As três princesas: Isabel, Maria e Helena da Romênia!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Uma das soberanas mais notáveis do início do século passado, Maria de Saxe-Coburgo-Gota (nascida princesa de Edimburgo), foi, sem sombra de dúvidas, a verdadeira força por trás do trono romeno até a sua morte, em 1938. Casada com o rei Fernando I, ela teve cinco filhos, incluindo o rei Carol II, duas rainhas consortes, Isabel da Grécia e Maria da Iugoslávia, e uma arquiduesa da Áustria, Helena. As histórias das três filhas da monarca são quase tão interessantes quanto a de sua própria mãe. As três herdaram a intrepidez, a dignidade e o senso de dever que tanto caracterizaram a soberana romena em vida. Em muitos sentidos, a rainha Maria foi um molde no qual suas filhas poderiam se espelhar. Dadas em casamento para diferentes países do continente através do jogo de alianças matrimoniais que moldou a face da realeza no período entre guerras, as três princesas usaram sua posição em benefício de pessoas em situação de carência e, por meio de suas atividades enquanto consorte reais, conquistaram o afeto de seus respectivos súditos. Dessa forma, Isabel, Maria e Helena encarnaram diante dos olhos públicos a última fagulha do imenso esplendor que havia sido a chamada Era Vitoriana, desaparecida com a sua ilustre bisavó, a rainha Vitória.

Isabel da Romênia, rainha da Grécia

Fotografia da jovem princesa Isabel da Romênia, futura rainha consorte da Grécia, aos 17 anos.

Nascida em 12 de outubro de 1894, Isabel foi a primeira filha da rainha Maria com o rei Fernando I. Através de sua mãe, ela era bisneta tanto da rainha Vitória do Reino Unido quanto do czar Alexandre II da Rússia. Já pelo lado paterno, era bisneta da rainha Maria II de Portugal e, por conseguinte, trineta do imperador D. Pedro I do Brasil com sua primeira esposa, a imperatriz Leopoldina. Apelidada por seus familiares de “Lizzy’, a princesa Isabel possuía um comportamento bastante tímido. Preferia viver isolada no Castelo de Peleș, tendo como companhia apenas seu irmão Carlos. À medida em que se desenvolvia, a jovem foi desenvolvendo uma “beleza clássica”, conforme definiu Marthe Bibesco. Seus cabelos loiros, os olhos azuis e um tom de pele leitoso eram bastante admirados por seus contemporâneos. Ela chegou a ser cortejada por alguns dos maiores partidos da Europa, entre os quais o príncipe Adalberto da Alemanha, filho do primo de sua mãe, o Kaiser Guilherme II. Contudo, sua avó, a grã-duquesa Maria Alexandrovna, tinha outros planos para a neta. Ela sugeriu que Isabel se casasse com o príncipe herdeiro do trono da Grécia, o futuro rei Jorge II.

Em 27 de fevereiro de 1921, Isabel e Jorge se casaram em Bucareste. Sua vida na Grécia, porém, foi nenhum um pouco fácil. Devido ao seu temperamento introvertido, Isabel teve dificuldades para se adaptar à nova vida e tinha um relacionamento especialmente complicado com sua sogra, a rainha Sofia. Em consequência da guerra greco-turca, o pai do príncipe Jorge, Constantino I, foi forçado a abdicar em favor de seu filho. Assim, Isabel se tornou a nova rainha consorte dos helenos. Em seu tempo de vida, ela se juntou à Cruz Vermelha, prestando auxílio a pobres e doentes e mandou construir abrigos para refugiados da Ásia Menor. Contudo, em decorrência de um golpe político no ano de 1923, os soberanos foram obrigados a se refugiar na Romênia. A República foi proclamada no ano seguinte. Isabel faleceu em 14 de novembro de 1956, em Cannes, aos 62 anos.

Maria da Romênia, rainha da Iugoslávia

Fotografia digitalmente colorida da jovem princesa Maria da Romênia, futura rainha da Iugoslávia. Créditos: Klimbim.

Nascida em 6 de janeiro de 1900, Maria foi a segunda filha do rei Fernando I da Romênia com a rainha Maria de Saxe-Coburgo-Gota. Como a princesa recebera em batismo o mesmo nome de sua mãe e de sua avó, a grã-duquesa Maria Alexandrovna, ela era mais conhecida por seus parentes pelo apelido de “Mignon”, para distingui-la das mais velhas. Durante os anos da Primeira Guerra Mundia, ela e suas irmãs, Isabel e Helena, trabalharam como enfermeiras ao lado da mãe, prestando auxílio aos soldados feridos em combate. Embora não se enquadrasse na ditadura dos padrões de beleza das mulheres super magras da família real, como suas primas inglesas e russas, Maria era considerada por muitos uma moça de feições agradáveis e bonita. Em 1922, enquanto ela e sua família passavam as férias no Castelo de Peleş, localizado nas proximidades de Sinaia, a princesa conheceu o futuro rei Alexandre I da Iugoslávia, por quem acabou se enamorando. Poucas semanas depois, aquele romance primaveril evoluiria para um relacionamento mais sério, com um pedido formal de casamento. Os dois se uniram em matrimônio no dia 8 de junho daquele mesmo ano, na Catedral de São Miguel, em Belgrado.

Ela e seu marido, Alexandre I, ascenderam ao trono como rei e rainha no mês de outubro de 1929. Por volta dessa época, Maria já havia dado à luz três herdeiros para o trono: Pedro, nascido em 1923 (futuro Pedro II – último rei da Iugoslávia – e sucessor de seu pai), Tomislav, nascido em 1928, e Andrew, nascido em 1929. Tendo sido educada desde criança para assumir as funções de uma princesa consorte, a formação de Maria ia além dos estudos de disciplinas e idiomas, incluindo a filantropia, a arte da conversação e a diplomacia. Era também uma excelente pintora e escultora e adorava dirigir seu próprio automóvel. Vivendo com Alexandre a maior parte do tempo na sua propriedade de Karađorđević, em Oplena (nas proximidades Topola), a monarca logo tratou de criar vínculos com o clero Ortodoxo e dar continuidade aos trabalhos de caridade que ela já vinha desenvolvendo na Romênia junto com sua mãe e irmãs. Faleceu em Londres, em 22 de junho de 1961, aos 61 anos de idade.

Helena da Romênia, arquiduquesa da Áustria e princesa da Toscana

Fotografia da jovem princesa Helena da Romênia, terceira filha do rei Fernando I com a rainha Maria de Saxe-Coburgo-Gota.

Nascida em 5 de janeiro de 1909, a vida de Helena desde cedo foi cercada por rumores. Algumas más línguas da corte do Palácio Cotroceni, em Bucareste, argumentavam que ela não era filha legítima do rei Fernando I, e sim do amante da rainha Maria, o príncipe Barbu Ştirbey. Para calar as fofocas e salvar a reputação de sua esposa (bem como a própria) o rei da Romênia assumiu a paternidade da criança, que se tornou a mais nova de quatro irmãos, incluindo a princesa Isabel, futura rainha da Grécia, e a princesa Maria, futura rainha da Iugoslávia. Apesar de crescer sobre o signo de uma possível bastardia, tal como seu irmão Mircea (último filho da rainha Maria, que acreditavam ser fruto da relação com seu presumível amante), isso não abalou a educação da jovem, que recebeu uma formação igual à de outras damas de seu status. Enquanto princesa romena, ela foi chefe das escoteiras locais, atividade que continuou a exercer mesmo depois do casamento com o arquiduque Antônio da Áustria, príncipe da Toscana, em 26 de julho de 1931. Entre outras atividades, Helena foi chefe da ala feminina da Cruz Vermelha e dirigiu a primeira escola de trabalho social no seu país.

Muito popular entre os romenos por sua beleza e filatropia, a princesa despertou a inveja de seu irmão, o rei Carol II, que após o casamento dela com um arquiduque austríaco, com quem teria 6 filhos, mandou-a embora. De volta à Romênia em 1944, ela se instalou no castelo de Bran, nos arredores de Brasov. Ali, a princesa fundou outro hospital, erguido em memória de sua mãe, a falecida rainha Maria. Após a abdicação de seu sobrinho, o rei Miguel I e com o país incorporado à União Soviética, a família real foi forçada ao exílio. Helena, seu marido e filhos viveram por um breve período na Suíça, depois na Argentina e, por fim, nos Estados Unidos. Tendo se separado de Antônio e contraído segundas núpcias com o médico Stefan Nikolas Issarescu, Helena encontrou sua vocação mesmo no sacerdócio. Divorciou-se mais uma vez e tomou o hábito de freira, entrando para o Mosteiro Ortodoxo da Proteção da Mãe de Deus, em Bussy, na França. De volta à América, já atendendo pelo nome de Mãe Alexandra, ela fundou o Mosteiro Ortodoxo da Transfiguração, em Ellwood City, Pennsylvania, do qual era abadessa. A princesa Helena faleceu aos 80 anos, em janeiro de 1991.

Referências Bibliográficas:

BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

CADBURY, Deborah. Queen Victoria’s Matchmarking: the royal marriages that shaped Europe. New York: Public Affairs, 2017.

CARTER, Miranda. Os três imperadores: três primos, três impérios e o caminho para a Primeira Guerra Mundial. Tradução de Manuel Santos Marques. Alfragide, Portugal: Texto Editores, 2010.

GILL, Gillian. We two: Victoria and Albert: rulers, partners, rivals. New York: Ballantine Books, 2009.

PACKARD, Jerrold M. Victoria’s daughters. New York: St. Martin Press, 1998.

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