Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte V.II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte V.II – Anna Regina.

Retrato póstumo de Ana Bolena, por Frans Porbus.

Retrato póstumo de Ana Bolena, por Frans Porbus.

O nascimento de uma princesa deixara a posição de Ana Bolena bastante enfraquecida. Agora seus inimigos sentiam-se mais uma vez livres para agirem contra ela, implicando-lhe toda sorte de apelidos que logo se espalharam por toda parte do continente europeu, como “putain”, rameira do rei, prostituta de olhos esbugalhados (em alusão aos grandes olhos negros e brilhantes dela), corvo negro, feiticeira, etc. A menos que produzisse um herdeiro varão para a coroa, sua situação permaneceria em inércia. Três meses depois de seu nascimento, a pequena Elizabeth fora enviada para Hatfield House, onde constituiria sua própria morada, assim como fizeram outros bebês de sangue real antes dela. Destarte, aquela linda garotinha contaria com uma criada especial em seu séquito: a filha de Catarina de Aragão, Maria. Como o casamento de seus pais tinha sido declarado inválido pela corte eclesiástica da Inglaterra, Maria Tudor perdera seu status de princesa e fora considerada uma bastarda, sendo cumprimentada por todos como “Lady Mary”.

Princesa Maria, por Lucas Horenbolt.

Princesa Maria, por Lucas Horenbolt.

Segundo a crendice popular, que inclusive foi endossada por muitos biógrafos e escritores do período, Ana fora a responsável pela humilhação infligida à outrora princesa de Gales e que teria planejando uma grande vingança contra ela e a mãe da mesma. Todavia, as demais cortes européias contestavam a legitimidade de Elizabeth. O embaixador imperial Chapuys se referia a ela ao seu senhor como a “pequena bastarda”. Era então preciso tomar medidas eficazes, e o rei não tardou em providenciá-las. Fora aprovada pelo parlamento uma lei pela qual todos os herdeiros advindos do segundo matrimônio de Henrique eram legítimos e inclusos na linha sucessória, que, por sua vez, excluía quaisquer outros filhos do monarca, incluindo Lady Mary. “O ato de sucessão”, como ficara conhecido tal medida, deveria ser ratificada por todo inglês, independente de seu status social, e aquele que se negasse a fazê-lo seria acusado de traição e condenado à morte.

Essa medida, entretanto, não foi aderida de boa vontade por muitos súditos que ainda tinham em conta a rainha Catarina, como Thomas More (que havia renunciado a chancelaria do reino para “cuidar de sua alma”) e o bispo João Fisher. Henrique, que tinha grande estima e respeito por More, infelizmente não podia abrir uma exceção para ele sem também conceder para os demais insatisfeitos. Dessa forma, não lhe restara opção a não ser enviar o erudito e o clérigo para torre e esperar até que se submetessem à lei ou pagassem pelo preço de suas ações. O rei, conforme o perceberia, viu-se diante da extrema popularidade que sua ex-mulher e a filha mantinham no coração das pessoas, enquanto seu novo casamento era mal quisto por todos os países. Nem mesmo Paulo III, sucessor de Clemente VII no trono de São Pedro, tinha intenção de aliviar sua situação.

Busto do Bispo John Fisher.

Busto do Bispo John Fisher.

Para desespero de Ana, seu marido tomara uma nova amante (de quem não sobrou registro de nome ou qualquer outro vestígio, exceto o fato de que era uma dama muito linda). Todavia, mademoiselle boullan, com seu temperamento explosivo, não tardou em rechaçar a rival, sofrendo por isso a cólera do rei, que dissera a ela para abaixar a cabeça e aceitar os fatos “da mesma forma que pessoas melhores fizeram antes de ti” (uma clara alusão a Catarina de Aragão e ao seu sangue real espanhol). Os Ingleses favoráveis ao Imperador Carlos V acreditavam que Ana esperava pelo momento em que Henrique a deixaria como regente para por um fim às vidas de Catarina e de Maria através do veneno. Contudo, suas intenções para com a outrora princesa não eram tão extremas como a crônica espanhola induz a acreditar. Em várias ocasiões a rainha tentou se aproximar da enteada e foi cordialmente rechaçada pela mesma.

Medalha de 1534 com o busto de Ana Bolena em que se lê a Inscrição "The Most Happy" (A mais Feliz).

Medalha de 1534 com o busto de Ana Bolena em que se lê a Inscrição “The Most Happy” (A mais Feliz).

Sendo assim, pode-se entender o motivo pelo qual Ana decidira agir com dureza para com a moça. No entanto, Maria tinha a seu lado o povo, que apoiava sua pretensão ao trono, enquanto a de Elizabeth apenas pelas aparências. Em uma moeda datada do ano de 1534, o rosto oval de Ana usando um capelo inglês aparece em volta de uma inscrição que dificilmente representava seu estado espírito naquele momento: “The Most Happy” (A mais feliz). Para muitos, ela estava convicta de que enquanto Catarina e Maria vivessem, ela não poderia cumprir os desejos do rei, o de ter um filho varão. Provavelmente engravidara no segundo semestre daquele ano, mas por um feliz infortúnio não conseguira manter a gestação, tendo sofrido um aborto. Seus inimigos se regozijavam cada vez mais com a situação dela, mas em sua obstinação, Ana Bolena estava decidida a cumprir com zelo seu papel de soberana, não renegando seu patrocínio à causa da reforma e incitando o rei ao mesmo. Conquanto ainda aparentasse apta para produzir herdeiros, sua coroa matrimonial ainda permaneceria em sua cabeça. Porém, como os acontecimentos seguintes provariam, não por muito tempo.

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