Hipátia de Alexandria – saiba quem foi a importante filósofa do tempos antigos, vitimada por seus pensamentos.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em algum dia do ano de 415 ou 416 d.C., os pedestres que caminhavam pelas ruas da cidade de Alexandria, no Egito, observavam uma cena que hoje, para nós, pode parecer chocante, mas que naquele período talvez fosse algo comum: uma mulher era abordada em sua carruagem por um grupos de homens, que a arrastaram para dentro de uma igreja, onde ela foi despida e depois apedrejada até a morte. A turba de zelotes era encabeçada por Pedro, mais conhecido como O Leitor. Após a morte da vítima, os assassinos esquartejaram seu corpo e então o queimaram. Mas quem era essa mulher e por que ela teve um fim tão cruel? Nascida possivelmente no ano de 370 d.C., seu nome era Hipátia, uma das maiores pensadoras de seu tempo, além de uma das primeiras mulheres a estudar e ensinar matemática, astronomia e filosofia. Embora ela seja comumente lembrada pela sua morte brutal, a história de sua vida se insere num contexto de conflito entre religião e ciência, no qual a cidade de Alexandria estava mergulhada nos séculos IV e V da era cristã.

Hipátia é arrastada pelas ruas de Alexandria por uma turba de cristãos furiosos (Mary Evans Pcture Library).

Fundada em 331 a.C. por Alexandre, o Grande, a cidade de Alexandria rapidamente floresceu e se transformou num importante centro cultural dos tempos antigos. No coração desse conjunto urbano, estava o Museu, que também funcionava como uma espécie de universidade, cuja coleção de mais de meio milhão de pergaminhos era mantida pela famosa Biblioteca de Alexandria. Porém, a cidade passou por uma fase de declínio a partir de 48 a.C., quando Júlio César a anexou ao império romano e, acidentalmente, pôs fogo à biblioteca, destruindo assim parte de sua coleção de manuscritos. Com a divisão do império em 364 d.C., Alexandria passou a integrar a banda oriental, sendo o palco constate de disputas entre cristãos, judeus e pagãos. Não obstante, outros conflitos civis também contribuíram para a destruição do que restava do conteúdo da biblioteca. Em 391, por exemplo, o imperador autorizou o bispo Teófilo a derrubar todos os templos pagãos da cidade, incluindo o Museu e o templo do deus Serápis, que mais tarde foi transformado em igreja e onde, possivelmente, estavam guardados os últimos rolos de pergaminho da biblioteca.

Foi nesse contexto de disputas religiosas que nasceu Hipátia, filha do último membro conhecido do Museu, o matemático e astrônomo Téon. Alguns dos escritos de Téon ainda existem, como seus comentários à obra de Euclides, Os Elementos. Até o século XIX, a cópia desse clássico contento as anotações de Téon era a única versão conhecida acerca desse trabalho de geometria. Entretanto, pouco se sabe a respeito da família de Hipátia. Mesmo a data exata de seu nascimento permanece no campo das conjecturas: enquanto alguns pesquisadores sustentam que ela veio ano mundo em 370 d.C, os historiadores afirmam que isso aconteceu vinte anos antes, em 350 d.C. A identidade de sua mãe é um completo mistério. Por outro lado, é possível que não fosse filha única. Algumas pesquisas sugerem que um dos alunos favoritos de Téon, Epifânio, era na verdade seu filho. Segundo a crença, Teón teria ensinado matemática e astronomia para Hipátia, que mais tarde viria a contribuir em alguns de seus trabalhos. Acredita-se que o Livro III da versão de Téon para Almagesto, de Ptolomeu (um tratado que estabeleceu um modelo geocêntrico para o sistema solar, derrubado apenas no tempo de Copérnico e Galileu) foi na verdade trabalho de sua filha.

A cidade de Alexandria, no Egito, se tornou um dos maiores centros culturais do mundo antigo.

Segundo os registros, Hipátia era uma mulher extraordinária para o seu tempo. Ela não fora criada por Téon de acordo com o papel atribuído às mulheres na tradição grega, que segundo o historiador Slatkin estava “concentrado nas necessidades domésticas e da família. As mulheres cuidavam das crianças pequenas, dos doentes e preparavam os alimentos” (apud MARK, 2009). Em contrapartida, Hipátia trilhou um caminho costumeiramente feito por homens, como o seu pai.  De acordo com o escritor antigo Deakin:

A amplitude de seus interesses é a mais impressionante. Dentro da matemática, ela escreveu e/ou lecionou sobre astronomia (incluindo seus aspectos observacionais, como o astrolábio), geometria (modo avançado) e álgebra (novamente, em modo avançado), e fez um avanço na técnica computacional – tudo isso, bem como se envolver com filosofia religiosa, e aspirante a um bom estilo de escrita. Seus escritos foram, o melhor que podemos julgar, uma conseqüência de seu ensino nas áreas técnicas da matemática. Na verdade, ela continuava um programa iniciado por seu pai: um esforço consciente para preservar e elucidar as grandes obras matemáticas da herança alexandrina (apud MARK, 2009).

Com efeito, Hipátia logo se tornaria independente da tutela paterna, fazendo seus próprios comentários a obras de importantes pensadores e ensinando em sua casa para vários alunos. De acordo com uma carta escrita por um deles sobre as aulas de Hipátia, os ensinamentos da filósofa incluíam a como projetar corretamente um astrolábio, espécie de calculadora astronômica portátil utilizada até o século XIX. Além dessas áreas, Hipátia logo ganhou fama como pensadora da Escola Neoplatônica de Alexandria. Um de seus alunos, Sinésio, se tornaria um bispo da igreja cristã, famoso por incorporar os princípios do neoplatonismo à doutrina da Trindade. As palestras públicas de Hipátia logo começaram a atrair a atenção popular. Vestida em sua túnica, ela fazia “aparições em torno do centro da cidade, expondo-se em público para aqueles que queriam ouvir sobre Platão e Aristóteles”, conforme escreveu o filósofo Damáscio após a morte dela.

Quadro rafaelita representando a escola de Alexandria. No centro, vestindo uma túnica branca e manto carmesim, encontra-se a filósofa Hipátia.

Não chegou ao nosso conhecimento se Hipátia teria ou não se casado e/ou constituído família. É possível que ela tenha seguido a doutrina de Platão no que diz respeito à abolição do sistema familiar e escolhido uma vida celibatária. “Quase sozinha, virtualmente a última acadêmica, ela defendia os valores intelectuais, a matemática rigorosa, o neoplatonismo ascético, o papel crucial da mente e a voz da temperança e da moderação na vida cívica”, escreveu Deakin. De acordo com o Suda, uma enciclopédia do século X sobre o mundo mediterrâneo, Hipátia era “extremamente bela e formosa… seu discurso lógico e articulado, suas ações prudentes e comunitárias, garantiu-lhe as boas-vindas da cidade e seu especial respeito”. Entre seus admiradores se encontravam o governante de Alexandria, Orestes, que acabou morrendo por sua associação à filósofa.

Quando Teófilo, o arcebispo que comandou a destruição da última grande Biblioteca de Alexandria, faleceu em 412 d.C., ele foi sucedido por seu sobrinho, Cirilo, que deu continuidade à política de hostilidades para com outras religiões, até então levada a cabo por seu tio. Uma de suas primeiras ações seria fechar e saquear as igrejas que pertenciam à seita cristã, Novatian. Logo se estabeleceu uma disputa entre Cirilo e Orestes pelo controle de Alexandria. Apesar de cristão, o governante não estava disposto a fazer concessões à igreja. O auge das animosidades se deu após o assassinato de um grupo de cristãos por extremistas judeus, que logo depois seriam enxotados da cidade, junto com seu povo. A expulsão dos judeus de Alexandria teria deixado Orestes furioso, a ponto de o governador encaminhar seus protestos ao governo romano, sediado em Constantinopla. Toda as tentativas de conciliação entre o líder religioso e o líder civil foram em vão. Em sua ira, os cristãos chegaram fazer uma tentativa de assassinato contra Oretes, embora sem sucesso.

Rachel Weiz como Hipátia no filme “Alexandria” (2009)

Sabendo da admiração que Orestes nutria por Hipátia, ela logo se tornou um alvo fácil para os cristãos. Uma vez que suas pregações públicas acerca de uma filosofia não-cristã como o neoplatonismo eram contrárias à doutrina religiosa, que também condenava suas atividades como filósofa, matemática e astrônoma, seu destino estava selado. Um boato começou a correr entre as bocas maledicentes, afirmando que ela seria a responsável pelo desacordo entre Cirilo e Orestes. Desprotegida diante daquela turba de zelotes, liderados por Pedro, o Leitor, que a capturou na rua, Hipátia encontrou o seu trágico fim. Porém, não se pode responsabilizar Cirilo por esse ato, embora ele tenha ordenado pouco depois a destruição da Universidade de Alexandria, onde Hipátia lecionava, e o exílio de muitos intelectuais e artistas da cidade recém-cristianizada. Por seus esforços na luta contra o paganismo e estabelecimento da fé cristã, ele seria canonizado pela igreja.

Quanto a Hipátia, sua morte está inserida num ponto de cisão na História, na passagem da idade Clássica pagã para a idade Média. Hoje, ela é considerada um símbolo para muitas feministas e mártir pelos ateus e pagãos. Voltaire, inclusive, utilizaria sua morte brutal para condenar os abusos da Igreja no século XVIII. Em 2009, ela foi personagem principal do filme “Alexandria”, interpretada pela atriz Rachel Weisz. A produção conta a vida de Hipátia de uma ponto de vista ficcional e sua luta para preservar os principais manuscritos da Biblioteca da destruição disseminada por fanáticos religiosos. Fanatismo esse que ceifou a vida de uma mulher excepcional, mas que não conseguiu destruir o poder e o fascínio que a figura dela continua a exercer até então.

Referências:

MARK, Joshua J. Hypatia of Alexandria. – Acesso em 07 de março de 2017.

ZIELINSKI, Sarah. Hypatia, anient Alexandria’s great female scholar. – Acesso em 07 de março de 2017.

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3 comentários sobre “Hipátia de Alexandria – saiba quem foi a importante filósofa do tempos antigos, vitimada por seus pensamentos.

  1. Muito triste isso viu, fanatismo seja religioso, político, ou qualquer outro, são um câncer puro.

    Eram tantas as possibilidades dela ser ainda maior.. e isso infelizmente não se cumpriu devido a fé cega doutrinária daquela época.

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