Por: Renato Drummond Tapioca Neto
No dia 22 de maio de 1867, a arquiduquesa Mathilde da Áustria conversava distraidamente com seu primo, o arquiduque Friedrich. A jovem estava recostada sobre o parapeito da janela, lindamente vestida com um traje composto por camadas e camadas de tule sobre crinolina, costurado de acordo com a última moda parisiense. Ela estava arrumada para ir ao Teatro e, enquanto esperava pelo cocheiro com o transporte, se permitiu fumar um cigarro. Seu pai, o arquiduque Alberto, duque de Teschen, havia terminantemente proibido a filha de manter esse hábito, pois o considerava inadequado para uma jovem de 18 anos. Mesmo assim, Mathilde ignorou a advertência paterna e se permitiu dar um trago em sua piteira. De repente, o arquiduque Aberto foi avistado pela princesa e por seu primo, se aproximando do Schloss Hetzendorf, residência da imperatriz Elisabeth, onde Mathilde estava hospedada. Temendo a reação do pai, a arquiduquesa escondeu o braço com o cigarro atrás de seu corpo. Instantes depois, uma estranha fumaça começou a sair de suas saias, devido ao contato do tule do vestido com a brasa do fumo. Imediatamente, o traje começou a pegar fogo, fazendo com que a jovem gritasse e se debatesse na frente de seu pai, pedindo por socorro!

Fotografia da jovem Mathilde da Áustria-Teschen, falecida aos 18 anos.
A tragédia da arquiduquesa Mathilde acabou entrando como uma nota de rodapé em um dos capítulos de um drama muito maior, sobre trajetória da imperatriz Elisabeth da Áustria. Porém, a princesa era uma jovem cândida, cuja vida foi terrivelmente ceifada antes que a flor de sua mocidade começasse a se ramificar. Nascida em 25 de janeiro de 1849, Mathilde era a terceira criança oriunda do casamento entre Alberto e a princesa Hildegard da Baviera. Pelo lado paterno, ela era bisneta do imperador Leopoldo II do Sacro-Império, enquanto pelo lado materno era neta do rei Ludwig I. Assim como sua irmã mais velha[1], a arquiduquesa Maria Theresa, que se uniu em matrimônio com o duque Philip de Wüttemberg, o futuro de Mathilde estava traçado desde o berço: o casamento dinástico. Dessa forma, a jovem recebeu uma formação adequada para futuras princesas consortes, que incluía o estudo de idiomas tais como francês, alemão e italiano, além de desenho, música e dança. Os rudimentos da educação básica, como Matemática, Geografia, História e Literatura foram ministrados em idade mais avançada por Leopold Neumann, professor de Direito da Universidade de Viena. Completava o quadro de disciplinas as chamadas “prendas do belo sexo”, ou seja, os trabalhos de agulha.
A mãe da arquiduquesa Mathilde, por sua vez, era muito próxima da imperatriz Elisabeth da Áustria, sua prima em primeiro grau. As duas, inclusive, residiam em palácios próximos na capital austríaca, onde a família do arquiduque Alberto passava a temporada de inverno. O próprio duque de Teschen, por sua vez, era primo do imperador Francisco José, o que reforçava as conexões com a família imperial. Nos meses de verão, porém, ele, sua esposa e filhas se retiravam para o idílico Palácio de Weilburg, em Baden bei Wien, onde a arquiduquesa Hildegard era muito popular. Ali, ela era chamada de Engelsherz (“Coração de Anjo”), em razão de seu espírito caridoso e trabalhos filantrópicos. Como Alberto passava muito tempo longe, devido aos seus compromissos oficiais, a figura materna acabaria exercendo grande influência sobre as princesas. As irmãs acabaram desenvolvendo o costume de participar de quermesses e obras de caridade, voltadas para os mais necessitados. Em 1852, quando Mathilde tinha apenas três anos, seu pai fora nomeado governador Militar e Civil da Hungria pelo imperador. Sendo assim, a família teve que se mudar para Buda (atual Budapeste). Eles passaram a viver no Palácio Sándor e, a partir de 1860, para o recém-reformado castelo de Buda, recuperado dos danos causados pela Revolução de 1848.
Quando a arquiduquesa Mathilde tinha apenas 15 anos, em 1864, ela sofreu um duro golpe: sua mãe falecera em decorrência de pleurisia e inflamação pulmonar, contraída em Munique. Hildegard tinha viajado no mês de março para o funeral de seu tio, o rei Maximiliano II da Baviera. Nunca mais veria sua família. A tristeza da morte da matriarca, longe de desestruturar a pequena família, teve o poder de os unir ainda mais. Mathilde criou uma conexão muito forte com seu pai, a quem ela amava e admirava. Por volta daquela época, a jovem estava entrando numa idade casadoura e seu primo, o imperador Francisco José, viu nisso uma oportunidade de estreitar as relações entre a Casa de Habsburgo com os Saboia da Itália. Pouco importava que Mathilde estivesse apaixonada por seu primo, o arquiduque Ludwig Salvator. A aliança dinástica era mais importante. Assim, a arquiduquesa deveria ter mais aulas de etiqueta e aperfeiçoar seu italiano. Afinal, ela seria dada em casamento ao príncipe Umberto de Saboia, futuro rei da Itália. Os preparativos começaram então a ser feitos. Em 28 de outubro de 1865, a princesa foi confirmada na Igreja Católica Romana pelo Arcebispo de Viena, Joseph Othmar Rauscher, tendo sua tia Adelgunde, duquesa de Modena, como madrinha.

Fotografia da arquiduquesa Mathilde, pouco antes de sua morte, em 1867.
Com efeito, Mathilde desenvolveu uma relação muito próxima com sua prima em terceiro grau, a arquiduquesa Maria Theresa da Áustria-Este, nascida no mesmo ano que ela. A futura esposa do rei Ludwig III da Baviera compartilhava com a filha do duque de Teschen o gosto pela moda, arte e literatura. Certamente, Maria Theresa fora um ouvido solícito para as confissões da prima e sobre seus sentimentos por Ludwig Salvator, proveniente da linhagem italiana dos Habsburgo. Mas, como tantas princesas da Casa d’Áustria antes dela, Mathilde seria usada como um peão no tabuleiro de alianças diplomáticas do período. Não à toa, o lema dos Habsburgo era: “Que os outros façam a guerra, mas tu, feliz Áustria, casa-te”. Sendo assim, a arquiduquesa recebeu um enxoval condizente com sua futura posição e deveria ser vista nos locais de sociabilidades mais requintados, como no Teatro, na Ópera e no Balé. O desejo por fumar cigarros, tão comum entre outros membros da realeza europeia, deve ter sido uma válvula de escape para as tensões às quais a jovem estava submetida naquele período. Por outro lado, essa prática não fazia boa figura para uma princesa que estava sendo preparada para o papel de rainha consorte. Recaía sobre aquele casamento o futuro da aliança entre o império Austro-Húngaro e o reino da Itália. Infelizmente, o matrimônio jamais chegou a ser celebrado.
Era esta a situação em que Mathilde se encontrava quando o terrível acidente com o cigarro aconteceu. O que estaria passando por sua cabeça, momentos antes de se embonecar para ir ao Teatro e ser vista pela plateia como próxima rainha da Itália? Tais sentimentos foram tristemente enterrados com o corpo da jovem, que não resistiu. Enquanto a princesa se debatia de um lado a outro, consumida pelas chamas, seu pai assistia chocado àquela cena. Pouco podia ser feito. Quando finalmente conseguiram conter o fogo, perceberam que as costas, o braço que segurava a piteira, o pescoço e os membros inferiores da princesa estavam com queimaduras de segundo e terceiro graus. A família, que presenciou a tragédia de perto, não sabia como Mathilde tinha se incendiado dentro de uma sala arejada do Palácio da Imperatriz. Com a cabeça abaixada e o remorso nas feições, o arquiduque Friedrich confessou que a prima estava fumando enquanto conversava com ele e que o cigarro provavelmente teria causado todo aquele estrago. Imediatamente, a vítima foi levada para um hospital, na expectativa de que pudesse se recuperar das queimaduras. Os médicos fizeram tudo o que estava ao seu alcance, com os bálsamos de que dispunham na época, mas sem sucesso. Após semanas agonizando em seu leito de enferma, Mathilde não resistiu e faleceu em decorrência dos ferimentos.
O funeral da princesa que morreu por autoimolação aconteceu em 10 de junho de 1867, na Igreja dos Capuchinhos, em Viena. Seu coração havia sido enterrado separadamente no dia anterior, na Igreja Agostiniana. Milhares de pessoas na capital austríaca, compadecidas pela tragédia, compareceram ao cortejo fúnebre, realizado sob o véu da noite e à luz de tochas. Toda a família imperial estava presente, incluindo o imperador Francisco José e a imperatriz Elisabeth. Por onde o féretro passava, encontrava com uma grande quantidade de espectadores, aglutinados ao longo do trajeto. Após missa solene, realizada na presença do pai da jovem, o caixão chumbado com o corpo semicarbonizado foi sepultado na cripta imperial, local tradicional de descanso eterno dos Habsburgo. Era meio-dia de 11 de junho, quando o sarcófago de Mathilde foi colocado no chamado Túmulo Toscano, ao lado do de sua mãe e irmão. O arquiduque Alberto só se juntaria à sua família 28 anos depois, em 1895. Desde então, a história da jovem que ateou fogo a si mesma vem despertando o interesse de milhares de almas românticas, embaladas pela trágica narrativa da princesa que nunca chegou a ser rainha e que teve sua vida precocemente ceifada por dois vícios: o amor pela moda e o prazer do cigarro!

O corpo da arquiduquesa Mathilde da Áustria-Teschen, antes de seu funeral, em 10 de junho de 1867, enfaixado onde as queimaduras lhe marcaram a pele.
Referências Bibliográficas:
CORTI, Egon Conte. A imperatriz Elisabete (Sissi). Tradução de Mário e Celestino da Silva. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi, S/A.
HAMANN, Brigitte. The reluctant empress: a biography of empress Elisabeth of Austria. 4ª ed. New York: Ullstein, 1997.
KANN, Robert A. A history of the Habsburg Empire (1526-1918). New York: Barnes & Noble Books, 1992.
WHEATCROFT, Andrew. The Habsburgs: embodying empire. Great Britain: Viking, 1995.
Nota:
[1] O irmão de Mathilde, o arquiduque Charles Albert, nascido em 1847, falecera de varíola em 1848, ou seja, um ano antes do nascimento de sua irmã mais nova.













