D. Amélia, A história não contada: Cláudia Thomé Witte lança a mais completa biografia sobre a segunda imperatriz do Brasil!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Dona Amélia de Leuchtenberg é uma das personagem mais desconhecidas da história do Brasil. Nascida em 1812, a segunda esposa do imperador D. Pedro I ainda permanece como uma incógnita para muitos brasileiros. Geralmente associada às imagens de esposa devotada e viúva eternamente enlutada, poucos consideram o impacto que ela teve sobre o primeiro governante do nosso país, seja na sua esfera privada e familiar, ou no âmbito de suas decisões políticas. Uma vez viúva, economicamente emancipada e dedicada a dar uma educação superior para sua única filha, ela percorreu vários países da Europa e transitou entre diferentes Casas Reais do continente, deixando em cada um desses lugares um vestígio de sua existência. Sendo assim, juntar todas essas pistas e, a partir delas, montar um intrincado jogo de quebra-cabeças foi uma tarefa que a escritora e pesquisadora em História do Primeiro Reinado, Cláudia Thomé Witte, levou com seriedade. Estudando sobre a vida da segunda imperatriz do Brasil, Cláudia foi levada para diversos locais associados à Dona Amélia, visitando arquivos nacionais e estrangeiros, coletando fontes e oferecendo palestras sobre o desenvolvimento de seu trabalho. O resultado dessa jornada, empreendida com tanto esmero, acaba de ser publicado pela editora LeYa, na obra D. Amélia: a história nãos contada (2023).

Capa do livro “D. Amélia: a história não contada: a neta de Napoleão que se tornou imperatriz do Brasil”. Editora LeYa, 2023.

Há anos que a segunda consorte de D. Pedro I carece de uma boa biografia. Sobre ela, foram publicadas apenas duas obras na primeira metade do século passado, cujas pesquisas deixavam muitas lacunas. A partir destes espaços não preenchidos, Cláudia optou por contar o não dito acerca da “neta de Napoleão que se tornou imperatriz do Brasil” (subtítulo da obra). Com mais de 500 páginas e um farto caderno ilustrado, a biografia foi publicada dentro da coleção A História não Contada, idealizada pelo pesquisador Paulo Rezzutti. Em parceria com o Paulo, a Cláudia já participou de vários vídeos no canal do autor no YouTube, narrando diferentes aspectos da vida de uma mulher singular, quase esquecida, mas que deixou um enorme testemunho de fidelidade e dedicação ao próximo. Como admirador do trabalho da Cláudia desde quando fundei o Rainhas Trágicas em 2012, confesso que aguardava com anseio pelo lançamento de seu livro. Agora, o leitor e a leitora têm em mãos uma obra que pode ser considerada a mais completa biografia já escrita sobre a segunda imperatriz do Brasil. Na entrevista que se segue abaixo, a Cláudia Witte conta um pouco acerca do processo de pesquisa e coleta de fontes para a composição do material, sobre os desafios e prazeres vivenciados durante esse percurso e quais as novidades que sua publicação traz a respeito da soberana.

Momento de felicidade: após 20 anos de pesquisa em diversos países, eis que a biografia finalmente fica pronta!

Renato Drummond (RD): O que a levou a pesquisar sobre a vida da imperatriz Dona Amélia?

Cláudia Thomé Witte (CT): Me interessei pela imperatriz Amélia ainda na escola, quando li uma carta dela para D. Pedro II e fiquei curiosa sobre a personagem. Li as duas biografias que existiam, mas permaneceu a sensação de que se sabia muito pouco sobre ela. Já mais velha, estudando na Alemanha, comecei a procurar livros sobre a família Leuchtenberg e a visitar os lugares onde ela tinha vivido. A partir de 2001, sistematizei uma longa pesquisa de fontes primárias, já com a intenção de escrever uma biografia.

RD: Durante esses 20 anos de pesquisa para a escrita da biografia, quais os maiores desafios que você se deparou no percurso?

CT: Dificuldades inerentes ao estudo de fontes primárias; caligrafia difícil; acesso aos arquivos; contextualização da documentação. Mas, no caso específico da imperatriz, um dos maiores desafios foi a dispersão dos documentos entre muitos países (Brasil, Alemanha, Suécia, Itália, França, Suíça) e o fato de estarem escritos em vários idiomas: português, alemão, francês, etc.

RD: Na sua opinião, Dona Amélia é uma personagem estereotipada nos anais da história do Brasil?

CT: Não diria estereotipada, mas simplesmente desconhecida. D. Leopoldina participou do processo de Independência, deixou um filho como imperador e uma filha como rainha. D. Teresa Cristina foi imperatriz por quase meio século. D. Amélia teve uma passagem meteórica pelo Brasil, não deixou descendentes e acabou completamente esquecida.

RD: Como pesquisadora e biógrafa, quais foram as maiores alegrias vivenciadas durante a escrita do livro?

CT: As maiores alegrias foram a participação na exumação da imperatriz em 2012 (quando pude vê-la e até tocá-la) e em cada descoberta de documentos referentes à nossa história, que localizava em arquivos estrangeiros. Poder ter ne hospedado no Palácio onde ela viveu na Baviera e dar palestras em outros lugares que ela também frequentou. São sempre grandes alegrias.

Lançamento da biografia D. Amélia: a história não contada, em uma deliciosa tarde de chá na Fundação Maria Luísa e Oscar Americano, em São Paulo-SP.

RD: O subtítulo “A história não contada” sugere uma versão dos fatos até então desconhecida pela maioria dos leitores. Quais as novidades na biografia da segunda imperatriz do Brasil que podemos encontrar através das páginas do seu livro?

CT: A participação de D. Amélia no final do Primeiro Reinado, quando ela foi responsável pela reaproximação de D. Pedro I com o Partido Brasileiro. O relacionamento entre D. Amélia e D. Pedro II, completamente improvável, dado o afastamento físico entre eles, e as relações entre D. Amélia e as diversas Casas Reinantes europeias ao longo de sua vida. Além de suas obras, que permanecem ativas até os dias de hoje.

RD: Existem falácias acerca de Dona Amélia que são desconstruídas por você na obra?

CT: A lenda de que D. Pedro teria se inspirado nas rosas do vestido dela ao desembarcar para criar a Ordem da Rosa. A ideia de que ela não deixou nada para os descendentes de D. Pedro em seu testamento. A crença de que ela teria vivido toda sua vida em Portugal, no Palácio das Janelas Verdes, ou de que ela teria passado por vida de viúva só chorando e se lamentando.

RD: Falando agora sobre o processo de pesquisa: como foi seu trabalho em arquivos, fundações e acervos particulares da Europa e do Brasil?

CT: A pesquisa foi um processo longo, autofinanciado, o que fez com que ela seguisse o roteiro possível para que eu visitasse todos os países e instituições que consegui. Boa parte dos acervos particulares foram difíceis de ser consultados e levou muito tempo também para que eu tivesse os contatos e a confiança necessária. Mas, foi também um processo durante o qual fiz muitos amigos próximos e vivi histórias inesquecíveis. Muitas delas eu conto no livro.

RD: Se você pudesse descrever o legado da imperatriz Amélia em um parágrafo, como seria?

CT: Ela foi mãe dos filhos de D. Pedro I, tanto da filha biológica que tiveram juntos, como dos outros reconhecidos por ele. Foi responsável pela preservação da memória de D. Pedro I, enquanto fundador de duas monarquias constitucionais, tanto no Brasil quanto em Portugal. Não obstante, desenvolveu um trabalho de acolhimento e cuidado dos milhares de órfãos de epidemias em Portugal e de tuberculosos carentes na Ilha da Madeira. Deixou fundações que existem e funcionam até hoje.

Lançamento da obra em Curitiba!

RD: Quais as contribuições que seu livro pode acrescentar para a história da família imperial do Brasil?

CT: A biografia traz centenas de documentos inéditos pela primeira vez, transcritos e traduzidos para o português, jogando assim luz em muitas nuances dos relacionamentos familiares da dinastia Bragança, bem como bastidores de negociações e decisões entre os final dos anos 1820 até o início da década de 1870.

RD: Existem duas imagens contrastantes acerca da esposa do imperador: a “imperatriz cor-de-rosa” e a “eterna viúva”. Podemos encontrar um meio-termo entre entes dois polos?

CT: A Amélia de 17 anos, que desembarcou no Brasil disposta a assumir uma nova vida como imperatriz, esposa e mãe, cheia de esperança e que inspirou a criação da Ordem da Rosa, contrasta com a senhora viúva, que perdeu sua única filha ainda jovem e dedicou sua vida a ajudar milhares de crianças órfãs e se engajou na assistência aos tuberculosos carentes. Mas, entre o início e o fim da vida, ela tomou posicionamentos políticos, viveu entre três países, conviveu com as principais figuras da realeza europeia de seu tempo e, mesmo sem confrontar a sociedade de seu tempo, soube conduzir sua vida como quis.

RD: Poderia nos contar um pouco sobre o paradeiro das joias da finada imperatriz?

CT: D. Amélia tinha muitas joias importantes ao falecer. Parte delas, recebida como presente ou herança de D. Pedro I, mas, principalmente, por herança paterna. A seu pai coubera metade de tudo que pertenceu à imperatriz Josefina. Ela presenteou seus enteados e os filhos destes com joias ao longo da vida. As princesas Isabel e Leopoldina, por exemplo, receberam conjuntos completos em diamantes. Quando D. Amélia morreu, cada parente seu recebeu uma joia. Foram dezenas de sobrinhos, filhos dos enteados e alguns amigos de família. Não se sabe o paradeiro de praticamente nenhuma delas. As únicas joias conhecidas são as que ficaram para a irmã de D. Amélia, a rainha Josefina da Suécia. O conjunto de esmeraldas, que era uma joia da mãe de D. Amélia e hoje se encontra na Casa Real norueguesa e o célebre diadema de Bragança, ainda hoje na Casa Real sueca. Comenta-se muito sobre essas peças, mas a verdade é que todo o resto se perdeu ao longo das décadas.

RD: Claudia, muito obrigado pelas suas palavras. Para finalizar nossa entrevista, qual recado você gostaria de deixar para o leitor e a leitora que está acompanho este bate-papo neste momento?

CT: Esta é uma biografia de uma personagem pouco conhecida. Eu espero que o leitor não considere isso um desestímulo, pelo contrário, que tenha curiosidade em conhecer uma imperatriz brasileira, com uma trajetória fascinante e que, até agora, carecia de informações a seu respeito. Obrigada pelo convite e pela oportunidade de participar das publicações deste projeto que tanto admiro.

4 comentários sobre “D. Amélia, A história não contada: Cláudia Thomé Witte lança a mais completa biografia sobre a segunda imperatriz do Brasil!

  1. Pretendo ler essa biografia exatamente porque retrata uma personagem obscura e esquecida. Quero conhecer D. Amélia e sua trajetória, esperando que o livro resgate nossa segunda imperatriz do primeiro império brasileiro. Parabéns à autora.

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  2. Acho que essa biografia de D Amélia vai enriquecer ainda mais a história do Brasil, sei que história é um processo e que todos fazemos história, mas nem todos deixam marcas que possam serem lembradas. Parabéns Cláudia você está deixando a sua marca, mal posso esperar para ler! Parabéns Renato pela entrevista e por esse projeto do blog que sigo e leio há não sei nem quantos anos.

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  3. Estava ansioso pela conclusão desse magnífico trabalho da Cláudia! Parabéns!!!!! Ganha a história do Brasil, ganhamos nós leitores!!!!Parabéns pela entrevista Renato! Acompanho seu blog há muitos anos sei nem a quanto tempo, e a Cláudia desde que comecei a seguir o Paulo.

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