Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Em 29 de julho de 1565, Mary Stuart, rainha dos Escoceses, se casava com seu primo, Henry Stewart, mais conhecido como Lorde Darnley. A cerimônia ocorreu de forma simples, na capela do Palácio de Holyroodhouse. A noiva compareceu com seus hábitos de rainha-viúva da França e, uma vez casada, trocou as vestes por um traje de cores mais alegres e vibrantes. Essa união, porém, havia desagradado sobremaneira à muitas famílias nobres do reino, que consideravam aquele jovem católico, de 19 anos, indigno de sua soberana (então na casa dos 23). Entre os descontentes, estava o meio-irmão de Mary, o conde de Moray. Desafiando a autoridade da Coroa, ele liderou uma rebelião contra sua própria irmã. Ciente do perigo que corria, a monarca então escreveu cartas aos nobres com quem podia contar. Entre as famílias, estavam os Roses de Kilravock, que viviam na região das Terras Altas. Os documentos assinados por Mary e Darnley acabam de ser vendidos em um leilão promovido pela Lyon e Turnbull, em Edimburgo.

Um lote de cinco cartas de uma coleção de papéis do Castelo de Kilravock foram vendidas. Os documentos eram assinados por Mary Stuart e seu segundo marido, Henry, Lorde Darnley (Foto: Stewart Attwood).
Mostrado toda a sua coragem, Mary montou a cavalo e liderou sua própria tropa de 800 soldados para lutar contra “certos rebeldes”, que “em nome da religião nada mais pretendem do que a inquietação e a subversão da Comunidade” (apud STEPANEK, 1988, p. 38). À medida em que avançava por Stirling e Linlithgow, ela ia arregimentando cada vez mais soldados para seu exército. Quando chegou em Glasgow, mais de 5000 mil homens armados tinham se juntado à sua causa. Vendo-se encurralado, o conde de Moray bateu em retirada, buscando asilo na Inglaterra. Aquela primeira vitória fora bastante favorável para a imagem de Mary Stuart. Ela não só tinha defendido a validade de seu casamento, como também demonstrado sua força diante de seus inimigos, especialmente sua prima, a rainha Elizabeth I. Em seguida, a monarca escocesa tratou de garantir a lealdade dos clãs mais poderosos do reino, incumbindo-lhes a tarefa de zelar pela paz.
Dessa forma, ela escreveu aos Roses do castelo de Kilravock, para que garantissem a ordem na região de Inverness, localizada a 10 milhas (16 km). O mais interessante é que ela assinou a carta em conjunto com seu marido. Documentos como esse são muito raros, especialmente porque o casamento de Mary com Darnley logo se transformou em algo insustentável. No ano seguinte, ele participou de um complô para assassinar o secretário italiano de sua esposa, David Rizzio, morto à facadas diante de uma Mary Stuart em avançado estágio de gestação. Em seguida, marido e esposa passaram a viver separadamente, até que Henry foi assassinado em circunstâncias misteriosas no dia 10 de fevereiro de 1567, em Kirk o’Field (Edimburgo). Por muito tempo, acreditou-se que a própria soberana estivesse envolvida no atentado, para que sua mão ficasse novamente disponível para um terceiro casamento.

Henry Stewart e Mary Stuart, por artista desconhecido.
Contudo, não existem evidências sérias que impliquem Mary no assassinato de seu segundo marido. O mais provável é que ele tenha sido morto pelos seus antigos comparsas, os mesmos autores da morte de David Rizzio, que, sentindo-se traídos, teriam se vingado do rei consorte. Por outro lado, as cartas leiloadas recentemente, datadas dos primeiros meses do casamento, quando Mary estava esperando seu primeiro filho, o futuro rei James VI, indicam que o casal desfrutava de ótima harmonia.”Darnley quase nunca é chamado de ‘Rei Henry’ – e, de fato, Mary acabou se recusando a dar a Darnley a Coroa Matrimonial, o que significa que ele não era rei por direito próprio, mas apenas o marido da rainha”, disse a escritora de Inverness, Jennifer Morag Henderson. Ela acrescenta que as cartas assinadas por Mary e seu marido, usando suas assinaturas “Marie R” e “Henry R”, são muito raras.
Durante sua visita às Terras Altas em 1562, Mary ficou hospedada com o Roses em Kilravock, razão pela qual confiava neles para manter a paz em Inverness. Aquela região era importantíssima para a Coroa. Mas, estava sob domínio de Gordon, IV conde de Huntly, que não era simpático à causa da soberana. De fato, Mary foi impedida de entrar no Castelo de Inverness e, irritada com o desprezo, ela fez tentativas de arrancá-lo do domínio dos Gordons. Então, em setembro de 1565, ela e seu marido nomearam Hugo Rose de Kilravock como guardião do castelo. No mês seguinte, porém, a propriedade foi tomada novamente pelo conde de Huntly. Atualmente, um edifício do século XVIII tomou o local da antiga fortaleza, que era um importante ponto estratégico para a Coroa.

Mary Stuart como La Reine Blanche, por François Clouet.
“Este é um dos poucos documentos que vi que é assinado dessa maneira, desde o período inicial, quase literalmente de lua de mel do casamento de Mary e Darnley”, relata Jennifer Morag. “É tão interessante ver suas assinaturas lado a lado assim – a de Mary é a primeira, então ela ainda é a mais importante, mas Darnley assinou seu nome em letras grandes e extensas”, completou. A carta em que Mary pede aos Roses para que mantenham a paz na região foi arrematada por um valor de £ 15.000. Ela é uma das cinco missivas do mesmo tipo, datada de quase 500 anos atrás, quando os clãs rivais disputavam pelo controle das terras de toda a Escócia. Três foram vendidas por £ 10.000 e o outra por £ 11.300, como parte de uma coleção de papéis do Castelo de Kilravock, vendidos pelos leiloeiros Lyon e Turnbull, em Edimburgo.
Fonte:
BBC. Mary Queen of Scots letter sells for £15,000 at auction. 2025 – Acesso em 25 de Junho de 2025.
Referências Bibliográficas:
DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
FRASER, Antonia. Mary Queen of Scots. – New York: Delta, 2001.
LOADES, David. As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.
STEPANEK, Sally. Maria Stuart. Tradução de José Carlos Barbosa dos Santos. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.













