A “loucura” de D. Juana I de Castela – Conclusão

Conclusão – Mulheres como Juana.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Com a morte de Felipe “o Belo”, o caminho da regência estava mais uma vez livre para Fernando. Alegando a suposta insanidade da filha, ele assumiu o controle de todos os reinos espanhóis e se casou pela segunda vez com uma princesa francesa¹. Se o rei de Aragão tivesse um filho varão, poderia organizar um golpe para pô-lo inclusive no trono de Castela, algo que sem dúvida amedrontou a rainha Isabel em seus últimos anos. Juana era a herdeira legítima de seus pais, e seu filho Carlos depois dela. Sendo assim, alguns historiadores acreditam que, tendo uma inaptidão para assuntos de Estado, ela desejava deixar o caminho livre para que Carlos a representasse quando chegasse a hora certa. Enquanto isso começara a correr a lenda da marcha de Juana para enterrar o marido no local de desejo do mesmo. À medida que ia rumo ao sul da península acompanhada de um cadáver, os boatos de sua loucura só faziam aumentar. Entretanto, tivera que fazer uma interrupção no cortejo fúnebre na cidade de Torquemada, para dar à luz pela sexta vez, uma menina chamada Catarina, futura rainha de Portugal. Mas o rei Fernando ainda tinha planos para a filha: queria casá-la mais uma vez, agora com o viúvo rei Henrique VII (embora as negociações para esse fim tenham sido interrompidas por motivos do próprio monarca inglês).

Juana I de Castela, recluída em Tordesilhas com sua filha Catarina, por  Francisco Pradilla.

Juana I de Castela, recluída em Tordesilhas com sua filha Catarina, por Francisco Pradilla.

No ano de 1509, Fernando resolvera encerrar sua filha no castelo de Tordesilhas (que seria demolido em 1771).  O corpo de Felipe, por sua vez, fora depositado em um monastério próximo, e Juana o visitava a intervalos periódicos. Poderia se dizer que era louca, ou uma mulher sofrida pela perda de quem amava? Com efeito, essa imagem de amante inconsequente fora resgatada durante o período vitoriano, quando a literatura de romance (gênero em ascensão no século XIX) trouxe para as páginas dos livros a figura da pobre rainha de Castela ensandecida pelo amor. Muitos, inclusive, acreditam que ela herdara a esquizofrenia da própria avó, Isabel de Portugal (algo que, em minha nada humilde opinião, não é improvável). Juana manteve por quanto tempo pode a filha mais nova ao seu lado, aquela última lembrança que seu marido deixara em seu ventre, até que a moça fora dada em casamento ao rei D. João III. Em 1516, Carlos finalmente ganhara o governo de Espanha, mas não sua coroa, que sempre pertenceria à mãe. Um aspecto interessante a apontar é que, apesar de sua ausência física, a imagem mítica e majestática de Juana como rainha sempre se fez presente. Era o nome dela que vinha gravado em documentos estatais, e não raro estes continham sua assinatura. Algumas pessoas, inclusive, acreditavam que ela era uma alguém perfeitamente capaz de governar, e chegaram mesmo a implorar-lhe para reassumir o trono. Destarte, o que os apelantes não levaram em consideração era a própria vontade daquela mulher de permanecer na posição em que se encontrava.

Estátua da Rainha Juana I de Castela, em Tordesilhas.

Estátua da Rainha Juana I de Castela, em Tordesilhas.

A História está cheia de exemplos femininos fortes como Juana, que por querer ser mais do que a sociedade permitia, foram condenadas às mais terríveis clausuras. Eram algumas delas pessoas mais simples, como curandeiras que foram acusadas de bruxaria e queimadas vivas, ou mesmo outras soberanas obstinadas que, por extravasarem sua dor aos demais, foram chamadas de loucas e afastadas do poder, como é o caso da rainha Maria I de Portugal (mãe de D. João VI).  Na verdade, os 49 anos que Juana passou em Tordesilhas foram dedicados à preservação de seu espírito. É possível dizer, então, que a princesa teimosa e histérica se resignara e abaixara a cabeça diante da vontade de Deus e dos homens. Seus filhos, durante esse tempo, pouco lhe visitaram, e tinham na tia Margaret da Áustria uma mãe suplente. O Imperador Carlos V, não obstante, tentou reparar as más instalações da rainha, ordenando toda uma equipe especial para cuidar dela. Vivera por mais tempo que qualquer um dos filhos de Isabel e Fernando, falecendo em 1555, contato com 75 anos (uma idade muito avançada para a época). Diz-se que havia se reconciliado com tudo e com todos e recobrado a sanidade perdida de outrora. As últimas palavras que pronunciara antes de partir para a imortalidade, em 11 de Abril, foram “Jesucristo crucificado sea conmigo”².  Em fato, com Juana, toda uma época de conquistas morria: o império de seus pais logo cairia sob a gestão de Felipe II; os valores de seu tempo seriam suplantados pelos ideais iluministas. No entanto, a memória de uma rainha louca (de amor), nervosa e compulsiva, faria eco na mente dos interessados por toda a eternidade.

Notas:

¹ Da união entre Fernando II de Aragão e Germana de Foix não veio descendência.

² Tradução: “Cristo crucificado esteja comigo”.

Referências Bibliográficas:

FOUCAUL, Michel. História da loucura na Idade Clássica. Tradução de José Teixeira Coleho Neto – São Paulo: Perspectiva, 1978.

MANTTINGLY, Garret. Catalina de Aragón. Tradução de Ramón De La Serna. – Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1942.

MATILLA, Begoña. El mito de la Reina Juana: ¿“la Loca”? – Disponível em: http://atencionpsicologicaintegral.es/admin/biblioteca/documento_10.pdf. Último acesso em 01 de Abril de 2013.

OLAIZOLA, José Luis. Juana La Loca. – Disponível em: http://www.aldevara.es/download/JuanaLaLoca_JoseLuisOlaizola.pdf. Último acesso em 01 de Abril de 2013.

STEVENS, Paul. Os Grandes Líderes: Fernando e Isabel. Tradução de Edi Gonçalves de Oliveira. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

VERDEJO, C. Carlos V. In: Figuras. – Barcelona, Editorial Ramón Sopena, 1973. P. 463-616.

Anúncios

3 comentários sobre “A “loucura” de D. Juana I de Castela – Conclusão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s