Paixão e sexo na corte brasileira: D. Pedro I e a marquesa de Santos

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Caso que escandalizou toda a Europa pós Napoleão e que até hoje desperta curiosidade entre alguns pesquisadores da vida privada do primeiro imperador do Brasil, constitui-se no relacionamento de sete anos que este manteve com uma notória dama, mais tarde presenteada pelo amante com o título de marquesa. Domitila de Castro era uma dessas mulheres sem grandes atributos físicos, porém dotadas de apelo sexual suficiente para atrair as mentes fantasiosas dos homens que as cercavam. A grande influência que viria a exercer em D. Pedro I faria com que este tomasse atitudes que iam contra aos anseios da nação, solícita de que seu soberano assumisse suas funções com maior seriedade e integridade. A relação de ambos, por sua vez, se configuraria em algo até então inédito na história do país: a importação da posição de Maîtresse en Titre, exercida em outros países por figuras simbólicas, tais quais Madame de Pompadour, concubina de Luís XV da França.

Ao longo de séculos, amantes e rainhas conviveram, ora de forma pacífica, ora de maneira conflituosa. No caso das senhoras reais, cabe ressaltar que na maioria das vezes seus casamentos eram arranjados a partir de um acordo político, assim como aconteceu entre D. João VI e o imperador Francisco I da Áustria, que uniram pelos laços do matrimônio seus respectivos reinos. Em tais relações, a função das princesas era, antes de qualquer coisa, fornecer herdeiros à coroa do marido, que, por sua vez, arrogava-se o direito de possuir em afeto alguma dama com a qual compartilhasse sua paixão. Sem dúvidas, Domitila de Castro Canto e Melo se tornou alguém que durante sete anos conseguiu manter os olhos do primeiro soberano do Brasil independente, voltados para a sua pessoa. Ao cair nas boas graças de Pedro, Domitila, ou “Titila”, como seu amante imperial a chamava, tornara-se rainha em tudo, menos no nome.

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Carta de D. Pedro I à Marquesa de Santos em que assina “O Imperador”.

Existem ainda muitas controvérsias ligadas ao nome da marquesa de Santos (título pelo qual passaria a ser conhecida nos compêndios da História), principalmente a vida que levava antes de se tornar uma cortesã. Para entendê-la, primeiro é preciso estabelecer o contexto da sociedade da qual ela era fruto. São Paulo era uma cidade composta mais de mulheres que por homens, a maioria delas mães trabalhadoras e solteiras. Foi em meio dessa realidade que nascia a 27 de dezembro de 1797 aquela que viria a ser o maior caso de D. Pedro I. Domitila era filha de D. Escolástica Bonifácia e nhô João, mais conhecido pela alcunha de “quebra vinténs”, devido à sua força física, ou, conforme Carlos Oberacker Jr., devido à sua conduta sexual, já que a palavra vintém também estava ligada a virgindade. Aos 15 anos, ela se casou com Felício Pinto Coelho de Mendonça, um alferes mineiro, com quem viria a ter três filhos. O casamento de ambos foi marcado por um evento bastante vergonhoso para o alferes, que iria repercutir inclusive em tribunais: em 1819, Domitila tivera um filho proveniente de um caso extraconjugal.

A traição pelas mulheres sempre foi mal vista perante a sociedade, que, para usar aqui um termo popular, humilhavam os maridos destas com a rotulação de “corno”. Para se vingar pelo acontecido, Felício Pinto esfaqueou Domitila, objetivando-a assassiná-la. Ela, por sua vez, sobreviveu e conseguiu refugiar-se na casa do pai. Foi lá que conheceu o príncipe regente e futuro imperador Pedro, duas semanas antes do grito do Ipiranga. Mas o que tinha a marquesa de tão especial que cativou o filho de D. João VI? Em seu recente livro “A carne e o sangue”, Mary Del Priore oferece-nos um relato bastante interessante sobre os padrões de beleza femininos apreciados na época, tão presentes em Domitila:

“… de ‘admirável harmonia e perfeição nas formas e contornos do corpo, tinha no andar e nos modos elevadora graça, maravilhava pela beleza’, extasiou-se o cônsul-geral da Espanha no Brasil, D. José Delavat Y Ricón. Não foi difícil amá-la. Pele sem marcas, braços roliços, olhar expressivo, mãos e pés pequenos eram então signo de beleza feminina. Ela os tinha todos. E por isso era disputada…” (PRIORE, 2012, pag. 111).

Algumas dessas características podem ser observadas no retrato da marquesa, pintado por Francisco Pedro do Amaral. Contudo, algumas testemunhas dão impressões bem menos estimulantes que a da historiadora citada acima, como o marques de Barbacena, que a descreveu como “mediocremente bonita”, ou Condy Raguet, representante dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, que afirmou que ela não possuía “grande beleza que a recomendasse”.

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Retrato da Marquesa de Santos, por Francisco Pedro do Amaral.

Todavia, Domitila sabia como satisfazer um homem na cama e isso era o que D. Pedro sabia valorizar numa mulher. Logo de início, a relação dos dois não foi tão intensa como nos anos posteriores (evidência comprovada pelo fato de Pedro ter também por essa época mantido um caso com a irmã de Domitila, Maria Benedita, com quem tivera um filho). Entretanto, logo aquela mulher de olhos grandes e negros tomaria a colocação de primeira nas graças do Imperador. A violência e sexualidade da paixão de ambos pode muito bem ser comprovada por um vasto acervo de cartar trocadas entre eles, em que D. Pedro a chamava de Titila, filha e meu amor, enquanto assinava como “Fogo foguinho”, “Demonão”, “Pedro”, e “O Imperador”. Tais assinaturas variavam de acordo com a intensidade do romance, sendo as duas primeiras nos anos iniciais e as duas últimas quando o caso estava abalado.

Em tais correspondências, D. Pedro perguntava sobre a saúde da amada; o que fazia durante o dia; mandava-lhe presentes como roupas, joias e artigos comestíveis. Entre estes pertences, destaca-se um precioso colar de ametistas com a efigie do imperador. Um exemplo disso encontra-se em uma das missivas enviadas à marquesa, na qual o amante dizia:

“Nhá Titília,

Desejando eu que, quando você apareça publicamente, apareças bem vestida, e decente: aí lhe mando essa peça de toquinha, mais renda, para que as mande fazer em um vestido com guarnições brancas na última moda, e como você o não saberá fazer, bom, será bom que Boaventura a leve à casa da modista Madame Josefine, para que ela lhe tome a medida, e saia uma obra boa. Espero que isto a faça para se apresentar na Glória enervando todas que lá aparecerem.

Para esse dia já terei as ametistas postas em bom adereço completo que fica obra digna de quem a dá, e de quem a recebe.

Aceite os protestos de estima deste seu amante,

o Fogo Foguinho.” (D. PEDRO, apud REZZUTTI, 2011, pag. 92).

Como a maioria da população brasileira da época, Domitila era semianalfabeta, de modo que algumas de suas respostas apresentavam muitos erros gramaticais e eram por vezes incoerentes. Dessas, muitas poucas estão arquivadas, provavelmente porque o imperador costuma destruir as cartas da amante.

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Colar de ametistas dadas à Marquesa de Santos por D. Pedro.

Em 12 de outubro de 1825, dia do aniversário e D. Pedro, ele elevou Domitila de Castro à categoria de Viscondessa de Santos e pouco depois a Marquesa. À medida que sua estrela ascendia, D. Leopoldina se resignava diante da humilhação que o marido lhe infligia, principalmente depois que promoveu a amante ao cargo de dama da imperatriz. Todavia, isso não anula o fato de que ele continuava a manter suas obrigações conjugais, pois em outra carta à sua Titila ele dizia “ontem mesmo fiz amor de matrimônio, para que hoje, se você estiver melhor e com disposição, fazer o nosso amor por devoção” (D. PEDRO, apud REZZUTTI, 2011, pag. 105). Em alguns casos, Domitila expressava seu imenso ciúme para com seu imperial amante, chegando mesmo a ocasiões em que Pedro implorava por seu perdão por tê-la traído. Há ainda a suspeita de que Domitila estaria envolvida numa tentativa de homicídio contra a irmã Maria Benedita, baronesa de Sorocaba. Mas logo foi inocentada pelo quase crime, assim como o a acusação de adultério feita pelo seu ex-marido fora retirada de sua cabeça.

Em outras correspondências, o tom de conversa era muito mais erótico, nas quais D. Pedro apelidava a genitália de “maquina triforme” e referia-se ao órgão para a marquesa como “tua coisa”, dizendo também que a esperava à noite “que conversaremos, e nos apalparemos por dentro e por fora”. Logo se diria que para conseguir algum favor imperial, primeiro era preciso se remeter à marquesa, que conseguiu fazer com que seus parentes recebessem altos títulos, posses e cargos no Estado. Com D. Pedro, Domitila teria cinco filhos, dos quais apenas duas garotas sobreviveriam, sendo elas Isabel Maria, duquesa de Goiás e Maria Isabel, condessa de Iguaçu (nascida quando o relacionamento entre os pais já havia terminado). A cisão entre os amantes deu-se, principalmente, com o falecimento da Imperatriz Leopoldina em 11 de dezembro de 1826, que, na concepção de alguns, fora devido aos infortúnios que a marquesa lhe causara. A sociedade carioca, que nunca simpatizou com Domitila, não tardou em culpa-la pela morte de sua “boa mãe” e como punição lhes apedrejaram a casa.

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Fotografia da Marquesa de Santos ao lado dos netos.

D. Pedro sabia da extrema impopularidade que o seu relacionamento com a marquesa lhe valera junto aos súditos e acreditava que só um novo casamento, com uma princesa europeia, lhe resgataria a reputação. De acordo com Laurentino Gomes:

“… Ela reforçaria nele a imagem de um homem promíscuo e inconsequente, capaz de traficar na cama os altos interesses do Estado em troca de favores sexuais…” (GOMES, 2010, pag. 267).

Sendo assim, Domitila de Castro Canto e Melo fora banida da corte para São Paulo. Em 1829 retornaria para o Rio de Janeiro para pouco tempo depois ser expulsa definitivamente graças ao advento da segunda imperatriz do Brasil, D. Amélia de Leuchtenberg, muito mais confiante de seus dotes morais e estéticos. A marquesa terminaria seus dias como uma das senhoras mais influentes da sociedade paulistana, muito conhecida pela sua caridade e patronato às artes. Morreu em 13 de novembro de 1867, já tendo expiado as acusações de conduta licenciosa que a tornaram internacionalmente famosa.

Referências Bibliográficas:

GOMES, Laurentino. 1822. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

PRIORE, Mary Del. A carne e o sangue: A imperatriz D. Leopoldina, D. Pedro I e Domitila, a marquesa de Santos. – Rio de Janeiro: Rocco, 2012.

REZZUTTI, Paulo. Titília e o Demonão: cartas inéditas de D. Pedro I à marquesa de Samtos. – São Paulo: Geração. 2011.

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6 comentários sobre “Paixão e sexo na corte brasileira: D. Pedro I e a marquesa de Santos

  1. Que maravilha! Perceber a veia deste pesquisador, mergulhar na história e trazer a tona visões insólitas, mas, de uma importância para o fazer histórico que sem dúvida atrairá novas contribuições. Parabéns!

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  2. Muito obrigado pelo comentário e pelas belas e sábias palavras. Espero a cada dia trazer textos mais interessantes e que façam com que os leitores interajam com o passado de forma mais espontânea!

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  3. Domitilia foi uma das últimas, talvez a última, representante dessas amantes reais públicamente assumidas e influentes na corte. A prova de que essa atitude já era reprovada – mesmo antes da rainha Vitória e do Príncipe Alberto terem definido uma nova ética para as cortes europeias – foi a dificuldade encontrada na Europa pelo marquês de Barbacena para encontrar segunda mulher para D. Pedro. A «lenda negra» das culpas de D. Pedro e da amante na morte de Dª Leopoldina tinha chegado à Europa, e mesmo os Behauarnais, muitíssimo menos poderosos do que a família imperial austríaca, impuseram a separação e o exílio de Leopoldina em S. Paulo.
    Parabéns pelo texto, excelente como é habitual.

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