Mademoiselle Boullan: Uma história de amor e ódio na corte dos Tudor – Parte II.I

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Parte II.I – Os amores de Ana Bolena

Ana Bolena, por Lucas Horenbolte

A relação que mademoiselle boullan desenvolveu com Henrique Percy, herdeiro do quinto conde de Northumberland, serviu para inúmeras passagens de livros de romancistas como Robin Maxwell (The Secret Diary of Anne Boleyn) e Philippa Gregory (The Other Boleyn Girl – lançado aqui no Brasil pela editora Record). Porém, a maior fonte de que dispomos como referencial da veracidade de tal união é a biografia que George Cavendish, serviçal do Cardeal Wolsey, escreveu anos mais tarde sobre seu amo. Segundo ele, Percy, que era membro da comitiva do cardeal, tinha o costume de frequentar a câmara privada de Catarina de Aragão inicialmente “para se distrair”, e ter-se-ia confrontado com uma jovem dama de olhos negros e penetrantes. Como já vimos, quando Ana retornou da França, passou a servir de dama de companhia para a rainha inglesa e, a priori, é possível que os dois tenham mantido um simples caso de amor cortês (algo muito comum na época). Passavam horas a fio conversando e se entretendo, mas com o andar dos dias as coisas foram ficando mais sérias de modo que “desenvolveu-se tal amor secreto entre eles que depois de um certo tempo os dois ficaram garantidos’ (isto é, ficaram unidos por uma promessa de casamento ou pré-contrato)” ( FRASER, 2010, pag. 170).

A natureza de tal relacionamento até hoje permanece um dos grandes mistérios acerca da vida de Ana Bolena. Naquele período, Henry Percy estava prometido à jovem Mary Talbot, filha do conde de Sherewsbury (embora, inicialmente, as negociações de noivado entre eles tivessem se esfriado). Northumberland era um grande senhor de terras do norte e, como tal, enviou o filho de 14 anos para o sul, onde receberia uma educação esmerada. Como membro da casa de Wolsey, cabia ao cardeal a responsabilidade de seus atos, e um caso com uma jovem de ascendência comum não fazia parte dos planos de sua família, que, por sua vez, não espera que seu herdeiro tomasse para si uma dama como Ana. Nas palavras de Francis Hackett,

“… A esbelta moça de olhos negros e o rapaz tinham-se descoberto, e não tardaram em apaixonar-se de tal forma que era impossível ocultá-lo. Percy não tinha a menor ideia da imprudência que cometera até a noite fatal em que, voltando da corte com o seu senhor, foi rudemente avisado de que o Cardeal o esperava na grande galeria…” (HACKETT, 1950, pag. 174).

Henry Percy, conde de Northumberland, por Francis Lindo.

O cerco estava voltado contra Percy, e Wolsey estava disposto a acabar de vez com as ambições do jovem em relação à senhorita Bolena. Mesmo tendo feito uma intrépida defesa de sua escolha, na qual ressaltou sua nobre linhagem como justificativa para agir como bem entendesse, o chanceler foi mais astuto e mandou chamar o próprio conde de Northumberland, que dissolveu as pretensões do filho com um rude sermão, ressuscitando o compromisso deste com Mary Talbot.

De acordo com muitos historiadores, esse fora o início da desilusão de Ana Bolena, que de donzela apaixonada, passou a nutrir incontido rancor por quem considerava o responsável pelo seu infortúnio: Cardeal Wolsey. Fora então despachada da corte para o castelo de sua família, em Kent, e lá permaneceria até obter o perdão real. Todavia, o principal agente da empreitada que levou ao rompimento de Ana e Henry Percy, foi o próprio Henrique VIII, que se beneficiaria com o casamento entre os filhos de dois dos mais importantes nobres da região norte do país. Não podemos saber se a essa altura (algures em 1523) o rei já tinha posto os olhos naquela moça, que viu na figura do cardeal um bode expiatório para todas as suas raivas. Embora muitos tendam a supor que o exílio de Ana fora longo, Carolly Erikson afirma que na verdade durara bem menos do que se pensa (o que pode ser um forte indicador dos interesses do soberano, que não queria manter longe por muito tempo o alvo de suas paixões). Ao regressar, não era mais a mesma mulher de outrora; estava mais orgulhosa e com uma tarefa em mente: fazer aqueles que destruiriam suas ambições, pagarem. Enquanto isso, as tentativas de casá-la caíram por terra.

Sir Thomas Wyatt, por Hans Holbein, o jovem.

Contudo, logo mademoiselle boullan arrumaria alguém para lhe distrair durante os momentos livres: Thomas Wyatt, poeta da corte. Tal como os Bolena, a família Wyatt morava em Kent, próximo ao castelo de Hever. Sendo assim, é possível que ele e Ana tivessem se conhecido ainda crianças. De acordo com uma biografia que o neto, George Wyatt, escreveu sobre o avô, Thomas apaixonara-se por aquela jovem dama desde sua volta da França. John Lelanden o descreveu como um rapaz “alto, de vigorosos músculos e tendões, agregados a um belo rosto”. Era, acredita-se, mais novo um ou dois anos do que ela, entretanto, em princípios de 1526, pouco antes de sua viagem para o exterior, já estava casado com Isabel Brook e com um filho, de modo que não estava livre para desposá-la. Evelyn Antony, em seu romance “Ana Bolena”, relata algumas cenas nas quais Ana e Thomas  mantinham relações sexuais no leito da jovem. Outra passagem parecida pode ser conferida na série “The Tudors” (primeira e segunda temporada). Porém, é crível que isso nunca se tenha acontecido e que o relacionamento entre os dois não passou de simples amor cortês, incluindo rejeições por parte dama, que não queria tornar-se amante do rapaz.

Há muitas referências à Ana na poesia dele, e consequentemente de suas recusas aos avanços amorosos do mesmo. Dentre elas, a que mais ilustra sua situação de sentimento não correspondido é aquela em que ele faz referência à mulher que o seduzira e depois o abandonara:

“Quem quiser ir à caça? Eu sei onde está uma corça/ Mas, de minha parte, ai de mim já não posso/ Este trabalho vão cansou-me cruelmente/ Eu sou um dos últimos chegados/ E contudo o meu espírito lasso não pode desprender-se/ Da sua pressa, e enquanto ela foge/ Eu busco em vão segui-la. Finalmente detenho-me:/ seria o mesmo querer perder o vento nas malhas de uma rede./ Quem quer dar-lhe caça? Eu posso assegurar-lhe/ Que, como eu, perde o seu tempo em vão/ Em redor de seu colo, em letras de diamante/ está claramente escrito:/ Noli me tangere¹, porque eu sou de Cesar/ E difícil de reter, embora pareça domesticada” (WYATT, apud HACKETT, 1950, pag.177).

Os versos finais são estritamente esclarecedores acerca dos motivos que levaram o poeta a não mais investir naquela dama: o César, de que faz menção, nada mais é do que o próprio rei Henrique VIII, que foi mais uma vítima dos encantos de Ana Bolena. Uma vez que se tornara fruto dos desejos do rei, significava que nenhum homem além dele podia tê-la. Todavia, a última frase do poema revela um aspecto fundamental acerca do caráter da dama: ela podia parecer dócil à primeira vista, mas era alguém cujas convicções e ambição eram difíceis de apaziguar.

Notas:

¹ Tradução: Ninguém me toque

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