Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Em 12 de julho de 1543, o rei Henrique VIII da Inglaterra, então com 52 anos, se casou pela sexta e última vez com uma mulher duas décadas mais nova: Catarina Parr. Sua mãe, Maud, havia sido dama de companhia da primeira consorte do monarca, Catarina de Aragão (razão pela qual sua filha fora batizada com o mesmo nome da rainha). Aos 32, Parr já era viúva de dois maridos e estava envolvida em um romance secreto com Thomas Seymour, cunhado do rei. Como a atenção do soberano estava se voltando para a dama, Catarina teve que romper sua ligação com Thomas para se unir em matrimônio com Henrique. Mulher bem-educada, experiente e pragmática, a nova rainha entrou na família real promovendo a concórdia entre o rei e suas duas filhas, Lady Mary e Lady Elizabeth. Geralmente, atribui-se a ela a readmissão das princesas como herdeiras do trono, por meio do Ato de Sucessão de 1543. Embora a primogênita tivesse na ocasião 27 anos e não concordasse com a postura da madrasta em matéria de religião, a segunda tinha apenas 9 e enxergou em Catarina a da figura da mãe, que ela nunca chegou a conhecer. Com o tempo, Catarina Parr exerceria grande influência na formação da futura rainha Elizabeth I, tanto em assuntos educacionais, quanto teológicos.

Catarina Parr, rainha da Inglaterra e da Irlanda (1512-1548), atribuído a Mestre John.
A sexta esposa do rei Henrique VIII era uma mulher bastante interessada em religião e chegou a escrever suas próprias orações e meditações. O conjunto desses textos acabou sendo compilado em dois livros, publicados em 1545 e em 1547. Catarina mantinha um salão de debates teológicos, onde a jovem Elizabeth era frequentadora. Segundo David Starkey, a jovem “era certamente uma aluna receptiva e podemos imaginá-la ouvindo, atenta e pálida, as palestras na câmara privada da rainha, ou ao lado de Catarina enquanto ela escrevia ou lia. Em religião, pelo menos, Elizabeth era a aluna e Catarina a tutora” (2001, p. 43). A precocidade da princesa, seu interesse por desenvolvimento religioso e conhecimento erudito foram fatores que não passaram despercebidos por Catarina. O próprio rei Henrique havia ficado surpreso com a inteligência da filha, passando a se interessar cada vez mais por ela e a mimando com presentes e doces. Sabendo disso, a rainha providenciou para que a terceira herdeira na linha de sucessão ao trono recebesse uma educação apropriada, sob os auspícios do humanista John Cheke, professor de grego de Cambridge e tutor do príncipe Edward. O reformista reunia em torno de si um grupo de intelectuais, que incluía nomes importantes.
Entre os tutores de Elizabeth, destacam-se William Grindal e seu sucessor, Roger Ascham, ambos membros do St. John’s College. Esses dois eruditos colocaram a língua latina e a grega como base na educação da jovem. Elizabeth lia obras de autores como Cícero e Túlio, Platão e Aristóteles e a Bíblia Sagrada. Ela então aprendeu a traduzir os escritos de sua língua original para o inglês e desta para o italiano e o francês. A fluência da jovem pupila aumentaria com o passar do tempo. Tanto, que em 1562 Ascham escreveu uma carta a seu amigo, John Sturm, dizendo que vira a então rainha Elizabeth I respondendo em três idiomas ao mesmo tempo para os embaixadores do Sacro-Império, da França e da Suécia: “italiano a um, francês a outro, latim ao terceiro; facilmente, sem hesitação, com clareza e sem ficar confusa, sobre os vários assuntos suscitados, como é habitual no discurso deles” (apud DUNN, 2004, p. 103). As sementes que a rainha Catarina Parr plantara rederam belos frutos. Nela, Elizabeth encontrou uma figura amorosa e interessada sobre seu progresso. Uma das enteadas da soberana, Margaret Neville, disse sobre as qualidades maternais da madrasta: “jamais pude retribuir à Sua Graça suficientes agradecimentos pela divina educação, compassivo amor e generosa bondade que encontrei cada vez mais nela” (apud DUNN, 2004, p. 105).
No ano de 1544, Henrique VIII partiu para uma campanha militar contra a França, deixando sua esposa na qualidade de rainha regente. Embora Isso significasse que a princesa não veria a soberana por um bom período, uma vez que ela estaria ocupada com a administração do reino e com o Conselho Privado, Catarina encontrou tempo para acompanhar a evolução da enteada. A regente recebia constantemente cartas de William Grindal, descrevendo o progresso da pupila. Para impressionar a consorte real, Elizabeth lhe endereçou uma carta de próprio punho, enviada a partir do Palácio de St. James. Originalmente escrita em grego, para demonstrar o avanço da princesa no idioma, trata-se do documento preservado mais antigo da autoria de Elizabeth, que remonta aos seus anos de formação:
A fortuna inimiga, invejosa de todos os bons e sempre revolventes assuntos humanos, privou-me por um ano inteiro de sua presença mais ilustre e, não contente assim, mais uma vez me roubou o mesmo bem; o que seria intolerável para mim, se eu não esperasse aproveitá-lo muito em breve. E neste meu exílio, sei bem que a clemência de Sua Alteza teve tanto cuidado e solicitude por minha saúde quanto a própria Majestade do Rei. Portanto, eu não sou apenas obrigada a servi-lo, mas também a reverenciá-lo com amor filial, pois entendo que sua altíssima ilustre alteza não se esqueceu de mim todas as vezes em que você solicitou. Pois até agora não ousei escrever a ele. Portanto, agora humildemente oro a Sua Excelentíssima Alteza, que, quando escrever a Sua Majestade, te condescendas em me recomendar a ele, orando sempre por sua doce bênção e, da mesma forma, suplicando a nosso Senhor Deus que lhe envie o melhor sucesso e a obtenção da vitória sobre seus inimigos, para que Sua Alteza e eu possamos, o mais rápido possível, nos alegrar junto com ele em seu feliz retorno. Não menos oro a Deus, para que Ele preserve Sua Altíssima Ilustre Alteza; a cuja graça, humildemente beijando suas mãos, eu me ofereço e me recomendo.
De St. James neste 31 de julho.
Sua filha mais obediente e serva mais fiel, Elizabeth.
Na carta, a princesa lamentava estar afastada da companhia da madrasta por aproximadamente um ano e pedia para que ela a recomendasse junto ao pai, a quem ela não escrevia, por receio. A princesa depositava na rainha a confiança necessária para interceder em seu nome junto ao rei, pendido a Deus que o abençoasse e que ele retornasse logo para casa. Infelizmente, muito do texto original foi danificado por um incêndio nos arquivos do Museu Britânico, mas as linhas sobreviventes nos dão o suporte necessário para afirmar o quanto Elizabeth estava adiantada no estudo do grego.

Fragmento da carta da princesa Elizabeth para Catarina Parr, datada de 31 de julho de 1544.
Na época, era pouco comum que as filhas da nobreza e da realeza tivessem uma educação igual à dos homens. O humanista Thomas More quebrara com esse preconceito, ao conceder para suas filhas uma excelente formação, baseada no sistema de tradução dupla, adotado por Roger Ascham para Elizabeth. Segundo Morte, a capacidade intelectual das mulheres era nenhum pouco inferior à dos homens. Pensamento semelhante tinha a rainha Catarina de Aragão, que, na década de 1520, encomendou ao seu conterrâneo, o humanista Juan Luis Vives, o primeiro tratado sobre educação feminina, destinado à princesa Mary. A primogênita de Henrique VIII com sua primeira esposa estudou as obras dos pensadores de seu tempo, como Erasmo de Roterdã e o próprio Thomas More, além de Platão e Aristóteles. Assim como sua irmã mais nova, a futura rainha Mary I da Inglaterra era uma consumada linguista. Com pouco mais de 10 anos, Elizabeth começou a ler latim, grego, espanhol, italiano e alemão. Entre os componentes curriculares de sua grade de ensino, constavam Matemática, Astronomia, Filosofia, Música e Geografia. O estudo da gramática, da retórica e da lógica, por sua vez, era aplicado na prática em debates.
A princesa e seu irmão, o príncipe Edward (futuro rei Edward VI), consumiam vorazmente as obras que lhe eram indicadas por ser tutores. Existe um relato que remonta a esse período, dando conta dos seus avanços: “Tão fecundos de criatividade eram Elizabeth e Edward que queriam ler assim que o dia começasse a raiar. Suas horas matinais eram tão bem-vindas que eles pareciam dispostos a adiantar o sono para melhor aproveitar o estudo, pela manhã” (apud HILTON, 2016, p. 63-4). Porém, havia algumas diferenças: enquanto Edward aprendia a montar, caçar e empunhar uma espada, os chamados “treinamentos de cavaleiro”, Elizabeth era ensinada a bordar, costurar, tocar o alaúde, entre outras atividades consideradas “prendas femininas”. Ela ocupava cômodos muito pequenos nos Palácios Reais e quase nunca estava sozinha, sempre dividindo o espaço (quando não o leito) com alguma dama de companhia. No futuro, a monarca demonstraria verdadeira claustrofobia, em decorrência dessa infância em apartamentos pequenos. Ela adorava passeios ao ar livre e acabou se tornando uma amazona muito melhor do que o cavaleiro que seu irmão jamais foi. Por outro lado, ela também se orgulhava dos seus trabalhos de agulha, com bem testemunhou a própria rainha Catarina.

Retrato da rainha Elizabeth I, pintado em 1562, provavelmente por Van der Meulen.
Disposta a impressionar ainda mais sua madrasta, Elizabeth deu início a um projeto ambicioso: traduzir a obra francesa Le mirroir de l’âme pécheresse (O espelho da alma pecadora), escrita por Margarida de Angoulême, rainha consorte de Navarra. Curiosamente, Margarida havia sido uma das soberanas que a mãe de Elizabeth, Ana Bolena, mais admirara em vida. As duas se conheceram durante os anos em que Ana serviu como dama de companhia no séquito da rainha Cláudia de Valois. A irmã do rei Francisco I da França serviu como anfitriã quando, ainda solteiros, Henrique e Ana visitaram Boulogne, em 1532. Uma vez casada com o rei Henrique VIII, a rainha de Navarra serviu como um modelo no qual a mãe de Elizabeth poderia se espelhar. Margarida era uma das principais entusiastas da reforma religiosa na França e suas obras também eram lidas por Catarina Parr, que compartilhava com ela o interesse por teologia e o hábito da escrita. Assim que o rei regressou de sua campanha militar, sua esposa cumpriu a promessa para com a enteada e reuniu-a com o pai no castelo de Leeds e Otford. Em seguida, Elizabeth e Edward regressaram para sua mansão em Ashridge, em Hertfordshire. Por volta dos meses de novembro e dezembro, a princesa começou a trabalhar no seu presente de ano novo para a madrasta.
Com toda certeza, Elizabeth surpreendeu Catarina Parr ao entregar para ela uma edição encadernada de Le mirroir de l’âme pécheresse, cuja tradução do francês para o inglês fora feita pela própria jovem de 11 anos. A capa fora bordada pela tradutora com fios prateados sobre tecido azul, contendo as iniciais da rainha, K. P., rodeadas por amores-perfeitos. Trata-se de um trabalho de 27 páginas de tradução do poema teológico, um feito impressionante para uma moça na idade de Elizabeth. Ao lado do exemplar, ela endereçou uma carta introdutória para a madrasta, resumindo o conteúdo da obra, que versava sobre a inadequação da alma humana:
[…] Como ela (contemplando-se como tal no espelho) percebe a si mesma e a sua própria força, ela não pode fazer nada que seja bom ou prevaleça para sua própria salvação, a menos que seja pela graça de Deus, em cujas Escrituras ela prova ser mãe, filha e esposa. Confiando também que, por seu amor, graça e misericórdia, incompreensíveis, ela (sendo chamada do pecado ao arrependimento) espera finalmente ser salva (apud STARKEY, 2001, p. 47-8).
Em poucas linhas, Elizabeth resumia para Catarina Parr a doutrina da justificação pela fé. A alma amorosa que suplica é feminina, aos pés de um Deus masculino. O texto também faz eco à carta escrita em julho de 1544, quando Elizabeth demonstra sua submissão à vontade paterna, associada ao poder divino. Explicada em outros termos, tanto a nota introdutória quanto a carta falam do amor da alma/Catarina por Deus/Henrique. Isso indica que, possivelmente, a princesa e a rainha estiveram lendo juntar a obra de Margarida de Navarra, antes que a soberana assumisse o posto de regente do reino. Certamente, Elizabeth queria fazer uma surpresa, ao demonstrar que não só havia concluído o estudo do livro de Margarida, como também era capaz de explicá-lo para sua madrasta. O estilo da escrita não deixa dúvidas de que o trabalho tenha sido realizado pela própria princesa. Nos anos seguintes, os laços que uniam Elizabeth a Catarina Parr se estreitaram ainda mais. Tanto, que após a morte de Henrique, em 1547, as duas conviveram um tempo juntas no castelo de Sudeley, para onde Catarina se mudou com seu quarto marido, Thomas Seymour. Infelizmente, como os eventos futuros provariam, essa ligação traria graves consequências para a relação entre ambas.

Bordado que a princesa Elizabeth fez para a capa de sua tradução de O espelho da alma pecadora, destinada à rainha Catarina Parr.
Referências Bibliográficas:
DUNN, Jane: Elizabeth & Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
HILTON, Lisa. Elizabeth: uma biografia. Tradução de Paulo Geiger. Rio de Janeiro: Zahar, 2016.
STARKEY, David. Elizabeth: apprenticeship. London: Vintage, 2001.













