Joana I de Castela: a rainha que ficou conhecida como “a louca” – Parte IV (Final)

Conclusão – Os últimos anos de uma rainha

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Com a morte de Felipe “o Belo”, o caminho da regência estava mais uma vez livre para Fernando II de Aragão. Com base na suposta insanidade da filha, ele assumiu o controle de todos os reinos espanhóis e se casou pela segunda vez com uma princesa francesa, Germana de Foix, em 1505. Se o rei de Aragão tivesse um filho varão de sua nova consorte, poderia organizar um golpe para o colocar inclusive no trono de Castela, algo que certamente amedrontou a rainha Isabel nos seus últimos anos. Joana era a herdeira legítima de seus pais e seu filho, Carlos, depois dela. Sendo assim, alguns historiadores acreditam que, tendo uma inaptidão para assuntos de Estado, a rainha desejava simplesmente deixar o caminho livre para que Carlos a representasse quando chegasse a hora certa. Enquanto isso, começou a correr a lenda da marcha de Joana até Granada, para enterrar o marido no local de descanso desejado pelo mesmo. À medida que ia rumo ao sul da península, acompanhada do cadáver de Felipe, os boatos de sua loucura só faziam aumentar. Entretanto, ela teve que fazer uma interrupção no cortejo fúnebre na cidade de Torquemada, para dar à luz pela sexta vez a uma menina, Batizada de Catarina. Com os anos, aquela criança seria rainha de Portugal e regente de seu vasto império ultramarino.

A marcha de Joana com o caixão de Felipe de Habsburgo até Granada, por Francisco Pradilla (1877).

Contudo, o rei Fernando ainda tinha planos para a sua filha: queria casá-la pela segunda vez, com o viúvo rei Henrique VII da Inglaterra. As negociações, porém, foram interrompidas pelo próprio monarca inglês. No ano de 1509, o rei de Aragão resolveu mandar sua filha para o famoso castelo de Tordesilhas (que seria demolido em 1771), local de assinatura do tratado que dividia a América para portugueses e espanhois.  O corpo de Felipe, por sua vez, foi depositado em um monastério próximo e Juana o visitava com frequência. Poderia se dizer que era louca, ou uma mulher enlutada pela perda do homem que amava? Com efeito, a história julgou a figura de Joana de forma bastante negativa. A imagem de uma rainha apaixonada e inconsequente foi resgatada durante o período vitoriano, quando a literatura de romance (gênero em ascensão no século XIX) trouxe para as páginas dos livros o estereótipo da “pobre soberana de Castela”, ensandecida pelo amor não correspondido. Muitos, inclusive, acreditam que ela herdou a esquizofrenia da própria avó, Isabel de Portugal. Juana manteve a filha mais nova ao seu lado pelo tanto de tempo que lhe foi permitido. Aquela garotinha era a última lembrança que seu marido lhe deixara ainda no ventre. Ao atingir a idade casadoura,  Catarina foi dada em matrimônio ao rei D. João III de Portugal.

Joana visitando o cadáver de Felipe, por Lorenzo Vallés (1866).

Em 1516, Carlos finalmente ganhara o governo dos reinos Espanha como Carlos I, embora fosse Joana a verdadeira dona da Coroa. Um aspecto interessante nessa narrativa é que, apesar de sua ausência física, a imagem mítica e majestática de Joana como rainha reinante sempre se fez presente no regime de Carlos. Era o nome dela que vinha gravado em documentos estatais e não raro estes continham a sua assinatura. Algumas pessoas, inclusive, acreditavam que ela era perfeitamente capaz de governar, e chegaram mesmo a lhe implorar para que reassumisse o trono. Porém, o que os apelantes não levaram em consideração era a própria vontade daquela mulher, que preferia permanecer no estado de reclusão em que se encontrava. A História está cheia de exemplos femininos fortes como Joana I de Castela que, por querer ser mais do que a sociedade lhe permitia, foi condenada às mai terrível clausura. Algumas dessas mulheres eram pessoas mais simples, como curandeiras que foram acusadas de bruxaria e queimadas vivas, ou até mesmo outras soberanas obstinadas que, por extravasarem sua dor e sentimentos aos demais, foram chamadas de loucas e afastadas do poder, como aconteceu com a rainha Maria I de Portugal quase três séculos depois.

Dona Joana em reclusão no castelo de Tordesilhas, com sua filha pequena, a infanta Dona Catarina, futura rainha de Portugal. Tela de Francisco Pradilla (1906).

Com efeito, os 49 anos que Joana passou em Tordesilhas foram dedicados à religião, visando a preservação de seu espírito. Nesse estágio de sua vida, a outrora princesa teimosa e enérgica se resignou abaixou a cabeça diante da suposta vontade de Deus e dos homens. Durante esse tempo, seus filhos pouco lhe visitaram, uma vez que tinham na tia, a arquiduquesa Margarida da Áustria, uma mãe suplente. O Imperador Carlos, não obstante, tentou reparar as más instalações da rainha, ordenando toda uma equipe especial para cuidar dela no castelo. Joana viveu por mais tempo do que qualquer um dos filhos de Isabel e Fernando, falecendo em 1555, aos 75 anos (uma idade muito avançada para a época, se considerarmos as taxas de mortalidade do século XVI). Diz-se que havia finalmente se reconciliado com tudo e com todos e recobrado a sanidade perdida. As últimas suas palavras, pronunciadas antes de partir para a imortalidade, em 11 de abril, foi a oração latina “Jesucristo crucificado sea conmigo” (Jesus Cristo crucificado esteja comigo). Com Joana, toda uma época de conquistas se precipitava para o fim: o império de seus pais logo cairia sob a gestão de Felipe II e os valores de seu tempo seriam suplantados pelos ideais iluministas. No entanto, a memória de uma rainha louca de amor, nervosa e compulsiva, ficou cristalizada no imaginário popular até os dias de hoje.

Referências Bibliográficas:

FOUCAUL, Michel. História da loucura na Idade Clássica. Tradução de José Teixeira Coleho Neto – São Paulo: Perspectiva, 1978.

MANTTINGLY, Garret. Catalina de Aragón. Tradução de Ramón De La Serna. – Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1942.

MATILLA, Begoña. El mito de la Reina Juana: ¿“la Loca”? – Último acesso em 01 de Abril de 2013.

OLAIZOLA, José Luis. Juana La Loca. –  Último acesso em 01 de Abril de 2013.

STEVENS, Paul. Os Grandes Líderes: Fernando e Isabel. Tradução de Edi Gonçalves de Oliveira. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

VERDEJO, C. Carlos V. In: Figuras. – Barcelona, Editorial Ramón Sopena, 1973. P. 463-616.

 

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