As filhas do último czar: Olga, Tatiana, Maria e Anastásia – resenha de “As irmãs Romanov”, de Helen Rappaport

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: a vida das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

OTMA – A sigla pode lembrar o nome de alguma firma, ou de um grupo empresarial, mas é nada disso. Se bem que, olhando através de um ângulo diferente, a produção e o casamento de princesas não deixava de ser um excelente negócio para as muitas casas reinantes da Europa. Antes da Revolução de 1917, o czar Nicolau II poderia ser considerado afortunado: tinha não uma, mas quatro grã-duquesas, nascidas em ordem sucessória e preparadas desde tenra idade para desempenhar seu papel no jogo de alianças diplomáticas do período: Olga, Tatiana, Maria e Anastásia. Exceto no caso desta última, que se tornou famosa graças ao grande número de impostoras que reivindicaram sua identidade a partir da década de 1920, muita pouca atenção tinha sido dada às diferentes personalidades de suas outras irmãs. Foi esta a preocupação que moveu a historiadora Hellen Rappaport, especialista no século XIX, a dedicar anos de pesquisa intensiva sobre as quatro jovens, de seu nascimento até sua morte, quando foram assassinadas junto aos pais e o irmão hemofílico. Em As irmãs Romanov: a vida das filhas do último tzar[1], Rappaport apresenta os últimos anos de uma das dinastias mais poderosas da Europa, sob a perspectiva de quatro moças, que tiveram a vida brutalmente interrompida em julho de 1918.

Helen Rappaport, autora de “As irmãs Romanov”

Autora de mais de 10 livros de não-ficção, entre os quais podemos destacar Queen Victoria: a biographical companion (2003), e Magnificent Obsession: Victoria, Albert and the Death that Changed the Monarchy (2011), sobre a vida de uma das soberanas mais icônicas do Reino Unido, Helen Rappaport se destaca também na produção de ensaios e biografias sobre os líderes da Revolução Russa, tendo escrito obras como Joseph Stalin (1999), Conspirator: Lenin in Exile (2009) e Caught in the Revolution: Petrograd, Russia, 1917 – A World on the Edge (2016), entre outros. No Brasil, apenas dois de seus livros foram traduzidos. Em Os Últimos Dias dos Romanov, publicado em 2010 pela editora Record, Rappaport narra com perícia o dia-a-dia da família imperial na casa Ipatiev, até o seu assassinato, na madrugada de 17 de julho de 1918. A obra foi bastante aclamada pela crítica especializada e pode ser considerada referência indispensável sobre os dias finais de Nicolau, sua esposa, filhas e filho. Pouco tempo depois da primeira publicação de Ekaterinburg: The Last Days of the Romanovs, em 2008, a autora percebeu que até então nenhuma obra havia sido dedicada às quatro grã-duquesas, e passou a trabalhar arduamente na escrita de uma biografia conjunta das mesmas.

Publicada em 2014, The Romanov Sisters: The Lost Lives of the Daughters of Nicholas and Alexandra, devolve voz a quarto jovens que haviam sido relegadas a meras notas de rodapé nas páginas dos livros de História, e as coloca no lugar de protagonistas, oferecendo assim uma nova perspectiva sobre os acontecimentos que marcaram a Rússia pré e pós Revolução. O livro foi traduzido para o português por Cássio de Arantes Leite e lançado no Brasil em 2016 pela Editora Objetiva, sob o título de As irmãs Romanov: a vida das filhas do último tzar. A edição brasileira possui 523 páginas, distribuídas em 22 capítulos, incluindo prólogo, epílogo e índice onomástico. Apesar de um pouco extenso, o livro possuía uma escrita leve. O lemos quase como se fosse um romance de época, daqueles protagonizados por mocinhas casadouras, sonhando com o futuro marido. O que o destoa deste gênero, porém, é justamente o desfecho da trama. Helen Rappaport conseguiu captar, através de uma variada gama de documentos, como cartas, diários pessoais e testemunhos, toda a insegurança, as paixões e os medos de quatro jovens, que, embora nascidas no topo da hierarquia social, almejavam a mesma vida que outras garotas de sua idade. Embora cercadas pelo luxo, possuíam inclinações bastante singelas, se comparadas a outras princesas do período.

Da esquerda para a direita: Maria, Tatiana, Anastásia e Olga.

Com efeito, talvez o aspecto mais interessante do livro de Rappaport seja a análise individual que a autora faz acerca das personalidades das filhas do último czar. Geralmente, quando pensamos em Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, somos conduzidos a vê-las como uma unidade, sempre usando os mesmos vestidos (que eram reaproveitados de uma irmã para a outra) ou o mesmo penteado nos retratos oficiais, ao passo que desconsideramos o quão diferentes eram umas das outras. Olga costumava ser a mais bondosa e emotiva das irmãs. Possuía um espírito altruísta que, ora tendia para a melancolia, ora para a alegria. Em muitos aspectos diferia de Tatiana, mais organizada e aplicada ao dever de tal forma, que em muitas ocasiões se responsabilizava pelas crianças menores. As duas filhas mais velhas eram chamadas dentro da família imperial de o “grande par”, para distingui-las do “pequeno par”, composto por Maria e Anastásia. Maria era “a mais cordial e sincera e sempre foi extremamente respeitosa com seus pais” (p. 119). De todas, era a menos afetada pela percepção de sua posição social, e conversava indistintamente com qualquer pessoa. Sua personalidade mais complacente a deixava bastante submissa à dominante Anastásia, “pois a Romanov mais nova constituía uma força de natureza da qual era impossível ficar diferente” (p. 119).

Nascidas em ordem sucessória (primeiro Olga, em 1895, depois Tatiana, em 1897, Maria, em 1899 e Anastásia, em 1901), as irmãs Romanov foram recebidas com algum desapontamento por parte dos membros da família imperial e do povo, que aguardavam ansiosamente pela chegada de um czarevich. Esse sentimento ficou ainda mais latente quando do nascimento de Anastásia:

O povo russo e a família imperial ficaram, contudo, extremamente desapontados; como observou a esposa de um diplomata norte-americano, Rebecca Insley Casper, a chegada de Anastásia “criou uma indignação indescritível numa nação clamando por um menino”. “Meu Deus! Que Decepção! […] A quarta menina!”, exclamou a grã-duquesa Xenia. “Perdoe-nos, Senhor, se nos sentimos todos desapontados, e não em júbilo; esperávamos tanto que fosse um menino, e é a quarta menina”, fez coro o grão-duque Konstantin (p. 84).

Apesar da frustração geral (“Iluminações, mas desapontamento”, foi o título da manchete do Daily Mail de 19 de junho de 1901), Rappaport ressalta como Nicolau fez o possível para demonstrar sua alegria e orgulho pelo nascimento de cada uma de suas filhas, sem abrir mão da esperança de que um filho logo nasceria. Quando este chegou, logo se descobriu que era portador da hemofilia, ou “do mal de Hesse”, como era pejorativamente chamada a doença hereditária transmitida pelos filhos e netos da rainha Vitória a alguns de seus descendentes.

Entretanto, este não se trata de mais um livro sobre Nicolau, Alexandra e o drama privado que sofreram por causa da hemofilia de Alexei[2]. Em As irmãs Romanov, tais aspectos ficam na periferia da obra. No cento estão as quatro grã-duquesas, objeto principal de pesquisa da autora. É particularmente interessante observar a relação que elas mantinham com os pais, entre si e com aqueles que faziam parte do seu círculo pessoal, desde os professores até mesmo a tripulação de marinheiros do Shtandart, o iate imperial onde sempre viajavam durante as férias de verão. Eram muito atenciosas para com o próximo, especialmente com o irmão Alexei. O imaginário coletivo sobre a última família imperial é preenchido por grande quantidade de bailes, joias cintilantes e nobres títulos, enquanto o povo nas ruas passava fome e frio. Rapport demonstra, porém, que no início do século XX a crise financeira afetou bastante não só os outros segmentos da sociedade, como também os Romanov, de modo que restara muito pouco do fausto de outras eras nos anos finais da dinastia. Baseada em extensa fonte primária, a autora demonstra que Olga, Tatiana, Maria e Anastásia eram submetidas a um regime quase espartano, com aulas, exercício físico e trabalhos de agulha. Dormiam em camas de viagem, daquelas que se usavam no exército, e na maior parte do ano usavam vestidos de tecido simples, que chocavam alguns visitantes pelo seu aspecto singelo e que em nada lembravam os trajes elegantes dos seus retratos oficiais.

Capa da edição brasileira de “As irmãs Romanov”, publicada em 2016 pela editora Objetiva.

Com efeito, Rappaport peca por uma análise bastante parcial e algo romântica das vidas das quatro filhas do czar. Conceitos como “amor” e “paixão” são utilizados por ela de forma anacrônica, para classificar os sentimentos que as jovens nutriam por este ou aquele rapaz. Considerei também a análise que a autora faz de alguns fatos e fontes, bastante parcial e algo romântica, de forma a induzir o leitor a olhar para a família imperial sempre com complacência, a despeito daqueles que arcavam com o ônus de sustentar a autocracia: o povo. Algumas de suas teorias, porém, são bastante interessantes: a primeira delas consiste no suposto plano de Nicolau em transformar Olga na sua herdeira, caso Alexei se mostrasse incapaz de assumir o trono, cansando-a com o primo Dimítri Pávlovich. A outra, e talvez a mais interessante, consiste na quebra do encanto místico que envolvia a realeza, que para a autora aconteceu quando Alexandra, Olga e Tatiana se alistaram como enfermeiras na guerra, com o hábito das “irmãs misericordiosas”, e foram cuidar dos soldados feridos, mostrando assim à população que eram pessoas comuns, e que poderiam, portanto, ser substituídas. De cunho instigante e bastante elucidativo, As irmãs Romanov é um prato cheio para quem quiser saber mais a respeito das vidas das quatro filhas do czar, ao passo que convida o leitor a observar a queda do czarismo sob o prisma de Olga, Tatiana, Maria e Anastásia – OTMA.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduado em História – UESC

Mestre em Memória: Linguagem e Sociedade – UESB

Notas:

[1] Em português, tanto “tzar” quanto “czar” podem ser aplicados para se referir aos imperadores da Rússia.

[2] Sobre o papel que a hemofilia de Alexei teve na vida da última família imperial, é interessante consultar o obra de Robert K. Massie, Nicolau e Alexandra, publicada no Brasil em 2014 pela editora Rocco.

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