A relação entre História e Literatura analisada através do romance histórico “A irmã de Ana Bolena”

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A contribuição da literatura no campo da História vem sido discutida há longo tempo por profissionais das duas áreas. Para alguns, uma obra de cunho ficcional pouco tem a oferecer à análise de acontecimentos já sucedidos, enquanto outros defendem que a partir de um romance, podemos entender como funcionava o pensamento da época em que este foi escrito. Dessa forma, é plausível dizer que a partir das palavras de um e autor, podemos identificar sua ideologia e preconceitos, assim como os da sociedade da qual ele faz parte. Essa afirmação estabelece uma ligação íntima com os novos conceitos trabalhados pelo campo da História das mentalidades e da História cultural, que têm sido ampliados de forma a abranger temáticas das mais diversificadas, como, por exemplo, um estudo sobre a sexualidade ou a vida privada, duas vertentes muito utilizadas por romancistas. A partir disso, notamos como o domínio das letras se utiliza de alguns critérios historiográficos para compor diversas narrativas, inclusive em enredos contextualizados em determinado período do passado da humanidade, tal como o fez Philippa Gregory, em seu best-seller “The Other Boleyn Girl”.

Todavia, no caso dos romances históricos, temos um novo desafio, que é a apropriação de personagens reais do passado para a construção de acontecimentos e cenas registrados pelo tempo, porém dotadas de falas e ações desconhecidas pelo grande público. Segundo a historiadora Laila Brichta:

“A escrita do passado realizada pelos romancistas, que tentam compreender a história, escrevendo-a, parece-me algo já bastante aceite. Esses romancistas, semelhante aos historiadores, elaboram o passado, seja pela apropriação de determinado conhecimento histórico presente no romance histórico tradicional, seja pela via do questionamento e da crítica histórica oficial, presentes na narrativa do novo romance histórico…” (BRICHTA, 2002, pag. 07).

De acordo com o excerto acima, percebe-se como a categoria do romance histórico apresenta duas tipologias: na primeira, observamos certo acontecimento passado como pano de fundo para uma trama inventada e contemporânea ao escritor; já no novo romance histórico, há uma recriação do tempo vivido, de forma reelaborada, que por muitas vezes se configura no foco principal de narrativa. Mas até que ponto os acontecimentos ali descritos pelo conferem com os fatos históricos? Podemos responder a esta indagação ao se ler as páginas de Philippa Gregory.

Philippa Gregory

Philippa Gregory

Ph.D. em literatura do século XVIII, Gregory é uma escritora de sucesso que teve inúmeras de suas obras traduzidas para outros idiomas a adaptadas tanto para a televisão, quanto para o cinema. Entre elas, podemos destacar a que foi citada logo acima, publicada aqui no Brasil sob o título de “A irmã de Ana Bolena”, que conta a trajetória de um personagem pouco comentado da História inglesa: Maria Bolena, amante do rei Henrique VIII e irmã da segunda esposa deste. Figura extremamente negligenciada pelos historiadores da coroa britânica, o espaço dedicado a Maria em biografias e livros que abordam o período que os monarcas da dinastia Tudor governaram a Inglaterra (1485 – 1603) fica restrito a notas de rodapé. Recentemente, escritores como Alison Weir e Josephine Wilkinson vêm tentando resgatar sua presença nos eventos que fizeram ferver a reforma anglicana, revelando que ela não era uma simples amante e cortesã, mas alguém determinada a ser feliz independentemente das restrições que lhe eram impostas por seu sexo, em um universo predominantemente machista.

Contudo, na trama de Philippa Gregory existem algumas distorções acerca da história original, que, por sua vez, contribuiu para uma impressão equivocada de personagens como Ana Bolena, descrita como ambiciosa e maquiavélica, enquanto sua irmã alguém disposta a satisfazer os interesses de sua família. A autora lança mão de extensa pesquisa bibliográfica para compor sua obra, entre as quais se podem encontrar estudos sobre a sociedade do período, a geografia da Inglaterra no século XVI, além de biografias que abordam as vidas dos atores inseridos no enredo. Em nota ao final do romance, ela nos diz:

“Estou em dívida com Retha M. Warnicke, cujo livro The Rise and Fall of Anne Boleyn foi a fonte mais útil para esta história. Obedeci à tese original e provocante de Warnicke de que o círculo homossexual de Ana, inclusive seu irmão George, e seu último aborto criaram um clima em que o rei pôde acusa-la de bruxaria e de práticas perversas” (GREGORY, 2010, pag. 625).

Sendo assim, notamo-los como a autora utiliza da pesquisa de outros historiadores para compor a narrativa, adicionando à mesma sua própria interpretação dos acontecimentos e inserindo passagens até então desconhecidas, mas que não eram totalmente impossíveis de se terem sucedido. A figura de Maria Bolena, e de sua irmã Ana, se apresentam como dois estereótipos femininos que contrastavam com o ideal de inferioridade que era empregado às mulheres de então.

Publicado pela primeira vez em 2001, a obra em questão aborda uma série de tópicos que só recentemente passaram a ter maior interesse por parte das pessoas. O primeiro deles, como já foi mencionado anteriormente, é a própria questão da mulher independente e dona do próprio destino. Os estudos acerca da condição feminina só ganhariam mais impulso a partir da década de 1960. Antes disso, embora participassem de movimentos e lutassem por seus ideais, como bem aponta Michelle Perrot, elas não tinham a mesma força política que a classe masculina, e ainda hoje me parece que falta muito a ser conquistado. Outro aspecto interessante de ressaltar é a questão da sodomia, fato que continua causando espanto aos olhos das pessoas. O personagem de George Bolena é descrito como o de um rapaz materialista e apaixonado por um de seus amigos, mantendo inclusive relações sexuais com o mesmo.

A irmã de Ana Bolena - Philippa Gregory

A irmã de Ana Bolena – Philippa Gregory

Em Inglaterra, no período tudoriano, a sodomia era punida com a morte, por ser um crime contra Deus e as sagradas escrituras. Diante disso, torna-se pertinente questionar o porquê de Philippa Gregory ter optado por inserir um caso de amor entre dois homens em seu romance. Analisando esse aspecto de uma maneira mais simplista, talvez o tenha feito para evidenciar que o homossexualismo sempre existiu, embora de forma mais encoberta durante a idade média e a moderna, e com o passar dos anos vem se tornando algo mais comum na sociedade de agora. Enfim, todos esses conjuntos de características permitem-me enquadrar “A irmã de Ana Bolena” na categoria de Novo Romance Histórico, pois ali não temos apenas determinado período servindo de fundo pra uma trama fictícia, e sim personagens reais interagindo de forma a mostrar uma versão diferenciada de uma mesma história e, dessa forma, evidenciando como a literatura contribui e muito para a escrita do passado, na medida em que estabelece pontos de discussão críticos, e, ao mesmo tempo, desperta o interesse do leitor para a investigação do tema em questão.

Referências Bibliográficas:

BRICHTA, Laila. As histórias nas páginas de um romance: análise da representação de ditadura na obra El Otonõ del Patriarca.– Campinas, SP: [s.n.], 2002.

CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. – 5ª edição. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

FRASER, Antonia. As Seis Mulheres de Henrique VIII. Tradução de Luiz Carlos Do Nascimento E Silva. 2ª edição. Rio de Janeiro: BestBolso, 2010

GREGORY, Philippa. A Irmã de Ana Bolena. Tradução de Ana Luiza Borges. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 2010

PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. Tradução de Denise Bottmann. – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988.

WATT, Ian. A ascensão do romance. Tradução de Hildegard Feist.- São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

*Comunicação apresentada no VII seminário de pesquisa em História da UESC, no dia 14/11/2012

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6 comentários sobre “A relação entre História e Literatura analisada através do romance histórico “A irmã de Ana Bolena”

  1. Eu finalmente tive a chance de ler esse livro, e mesmo sabendo o quão equivocada a Philippa retratou a Ana Bolena, ainda assim me irritei inicialmente na forma que ela transformou a Ana numa megera, quase uma bruxa mesmo, pois acho que se a intenção dela foi dá uma voz a Maria Bolena, ela poderia ter feito isso sem ter transformado a Ana em uma vilã de novela mexicana, e a Maria em uma mocinha de novela das oito. Porém ao continuar a leitura acabei me divertindo com as “maldades” dessa nova Ana que a Philippa iventou e me peguei torcendo por ela (essa minha atração pelo lado negro da força,kkkkkk) e detestando essa Maria chata e sem graça que ela inventou. Não que eu queria que ela tivesse feito uma Maria promíscua e libertina, até porque não acho que a própria deve ter sido assim, e se foi, só aumenta a minha hipótese de que os irmãos Bolena, principalmente as irmãs, eram espíritos livres e a frente do seu tempo, cada uma traçando o seu próprio destino (com Maria tendo feito a escolha mais razoável e segura, porém). Então, acho que se a Philippa tivesse feito uma Maria mais ousada e uma Ana mais próxima da realidade, de personalidade forte e não má, seria um ótimo livro, até mais que esse foi. No fim gostei do livro, apesar dos vários equívocos e da relação fraternal alá As Crônicas de Gelo e Fogo, e me diverti com a Ana vilã. Devo comprar os outros livros da série e ver o que a Philippa “aprontou” com as outras monarcas! Bjs!

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    • Philippa Gregory é uma escritora interessantíssima, e os livros dela são bastante legais, apesar desses equívocos historiográficos. Entretanto, o trabalho de um romancista não está necessariamente ligado à história factual, mas à representação da mesma frente aos questionamentos contemporâneos de determinado autor. A chave da questão, penso, é ler um livro como “A irmã de Ana Bolena” e tentar enxergar traços do olhar atual sobre a construção do texto. No mais, aquele que se aventura a ler um romance histórico, para aprender sobre a História, sem ter uma carga de leituras acerca do tema proposto, está perdendo o tempo. Abraço!

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  2. Outra dica excelente! De Philippa Gregory só li um livro de ficção, um romance e gostei demais. Essa biografia está na minha lista de “livros para ler com urgência” e vai um dos meus próximos. Obrigada pela dica!
    😉

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