O discurso feminino em “Diário secreto de Ana Bolena”.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Lançado em 1997, The Secret Diary of Anne Boleyn (em português: Diário secreto de Ana Bolena), se configura numa das maiores obras da carreira de Robin Maxwell como romancista. Nas palavras de Susan Bordo (2013, p. 219), a maioria dos romances sobre Ana, escritos na década de 1980 e 1990, foram muito simpáticos para com ela. O próprio livro de Maxwell (1997) é construído em torno da uma ficção deliciosa em que Elizabeth descobre o diário de Ana e aprende o quanto sua mãe a amava e quão “cruel e escandalosamente injusto” seu pai tinha sido; o conhecimento redime Ana nos olhos de sua filha Elizabeth, que passa a ter cuidado na sua vida em dar muito poder aos homens. Ou seja, o enredo do referido romance narra a trajetória de uma mulher no centro das atenções, que pouco sabia da vida de sua mãe. De repente, cai em suas mãos um diário da mesma, na qual a autora conta uma versão diferente sobre seu caso com o rei Henrique VIII, o nascimento da filha, e a própria morte.

Robin Maxwell, autora de "The Secret Diary of Anne Boleyn".

Robin Maxwell, autora de “The Secret Diary of Anne Boleyn”.

Sendo assim, é interessante notar o pensamento feminino atual presente na trama, e que foi muito bem destacado por Bordo: Elizabeth, que no início do romance sofre por estar enamorada de Robert Dudley, em detrimento de seu dever como rainha, aprende com a história da ascensão e que da própria mãe qual era o destino de mulheres que, por quererem ser algo além do que a sociedade permitia, perderam a própria vida ao sacrificarem tudo por amor. Em sua posição de soberana, ela gozava de maior privilégio e liberdade do que as demais, e então decide que, para reinar de forma absoluta, não deveria se submeter à vontade masculina. Essa força e independência, contudo, só é despertada nela após o conhecimento do diário secreto de sua mãe, que, por sua vez, ela carregará consigo por muitos anos. Entretanto, como toda ideia de representação não deve ser obrigatoriamente fiel à narrativa original, Maxwell altera um pouco os fatos, para deixa-los mais consumíveis aos olhos do grande público, e cria em sua trama um personagem feminino e forte, mas também sensível e apaixonável.

Apesar da rainha Ana não ter deixado de fato um livro contendo detalhes de sua vida escritos a próprio punho, o enredo contado no romance coincide com a história factual, exceto por algumas poucas passagens, como o fato de a rainha Ana ter seis dedos, ou ser envolvida com práticas de feitiçaria[2]. De acordo com a maioria dos biógrafos de Ana Bolena (personagem histórico), entre eles Eric Ives[3], seria improvável que uma dama portadora de deformações físicas chamasse a atenção de um homem tão asseado como Henrique, ainda mais porque no século XVI ainda persistia a crença de que a mãe passava todos os defeitos corporais para o filho, e uma criança debilitada passava longe das pretensões do rei. Não só isso: era atribuído às mulheres inclusive a formação do sexo do bebê na gestação, e caso a criança nascesse morta ou com qualquer tipo de problemas, a culpa era sempre das mães, mas nunca dos pais (DUNN, 2004, p. 83).

Em The Secret Diary of Anne Boleyn, essa perspectiva é apresentada quando Ana aborta um filho homem em princípios de 1536: “Diário, Passou-se aquilo que eu mais temia. Abortei o meu salvador, pois a carne ensanguentada que expeli do meu ventre, era certamente um varão…” (MAXWELL, 2002, p. 236). Uma vez que Henrique se casara com Ana Bolena na esperança de que ela pudesse lhe dar um filho saudável, e esta, tal qual Catarina de Aragão, não cumprira esse desejo, então as pessoas acusaram o aborto da rainha como resultado de possíveis práticas de bruxaria e, portanto, se fazia necessário que o rei arrumasse uma nova esposa o mais rápido possível.

Com efeito, a crença na existência de bruxas era admitida inclusive entre os ciclos mais eruditos. Jane Dunn:

Era na área do sexo que mais se temiam e condenavam as atividades das bruxas. Uma bruxa era representada como a personificação das qualidades invertidas da condição feminina: enquanto as mulheres normais eram mais fracas que os homens e submissas, as feiticeiras eram duronas, com acesso ao poder proibido; enquanto as mulheres eram passivas sexuais, as bruxas eram vorazes em seus apetites e depravadas. Elas tinham conhecimento exclusivo de receitas para afrodisíacos e podiam fazer homens se apaixonarem perdidamente pelas mais improváveis mulheres – até pelas cercadas de trevas como elas próprias… (DUNN, 2004, p. 83-84).

Sendo assim, uma mulher com as características de Ana Bolena, constituía-se num prato cheio para aqueles que queriam acusá-la de bruxa e de manter relações com o diabo. Nesse caso, afirmas algumas deformidades físicas nela só endossaria ainda mais o argumento de que ela valeu-se de sortilégios para conquistar o rei (idem, p. 82).

No entanto, quando retornara de seu exílio após o caso com Percy, Ana Bolena passara a integrar o séquito de damas da rainha Catarina, e possivelmente foi quando o rei apaixonara-se por ela. Não se sabe ao certo quando o envolvimento dos dois teve início, mas Robin Maxwell, em seu romance, data esse acontecimento em meados de 1526:

Diário, Sua Majestade persegue-me, mas mesmo assim, resisto-lhe. Diz que é um homem louco de amor e assim parece. Esfumou-se o mau humor para dar lugar a uma nova força varonil. Mostra-se de novo agressivo nos seus deveres de rei, tendo recuperado a imagem de brilhante estadista. Fala-me da família, dos filhos e de como os há de casar. Pensa mesmo unir o filho bastardo, que teve com Bessie Blount, com a obediente filha Maria. Tudo, diz ele, será melhor que ter uma mulher no trono de Inglaterra. As mulheres não têm energia para manter a paz… (MAXWELL, 2020. p. 63).

A fala de Ana Bolena no romance ressalta perfeitamente a crença generalizada de que mulheres eram incapazes de governar. No caso do personagem Henrique, era preferível a ele ver seu filho bastardo no trono, a deixar que sua filha com Catarina de Aragão, Maria, o sucedesse. Dessa forma, ele pretendia pedir ao Papa um dispensa para casar os dois filhos, para que assim não fosse considerado pecado aos olhos de Deus.

Diário secreto de Ana Bolena

Capa da versão portuguesa de “The Secret Diary of Anne Boleyn”.

Um ano depois, no decorrer da trama do romance, os planos de Henrique mudam: ele não mais queria encontrar uma forma de legitimar a sucessão de seu filho bastardo, mas sim contrair segundas bodas. Mais uma vez, a personagem Ana escreve em seu diário como foi o dia em que o rei lhe pediu em casamento:

“Henrique pressionava-me continuamente, enchendo-me de promessas e beijos. ‘Quero casar-me convosco,’ afirmava, ‘casar-me convosco e repudiar Catarina.’ No entanto, as palavras soavam-me a falso, pois Catarina é do mais puro sangue real de Espanha, estimada por todos e tão devotada que deve comunicar diretamente com Deus. Porém, Henrique não desistia…” (MAXWELL, 2002, p. 84).

Desse modo, é plausível dizer que não fora Ana quem se interessara por Henrique, mas Henrique por ela.

Não obstante, uma vez que ela já gozava de poder e prestígio diante do rei, ela poderia usar dessa influência para conseguir coisas que antes não podia, entre elas, a vingança. Tal sentimento, entretanto, não era apreciável em mulheres da época, pois geralmente estavam ligadas a intrigas e conspirações, duas artes pouco louváveis em uma dama de família tradicional, por exemplo. Diz Jacobus de Cessolis (apud LOADES, 2010, p. 12) o seguinte:

Uma rainha deverá ser casta, sensata, de gente honesta / ter boas maneiras e educar os seus filhos de forma normal / a sua sabedoria não deve resultar apenas em fatos e ações, mas também em falar do que deve saber e guardar segredo do que deve permanecer secreto… Uma rainha deve ter boas maneiras e, acima de tudo, deve ser temerosa e recatada.

Naqueles anos, o grande modelo feminino era a rainha Catarina de Aragão, especialmente pelo seu caráter leal, piedoso, corajoso e compassivo (FRASER, 2010, p. 569). Era a perfeita esposa, e caso tivesse dado um filho saudável ao rei, é de se acreditar que este não a teria repudiado, principalmente para não invalidar os direitos da criança à sucessão do trono.

Nesse caso, é importante frisar que o papel de uma rainha consorte, antes de tudo, era o de fornecer uma prole numerosa de sucessores à coroa. Assuntos ligados à política, por sua vez, não eram tarefa delas, exceto em casos nos quais o rei dava uma brecha para isso, como o próprio Henrique fazia com a Catarina, e depois desta, com Ana (LOADES, 2010, p. 14). A erudição era uma arte preferível aos homens. As mulheres, com efeito, deveriam cuidar da supervisão do lar e demais afazeres domésticos. Então, Ana Bolena, com sua carga de conhecimento humanista, constituía-se na imaginação popular como alguém pronta para destruir o lar patriarcal da família inglesa. Inclusive, muitas das atitudes de Henrique, após o caso do divórcio ter se tornado de conhecimento público, foram atribuídas à influência dela (DUNN, 2004, p. 80), especialmente a queda do chanceler, cardeal Wolsey.

A narrativa romanesca das últimas décadas do século XX e início do XXI, incluindo em The Secret Diary of Anne Boleyn, conclui que Ana não gostava do cardeal, por acreditar que ele fora o pivô da separação entre ela e Henry Percy, no ano de 1522. Até mesmo George Cavendish, em seu Life of Wolsey, afirma que o ressentimento dela para com o chanceler se acirrou após este episódio (FRASER, 2010, p. 171). Vejamos, então, como Maxwell apresenta a queda do cardeal, em 1529, na voz de Ana Bolena (personagem fictício):

A minha participação constituiu em fazer ver a Henrique que Wolsey não era um amigo, mas sim quem, muito pelo contrário, tinha sido a causa de muitos problemas e desgraças para o Rei. Enquanto passeávamos nos jardins de Greenwich, com o vento a fazer rodopiar as folhas junto aos nossos pés, fiz um sermão a Henrique como se fosse um severo preceptor.

– O grande empréstimo contraído pelo cardeal para pagar a vossa guerra contra os franceses – disse eu – endividou todos os súditos ingleses do reino em pelo menos cinco libras. Mas o pior foi que os seus erros diplomáticos nos privaram dos nossos aliados franceses e tornaram inútil toda a subserviência para com o rei Francisco. A Inglaterra perdeu sua posição entre as potências europeias.

Henrique assentiu com um gesto grave, sabendo que aquilo que eu dizia era verdade, o que me deu coragem para prosseguir.

– Haveis erguido este sacerdote a uma altura tal que a sua riqueza ascende a um terço do vosso tesouro, e ele não tem um país para governar com o seu rendimento. Sabeis que chamam ao vosso cardeal de rei da Europa?

Henrique estremeceu como se lhe tivesse desferido um golpe, pois na sua indignação contra o velho Wolsey, misturavam-se também a lealdade e o amor, e sofria por ter de se separar dele. Mas não havia outro remédio. O seu destino estava traçado (MAXWELL, 2002, p. 137).

Essa passagem demonstra não apenas a suposta intervenção de Ana na queda de um dos homens mais poderosos de Inglaterra[4], como também uma característica bastante peculiar de seu caráter: o domínio da retórica.

Capa da edição de aniversário de "The Secret Diary of Anne Boleyn".

Capa da edição de aniversário de “The Secret Diary of Anne Boleyn”.

Conhecida como a arte dos advogados, a retórica era essencial para manter uma conversa inteligente, mas entre homens. Mulheres dominando essa prática? Nem pensar. Elas deveriam permanecer caladas e apenas escutando. Contudo, Ana era uma mestra nessa área, e esta era uma de suas características que mais incomodavam a Henrique VIII[5]. Vitoriosa, ela não só derrubou seus inimigos, como galgou o mais alto posto na escala social que uma mulher de ascendência comum poderia sonhar: a realeza. Essa passagem, no romance, é descrita da seguinte forma:

“30 de Maio de 1533.

“Diário, Será verdade: Atrever-me-ei a escrever estas palavras? Fui coroada rainha de Inglaterra. Rainha Ana. Ana, a Rainha. Anna Regina. As palavras assim ligadas parecem-me justas. O meu coração agora a ritmo normal, mas nessas horas que duraram o cortejo e as cerimônias, receei várias vezes poder rebentar de alegria e terror (MAXWELL, 2002, p. 180).”

Uma vez coroada rainha, não havia outra posição social à qual Ana Bolena (personagem fictício) conseguiria subir. Dessa forma, ela só podia descer, e a queda, contudo, seria mais rápida do que a ascensão. Comparando esse aspecto do romance com a história, é interessante notar que Ana é interpretada por Robin Maxwell como uma espécie de jogadora, que apanhou o destino nas próprias mãos e seguiu em frente. Apenas no desfecho da narrativa é que ela perde o controle da situação, ficando à mercê de seus inimigos e da cólera do rei.

As acusações de adultério com três homens da câmara do rei fora extraída a base de tortura física, do tocador de alaúde Mark Smeaton. Nesse caso, é compreensível que um homem em tais circunstâncias confesse qualquer coisa para aliviar seu sofrimento. Quanto ao irmão da rainha, George, a prova de incesto fora oferecida pela mulher dele, Jane Rochford, que não gostava da cunhada e temia cair em desgraça junto com a família Bolena. Em The Secret Diary of Anne Boleyn, é possível perceber o desespero de Ana (personagem fictício), quando ela descreve sua situação:

Diário, encontro-me prisioneira na Torre de Londres, Chorai por mim, pois estou certamente perdida, acusada de adultério, que é o mesmo que traição. Em Inglaterra o adultério praticado por uma rainha é traição e a traição é punida com a morte. Nem sequer posso esperar um julgamento imparcial, nem que se contentem a enviar-me para um convento distante, pois Henrique quer-me morta… (MAXWELL, 2002, p. 241).

Em sua fala, ela já deixa clara a situação em que se encontra: se para uma mulher, cometer adultério era um crime contra a moral e passível dos piores castigos, para uma rainha isso era sinônimo de apenas uma coisa, ou seja, a morte.

Acusando sua mulher de infidelidade, Henrique conseguiu o que queria. Livrou-se do estorvo e se casou com Jane Seymour, que após lhe ter dado um filho varão, morreu poucos dias depois em consequência do parto. Mas a História às vezes costuma pregar peças, e quis o destino que o grande sucessor de Henrique VIII não fosse o menino por quem tanto lutara, mas uma garota: Elizabeth, sua filha com Ana Bolena. Após ler todo o diário de sua mãe, o personagem Elizabeth, que antes tinha um grande fascínio pelo pai, toma uma grande resolução em sua vida: permanecer longe do poder dos homens. O romance termina com a seguinte passagem:

Isabel voltou-se e abandonou a capela com a força do destino atrás de si, fechando com estrondo as pesadas portas.

Sim, pensou enquanto caminhava em direção à tarde soalheira, sou filha de minha mãe. E tudo farei para que ela se sinta orgulhosa de mim (MAXWELL, 2002, p. 276).

Com isso, Robin Maxwell apresenta para seus leitores uma nova interpretação acerca da história de Ana Bolena (personagem histórico). A narrativa, entretanto, ainda continua em outro romance, intitulado The Queen’s Bastard, pautado mais na figura da própria rainha Elizabeth e seus desafios como uma monarca absoluta.

Elizabeth I

Elizabeth I

A figura de Ana Bolena construída pela autora não condiz com o ideal de mulher passiva do século XVI, mas sim com o da força e determinação que marcam a luta das adeptas do feminismo nas últimas décadas do século XX e início do XXI. Essa perspectiva é apresentada pela própria personagem, quando esta diz:

“Neste mundo, uma mulher nasce com um dono que é seu pai. Este governa-lhe a vida até a entregar nas mãos de um marido, que lhe governa até à morte. Muitos pregadores afirmam que a mulher não tem alma. Porém uma qualquer alteração da minha natureza, sempre me impediu de obedecer aos homens” (MAXWELL, 2002, p. 276).

Dessa forma, Maxwell oferece para seus leitores um enredo contextualizado em uma época na qual o pensamento conservador ditava o comportamento das classes sociais, porém com uma mensagem feminista própria dos tempos modernos: a história de uma mulher que lutou pelo que desejava, passando por cima das barreiras das convenções sociais, provando que seu sexo não era fraco como as mentes masculinas supunham. Essa característica, contudo, Ana Bolena passaria para sua filha, Elizabeth, que governou a Inglaterra numa das fases mais prósperas já registradas até então.


[2] Para saber mais sobre as supostas falácias envolvendo a compleição física de Ana Bolena e a crença de que ela era uma bruxa, é interessante ver a desconstrução que Susan Bordo faz desses mitos em: BORDO, Susan. The creation of Anne Boleyn: a new look at England’s most notorious queen. – New York: Houghton Mifflin Harcourt, 2013. p. 20-47.

[3] IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010. p. 37-45.

[4] Para saber mais sobre Ana Bolena e a que de Wolsey ver Anne Boleyn and the fall of Wolsey. In: IVES, Eric W. The life and death of Anne Boleyn: ‘the most happy’. – United Kingdom: Blackwell Publishing, 2010. p. 110-126.

[5] Sobre o estudo da retórica no século XVI, e a aplicação desta ao ensino das mulheres, ver mais em DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004. P. 103-140.

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