A conspiração da duquesa: Marie Caroline de Berry e os sonhos frustrados de uma restauração Bourbon!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 3 de agosto de 1830, um grupo de aproximadamente 14 mil homens armados, incluindo parisienses e membros da Guarda Nacional, marchavam até Rambouillet para expulsar o ramo sênior dos Bourbon da França. Apenas Marie Caroline, duquesa de Berry, queria permanecer. Em seus sonhos, ela se imaginava como uma das grandes matriarcas da história francesa, a exemplo de Marguerite de Navarra, Catarina de Médici ou Ana de Áustria, ocupando o cargo de regente durante a menoridade do filho. Seus planos, a princípio, foram frustrados quando ela se viu forçada a partir com a família real, diante da ameaça de violência. Sua tia, Maria Amélia de Nápoles, a nova rainha consorte, porém, ficou horrorizada com tal tratamento. Afinal de contas, a soberana era neta da imperatriz Maria Teresa da Áustria, a Grande, sobrinha de Maria Antonieta e prima em primeiro grau da delfina Maria Teresa. Em seu íntimo, a esposa de Luís Filipe I sabia que seu marido dificilmente seria aceito por seu primo, o imperador Francisco I, ou por seu irmão, o rei das Duas Sicílias, pai de Caroline. Para muitos, o recém-aclamado “rei cidadão” seria o novo “usurpador”[1]. Enquanto isso, a família real desembarcava na Inglaterra para o início de sua nova vida no exílio.

Marie Caroline das Duas Sicílias, por Joseph-Hippolyte Lequeutre.

Os Bourbon assumiram novos títulos assim que chegaram. A duquesa de Berry assumiu o de condessa de Rosny, enquanto o pequeno Henri o de conde de Chambord. Durante o breve período em que permaneceu no Reino Unido, Marie Caroline deixou seus filhos sob a tutela da cunhada, Maria Teresa Carlota, e foi aproveitar o que a sociedade inglesa tinha de melhor a oferecer em matéria de entretenimento. A então condessa de Rosny passou algumas temporadas na cidade resort de Bath, aproveitando seu famoso spa e os clubes de jogatina. Em 1831, enquanto a família real se preparava para deixar a Grã-Bretanha e partir para o império austríaco, Caroline começou a pôr em prática seu plano de reconquista do trono. Depois de muito insistir, ela conseguiu com que seu sogro, Carlos X, a nomeasse regente durante a menoridade do filho “quando eles retornassem para a França”. Tão logo a proclamação fora feita, a duquesa de Berry desapareceu. Usando vários disfarces e pseudônimos extraídos de óperas italianas e dos romances de Sir Walter Scott, ela regressou ao continente imbuída da missão de derrubar Luís Filipe e colocar Henri no lugar dele. Caroline então percorreu um trajeto passando pela Alemanha, Holanda, Suíça e Itália, sempre viajando de forma incógnita.

Com efeito, seus parentes Bourbon acabavam descobrindo acerca de seu paradeiro lendo os jornais diários, que relatavam suas aventuras. Em 8 de novembro de 1830, o pai de Marie Caroline, Francisco I das Duas Sicílias, havia morrido. Quem reinava agora era seu irmão, Fernando II, nascido a partir do segundo casamento de Francisco com a infanta Maria Isabel da Espanha. O novo rei tinha quase nenhum domínio sobre a sua irmã mais velha e, à medida em que as notícias sobre suas escapadas corriam de boca em boca, ele ficava cada vez mais preocupado com sua situação. Caroline desembarcou primeiro em Gênova e depois seguiu viagem pela comuna de Sestri, pela de Massa e Florença. Rapidamente, os príncipes locais trataram de enviar cartas ao rei Luís Filipe, informando sobre o paradeiro da duquesa. O mesmo aconteceu quando ela chegou em Roma e foi advertida pelo próprio Papa. Não sendo bem-vinda em nenhuma dessas localidades, a duquesa contatou seu irmão, em busca de apoio. Alarmado com a falta de cautela da duquesa, o rei ficara sabendo que o plano dela consistia em levantar a população da Vendéia em favor de seu filho, Henri. Partindo dessa certeza, Caroline seguiu para a França, desembarcando em Marselha no mês de abril de 1832. Seus correspondentes lhe deram garantias de que a região da Provença também se levantaria.

Disfarçada, a duquesa chegou até a Vendéia. O mesmo distrito onde, quatro anos antes, ela havia sido tão entusiasticamente aplaudida. Uma vez lá, fora informada de que a população não estava pronta para se rebelar. Logo, a expedição de Marie Caroline se transformou em um desastre, resultando em três confrontos com os gendarmes, poucas mortes e um castelo incendiado. As promessas de suporte à causa de seu filho se mostraram vãs. Nem mesmo seu irmão, o rei das Duas Sicílias, estava disposto a entrar em uma guerra aberta contra Luís Filipe por conta dos planos de ambição da duquesa. Dessa forma, a guerra da Vendéia acabou terminando antes mesmo de ter começado. Quando soube das ações da nora, Carlos X se sentiu ultrajado e retificou sua proclamação anterior, dizendo que Maria Caroline não era regente da França. De sua parte, a duquesa de Berry reconheceu sua derrota e se refugiou em Nantes. Disfarçada com o nome de “Petit Pierre”, uma camponesa, ela encontrou abrigo numa casa modesta, acompanhada de sua comparsa, a senhorita Kersabiec. Durante aquele verão de 1832, ela teria iniciado um romance com o conde italiano Ettore Lucchesi-Palli, que então trabalhava junto com a amante, enviando cartas para quase todos as Casas Reais da Europa.

Marie Caroline aprisionada na fortaleza de Blaye, segundo obra de François Nicholas Riss, 1832.

Com efeito, quase todos os reis lhe deram as costas, exceto um, Guilherme I dos Países Baixos, que concordou em ceder a Bélgica para a França, caso Henri de Chambord ascendesse ao trono. Enquanto isso, a polícia do rei Luís Filipe procurava freneticamente pelo paradeiro da duquesa, conhecida então como a “Mary Stuart da Vendéia”. No melhor estilo dos enredos criados por Sir Walter Scott, a duquesa foi traída por um de seus comparsas. Sua localização fora vendida por um homem chamado Deutz, por uma soma de 500 mil francos! Ele então passou para Thiers, chefe do governo de Luís Filipe, o endereço da casa onde Caroline se escondia. Quando os gendarmes arrombam a porta do local, a fugitiva rapidamente se abrigou com seus comparsas, Kersabiec , Mesnard e Guibourb, em um esconderijo atrás da lareira, que havia servido de albergue durante os tempos das guerras da Vendéia. Como já era outono e o local estava frio, os guardas acenderam a lareira. Tão logo a fumaça e a fuligem tomaram conta do esconderijo, os fugitivos começaram a sufocar dentro do pequeno espaço e tiveram que sair, ou morreriam asfixiados. A duquesa foi então capturada e enviada para a fortaleza de Blaye, na Gironde, onde foi presa e encarcerada por ordem de Luís Filipe.

Uma vez na prisão, descobriu-se que Marie Caroline estava grávida, causando vergonha em sua família. Para a maioria dos pesquisadores, a paternidade é geralmente atribuída a Mesnard ou a Guibourb, dois dos conspiradores que haviam sido capturados com a duquesa. Como eles eram homens de baixo estamento, uma união com Caroline estava fora de cogitação. Assim que Carlos X soube da história, ele ordenou que a nora conseguisse imediatamente uma licença para se casar. A duquesa então respondeu que, quando de sua estadia em Nápoles no final de 1831, ela havia se unido secretamente com um amigo íntimo. De fato, existe uma prova do casamento nos registros do Vaticano, de que a cerimônia fora realizada no dia 14 de dezembro por um padre jesuíta, Rozaven, com o consentimento do Papa Gregório XVI. Por outro lado, é possível que a evidência tenha sido plantada pelo próprio rei Fernando II, no intuito de salvar a reputação da irmã. Com a notícia da nova gravidez da duquesa, ela perdeu crédito entre a maioria de seus antigos apoiadores. Em 10 de maio de 1833, ela deu à luz na prisão uma menina, batizada de Anna Maria Rosalia. Finalmente, a mãe revelou o nome do suposto pai da garotinha: conde Ettore Lucchesi-Palli, Cavaleiro da Câmara do rei das Duas Sicílias, que então vivia em Palermo, na Itália.

Ettore, por sua vez, não contestou a alegação de Marie Caroline e afirmou que, no verão de 1832, se deslocava com constância para a região de Nantes, a fim de se encontrar com a esposa. Tais alegações, entretanto, foram vistas com descrédito. Na opinião dos céticos, tudo não teria passado de uma armação do rei Fernando, para que Caroline saísse desse embaraço com a cabeça erguida. Não obstante, a duquesa, agora condessa Lucchesi-Palli, representava pouquíssima ameaça para a monarquia de Luís Filipe. Embora a prisioneira tenha se mostrado teimosa e obstinada durante as semanas em que esteve presa, o rei ordenou sua liberdade no dia 5 de julho. Caso ela voltasse a causar embaraço, seria para o ramo sênior dos Bourbon e não para o novo reinado, conforme pensavam os ministros do “rei cidadão”. Em vez de se reunir com a família real no exílio em Praga, a condessa partiu para o encontro de seu marido, oito anos mais jovem, em Palermo. Levava consigo a pequena Rosalia, com apenas dois meses de vida. Enquanto isso, os filhos do primeiro casamento de Caroline, Louise e Henri, permaneciam sob custódia da tia, Maria Teresa Carlota, a quem eles tratavam como se fosse mãe. A delfina se responsabilizou pela educação dos sobrinhos, preparando o pequeno conde de Chambord para seu futuro como monarca, caso um dia ele viesse a subir ao trono.

Preocupada com os filhos, Marie Caroline procurou Chateaubriand, defensor das causa impossíveis, para que pleiteasse a sua junto ao rei Carlos X. Acima de tudo, ela desejava que a maioridade de Henri fosse declarada, o que aconteceria quando ele atingisse os 14 anos em 1834. Maria Teresa disse que sentia muito por sua infeliz irmã e recebeu do escritor um conjunto de cartas codificadas, escritas com tinta invisível, nas quais Caroline pedia à prima para que tomasse conta das duas crianças. “Ela está certa ao poder contar comigo”, respondeu a delfina para o embaixador. Quando estava em Carlsbad, famosa por suas águas termais, Maria Teresa escreveu uma nota endereçada para a cunhada:

Tive muita satisfação, minha querida irmã, por finalmente receber notícias diretamente de você. Sinto por você de todo o meu coração. Conte sempre comigo no que diz respeito ao interesse constante para consigo e, sobretudo, por seus queridos filhos, que para mim são mais preciosos do que nunca. Minha existência, por mais longa que seja, será devotada a eles. Ainda não consegui entregar suas encomendas à nossa família, pois minha saúde exigiu que eu viesse aqui tomar as águas. Mas eu as entregarei tão logo retorne, e acredito que nós nunca, eles e eu, teremos nada além dos mesmos sentimentos concernentes a tudo. Adeus, minha querida irmã. Sinto muito por você do fundo do meu coração. M. T. (apud NAGEL, 2008, p. 336).

Retrato de Ettore Lucchesi-Palli, segundo marido de Marie Caroline.

Embora tenha encontrado em Maria Teresa uma pessoa simpática à sua situação, o rei não estava tão convencido assim. Para ele, Marie Caroline havia mancado o nome de toda a família e se tornado indigna de retornar para seu convívio, muito menos de ver os filhos.

Atordoada, a condessa tentou de todas as formas se reaproximar das crianças através de Chateaubriand. Ela temia que a educação que Henri recebia de seus preceptores o deixassem mais alinhado com a visão de mundo de Carlos X do que com as ideias de uma monarquia constitucional. Quando a maioridade do conde de Chambord chegou, houve uma oportunidade para que Marie Caroline se reencontrasse com seus antigos familiares. A reunião ocorreu em 13 de outubro de 1834, no Hotel Emperor, em Leoben. Naquela ocasião, o monarca deposto finalmente contou aos netos que sua mãe não só tinha se casado novamente, como dado à luz uma criança. Chocados com a notícia, tanto Louise quanto Henri se recusaram a ver Caroline. No saguão do hotel, o rei e sua antiga nora tiveram uma terrível discussão. A condessa exigiu ver os filhos, que os tutores do jovem Henri fossem substituídos por mentes capazes de prepará-lo para o futuro e não para o passado e que uma proclamação formal de sua maioridade fosse feita. Carlos X, por sua vez, rejeitou cada uma das demandas de Caroline. Percebendo que sua abordagem não estava obtendo os resultados desejados, a condessa começou a esbravejar, chamando a atenção de todos em volta. Seus gritos eram tão altos, que Maria Teresa Carlota fechou todas as portas e janelas de seus aposentos, com vergonha.

À sua maneira, Maria Caroline havia lutado pelo direito de Henri ao trono e falhado. Chateaubriand depois escreveria que ela “escolheu ser a feliz condessa Lucchesi-Palli, em vez da infeliz mãe de Henrique V”. No futuro, ela continuaria escrevendo para os filhos, por meio da cunhada. Ela teve permissão para vê-los a uma distância segura no Château Brandeis, na Boêmia, graças à ajuda do imperador Francisco da Áustria. A partir de então, seus poucos encontros com Louise e Henri seriam sempre curtos e na presença de outras pessoas. Dois anos depois da maioridade do conde de Chambord, o rei Carlos X morreu, fazendo com que seu filho, Luís Antônio, fosse reconhecido como rei da França no exílio com o nome de Luís XIX. Maria Teresa Carlota passou a receber então o tratamento de rainha consorte pelos partidários do ramo sênior dos Bourbon. Enquanto isso, Caroline se retirou de cena com o marido e se mudou para a Sicília. Em seguida, ela adquiriu a bela propriedade de Ca’ Vendramin Calergi, localizado no Grande Canal, em Veneza. Naquele local idílico, o conde e a condessa Lucchesi-Palli criaram seus quatro filhos[2]. Ao todo, eles tiveram 28 netos e a descendência do casal perdura até os dias de hoje. Em 1844, o rei Luís XIX morreu, fazendo de seu sobrinho, Henri, o chefe do ramo sênior dos Bourbon, com o nome de Henrique V.

Fotografia de Marie Caroline, condessa Lucchesi-Palli, em 1868.

Com efeito, Marie Caroline não estava presente no casamento de sua filha Luise com Carlos III, duque de Parma. Como sua tia, Maria Teresa Carlota, não teve filhos, a princesa acabou herdando quase todas as joias que haviam pertencido a Maria Antonieta[3]. Enquanto isso, a condessa dividia o tempo entre suas propriedades de Veneza e de Brunnsee, no Sul da Áustria. Foi em meio a essa situação que Caroline soube da deposição de Luís Felipe I e de sua tia, Maria Amélia, do trono da França, em 1848. Ao menos, ela podia tirar alguma satisfação diante dessa notícia. Dois anos depois, o sobrinho de Napoleão Bonaparte deu um golpe de estado e ascendeu o trono como Napoleão III, imperador dos Franceses. Durante essa fase, a condessa sofreu duras perdas: primeiro de sua filha Louise, em 1864 e depois de seu marido, dois meses depois. Coberta de dívidas, ela teve que vender suas propriedades e sua coleção de obras de arte na Itália, durante a fase do Risorgimento, que depôs sua família do trono das Duas Sicílias. Passou a residir definitivamente em Brunnsee, na Estíria. Marie Caroline faleceu em 16 de abril de 1870, aos 71 anos, pouco antes de ver o sonho de seu filho entronizado escorrer pelas mãos dele[4]. Como uma verdadeira heroína das novelas de Sir Walter Scott, Caroline fora protagonista de sua própria história e uma das mulheres mais interessantes de seu tempo!

Referências Bibliográficas:

AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos 1843-1889. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2014.

HUERTAS, Monique de. La Duchesse de Berry: l’aventureuse mère du dernier Roi de France. Paris: Pygmalion/Gérard Watelet, 2001.

HILLERIN, Lauren. La Duchesse de Berry: l’oiseau rebele des Bourbons. Paris: Flammarion, 2010.

IMBERT DE SAINT-AMAND, Arthur Léon. The Duchess of Berry and the court of Charles X. Nova York: Charles Scribner’s Sons, 1892.

NAGEL, Susan. Marie-Thérèse: the fate of Marie Antoinette’s daughter. Great Britain: Bloomsbury, 2008.

Notas:

[1] Até a Restauração, em 1814, Napoleão Bonaparte era chamado pela família real no exílio de “usurpador”. A rainha dos franceses, Maria Amélia de Nápoles, temia que seu marido recebesse igual tratamento.

[2] Maria Rosália, a primeira filha do casal, infelizmente, morreu com a idade precoce de dois anos.

[3] Quase 150 anos depois, em 2018, as joias da última rainha da França absolutista foram leiloadas.

[4] O conde de Chambord se recusara a aceitar a coroa após a queda do império, afirmando que seu estandarte jamais seria tricolor. Como a mãe havia previsto, sua educação antiquada o deixara fora de sintonia com os tempos contemporâneos.

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