Bette Davis como A rainha Tirana, no filme “The Virgin Queen” (1955)

Diretamente do circuito das mais nobres estrelas da Broadway e Hollywood, eis que surge no papel da monarca com a qual compartilha o mesmo nome, a graciosa Elizabeth (Bette) Davis. Atriz essa que definiu uma geração de artistas e cuja morte, em 1989, não fez mais que aumentar a sua lenda, transcendendo às gerações futuras lembrada pela frase gravada em seu túmulo: She did it the hard way (ela fez isso da maneira mais difícil). E foi assim, sem quaisquer deméritos, que essa magnífica performer, portando-se de maneira inigualável, mostrou como uma rainha luta para conciliar sua vida pública com a privada sem perder a compostura, dando assim ainda mais brilho à memória da filha de Henrique VIII e Ana Bolena. No entanto, divergindo ao seu desempenho, faz-se notável um filme de enredo bastante equivocado e atemporal, responsável por ludibriar o espectador acerca da história factual.

Capa do filme "A Rainha Tirana" (The Virgin Queen - 1955).

Capa do filme “A Rainha Tirana” (The Virgin Queen – 1955).

The Virgin Queen (no Brasil “A Rainha Tirana”) tem como foco a relação nada comum entre Elizabeth I de Inglaterra e Walter Raleigh, futuro corsário sagrado cavaleiro por Sua Majestade após reclamar em nome do reino nórdico sua primeira colônia no novo mundo. Porém, a referida narrativa afigura-se antes que tais honrarias pudessem ser concedidas, quando o dito rapaz nada mais era que um simplório soldado recém vindo do combate contra os irlandeses com um sonho de compartilhar seus planos e aspirações à coroa. Para tanto, tem a felicidade de encontrar no Conde de Leicester um de seus maiores aliados. Este último o leva à corte, instalada no palácio de Whitehall, para uma audiência com a soberana. È onde, coincidentemente, conhece uma de suas damas de honra, Beth Throckmorton, por quem se apaixona.

Todavia, o que Walter não podia esperar é que Elizabeth, quase que instantaneamente, interessar-se-ia por sua pessoa a ponto de nomear-lhe capitão da guarda pessoal. A partir desse momento, toda a nobreza voltaria olhos e comentário para o soldado em ascensão, desejando depressa ver a queda do mesmo. Declínio esse que seria necessário de muito esforço para se conseguir, pois nem falsas acusações ou desvelamento de atitudes contraditórias fizeram com que a rainha desistisse do seu mais novo favorito. Mas o passo mal dado logo seria alcançado: Raleigh e Beth contraíram matrimônio e consumaram a união. Um erro irrepreensível, visto que Throckmorton era protegida da rainha e não poderia casar-se hostil ao consentimento real. Quando Sir Christopher fez chegar ao ouvido da soberana o indevido ocorrido, o cerco estava armado.

Bette Davis como Elizabeth I.

Bette Davis como Elizabeth I.

Como punição, Elizabeth confiscou todos os bens de Walter, que incluíam o navio a pouco lhe dado de presente e ordenou a prisão do traidor e da “meretriz” que ousara violar o código de conduta esperado das damas. A condenação à morte viera em seguida, porém impossível de ser realizada de acordo com uma lei que impedia a execução de mulheres grávidas e para a infelicidade da rainha era esse o estado em que Beth se encontrava. Só após muito lutar contra suas convicções, revogou sua decisão, pois não desejava separar uma criança da mãe pela força do machado, da mesma forma que acontecera com ela. Raleigh foi então perdoado e enviando em missão ao novo mundo para trazer todas as riquezas que prometera, levando consigo sua mulher e deixando na Inglaterra uma Elizabeth apaixonada e chorosa.

Após do término do longa-metragem, permanecem na cabeça do telespectador alguns erros de precisão histórica que merecem aqui serem enfatizados, como, por exemplo: Walter Raleigh não conheceu Beth Throckmorton antes de sua viajem ao novo mundo, mas depois, quando retornou ao reino; Elizabeth não o nomeou capitão da guarda pessoal no mesmo dia em que foram apresentados; a relação do corsário com a rainha é dotada de tantos conflitos que em muito divergem do comportamento cortês trocados por ambos na realidade, com Walter falando em tom grave com Elizabeth e deixando de lhe fazer e devida reverência; Beth não foi aprisionada e sentenciada à morte pela rainha após ter seu caso com o capitão descoberto, mas foi afastada da corte; Walter também não foi condenado a desfalecer pelo machado do carrasco devido ao seu casamento inaceitável, sendo apenas aprisionado na Torre conforme mostra o filme; Raleigh não levou Beth para o novo mundo, pois além deles não terem se conhecido até então, ela estava grávida e mulheres não eram admitidas nos navios.

Em cena Richard Todd, como Sir Walter Raleigh, e Bette Davis como Elizabeth I.

Em cena Richard Todd, como Sir Walter Raleigh, e Bette Davis como Elizabeth I.

Entretanto, mais grave que todos os equívocos acima citados está a própria caracterização da rainha Elizabeth I. Na cena em que Beth entra no leito real para implorar à soberana pela vida de seu marido, esta lhe revela uma série de segredos conhecidos apenas por ela e seus médicos: ela era careca. Quando tinha 28 anos uma febre fez cair seus cabelos e aos 18 foi predito que jamais poderia dar à luz. É certo que a rainha usava perucas, mas o fazia para esconder seus cabelos brancos e nunca foi constatado que era estéril, pois foi de espontânea vontade que escolhera o celibato. A maior doença sofrida pela mesma de que se tem registro foi a varíola, que marcou seu rosto e forçou-a a esconder as manchas com maquiagem intensa. Quanto à escolha de Bette Davis, mesmo sendo uma excelente atriz, fisicamente ela não atende aos pré-requisitos do papel: seu rosto é redondo, enquanto que o de Elizabeth era comprido; é demasiado baixa (1,60 m), menor até que as damas de companhia, em comparação com o modelo original de mais de 1,80 m de altura. Mas é justamente a sua atuação que a faz distinguir-se de outras, mostrando o caráter autoritário da monarca, sua compaixão e esperança de um futuro dourado para o país.

Não obstante ao magnífico desempenho de Bette Davis, estão os outros atores que compõem o elenco do filme: na pele de Walter Raleigh está Richard Todd, que muito habilmente conseguiu agir conforme um capitão o faria e lutar tão bem quanto um soldado que maneja a espada para defender sua honra; Como Beth Throckmorton tem-se a belíssima Joan Collins com suas atitudes mesquinhas e apaixonadas. Afora o trio principal nota-se tantos outros que só fizeram contribuir para salvar um filme que desde o início se apresenta desleal à verdade. É o caso de Herbert Marshall, que interpretou o antigo amor da rainha, conde de Leicester; Dan O’Herlihy, encarregado de trazer a tona a força da amizade de seu personagem, o irlandês Lord Derry, com Walter; e Robert Douglas, que intensificou a veia conspiratória e invejosa de Sir Christopher Hatton. Os demais também conseguiram desenvolver com excelência seus respectivos papéis, porém é preciso ressaltar a teatralidade das encenações devido à época em que o filme foi feito (1955), que acabaram por intensificar o dramatismo das cenas

Joan Collins, como Beth Throckmorton.

Joan Collins, como Beth Throckmorton.

No quesito figurino, o grande destaque dessa vez não fica para os vestidos das ladys da corte, mas para as roupas masculinas, que encontra em Walter Raleigh sua mais fida e digna representação: botas de cano longo, calças estilo “fofolete” e camisas que estufam o peitoral, dando a quem as usa um ar mais imperativo. Por sua vez, os trajes das damas fogem ao ideal de recato esperado, pois lhes desenhavam a curva dos seios. Só são fieis quanto ao volume das saias e às golas altas de estilo espanhol. A maior exceção são as roupas de Elizabeth. Nesse ponto os figurinistas Charles Le Maire e Mary Wills, foram bastante competentes, uma vez que tais vestes continham os vários colares de pérolas usados pela rainha Bess, os leques de pena, as mangas estufadas que escondiam o formato dos braços, os inúmeros babados e as perucas de cabelos ruivos encaracolados. Todas essas peças fizeram com que o longa-metragem concorresse à categoria de melhor figurino no Oscar, mas sem lograr êxito.

No mais, é preciso citar aqui os muitos fatos interessantes que cercam o filme, destacando-se a política casamentista entre Elizabeth e Catarina de Médicis, que almejava a união da soberana inglesa com seu filho, o Duque de Alençon. O interessante é que nunca foi do interesse da rainha casar-se com um rapaz muito mais novo que ela e para tanto soube muito bem ludibriar os interesses franceses por tempo suficiente, pois segundo Catherine Bush “a Inglaterra precisava da aliança com a França, principalmente por causa do poderio da Espanha”. Outra cena que não passa despercebida é aquela em que Walter retira sua capa e estende-a em cima de uma poça para que Elizabeth atravesse. Mesmo tal ocorrido não tendo sido capaz de ter acontecido, ele já foi visto em outro filme muito mais moderno e mais conhecido pela juventude atual, “Elizabeth – The Golden Age”. Peculiar também foi o momento ao qual Beth e Raleigh se casam em uma cerimônia simples, sem padre e com apenas duas pessoas para testemunhar o pronunciamento dos votos de fidelidade (o mais legal é que essa era uma prática comum no reinado de Maria I). Essa é a segunda vez que Bette Davis interpreta Elizabeth. A primeira delas foi em 1939 no clássico “The Private Lives of Elizabeth and Essex”, no Brasil “Meu reino por amor”.

Elizabeth I (Bette Davis) e sua damas em cena de The Virgin Queen.

Elizabeth I (Bette Davis) e sua damas em cena de The Virgin Queen.

Diante do exposto, pode-se concluir que The Virgin Queen, apesar de conter inúmeros erros de historicidade, apresentar uma filmagem cansativa e atuações que beiram a nostalgia devido à sua teatralidade, é um filme que merece atenção. Entre outros aspectos, principalmente por trazer uma atriz tão grande como Bette Davis novamente no papel de uma rainha considerada como a maior dentre todos os que governaram aquelas terras. A recriação dos cenários, que remontam a Inglaterra do século XVI, também ficou ótima, desde as estradas e tabernas, até as ruelas de Londres e os luxuosos palácios com suas passagens secretas. Além disso, faz perfeita referência aos modos e intrigas da corte, sempre ávida por fofocas e temerosa da cólera real. Mas acima de tudo, um filme indispensável para todos aqueles insaciáveis de descobrir como era viver em um mundo onde a fraternidade era ponderada, a liberdade era limitada e a igualdade não existia.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

Confira o Trailer de The Virgin Queen (1955):

Texto publicado originalmente em: O Diário de Ana Bolena

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