A História nas Páginas de “O Outono do Patriarca”

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Escrito por Gabriel García Márquez e publicado pela primeira vez em 1975, El Otoño Del Patriarca (no Brasil: O Outono do Patriarca) é um romance histórico que possui em sua narrativa diversos elementos acerca do contexto ditatorial latino-americano e as relações de poder estabelecidas entre os personagens centrais na referida trama. Em sua construção, Márquez apresenta a figura do ditador onipotente que, aos poucos, vai perdendo seu prestígio e importância, mostrando assim, o complexo sistema de interesses políticos e econômicos representado pela ditadura. A partir desse ponto, fica evidente para o leitor a forma como o autor estabelece uma espécie de jogo de simultaneidade, no qual o personagem inicialmente cruel e cheio de autoridade, através de uma representação cíclica do tempo, é destituído de sua relevância naquele contexto de tensão em que a América Latina passava naqueles anos. Entretanto, ao se fazer uma segunda leitura da obra, percebemos como aquele personagem, que à primeira vista é pleno de poderes, também apresenta fraquezas e sensibilidades que, por sua vez, irá refletir-se em suas próprias ações determinando, dessa forma, o curso dinâmico-espacial do enredo.

Gabriel García Márquez

Gabriel García Márquez

Ao apresentar o personagem do ditador destituído de sua aparente imponência, Gabriel García Márquez abre um leque de possibilidades para se reinterpretar os fatos políticos que abalaram vários países do continente americano na segunda metade do século XX. Para muitos, a utilização de um determinado romance histórico para se estudar o passado constitui-se em uma fonte muitas vezes imprecisa e em alguns casos mesmo equívoca, dado ao caráter ficcional que é inerente a tal produção. Sendo assim, faz-se inevitável não discutir aqui quais as relações que o campo da Literatura estabelece para com o da História, afim de melhor compreender as contribuições que uma obra como El Otoño Del Patriarca pode oferecer para uma reescrita do tempo vivido. Nesse caso, é plausível dizer que a partir das palavras de um autor, podemos identificar sua ideologia e preconceitos, assim como os da sociedade da qual ele faz parte. Essa afirmação estabelece uma ligação íntima com os novos conceitos trabalhados pelo campo da História cultural, que têm sido ampliados de forma a abranger temáticas das mais diversificadas, como, por exemplo, um estudo sobre a sexualidade ou a vida privada, duas vertentes muito utilizadas por romancistas.

Gabriel García Márquez, por sua vez, não foge a essa recíproca e consegue escrever uma trama inteligível aos olhos do leitor, sem, contudo, deixar de ser fiel ao contexto temporal no qual sua obra se insere. Por meio das páginas de seu romance, o autor estabelece uma dura crítica à sociedade de seu tempo e ao regime político no qual ele próprio está condicionado, ou seja, a ditadura latino-americana. Mas no caso dos romances históricos, temos um novo desafio, que é a apropriação de personagens reais do passado para a construção de acontecimentos e cenas registrados pelo tempo, porém dotadas de falas e ações desconhecidas pelo grande público. Segundo a historiadora Laila Brichta:

“A escrita do passado realizada pelos romancistas, que tentam compreender a história, escrevendo-a, parece-me algo já bastante aceite. Esses romancistas, semelhante aos historiadores, elaboram o passado, seja pela apropriação de determinado conhecimento histórico presente no romance histórico tradicional, seja pela via do questionamento e da crítica histórica oficial, presentes na narrativa do novo romance histórico…” (BRICHTA, 2002, pag. 07).

De acordo com o excerto acima, percebe-se como a categoria do romance histórico apresenta duas tipologias: na primeira, observamos certo acontecimento passado como pano de fundo para uma trama inventada e contemporânea ao escritor; já no novo romance histórico, há uma recriação do tempo vivido, de forma reelaborada, que por muitas vezes se configura no foco principal de narrativa. Mas até que ponto os acontecimentos ali descritos pelo conferem com os fatos históricos? Podemos responder a esta indagação ao se ler as páginas de El Otoño Del Patriarca.

Ao apresentar o personagem do ditador destituído de sua aparente imponência, Gabriel García Márquez abre um leque de possibilidades para se reinterpretar os fatos políticos que abalaram vários países do continente americano na segunda metade do século XX.

 O ditador é apresentado na obra destituído de sua aparente imponência. 

Como já dito anteriormente, Gabriel García Márquez traz para sua obra a representação do ditador, “talvez um ditador de mentira, quiçá uma ‘mentira da imaginação” (BRICHTA, 2002, pag. 16). O romance aborda a vida do patriarca em suas esferas familiar, afetiva, amorosa e privada. Sendo assim, aquele que viria a ser o tirano, antes de chegar a exercer poderes quase ilimitados, era um homem tão ou talvez até mais infeliz do que os outros. Figura bastante solitária, quando próximo de seu fim, ele passa a questionar-se sobre o poder e quem realmente era detentor do mesmo, pois até então já não sabia mais quem mandava e quem obedecia, ou se ele havia sido de fato um ditador. A partir desse posicionamento, percebe-se como o autor utiliza aquele personagem, que representa a tirania do sistema ditatorial latino-americano, para questionar seu papel como líder e quais foram às mudanças que a sociedade atravessou sobre seu comando, uma vez que não tinha certeza se havia exercido o poder que tanto desejava, pois “había llegado sin assombro a la ficción de ignominia de mandar sem poder, de ser exaltado sin gloria y de ser obedecido sin autoridade” (MÁRQUEZ, 1999, págs. 295-296).

Dessa forma, Márquez revela-nos quais são os anseios de seu protagonista, suas indagações e medos, que, por sua vez, pode muito bem ser interpretados como uma variação concedida pela nova narrativa hispano-americana. Dividido em seis capítulos, El Otoño Del Patriarca apresenta uma linguagem bastante fluída e sem muita complexidade. Apresenta em seu enredo um intricado jogo de personagens, entre os quais destacamos os seguintes:

… o ditador, escrito sempre com letra minúscula e nunca junto a algum nome próprio, também chamado simplesmente general; Bendición Alvarado, sua mãe; Patrício Aragonés, o sósia do ditador que foi o impostor oficial; general Rodrigo de Aguilar, compadre de toda vida e braço-direito do ditador; Letícia Nazareno, esposa legítima do ditador; Manuela Sánchez, rainha de beleza dos pobres, por quem o ditador se apaixonou; general Saturno Santos, o índio descalço, fiel guarda-costas do ditador em seu tempo de glória; o padre Demétrio Aldous, descobridor de histórias e verdades sobre a morte de Bendición Alvarado e a respeito da vida política do general; José Ignácio Saenz de la Barra, o Nacho, homem violento e responsável na captura dos assassinos de Letícia Nazareno e seu filho; e o narrador. Há outras personagens apenas circunstanciais, como os inúmeros generais e embaixadores, que aparecem no enredo para alguma narração episódica, as serventes e concubinas do palácio presidencial, os camponeses, as cartomantes e pitonisas, as prostitutas do porto, as colegiais, etc.. (BRICTHA, 2002, pag. 17).

Existem ainda alguns outros personagens, porém não tão relevantes quanto os que foram apresentados no seguinte trecho devido à sua ligação com a figura do ditador. Os demais, ou seja, os secundários, não se relacionam entre si e, por isso, deixarei de fazer neste presente texto um comentário mais específico sobre suas respectivas participações, embora não as considere destituídas de sua importância.

Há quem observe a referida obra como um “romance de ditador”, uma vez que apresenta esse personagem como a figura central da narrativa. Despojando-o dos maniqueísmos e das caricaturas típicos em outras obras da literatura hispano-americana, Márquez apresenta o ditador como personagem que sustenta o enredo, que tem ideias e as executa, mediante seu estado de espírito. Em uma escala reducionista, talvez El Otoño Del Patriarca possa mesmo ser caracterizado como “romance de ditador”. Entretanto, classifica-la dessa forma é desconsiderar toda critica que o autor faz ao regime político de seu tempo, por meio de uma trama aparentemente de cunho ficcional. A narrativa do livro é marcada por uma falta de linearidade cronológica, que, a meu ver, está longe de complicar a leitura do mesmo.  Esse aspecto pode ser notado já nas primeiras páginas do romance, que se inicia em um determinado tempo, para logo depois retroceder ou avançar conforme sua necessidade de explicar alguns fatos.

 Segundo Laila Brichta, em sua dissertação de mestrado pela UNICAMP, esse aspecto é bastante marcante na nova narrativa hispano-americana, sendo essa, aliás, uma de suas principais características. Se num primeiro momento o leitor se depara com um excesso de informações e alguma prolixidade, isso pode muito bem ser explicado “pela escolha do autor de anunciar as personagens e os acontecimentos importantes algumas páginas ou capítulos antes destes serem desenvolvidos. Esses anúncios podem ser feitos por qualquer personagem, mas geralmente são realizados pelo narrador. Quando o assunto é desenvolvido quem o narra e o protagoniza é o ditador, no tempo em que ocorreu e não como uma lembrança” (BRICHTA, 2002, pag. 19). Governando a nação com autoridade, o ditador aparece como um personagem astuto o suficiente para deixar-se ser derrubado por qualquer inimigo e quando a suspeita da traição pairava sobre sua cabeça, não hesitava em mandar executar seus outrora parceiros, impedido com tais atitudes a formação de clubes oposicionistas que tivessem por finalidade derrubar seu governo. Morre, no entanto, como um velho doente, senil e solitário.

El Otoño Del Patriarca.

El Otoño Del Patriarca.

Diante do que foi exposto, é possível concluir que por meio das páginas de El Otoño Del Patriarca, Gabriel García Márquez traz à tona uma série de pontos chaves para se discutir a ditadura na América Latina. De maneira semelhante, Jorge Amado trouxe para o universo da literatura todos os jogos de interesses políticos pelos quais passava a sociedade de Ilhéus no tempo de apogeu da economia cacaueira, dominada pela elite ligada ao coronel. Sendo assim, o que fica claro na obra de Márquez é que uma obra aparentemente de cunho ficcional pode abordar várias questões pertinentes para se entender o passado, trazendo para suas páginas uma interpretação diferenciada dos acontecimentos que não necessariamente está alheia à História factual. Ele apresenta o ditador não apenas como alguém pleno de poderes, vingativo e sanguinário, mas também como um ser humano frágil, que ama e sofre como aqueles que estão à sua volta. Dessa mistura de poder com vida privada surge um contraste bastante interessante acerca dos interesses políticos que guiavam as nações latino-americanas na segunda metade do século XX. Esse aspecto, por si só, já se constitui num precioso ponto para se questionar as funções que tais personagens exerceram na vida real, despojando-os dos estereótipos que a historiografia tradicional construiu em cima destes ao longo dos anos.

 Texto publicado pela quinta edição da revista Literatortura.

Referências Bibliográficas:

BRICHTA, Laila. As histórias nas páginas de um romance: análise da representação de ditadura na obra El Otonõ del Patriarca.– Campinas, SP: [s.n.], 2002.

CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs.). Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. – 5ª edição. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

GARCÍA MÁRQUEZ, Gabriel. El Otoño del Patriarca. – Barcelona: Plaza y Janes; 1999.

WATT, Ian. A ascensão do romance. Tradução de Hildegard Feist.- São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

 

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