Os Romanov: a saga de uma família imperial – Parte II

Por: Giovanna Rodrigues

Os dias mais felizes e ensolarados para os Romanov eram quando navegavam no Shtandart e passavam as férias em Livadia, Era como paraíso para eles, onde deixavam de ser a famosa família imperial e se tornavam apenas uma família comum e feliz. O Shtandart era o navio dos sonhos dos Romanov. Os aposentos eram bem modestos, em estilo inglês. Inicialmente, as meninas dividiam suas cabines com as criadas; já Alexei tinha a sua própria cabine. As crianças vestiam roupas de marinheiros azuis- marinhas e brancas quando fazia calor e usavam chapéus de palha, podendo conversar e brincar com os oficiais e patinar na lisa superfície de madeira. Alexandra sempre ficava de olho nas crianças, normalmente bordando em uma poltrona ou sofá. Cada criança Romanov tinha seu próprio diádka (tio) para de cuidar delas. Eles também as entretinham com várias histórias do mar e sobre seus lares e famílias. Ali, Alexandra se transformava em uma mulher simples, feliz e saudável. Nicolau amava a vida a bordo do iate, adorava brincar com seus filhos, tirar inúmeras fotografias com sua câmera Brownie, remar com eles, colher cogumelos e frutas silvestres.

Retrato do último czar da Rússia, Nicolau II, pintado por Ilya Galkin.

Com efeito, Nicolau era o pai que toda criança gostaria de ter. Seu escritório e biblioteca era repleto de fotografias dos filhos e da esposa, com registros de todas as fases das crianças, desde bebês até a fase adulta. Havia fotos dos filhos com cachorros, em pôneis e no litoral. Tinha também uma mesa e cadeira para Alexei, para acompanhá-lo enquanto estivesse trabalhando. No inverno de 1913, devido à precária saúde de sua esposa, Nicolau cuidou pessoalmente de seus filhos. Apesar das inúmeras reuniões com ministros, audiências públicas, revistas militares e a papelada em sua mesa, ele se certificava de ter tempo para as suas adoradas crianças. No início de janeiro e fevereiro, ele levava suas filhas para assistir balés, óperas e faziam longas caminhadas no parque; andavam de bicicleta, quebravam gelo nos canais, esquiavam e desciam de trenó a colina gelada. Ele realmente amava e se orgulha dos belos filhos que tinha, mas também era um pai que sabia impor limites a eles.

No início de 1914, tanto Olga como Tatiana estavam se tornando jovens mulheres e com a idade vinha suas responsabilidades como princesas: um casamento elegível com nobres. As quatro filhas de Nicolau e Alexandra eram os melhores partidos da Europa para casamentos dinásticos. Elas possuíam uma fascinante mistura de beleza e nobreza. O mais famoso candidato para Olga foi o príncipe Carlos da Romênia. A jovem, por outro lado, detestou a ideia, pois ela, as irmãs e os próprios pais não queriam se separar. A própria Alexandra demostra não estar pronta para ver suas “menininhas’’ se casando e indo embora de suas assas:

Penso com terror […] que se aproxima o momento em que terei de me separar de minhas filhas… O que mais desejo é que continuem na Rússia após o casamento. Mas tenho quatro filhas e isso é impossível, claro. Você sabe como os casamentos são difíceis nas famílias reinantes. Sei disso por experiência, embora nunca tenha estado na posição ocupada por minhas filhas […]. O imperador terá de decidir se considera esse ou aquele casamento indicado para suas filhas, mas a autoridade paterna não deve ir além disso. (apud RAPPAPORT, 2016, p.246).

Todavia, nenhuma das irmãs queria se separar da família e de sua amada Rússia, o que apenas fortaleceu, de certa forma a união, e o amor entre eles.

O evento mais importante para os Romanov e qualquer russo da época era a Páscoa. A família imperial era um modelo de união, cimentada pela fé religiosa. Poucos dias antes da Páscoa, as crianças tinham o costume de pintar e decorar dezenas de ovos cozidos, que seriam trocados para celebrar a ressurreição de Cristo. No Sábado de Aleluia, as meninas vestiam luto, como mandava a tradição, para a última missa que durava até a meia-noite. Logo após, a alegria reinava e anunciavam felizes Khristos voskres! (Cristo ressuscitou). O tradicional jejum da Quaresma terminava com um excepcional banquete: havia o típico Kulitch, um bolo de Páscoa com cobertura de glacé. Alexandra, como de costume, ganhava um belíssimo Ovo Fabergé decorado com pedras preciosas. Já no domingo, todos se reuniam com a tripulação do Shtandart e os oficiais da Escolta do Tzar. Nicolau seguia a tradição ortodoxa e trocava os três beijos e saudações, já as meninas auxiliavam na distribuição dos ovos de Páscoa de porcelana.

A reclusa vida dos Romanov seria alterada com a chegada da Primeira Guerra Mundial. Com Nicolau e Alexei longe de casa, cabia às mulheres Romanov cumprirem seu papel na sociedade. Alexandra e suas duas filhas mais velhas se alistaram como voluntarias como enfermeiras na Cruz Vermelha, enquanto Maria e Anastásia visitavam os soldados feridos em hospitais. A rotina familiar logo mudou: a imperatriz, que era vítima de suas doenças, havia se transformado em uma mulher mais ativa e determinada. Acordava cedo, ia para a missa das sete e às nove em ponto chegava com suas filhas ao hospital. As três cuidavam dos feridos e nos intervalos tiravam fotos com suas câmeras Brownie; jogavam jogos de tabuleiros e depois de almoçar voltavam ao trabalho. No fim do dia, as meninas tinham o costume de ligar ao hospital para conversar com seus pacientes favoritos.

A separação de Nicolau e Alexandra foi motivo de sofrimento e saudade para ambos. Durante vinte anos de casados, seu amor nunca foi reduzido, pelo contrário, parecia aumentar a cada dia para um sentimento devotado e arrebatador. Ao longo da guerra, o casal trocou inúmeras cartas cheias de sentimentos floridos, como paixão e com um bom toque poético, como nesta mensamente escrita pela imperatriz:

[…] oh, meu amor! Foi tão difícil dizer adeus vendo aquele rosto sozinho, pálido, com os grandes olhos tristes na… janela [do trem] –  meu coração gritava leve-me com você… Dei meu beijo de boa-noite no seu travesseiro, desejando que você estivesse comigo – em pensamentos, vejo você deitado em seu compartimento, inclino-me sobre você, o abençoo e beijo suavemente seu meigo rosto inteiro – oh, meu querido, você é intensamente amado por mim – se eu apenas pudesse ajuda-lo a suportar suas pesadas cargas, há tantas pesando sobre você (apud MASSIE, 2014, p.344).

Nicolau, por sua vez, também demostrava um imenso amor e carinho por sua amada:

Sunny, meus olhos ficaram úmidos quando li suas cartas… parece-me que você está recostada em seu sofá e eu estou ouvindo, da minha cadeira sob o abajur… Não sei se seria capaz de suportar tudo isso se Deus não me tivesse enviado você como esposa e amiga. Estou falando sério. Às vezes é difícil falar dessas coisas e, para mim, é mais fácil pôr no papel, por causa da timidez boba… Adeus, minha doce e amada Sunny… Beijo-a e as crianças ternamente. Seu maridinho sempre, Nicky (apud MASSIE, 2014, p.344-5).

Em suas várias fotografias juntos, os Romanov passavam uma mensagem de família unidade e feliz.

As meninas também adoravam escrever para seu amado pai cartas cheias de desenhos de cruzes e lhes mandavam beijos. Maria, em 21 de setembro, escreveu a seu pai cheia de saudade: “Você precisa me levar junto de qualquer jeito da próxima vez, ou então vou subir sozinha no trem, porque sinto saudade”. Já a travessa Anastásia, acrescentou: “Não quero ir para a cama, bah! Quero estar aí com você, onde quer que esteja, já quer não sei onde é” (apud RAPPAPORT, 2016, p.268).

Bem longe do Palácio de Alexandre, tanto Alexei quanto Nicolau estavam no quartel-general. Um dos motivos de levar Alexei para esse lugar foi pela sua formação como futuro tzar. Em outras palavras, Alexei estava vivendo anteriormente em um mundo de mulheres que o adoravam e o mimavam. Ao entrar nesse novo universo, ele podia presenciar o clima de fardas, estratégias militares e homens na guerra, o que contribuiria para sua formação como futuro governante. Alexandra sofreu muito com a partida do filho, pois ele nunca deixou de ficar longe dela e de seus cuidados. Com grande preocupação do que poderia acontecer, ela enviou uma comitiva para proteger seu filhinho, os marinheiros Derevenko e Nagorny, o tutor Gilliard e dois médicos. Alexandra pedia diariamente a Deus para que cuidasse e trouxesse seu filho para casa com segurança. Alexei adorou essa fase com seu pai. Ele vestia um uniforme de recruta e adorava escutar histórias dos homens e fazer inúmeras perguntas sobre o mundo. Nicolau cuidava tão bem do filho quanto Alexandra e ambos rezavam e dormiam juntos.

Pela manhã, Alexei tinha aulas diárias com Gilliard na varanda e depois isso iam brincar no jardim com um rifle de brinquedo, então eles almoçavam e descansavam um pouco. À tarde, iam de carro iam para um bosque ou margem de rio e acendiam uma fogueira. Quando estava calor, se banhavam no Dnieper. Além das brincadeiras e dos risos, também havia dor e Nicolau se certificou de que seu filho tivesse essa visão da realidade. Ele levava Alexei para hospitais, cidades, fábricas e estaleiros. Algum tempo depois, o príncipe teve uma crise de hemofilia e voltou para o aconchegante lar em Tsárskoe Seló.

Em 9 de março de 1917, Nicolau voltou a Tsárskoe Seló não como czar, mas apenas como “Cidadão Romanov”. Todos em casa já sabiam da notícia, uma vez que Alexandra deu a contou para suas filhas e Pierre Gilliard informou sobre a abdicação do tzar a Alexei. As cinco crianças estavam muito doentes, pois tinham pegado sarampo. Quando Nicolau, chegou Alexandra o esperava no quarto das crianças. Assim que a esposa o viu, foi correndo em direção aos seus braços. Alexandra assegurou que ele era infinitamente mais precioso como esposo e pai do que como tzar. Logo em seguida, o homem que governou cerca de 1/6 da Terra, se deitou no colo da esposa e chorou como uma criança. A partir desse momento, a vida dessas 7 pessoas iria mudar radicalmente, mas a família ficou mais unida do que nunca.

A humilhação estava por todo lado no Palácio Alexandre e até o pequeno Alexei sofreu com isso. Seu marinheiro-cuidador, Derevenko, havia mudado e não era mais o homem que protegia e cuidava do garoto. Agora ele gritava e maltratava o menino, obrigando-o a fazer todo tipo de trabalho servil, na medida em que Alexei tentava obedecer. Derevenko deixou o palácio imediatamente e apenas Nagorny ficou ao lado do garoto. Após um curto período, quando a saúde das crianças estava mais estável, foi decidido por Nicolau e Alexandra que eles deveriam continuar seus estudos. Nicolau se tornou professor de História e Geografia, a baronesa Buxhoeveden ensinava piano e inglês, Alexandra dava aulas de Religião, a condessa Hendrikov ensinava Arte, o dr. Derevenko deu aulas de ciências, Trina Schneider foi tutora de Matemática e Gramática russa e Gilliard, além de francês, se tornou diretor informal.

A czarina Alexandra Feodorovna, nos seus trajes de imperatriz da Rússia. Colorização: Klimbim.

Nicolau agora era apenas um home de família, algo que o deixava bastante feliz, embora fosse um momento difícil para ele. Passava o dia fumando, lendo, brincando com os filhos, cavando neve e passeando pelo jardim. Também aproveitou ocioso para ler a Bíblia por completo. Durante a noite, ele lia para sua família livros de literatura clássica russa e, além disso, tentou ajudar sua esposa nessa transição de vida e hábitos, cuidando dela pessoalmente com muito amor e dedicação.

A Páscoa dos Romanov nesse ano de 1917 foi carregada de expectativas e dor. Houve apenas uma simples e triste celebração da data. Como cristãos fiéis, os Romanov buscaram em Cristo a consolação e proteção para aquele momento. Com o passar dos dias, a vida foi se acalmando. Alexandra buscava refúgio em Deus e suas crianças fizeram questão de se lembrar de seu dia do nome, em 23 de abril, com presentes que elas próprias confeccionaram. Olga, por exemplo, compôs um poema muito especial:

Você é cheia de angústia

Pelo sofrimento dos outros.

E nunca ignorou

O sofrimento de ninguém.

Você é inflexível

Só consigo mesma,

Sempre fria e impiedosa.

Mas se ao menos pudesse olhar

Sua tristeza de longe,

Ao menos uma vez com espírito terno-

Oh, como teria piedade de si mesma.

Como choraria com tristeza.

Os Romanov pareciam então uma família como qualquer outra. Sua atividade favorita era cuidar do jardim, plantar e colher cenouras, cebolas, alfaces, rabanetes e repolhos. Nicolau começou uma sistemática e rigorosa derrubada de arvores mortas e as cortava como lenha para o inverno. Ele também aproveitava para levar Alexei e as meninas para passeios de bote a remo, no lago perto da Ilha das Crianças; andava de bicicleta com os filhos e cuidava e se divertia com os seus cachorros. As meninas adoravam escrever cartas para suas antigas amigas, lhe contando tudo sobre a nova vida. A travessa Anastásia se mostrava muito alegre em suas cartas para sua amiga Kátia, como essa por exemplo:

Estamos pensando muito em todo mundo; no momento em que escrevo esta carta, minhas irmãs estão sentadas ao meu lado na sala e bebemos chá, e Maria está sentada no peitoril da janela, escrevendo cartas; todos conversam muito e escrever cartas fica difícil. Mandam mil beijos. Você continua a praticar patins de rodinhas? Sente-se confortável morando com sua mãe em um novo lugar? Estou lhe enviando um broto de lilás do nosso jardim; que isso lembre você da primavera no Norte […]. Bem, Kátia, meu amor, preciso encerrar […]. Mandamos abraços enormes para todo mundo aí! Que o Senhor esteja com você. Um beijo carinhoso com todo o amor. Sua A. (apud RAPPAPORT, 2016, p.345).

Um grande divertimento da família era a paixão pela fotografia e as exibições da sua coleção de cinematógrafos sobre Alexei. Graças a um projetor que ele ganhou, a sua vasta quantidade de filmes era reproduzida. As quatro meninas eram símbolos de grande beleza, porém, desde o surto de sarampo, seus cabelos estavam caindo em grandes punhados. Sendo assim, no início de julho, precisaram raspar a cabeça. Alexei também fez isso como um ato de solidariedade. O querido tutor Gilliard foi responsável pela fotografia das cinco crianças e logo após sobre isso escreveu no seu diário:

Quando saíram no parque, estavam usando lenços arrumados de maneira a ocultar o fato. No momento em que fui tirar suas fotografias, a um sinal de Olga Nicolaievna [sic] todas subitamente retiraram o adereço. Protestei, mas elas insistiram, achando muita graça na ideia de se verem fotografas desse jeito, e não vendo a hora de presenciar a surpresa indignada de seus pais (apud RAPPAPORT, 2016, p.348).

Com efeito, todos pensavam que seriam mandados pelo novo governo para sua amada Crimeia. Porém, estavam destinados a um lugar menos ensolarado, Tobolsk, na distante e gelada Sibéria. Agora de partida, todos deveriam arrumar suas malas. Para Alexandra foi algo muito difícil, pois o antigo palácio foi seu lar por quase 20 anos, passando ali tantos momentos felizes quanto tristes. As meninas tiveram que se despedir de sua casa, das antigas bonecas de infância, dos álbuns de fotografias preferidos, das roupas e chapéus elegantes, já que para onde iriam não precisavam levar qualquer artigo de luxo (exceto as caríssimas joias da família). No dia primeiro de agosto, por volta das 5h15, a família Romanov se despediu da antiga casa pela entrada principal, onde, muitos anos atrás Catarina (a Grande) entrou pela primeira vez com seu neto no colo.

As crianças Romanov com as cabeças raspadas, em 1917. Da esquerda para a direita: Anastásia, Olga, Alexei, Maria e Tatiana.

Em 13 de agosto, os Romanov chegaram a Tobolsk, trazendo apenas o necessário e algumas lembranças felizes de suas vidas. A casa era bastante confortável para todos e logo de início já se acostumaram a essa vida. A rotina era um tanto parecida com a do Palácio de Alexandre, embora mais tediosa, com um espaço muito menor e horários para exercícios reduzidos. Porém, as coisas eram muito boas nessa região e a comunidade local era muito leal ao antigo tzar, sempre mandando alimentos para a família. O elo religioso entre os Romanov era muito forte, sendo que até os guardas e comissários ficaram admirados com isso. Uma das formas de escapar do tédio presente era os exercícios, passeios pelo jardim, longas leituras, brincadeiras simples, indo de vez em quando à igreja. As crianças continuavam com suas aulas, pois muitos de seus tutores antigos estavam na casa também. Parecia que todos ali pertenciam a uma grande e única família. O tédio também era afastado pelas brincadeiras Anastásia, com sua personalidade alegre e energética, sempre com comentários e piadas duvidosas. Todos se divertiam com ela, inclusive Alexandra, que em uma das peças encenadas pelas crianças riu muito alto devido ao comportamento da quarta filha.

Pouco tempo depois, Nicolau deveria ir para Moscou e Alexandra decidiu acompanhar o esposo, deixando os quatro filhos sob os cuidados dos tutores, médicos e serviçais. As crianças decidiram entre si e escolheram Maria para acompanhar os pais. Como Alexei estava se recuperando de uma crise de hemofilia, então Olga e Tatiana deveriam cuidar do irmãozinho. Em uma de suas cartas a Maria, a alegre Anastásia relata sobre a rotina diária em Tobolsk:

Nós nos revezamos tomando café da manhã com Alexei e obrigando-o a comer, embora haja dias em que coma sem necessidade de ninguém mandar. Vocês estão em nossos pensamentos o tempo todo, queridos. É terrivelmente triste e vazio; realmente não sei o que me acontece. Temos as cruzes de batismo, é claro, e recebemos notícias suas. Então Deus ajude, e vai nos ajudar. Fizemos um lindo arranjo na iconóstase para a Páscoa, todo de abeto, que é como fazem por aqui, e flores, também. Tiramos fotos, espero que cheguem […]. Brincamos no balanço e como ri quando cai, que aterrisagem, francamente! […] Tenho um caminhão de coisas para contar […]. Está fazendo um tempo tão bom! Eu seria capaz de gritar, de tão bonito. É estranho dizer, estou mais queimada que todo mundo, um verdadeiro árrrabe [sic]! […] Estamos todos juntos aqui neste instante, como sempre, mas sinto saudades da sua presença na sala […]. Lamento por escrever uma carta tão confusa, mas você sabe como meus pensamentos vão longe e não consigo dizer tudo, então escrevo o que me vem à cabeça. Quero muito ver você, é uma tristeza terrível. Eu saio para caminhar, e depois volto. Um tedio dentro e fora. Vou ao balanço; o sol saiu, mas estava frio, e minha mão mal consegue escrever (apud RAPPAPORT, 2016, p.398).

Em 20 de maio de 1918, o restante das crianças foi ao encontro dos pais, que estavam morando em uma residência em Ecaterimburgo. Todos ficaram muito alegres por se reunirem novamente. Porém, durante o caminho, as crianças foram separadas de seus tutores e demais servos, sendo um momento doloroso e triste para todos eles, pois jamais voltariam a se ver novamente. Diferentemente de Tobolsk, a nova residência era uma verdadeira prisão, com as janelas eram pintadas de branco, o espaço pequeno, havendo apenas um curto horário para exercícios e eles não tinham privacidade e liberdade. Infelizmente, os Romanov sofriam constantes humilhações e provações, mas todos ali tentavam manter a calma, união e fé de que as coisas iriam melhorar. Alexandra e Alexei estavam sempre doentes e Nicolau buscava manter a tranquilidade. Já para as meninas, foi um pouco mais doloroso. Eram jovens mulheres alegres que estavam presas em um ambiente quase que opressor, sem a mínima noção do que poderia acontecer a todos. Os Romanov buscavam refúgio e consolo em Deus, aceitaram seu destino incerto e perdoaram seus inimigos e opressores. No início do ano, ainda em Tobolsk, Olga mostrou os sentimentos sinceros da família para uma amiga por meio de uma carta:

O pai pede para que seja repassado a todos que permanecem leais a ele, e àqueles sobre os quais estes possam ter influência, que eles não se vinguem por ele; ele perdoou e reza por todo mundo; e que não se vinguem por si próprios, e que se lembrem que o mal que agora assola o mundo se tornará ainda mais poderoso, e também que não é com o mal que se combate o mal, e sim com o amor  (apud RAPPAPORT, 2020, p. 230).

“A família que reza unida permanece unida”. Nenhuma frase poderia definir melhor os Romanov. A religião foi o principal elo que uniu essas 7 pessoas, inicialmente com a saúde precária de Alexandra, depois com a terrível hemofilia de Alexei e os tempos de isolamento, humilhações e dúvidas. Possivelmente cientes de seu destino, os Romanov se entregaram a Deus de coração e alma. Seu destino, porém, estava nas mãos dos homens.

Referências Bibliográficas:

MASSIE, Robert. K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda da dinastia Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

 RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: as vidas das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

_.Os últimos dias dos Romanov. Tradução de Luís Henrique Valdetaro. Rio de Janeiro: Record, 2020.

Texto revisado por Renato Drummond Tapioca Neto

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