Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Em 9 de Agosto de 1902, Londres era palco de um evento de proporções magníficas, ocorrido pela última vez 64 anos antes: a coroação de um monarca reinante. Edward VII, filho e sucessor da rainha Vitória no trono britânico, fora solenemente coroado na Abadia de Westminster. Para a ocasião, todo o interior do prédio estava iluminado com energia elétrica, o que fazia com que as joias dos convidados brilhassem com mais intensidade. Contudo, ninguém cintilava mais do que a rainha Alexandra em seu estupendo vestido dourado, concebido justamente para refletir a luz do ambiente. Por mais de 30 anos, esta peça esteve guardada no acervo da Coleção Real, devido ao seu delicado estado de conservação. Mas, recentemente, o traje foi restaurado e se encontra em exibição na Galeria do Rei do Palácio de Buckingham, sendo a peça central de uma nova exposição: “The Edwardians: A Age of Elegance”, que vai até o dia 23 de Novembro de 2025. Cerca de 300 itens da Coleção Real estarão ao alcance dos olhos do visitante, que contam a história do esplendor do período que antecede a eclosão da Primeira Guerra Mundial.


Enquanto princesa de Gales, Alexandra da Dinamarca esteve sempre na vanguarda da moda. Filha do rei Cristiano IX da Dinamarca com Luísa de Hesse-Cassel, Alexandra (ou Alix) era considerada uma das mulheres mais bonitas da Europa, na década de 1860, além de cortejada por muitos príncipes estrangeiros. Em 1863, ela aceitou a proposta matrimonial de Edward, príncipe de Gales (também chamado de Bertie), filho e herdeiro da rainha Vitória. Eles se casaram no dia 10 de março, na Capela de São Jorge, no Castelo de Windsor. Vitória passou a gostar bastante da nora e, graças a essa afeição, aos poucos foi se reaproximou de Bertie, a quem responsabilizava pela morte do pai, Albert. A partir de então, Alix passou a ditar tendências, que logo seriam copiadas por suas contemporâneas, como o uso da gargantilha. O que poucos sabiam, porém, é que a nova princesa de Gales usava essas joias para disfarçar uma cicatriz no seu pescoço. Alix também ficou manca de uma perna e usava a moda para disfarçar seu caminhar, com vestidos estrategicamente pensados para essa finalidade.


Após a morte da rainha Vitória, em 22 de janeiro de 1901, Edward e Alexandra ascenderam ao trono como novos rei e rainha consorte. A cerimônia de coroação, que marcaria com pompa o início do reinado do monarca, porém, só ocorreria mais de um ano depois. Para o evento, Alexandra decidiu romper com a tradição dos vestidos de coroação nos tons branco ou creme, inspirados em mantos eclesiásticos. Ela então optou pelo dourado, uma cor pouco usual. A confecção do traje foi mantida sob sigilo, para que seu design não vazasse antes da ocasião. Cada detalhe foi meticulosamente pensado pela rainha. Ela havia deixado instruções claras para que nenhum aspecto do vestido fosse “demasiadamente convencional”. A maior parte da peça foi feita em Delhi, pelas mãos de 41 costureiras, que trabalharam durante cinco meses consecutivos. A opção pela manufatura indiana reforçava, assim, as conexões imperialistas do Reino Unido com aquele país. Alexandra sugeriu que o bordado do vestido fosse aplicado sobre uma camada de tule dourado, com padrões que deveriam refletir a união dos reinos que compunham a Grã-Bretanha.


Dessa forma, a rosa inglesa foi entrelaçada ao cardo da Escócia e ao trevo da Irlanda. A sugestão de Alexandra para o vestido da coroação foi pioneira dentro da realeza britânica. Esses emblemas nacionais acabariam aparecendo nos trajes de coroação das próximas rainhas, como Elizabeth II, em 1953, e Camilla, em 2023. O vestido de Alexandra, porém, fora confeccionado com materiais como seda, cetim, renda, fios metálicos, material dourado e contas de cristal. Seus design fora pensado por Morin Blossier, que adicionou uma gola alta com armação de arames, que lembrava a moda dinamarquesa e inglesa do século XVI. A peça foi finalizada na Maison Worth, em Paris, uma das maiores grifes do período. Para finalizar, pequenas lantejoulas como costuradas ao vestido, para ressaltar ainda mais o brilho dos materiais selecionados para a confecção. Hoje em dia, a peça está bastante desbotada e pouco lembra a tela finalizada em 1905 por Sir Samuel Luke Fildes, em que a rainha surge esplendorosa com o traje, coroada pelo diadema de Estado de George IV.


Contudo, quando Alexandra penetrou a nave da abadia naquele dia 09 de agosto de 1902, toda a sua figura reluzia sob a luz elétrica. Tinha então 57 anos, mas ainda mantinha o talhe de sílfide e o porte gracioso da juventude. Um longo manto de veludo carmesim forrado com pele de arminho envolvia seus ombros. O colo, por sua vez, estava coberto de joias cravejadas com diamantes e pérolas (algumas de valor histórico, que haviam pertencido a Mary Stuart), evocando a imagem de uma rainha-imperatriz no seu auge. A rainha havia apontado o artista dinamarquês Laurits Tuxen como “pintor especial da coroação”, para retratar o momento solene em que a nova rainha se ajoelhava para o momento da unção. Segundo a curadora da exposição, Kathryn Jones:
Embora tenha escurecido com o tempo, a escolha de Alexandra por um tecido dourado cintilante teria sido incrivelmente marcante na coroação. Há descrições em jornais da época de momentos da cerimônia em que a rainha aparece sob um extraordinário brilho de luz dourada, com o vestido cintilando sob a nova iluminação elétrica.
O traje da rainha Alexandra acabaria servindo de inspiração para sua filha, a ranha da Noruega, Maud de Gales, que também optou por um tecido de lamê de seda dourada, com rendas de seda nas mangas e camadas de tule.

Mas, enquanto o traje da coroação da rainha Maud se encontra muito bem preservado no Museu Nacional da Noruega, mantendo suas cores vibrantes com seus diamantes artificiais, pérolas de cera e lantejoulas metalizadas quase intactos, o mesmo não pode ser dito do vestido da rainha Alexandra. Os conservadores levaram mais de 100 horas para preparar a peça para seu papel central na nova exposição, reconstituindo os bordados com fios metálicos. Segundo Kathryn Jones, o traje pode ser considerado como “um exemplo poderoso das tentativas de Edward e Alexandra de equilibrar tradição e modernidade enquanto estavam no início do século XX; um momento brilhante de glamour antes do mundo entrar em guerra”. Esplendor esse que pode ser comprovado pelas imagens da rainha, manipuladas por artistas e fotógrafos, preocupados em apresentá-la sob um prisma jovial, a despeito de seus quase 60 anos. Assim, Alexandra passou para a posteridade como uma rainha de beleza etérea, cuja era de elegância chegara ao fim quando as primeiras bombas da guerras explodiram em território sério, em 1914.
Referências Bibliográficas:
BATTISCOMBE, Georgina. Queen Alexandra. United States of America: Houghton Miffin Company Boston, 1969.
HARTE, Rosie. The Royal Wardrobe: a very fashionable history of the monarchy. Great Britain: Headline, 2023.
Sites:
Royal Collection Trust. – Acesso em 28 de Abril de 2025.














Ela era uma ótima rainha!
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