Juana La Loca, de amor!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A História de Juana I de Castela já foi contada por vários romancistas ao longo desses anos, e na maioria das obras ela é tratada como uma mulher extremamente ciumenta e derretida de ardor e desejo sexual pelo marido. Com a intervenção do cinema, pudemos ver essas referidas obras serem adaptadas para as telas, com uma produção que, em suma, tenta se reaproximar da época à qual a narrativa se passa. É desse processo que a figura de uma rainha, erroneamente rotulada de louca (alguns dizem), é trazida para os dias atuais repleta de simbolismos pertinentes à idade contemporânea. Foi com base nessa temática que, em 2001, o diretor Vicente Aranda resolveu trazer para as telas a vida desse personagem pitoresco, só que incrementada de alguns eventos e personalidades que não constam nos registros históricos. Todavia, longe de denegrir a imagem da rainha Juana com mais uma produção sobre sua suposta loucura, o filme de Aranda esclarece alguns pontos especialmente interessantes da política da época e traz, à luz dos tempos modernos, uma nova reflexão sobre a trajetória daquela mulher, cujo nome é mais lembrado pela enfermidade mental com que foi diagnosticada, do que pelas suas atitudes como princesa e herdeira do império dos reis católicos.

Juana La Loca

Juana La Loca

Ambientado em 1554, Juana La Loca (produção espanhola lançada em 2001 e distribuída pela Warner e Sony Pictures Classics), é narrado a partir do cárcere da rainha em Tordesilhas, com ela já velha e esperando impaciente que a morte a leve de volta para seu finado marido. Peculiar nessa introdução é a afirmação feita pelo narrador onipresente, de que aquela senhora se encontrava em clausura devido ao fato de ter sido traída sucessivamente pelo cônjuge, pelo pai, e depois pelo próprio filho. A partir dessa afirmação, por sua vez, o telespectador já pode ter uma ideia de como a figura de Juana pretende ser abordada pelo filme: a de uma mulher que foi injustiçada. Em seguida, aquela velha soberana que mal se aguentava nas pernas se senta, olha para o retrato do esposo quando jovem, e começa a se lembrar de outro tempo, quando era moça e cheia de energia… Desde já, a trama retrocede em 58 anos, quando aquela senhora, então com idade de 16, mirava o mesmo retrato, de seu futuro consorte. Quem interpreta a rainha Juana em sua juventude é Pilar López de Ayala (vencedora do prêmio Goya de melhor atriz por este papel). De pele pálida e cabelos negros, o físico da atriz reúne todas as características das heroínas dos romances da era vitoriana, e não os traços corporais pertencentes à verdadeira infanta.

Não obstante, observamos como o olhar moderno encara os povos espanhóis: sempre com feições morenas, derivadas da mistura entre as várias etnias que coabitavam na península balcânica nos tempos de Fernando e Isabel. Mas como toda e qualquer produção artística reflete as particularidades do tempo em que foi criada e de quem as concebeu, então é possível compreender o porquê de vermos ali uma adolescente de negra cabeleira, e não uma moça loira e de pele leitosa. O filme, podemos assim referir-nos, se trata então da adaptação de uma tragédia de amor real, mas com retoques próprios a uma literatura de romance. Destarte, a jovem infanta, no momento em que aparece, estava se dirigindo com numerosa comitiva rumo às parias de Laredo, a partir de onde faria uma viagem marítima que a levaria para a corte de Borgonha e ao futuro marido. Nesse aspecto, notamos como o destino de uma princesa de sangue real não estava condicionado à vontade da mesma, e sim à de seus pais e soberanos.

De Cabelos negros e pele alva, Pilar López de Ayala lembra mais as heroínas dos romances da Era Vitoriana, do que a rainha Juana I de Castela.

De Cabelos negros e pele alva, Pilar López de Ayala lembra mais as heroínas dos romances da Era Vitoriana, do que a rainha Juana I de Castela.

Quem estava por trás dessa união matrimonial era ninguém menos que a Grande Isabel de Castela, uma das figuras que, mesmo aparecendo em poucos minutos da trama, nem por isso deixa de ser um personagem forte e cheio de magnetismo e respeito. Coube a Susi Sánchez trazer para as telas esse ímpeto de coragem e feminilidade concentrada na figura de uma única mulher. Seus diálogos são rápidos, mas repletos de referências ao papel que Juana deveria desempenhar em seu novo lar, devendo sempre prestar obediência ao marido, e se esforçar para amá-lo, a fim de garantir a perpetuidade da aliança politica que aquele casamento representava. Outro aspecto bastante estudado pela produção é fato de muitos dos castelhanos que viveram sob os auspícios do período Isabelino, acreditarem que a vontade de sua soberana era a mesma da de Deus. Com efeito, vemos o personagem de Isabel se utilizar dessa prerrogativa para mandar a filha a terras estrangeiras, justificando assim suas decisões.

Com a rainha Isabel estavam presentes todos os seus outros filhos, para se despedirem da irmã, incluindo um robusto cavaleiro, apaixonado pela viajante. Não é impossível dizer se a verdadeira Juana manteve algum tipo de flerte com algum fidalgo antes de se casar com Felipe. Porém, já que é uma trama com elementos da escrita romanesca, cabe ressaltar que um pouco de paixão juvenil nunca é demais quando se está querendo levar para o público consumidor de filmes a imagem de uma jovem, a princípio, doce e carinhosa. O cavaleiro, por sua vez, era Álvaro de Estúñiga (Eloy Azorín), que teria importância muito mais significativa nos momentos de clímax da trama. Uma vez que prosseguira viagem e chegara com seguridade à Lille, procede-se o encontro dos noivos. Tal como na história original, vemos Felipe, um homem cheio de desejo sexual, apressar-se para compartilhar o mesmo leito que a futura esposa antes mesmo das bodas oficiais. Ele pede então a benção do padre e concretiza de uma vez por todas aquela união. Juana, agora, não seria amis abordada como uma garota, mas sim como uma mulher, e uma mulher tremendamente enamorada.

Cena do primeiro encontro da infanta Juana com Felipe o Belo, interpretado pelo italiano Daniele Liotti.

Cena do primeiro encontro da infanta Juana com Felipe o Belo, interpretado pelo italiano Daniele Liotti.

Na pele de Felipe El Hermoso (o Belo), temos Daniele Liotti, um ator italiano em seu primeiro papel no cinema. Conseguira desenvolver muito bem o personagem do arquiduque namorador e ambicioso, diga-se de passagem. Entretanto, ao lado de Pilar López e sua eloquente interpretação, Liotti fica quase inferiorizado. São praticamente de prender os olhos do telespectador as cenas em que a arquiduquesa (e agora herdeira da coroa da rainha Isabel) surta ao descobrir que estava sendo traída pelo marido. É com espanto, e ao mesmo tempo admiração, que vemos aquela mulher histérica correr para a chuva gritando desesperada de dor pela morte da mãe e pela infidelidade do esposo, ou derrubando todos os pratos e talheres da mesa para chamar a atenção do homem por quem ela dizia estar “louca, mas de amor”. Em fato, aquele comportamento ciumento que Juana passou a nutrir por Felipe aumentara depois que ela descobriu que supostamente uma das aias de seu séquito era amante do arquiduque. A punição para a meretriz foi ter todos os seus lindos cabelos ruivos tosados. É curiosa essa cena no filme, pois o mesmo se sucedeu com a verdadeira rainha. Era por meio de atitudes como essa que a fama de insana de Juana só fazia crescer.

Cena em que a arquiduquesa Juana se prepara para cortar os cabelos da suposta amante de seu marido (do lado esquerdo de Pilar López de Ayala está Rosana Pastor - de preto - que interpretou Doña Elvira).

Cena em que a arquiduquesa Juana se prepara para cortar os cabelos da suposta amante de seu marido (do lado esquerdo de Pilar López de Ayala está Rosana Pastor – de preto – que interpretou Doña Elvira).

Não fosse a moderação e controle de Doña Elvira (Rosana Pastor), e talvez a herdeira de Castela cometesse delitos muito mais graves. Todavia, todas as discussões entre Juana e Felipe terminavam em sexo. Esse apelo ao erotismo está contido em quase todas as partes do longa-metragem, desde as primeiras noites do casal em Bruxelas, até a dança sensual e sexual da moura Aixa (Manuela Arcuri), que aparece a partir da segunda metade do filme, quando os arquiduques da Áustria vão assumir seu trono em Burgos. Esse personagem provavelmente fora acrescentado pelo roteirista Antonio Larreta como uma forma de representar a figura dos mouros do período Isabelino. Todavia, a personagem de Aixa mais se assemelha a de uma feiticeira, que para conseguir o que deseja, se entrega a práticas satânicas. Nesse caso, fizera uma promessa a Satanás para conseguir o amor e a proteção de Felipe, agora rei consorte de Castela. Isso, por sua vez, acaba transparecendo ao indivíduo que assiste a esta obra cinematográfica, uma visão equivocada da cultura mourisca, que originalmente não adorava nem o Deus, ou muito menos aos diabos do cristianismo, até sua conversão ao catolicismo imposto pelos reis católicos. Por falar nos pais de Juana, poderia deixar praticamente de lado o personagem de Fernando de Aragão, já que ele pouco aparece no filme. Mas, como se trata de um elemento chave na vida de Juana, então se faz necessário ressaltar que mesmo o próprio pai, em acordo com o genro, pretendia taxar a filha de louca, e dessa forma traí-la.

Porém, insana era uma coisa que aquela mulher ciumenta realmente não era! Enquanto Felipe estava disposto a tomar-lhe o trono, com o apoio tanto de castelhanos como de borgonheses (a exemplo do Señor de Veyre – interpretado por Giuliano Gemma), Juana irrompe pela sala do conselho, toda vestida em trajes deslumbrantes, para reclamar seu direito à coroa. Com efeito, o figurino segue à risca a moda da época. Observamos uma maravilhosa recriação dos trajes da protagonista com base nos quadros pintados da real Juana I de Castela, incluindo seu manto bordado de acordo com seu brasão, ou seu capelo. As roupas masculinas, por sua vez, também não são desmerecedoras de crédito. Todos esses aspectos, juntamente com as cenas rodadas em castelos tanto de Bruxelas, quanto da cidade Burgos, permitem criar um perfeito quadro vivo da Espanha de início do século XVI. Sem dúvida, o figurino teve uma força impactante na cena em que a rainha enfrenta seu marido e contesta o diagnóstico dos médicos de que estava louca. “Que queres Felipe? Às vezes, os loucos é que abundam em Burgos. Senhores que vão com Deus, por que a Rainha Louca os saúda”, disse a irreverente mulher antes de se atirar para os braços de seu povo, em uma das cenas que mais notamos o apelo à força feminina em meio a uma sociedade feita pela política dos homens.

Cena em que Juana I de Castela, rodeada pelos súditos em Burgos, afronta o marido e os conselheiros deste.

Cena em que Juana I de Castela, rodeada pelos súditos em Burgos, afronta o marido e os conselheiros deste.

Entretanto, mesmo com os protestos de Álvaro (seu amor de outrora), ou de seus demais seguidores, Juana não pretendia isolar seu marido. Mas aqui o destino agira contra Felipe, ao trazer-lhe uma febre da qual não poderia curar-se. Em seu desespero, a esposa mais uma vez grita e sofre pelo amado, com medo de perdê-lo. É no clímax do longa-metragem, que Vicente Aranda (diretor do filme) resolve dotar a figura do arquiduque Felipe de arrependimento, quando este pede perdão à esposa no próprio leito de morte. Com 115 minutos de duração, Juana La Loca surpreende do início ao fim! Apesar de se tratar de um filme repleto de elementos da escrita romanesca, é um prato cheio para o telespectador que quer assistir a um longa-metragem do gênero drama-histórico, que não necessariamente tem um desfecho feliz, mas por vários aspectos, triste. Ao passo em que deseja descontruir a imagem de insanidade da primeira rainha de Espanha, por outro lado alimenta o ramo das interpretações de que era uma mulher histérica e tremendamente apaixonada. Personagem esse que passa o resto de seus anos recluída em uma fortaleza escura, velando o cadáver do marido morto. 58 anos depois, já velha e cansada da vida, poderia um dia esquecer o nome do amado, “mas nunca o abraço que a fazia gemer de prazer”.

Confira abaixo o trailer de Juana La Loca (2001):

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

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11 comentários sobre “Juana La Loca, de amor!

  1. Baixei esse filme depois ds artigos de Juana I de Castela (que foram ótimos, não conhecia muita coisa sobre ela), porém ainda não assisti. Depois dessa resenha, fiquei com mais vontade ainda, devo assistir no final de semana

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    • Olá, Juliana. Tente procurar no google por “Download Juana La Loca 2001”. Vão aparecer várias páginas contendo link, então você procura entre elas qual a melhor para baixar. A Legenda, provavelmente, você só irá encontrar separada! 😀

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