A “loucura” de D. Juana I de Castela – Parte II

Parte II – Juana, a relegada esposa de Felipe, “o Belo”.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Apesar da comitiva numerosa que acompanhou a infanta Juana à corte de Bruxelas, o tempo se mostrou desfavorável à partida marítima. Contudo, após chegar a Middelburg (Zelândia), a noiva, além de ter perdido uma embarcação que continha suas roupas e joias, não fora honrada com a recepção do futuro marido, que então se encontrava na Alemanha. Em fato, a corte borgonhesa era contra a política de união entre a casa dos Habsburgo com os Trastâmara espanhóis. Todavia, não se pode dizer que o arquiduque Felipe pudesse estar desconfortável com a ideia de casar-se com aquela jovem. Segundo cronistas contemporâneos, Juana era a mais bela das filhas dos reis católicos: possuía belos olhos verdes e rasgados, um rosto redondo e cordado por maçãs rosadas, cabelos louros avermelhados e uma tez pálida. Uma análise desse conjunto de características, tão bem representadas nos quadros de Juana que a retratam na época do noivado, permitem concluir que ela era uma beldade e que possuía todos os pontos físicos que eram valorizados pela estética de beleza feminina no período renascentista. A reação favorável de Felipe quanto aos dotes de sua esposa pode ser comprovada pelos relatos deixados do primeiro encontro dos dois, em Lille.

Segundo se conta o arquiduque subitamente sentiu uma inflamadora paixão ao ver pela primeira vez a futura consorte. Com Juana, não fora diferente. Afinal, Felipe era possuidor de uma excelente compleição física, fazendo-o com que fosse conhecido pela alcunha de“o Belo”. A boda oficial entre os noivos estava marcada para 21 de Outubro de 1496, porém o fogoso rapaz sentira necessidade de consumar a união naquele mesmo instante, e mandou com que um capelão fosse chamado às pressas para realizar a bênção. Segundo Matilla,

“O que ocorreu verdadeiramente nesse primeiro encontro, o que motivou verdadeiramente essa atitude de Felipe, é um enigma, pois não há documentos que o expliquem. Pode haver considerações de índole pessoal, mas também podem existir de índole política” (Matilla, pag. 16).¹

Juana I de Castela, por Master of the Legend of Mary Magdalene.

Juana I de Castela, por Master of the Legend of Mary Magdalene.

Seguindo a linha de raciocínio dessa autora, o arquiduque Felipe era um homem sedutor, cujos extintos carnais eram bastantemente aflorados. Todavia, a consumação imediata selaria de uma vez por todas o contrato de casamento, fazendo com que a cerimônia oficial realizada em Flandres ganhasse apenas uma função protocolar. Quanto à frota que acompanhara Juana da Espanha até os países baixos austríacos, esta fora dizimada pelo frio e falta de hospitalidade por parte da corte, que não se ocupou com a manutenção da mesma. A agora arquiduquesa, por sua vez, carecia de meios econômicos para fazê-lo.

Isso revela, mais uma vez, hostilidade dos borgonheses quanto à união com os espanhóis, que logo seria sentida pela jovem. Como não recebera dote pela noiva, Felipe a privou do comando das funções de sua casa, tarefa essa a que Juana fora preparada desde criança. Não obstante, o clima daquela corte era totalmente diferente da de Espanha, que era estritamente voltada para uma conduta de recato religioso. Em Bruxelas se valorizava o luxo, requinte nas vestes, boa comida, música e dança. Era o verdadeiro cenário de um ambiente da renascença. Como forma de garantir que sua esposa não interferisse no comando da residência, o arquiduque Felipe vetou a pensão que por contrato ela tinha que receber, e colocou gente de sua própria confiança para gerir a ordem na corte. Desse modo, Juana ficava cada vez mais isolada em uma terra de pessoas hostis. Nesse aspecto, podemos notar uma séria presença dos conselheiros do rapaz no que dizia respeito à sua mulher castelhana. Uma vez que suas atitudes politicas eram pró-francesas, temiam que aquela mulher valorizasse os interesses dos pais em detrimento dos do marido. Sendo assim, logo trataram de influenciar o arquiduque contra as possíveis pretensões da esposa.

Felipe "o Belo", em 1500, por artista desconhecido.

Felipe “o Belo”, em 1500, por artista desconhecido.

Essa atitude de Felipe para com a Juana não teve boas repercussões em Castela, onde a Rainha Isabel censurou por carta o seu genro, impelindo-o a deixar com que a filha assumisse as verdadeiras funções de uma consorte real. Curiosamente, a História não dispõe de qualquer registro pessoal da própria arquiduquesa sobre a conduta que seu marido lhe impunha. No entanto, não sabemos se Felipe adotou as recomendações da sogra. Preocupada, em 1598 a soberana de Castela enviou Frei Tomás Mantienzo a Flandres, para que este a informasse sobre o que se passava com Juana através de cartas. Embora aparentemente sobre temas privados, essa conversação demonstra com clareza como Juana era incapaz de preservar os interesses da Rainha Isabel em Flandres. Na época em que o clérigo chegou à corte borgonhesa, a jovem arquiduquesa estava grávida de seu primeiro filho, o que, por sua vez, pode ter constituído num elemento de reaproximação de Felipe com a esposa. Entretanto, o fato de a criança que Juana carregava no ventre ter sido uma menina (nascida em 24 de novembro e batizada de Eleonor), não diminuiu os interesses do arquiduque por Juana.

Todavia, a atitude dele pode ser perfeitamente explicável pelo fato de que um ano antes, Juan, herdeiro das coroas de Espanha, havia falecido. Pouco tempo depois, era a vez de Isabel, primogênita dos reis católicos, partir desse mundo, deixando assim sua irmã mais próxima do trono. Desse modo, é possível presumir que essa reaproximação de Felipe pela consorte estivesse carregada de interesses políticos. Como herança materna, o arquiduque passara a concentrar em si uma série de possessões e títulos². Como futuro Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, se Felipe conquistasse também a coroa de Espanha (além do fato de ter pretensões ao solo francês), isso o tornaria no homem mais poderoso de seu tempo. A prova de que seus interesses para coma mulher eram mais políticos do que amorosos, provém da própria conduta pessoal que ele adotara. Não tardou muito, e Juana começou a descobrir as aventuras extraconjugais do esposo. Matilla ainda explica que,

“Enquanto Juana proclamava o luto em sua casa pela morte de seu irmão, segundo os documentos, Felipe de autoproclamou Príncipe das Astúrias e buscou o apoio de França para reclamar seus direitos como herdeiro dos reinos espanhóis. Nesse período se evidenciou ainda mais a ausência da influência de Juana sobre seu marido e sua posição de debilidade política” (MATILLA, pag. 18).³

Mais uma vez, Felipe deixa transparecer aqui seus anseios. Em 1500, aquando da morte do Príncipe Miguel, filho de D. Isabel (irmã de Juana) e de D. Manuel I de Portugal, Juana se tornava a legítima herdeira de seus pais (no ano da morte do principezinho a arquiduquesa daria à luz àquele que com os anos seria o Imperador Carlos V de Alemanha e I de Espanha).

Juana I de castela, com seus filhos, por Nicolaus Alexander Mair von Landshut.

Juana I de castela, com seus filhos, por Nicolaus Alexander Mair von Landshut.

Felipe, por sua vez, queria viajar sozinho para Castela, e lá ser proclamado Príncipe das Astúrias. Porém, nesse aspecto, não contaria com a aquiescência da mulher.  Há algum tempo, Juana vinha empreendendo uma verdadeira luta contra as amantes de Felipe, da mesma forma como Isabel de Castela fez com as concubinas de Fernando. Mas enquanto sua mãe se contentava em mandar as rivais para longe, Juana atacava abertamente as amadas do esposo, demonstrando assim uma descompostura e comportamento histérico que pouco tempo depois seria usado contra ela. Em 1502, os arquiduques da Áustria viajaram para a Espanha para ali serem proclamados herdeiros da coroa. Porém, Felipe alegou que precisava resolver assuntos em Flandres, e partiu, deixando Juana, que estava grávida, aos cuidados de Isabel. Com a filha em sua tutela, a Rainha de Castela tratou de tentar influenciá-la a tomar maior gosto pelos assuntos estatais, e a não se deixar manipular pelas pretensões do esposo, uma vez que seriam especialmente danosas para os espanhóis em vista das tendências pró-francesas da corte de Borgonha. Todavia, Juana estava desesperada para se juntar a Felipe, e começou a ter sérios entraves com a própria mãe. Em seu desespero, Isabel enviou uma carta ao genro na qual dava conta do estado mental da filha, decorrente do amor e obsessão que ela nutria por ele. Não demorou muito, e logo toda a Europa saberia que a herdeira dos reis Católicos estava ficando louca.

Notas:

¹Traduzido do espanhol pelo autor.

²Felipe, O Belo, possuía os títulos de Arquiduque da Áustria, duque de Borgonha, Luxembrugo, Limburgo e Brabante, além de ser conde de Habsburgo, Flandres, Artois, Hainaut, Holanda, Tirol e Zelândia.

³Traduzido do espanhol pelo autor.

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Um comentário sobre “A “loucura” de D. Juana I de Castela – Parte II

  1. Na geração anterior uma outra Joana foi desapossada do trono para que este fosse ocupado por Isabel-a-Católica. Era filha de Henrique II de Castela (?) e de uma outra Dª Joana, filha de Duarte de Portugal (irmão do Infante D. Henrique). A sua paternidade foi posta em dúvida e chamaram-lhe «A Beltraneja» por alegadamente ser filha de D. Beltran de La Cueva. O rei de Portugal D. Afonso V, seu primo, planeou casar com ela e, defendendo os seus direitos, ser coroado também rei de Castela, mas foi derrotado na batalha de Toro. Refugiada em Portugal viveu uma longa vida de 68 anos onde os documentos da época a tratam por «Excelente Senhora».
    In Dicionário de História de Portugal, Dirigido por Joel Serrão, artigo «Beltraneja» da autoria de Joaquim Veríssimo Serrão.

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