Um rei sem consciência, um homem sem medo: Filme A Man For All Seasons (1966)

Dirigido e produzido por Fred Zinnemann, “A Man For All Seasons” (no Brasil: “O homem que não vendeu sua alma”), filme vencedor de 6 Oscars, é mais um drama que aborda o tema referente ao grande problema enfrentado pelo rei Henrique VIII, na sua tentativa de arrumar meios que viabilizassem a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão para contrair segundas núpcias com Ana Bolena. Porém, diferentemente de outros, esta não é uma produção que trata exatamente da vida do monarca Inglês ou de suas esposas, e sim sobre a jornada de Sir Thomas More, o célebre autor de Utopia, que se envolveu numa situação perigosa por não aceitar se  pronunciar a respeito das decisões tomadas por seu soberano, colocando-se em grave perigo.

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Orson Welles como o Cardeal Wolsey e Poul Scofield como Thomas More.

Interpretado por Poul Scofield, o advogado Thomas More, logo na primeira cena, é vislumbrado com uma intimação do cardeal Wolsey (Orson Welles) para que compareça à sua presença e explique o porquê de sua posição contrária à política cardinalícia em prol da dissolução do casamento do rei. Expondo que os métodos de Wolsey eram equivocados, Sir Thomas contra-argumenta que a única entidade capaz de garantir o sucesso desta referida empreitada, seria ninguém menos que o Papa. Tem-se então, de acordo com a descrição desse conflituoso encontro, uma prévia do que o espectador pode esperar do comportamento de Thomas More, um pensador confiante de seus argumentos, nitidamente bem incorporado por Scofield, que até o fim da trama consegue sem o menor problema manter o magnetismo intelectual e a imparcialidade do personagem.

Após a desafiadora conversa com o chanceler e ter que ouvir os pedidos das pessoas que imploravam por sua ajuda em um julgamento justo, Thomas retorna para sua casa em Chelsea ansioso para encontrar-se com sua mulher e sua filha, mas ao chegar é surpreendido por um jovem admirador. Seu nome é Richard Rich (Jonh Hurt), que anseia por ocupar um cargo ao lado de seu mestre. A presença de Richard é de fundamental importância no desenrolar dos fatos, pois no primeiro momento sempre o vemos ao lado de Sir Thomas como um fiel aprendiz e depois na pele de um espião que corroborou para a ruína de seu instrutor. Jonh Hurt soube muito bem lidar com as duas fases da personalidade de Rich, ora amigo, ora covarde e oportunista. Destarte, o mesmo se aplica a Nigel Davenport, responsável por dar vida ao duque de Norfolk.

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Robert Shaw como Henrique VIII.

A relação de Sir Thomas com sua família, especialmente para com sua esposa e filha (interpretadas por Wendy Hiller e Susannah York, respectivamente) é um dos pontos mais interessantes do filme. A priori, o que chama atenção nas duas é a caracterização superficial, com seu figurino rebuscado e digno de admiração. Os trajes masculinos também se mostram fieis à moda da época, mas os vestidos, capelos e demais adereços ganham destaque em quaisquer cenas em que apareçam. Outro quesito primordial configura-se na postura dos personagens. É um encanto, por exemplo, observar a inteligência e submissão da jovem Margaret e a imponência de sua madrasta, Lady Alice. É cômica a passagem à qual Sir Thomas surpreende o encontro secreto da filha com o luterano William Roper (Corin Redgrave) e a forma como ela usa de sua astúcia para não causar desgosto no pai.

Enquanto isso, o cardeal Wolsey, não conseguindo o que o rei queria, fora destituído de seu cargo. Tornara-se um homem demasiado velho e doente, que se lamentava por não ter “servido a Deus como serviu ao rei, do contrário não estaria morrendo em deploráveis condições”. Quanto a essa parte, é necessário mencionar a forma como as cenas avançam quase que sem espaçamento e explicação, pois em um instante vemos o cardeal pleno de poderes e em seguida, desgraçado e à beira da morte. Isso não ocorre apenas nessa cena, mas em várias outras. Uma vez que Wolsey morrera, o posto de chanceler da Inglaterra foi então ocupado por Sir Thomas, que apesar de tentar evitar seu envolvimento na questão do divórcio, viu-se persuadido pelo rei a tomar o partido dele numa visita à sua casa. Essa passagem faz uma importante revelação do caráter de More, visto que ele não mudou sua opinião contraditória ao caso só porque estava diante da presença do monarca.

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Ana Bolena (Vanessa Redgrave) e Henrique VIII (Robert Shaw)

Por falar em Henrique VIII, foi Robert Shaw o responsável por transcender a elegância do rei inglês às telas. O mais notável em sua atuação é a maneira como ele conseguiu mostrar as variações de humor de Henrique, porém sua presença não é uma das mais estimulantes. Em muitas das cenas, Shaw demonstra certo desconforto ao dramatizar, o que acabou por comprometer seu desempenho. Outra que passa quase despercebida é Ana Bolena (Vanessa Redgrave), que faz uma breve aparição na cena da festa de seu casamento. Dessa forma, não foi surpresa alguma Vanessa recusar-se a receber chacê sob alegações de que participar do filme, para ela, fora “apenas uma distração”. Após o soberano ter se casado contra as leis da Igreja Católica e rompido com a autoridade papal, Sir Thomas vê-se na obrigação de renunciar seu posto e todos os benefícios que porventura viera a conseguir com o cargo.

A partir daí, os problemas para o ex-chanceler começam a aparecer: Thomas Cromwell (Leo McKern), outrora secretário do cardeal Wolsey, fora eleito para o posto de secretário e estava destinado a encontrar qualquer prova que incriminasse o humanista. Para isso, subornou Richard Rich, atraindo-o para seu lado. McKern, sem dúvida, é um dos melhores atores deste filme. Mostrou com perfeição a mente sagaz e o instinto destrutivo e conspiratório de Cromwell, que não conseguiu reunir provas incriminatórias contra More. Porém, seu regozijo atingiu o ápice quando Thomas recusou-se a prestar juramento ao ato de supremacia. O silêncio dele chegou ao conhecimento de toda Europa. A melhor explicação para sua mudez provavelmente fundamenta-se no quão a política religiosa de Henrique ia contra a ideologia de Thomas More, claramente expressa em Utopia.

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Thomas More e sua filha, Lady Alice (Susannah York).

Infelizmente, o silêncio do erudito foi usado contra sua própria pessoa. Preso sob acusações de alta traição e afastado da família, Sir Thomas encontrou na leitura e na escrita um conforto para seu trepidante estado. A nível de curiosidade, foi durante esse período em que ele escreveu outro livro de destaque, um diálogo filosófico sobre o sofrimento e como suportá-lo. Ao tomar conhecimento da referida produção, Cromwell tirou-lhe os livros e os papéis para que ele, diante de tal agonia, prestasse o juramento, uma vez que Henrique recusava-se a permitir que o torturassem. Todavia, isso não foi o bastante para forçar Thomas a fazê-lo, nem mesmo o apelo de sua família adiantou. Quando sua filha Margaret perguntou-lhe o porquê da recusa, ele respondeu: “… O que é o juramento então, se não palavras que dizemos a Deus?”. Foi com essa convicção que ele enfrentou um tribunal e defendeu-se com bravura das acusações caluniosas feitas por Cromwell. Mas, para desagrado próprio, fora injustamente condenado à morte simplesmente porque se recusou a prometer fidelidade a uma lei que beneficiava os interesses individuais do rei e não de seu povo.

“Morro sendo um súdito fiel do rei, mas Deus vem em primeiro lugar”. Foi com essas palavras que Sir Thomas partira para a imortalidade, e é com base nesta citação que a obra tem seu desfecho, com uma importante lição de moral sofre fé e determinação. “Um filme belíssimo, um elenco bem preparado e uma história apaixonante”, é assim que melhor se classifica “A Man For All Seasons”, cujo roteiro fora escrito por Robert Bolt. Curiosamente, o ator escalado para interpretar o personagem principal foi Richard Burton, que três anos mais tarde viveria Henrique VIII em “Anne Of The Thousand Days”. Sendo assim, parece que a escolha de Poul Scofield fora ótima, já que ele ganhou o Oscar de melhor ator. Além disso, a obra também faturaria cinco prêmios BAFTA e até hoje marca presença na lista dos 100 melhores filmes britânicos, ocupando a posição 43. Mas, acima de tudo, o longa-metragem é um tributo ao martírio de Sir Thomas More, que, segundo Alison Weir (autora de Henry VIII: The King and His Court e The Lady in The Tower), é “um personagem complexo e contrastante”, digno de eterna admiração*.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

  • Sir Thomas More foi beatificado pelo Papa Leão XIII em 1886 e foi canonizado em 1935.

Texto publicado originalmente em: O Diário de Ana Bolena

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