das escolas brasileiras fazem parte e, a meu ver, esta ainda está longe de ser solucionada.

A classe do professor Garrison na Escola de South Park.

A classe do professor Garrison na Escola de South Park.

CONCLUSÃO

Diante do que foi exposto, o que fica evidente até aqui é a forma pouco lisonjeira com a qual os papeis do aluno e do professor são representados em produções destinadas a extrair o riso de uma plateia acomodada a apenas criticar os padrões de ensino das escolas, sem, contudo, demonstrar preocupação em participar ativamente em algum projeto destinado ao melhoramento das mesmas. Não usei aqui a palavra reparação, uma vez que reparar algo significa que antes estava funcionando, mas agora não mais. Longe disso! Penso que o ensino no Brasil apresenta falhas que remontam a um passado muito mais longínquo e que, com o avançar dos anos, apenas foi camuflando uma deficiência que ao todo nunca deixou de existir.

Julia Roberts como a professora revolucionária de "O Sorriso de Monalisa" (2002).

Julia Roberts como a professora revolucionária de “O Sorriso de Monalisa” (2002).

O que se nota, pois, é também uma falta de valorização para com o trabalho do professor, que constantemente se sente frustrado pela instituição escolar, como também pelos próprios alunos. No começo deste texto, fiz uma rápida referência ao filme O Sorriso de Monalisa (2002), onde essas características que acabo de citar são amplamente evidenciadas. Ali vemos uma educadora (Julia Roberts) tentando se adaptar às regras da escola e aos preconceitos de suas alunas, mas que no final, consegue desenvolver uma metodologia própria que desperte aquelas mulheres da ignorância em que viviam, abrindo os olhos das mesmas para uma série de coisas que até então ignoravam. Sem dúvida penso que esse seria um exemplo de atitude mais que elementar para todo profissional da área de educação. Contudo, o próprio meio não oferece subsídios para que se exerçam tais práticas.

Reinventar-se e descobrir novas formas de produzir o conhecimento é de extrema necessidade, principalmente quando se está lidando com uma massa de crianças e de jovens cada vez mais influenciados pelo excesso de informação e tecnologia que este século disponibiliza. Entretanto, é ainda mais necessário que a própria instituição escolar dê mais autonomia para a classe de professores, afinal, é por meio deles que se farão os futuros profissionais de uma sociedade ao mesmo tempo em que inflamada pelo furor dos tempos modernos, mas também carente de assistência adequada. Dessa forma, talvez se possa exercer a partir disso uma relação saudável entre o fazer pedagógico e a construção do conhecimento, fundamentais para a constituição de qualquer indivíduo, em qualquer estágio de sua vida.

Referências Bibliográficas:

BURKE, Peter. O que é História Cultural? – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2008.

HOFFMANN, Jussara Maria Lerch. Avaliação: mito e desafio: uma perspectiva construtivista. – Porto Alegre: Mediação, 2005, 35ª ed. revista. 104p.

INTERNET. Tudo sobre o desenho animado South Park. – Disponível em: http://www.southpark.com.br. Último acesso em 04 de Julho de 2013.

ROMÃO, José Eustáquio. Avaliação dialógica: desafios e perspectivas. – 7ª ed. – São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, 2008 – (Guia da Escola Cidadã; v. 2).

SOLOMON, Jay. Not a Defense of South Park: The Way that Television’s Most Innovative and Sensational Show is so Much Better than Everything Else out There. – Disponível em: http://www.thezenofsouthpark.com/In_Defense_of_South_Park_files/Essay%20-%20In%20Defense%20of%20South%20Park.pdf. Último acesso em 04 de Julho de 2013.

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