A sociedade de corte e a representação da mulher no romance “Senhora” (1875)¹

 Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 1808, quando da transferência da Corte portuguesa de Lisboa para o Rio de Janeiro, muitas reformas foram operadas na colônia, como a abertura dos portos e o livre comércio, que contribuíram para a independência do Brasil em 1822. Além disso, observou-se a ascensão de uma nova classe social, a burguesia, e com ela uma nova mentalidade, na qual as vivências familiares e domésticas foram reorganizadas, assim como o próprio modo com que o indivíduo enxergava a si próprio e o meio onde estava inserido (DEL PRIORE et al., 2001). Durante essa fase, ainda verificou-se “o nascimento de uma nova mulher nas relações da chamada família burguesa, agora marcada pela valorização da intimidade e da maternidade”.  Nesse caso, “um sólido ambienta familiar, o lar acolhedor, filhos educados e esposa dedicada ao marido, às crianças e desobrigada de qualquer trabalho produtivo representavam o ideal de retidão e probidade”, constituindo-se dessa forma num “tesouro social imprescindível” (DEL PRIORE et al., 2001, p. 223).

José de Alencar

José de Alencar

O casamento entre as famílias ricas era arranjado como uma espécie de degrau para o avanço do status social ou para a manutenção do mesmo. Enquanto os romances discorriam sobre histórias de uniões por amor, o que antes ditava uma possível relação matrimonial, no século XIX eram as vantagens que esta traria e não o afeto mútuo entre os cônjuges. Nesse arranjo, o papel das mulheres dentro do seio familiar era o de uma educadora, mãe dedicada e atenciosa. Não obstante, ela também assumia uma importante função para o bom desempenho da família, uma vez que os homens eram dependentes da imagem que suas esposas pudessem traduzir para o restante das pessoas (DEL PRIORE et al., 2001, p. 229). Dessa forma, é possível dizer que manter uma vida de boas aparências era fundamental para que se obtivesse prestígio e respeito dentre os seus iguais, pois qualquer mácula ou escândalo poderia prejudicar as ambições da família e, portanto, uma conduta irrepreensível (especialmente por parte das mulheres) se fazia indispensável para o sucesso desta.

O Brasil do século XIX, contudo, também presenciou a ascensão de um gênero literário que ganhou o gosto entre a aristocracia: o romance. Segundo Ian Watt (1996, p. 15), “o romance é o veículo literário lógico de uma cultura que, nos últimos séculos, conferiu um valor sem precedentes à originalidade, à novidade”. Como as mulheres da classe alta e média, em sua maioria, não participavam das atividades masculinas (tais como na política, negócios e administração das propriedades) então dispunham de mais tempo livre e logo se tornaram assíduas leitoras de romances (WATT, 1996). Segundo Maria Ângela D’Incao:

O período romântico da literatura brasileira, especialmente a literatura urbana, apresenta o amor como um estado da alma; toda a produção de Joaquim Manoel de Macedo e parte da de José de Alencar comprovam isso. No romantismo são propostos sentimentos novos, em que a escolha do cônjuge passa a ser vista como condição de felicidade. A escolha, porém, é feita dentro do quadro de proibições da época, à distância e sem os beliscões… (DEL PRIORE et al, 2001, p. 234).

Dos romances urbanos de José de Alencar, talvez os que representem com maior expressividade a sociedade de Corte no Brasil sejam Lucíola (1862), Diva (1864) e Senhora (1875), marcados pela presença de personagens femininas fortes e que se destacavam entre os demais membros da sociedade. Em Senhora, observamos um retrato dos costumes aristocrático-burgueses no Brasil durante a segunda metade do século XIX, tais como os grandes bailes da Corte, o jogo de alianças matrimoniais entre as famílias burguesas, a moral professada pela sociedade da época, além da própria distribuição das funções femininas e masculinas na trama. Ainda de acordo com Maria Ângela D’Incao (idem, 234),

As pessoas que amam aparecem nas novelas como possuidoras de uma força capaz de recuperar o caráter moral perdido, como no caso de Seixas no romance Senhora de José de Alencar. O amor é sempre vitorioso: Aurélia, em Senhora, vence porque tinha um bom motivo: o amor. O amor nos romances vence, sobretudo o interesse econômico no casamento. No mundo dos livros, os heróis sempre amam.

A personagem Aurélia Camargo se configura na obra de Alencar como o oposto do modelo de mulher burguesa no século XIX.

A personagem Aurélia Camargo se configura na obra de Alencar como o oposto do modelo de mulher burguesa no século XIX.

Contudo, o que se verifica na narrativa alencariana de Senhora é uma crítica aos valores da sociedade carioca, especialmente no que se refere ao papel da mulher, entendida como um indivíduo submisso à vontade do marido. De acordo com Norma Telles (DEL PRIORE et al., 2001, p. 408) para tornar-se, portanto, criadora e não criatura, a mulher teria então que matar o anjo do lar para “enfrentar a sombra, o outro lado do anjo, o monstro da rebeldia e da desobediência”. Essa representação da mulher como transgressora dos padrões sociais é a que aparece em Senhora, pautada na figura da personagem principal, Aurélia. Moça pobre que recebe uma herança milionária do avô, Aurélia passa a figurar como uma das principais estrelas nos salões da corte carioca.

É possível dizer que José de Alencar se utiliza da voz da personagem para contestar o comportamento de seu tempo, uma vez que Aurélia escarnecia daquelas regras de etiqueta nas quais as pessoas pretendiam esconder seu verdadeiro caráter em detrimento de uma vida de aparências. Antes da notoriedade, ela era uma moça simples, vivendo com a mãe enferma. Quando então ela salta para a fama, um círculo de interesseiros se fecha em torno da mesma, cada um disputando a mão da jovem e o vultoso dote que a acompanhava.

O posicionamento de Aurélia quanto ao casamento fica evidente na fala desta para seu marido Seixas: – “Sou rica, muito rica, sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o” (ALENCAR, 1997, p. 75). O estado do matrimônio para a personagem, depois de sofrer uma desilusão amorosa com Fernando Seixas, passou a representar uma espécie de comédia, na qual ela se via como uma mulher traída e a ele como um homem vendido. Nas palavras de Carla Festinalli Rodrigues (2010),

No romance Senhora, a temática é o casamento por interesse e uma clara crítica ao modelo de relações comerciais e familiares vigente. A protagonista Aurélia, ao conseguir uma posição financeira e social, mostra-se mais forte e independente frente aos paradigmas sociais ao escolher o seu marido e pagar o maior dote para consegui-lo.

Os termos – “vendido” e “traste”, aplicados pela personagem ao próprio cônjuge, pretendem ressaltar o caráter fraco e hipócrita do homem burguês, principalmente daquele que, como Seixas, representava uma sociedade na qual a aparência e a fortuna significavam mais do que a integridade do sujeito. De acordo com o próprio José de Alencar, nas páginas de seu romance, a moral professada na sociedade durante aquele período era do tipo fácil e cômoda, na qual “tudo era permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que transija com a lei e evite o escândalo” (ALENCAR, 1997, p. 55).

No Brasil, durante o século XIX, certos manuais de etiqueta importados da França começaram a ganhar o gosto da elite. Em tais literaturas, as regras de boas maneiras e civilidade eram introduzidas no seio da aristocracia. Segundo Lília Moritz Schwarcz:

Na verdade era a ‘etiqueta’ que organizava tal teatro da corte, estabelecendo categorias claras, que distinguiam os homens desse mundo do resto da multidão. Não só nos hábitos, mas também no vestuário, nas expressões e nos gestos criavam-se e marcavam-se, de maneira visível, diferenciações sociais… (SCHWARCZ, 1998, p. 196).

"Senhora", obra  de José de Alencar.

“Senhora”, obra de José de Alencar.

Em “Senhora”, era no palco dos grandes bailes onde tais regras de etiqueta poderiam ser observadas. Com efeito, a personagem Aurélia, apesar de ter-se introduzido entre a aristocracia fluminense após ficar rica, debochava deste universo, enquanto Fernando, marido de Aurélia, se afigurava como a representação do mesmo. Entretanto, Senhora, apesar de pôr em evidência certos aspectos da sociedade burguesa durante os anos de decadência da monarquia brasileira, apresenta um desfecho não muito distante do romance tradicional: Aurélia, que durante toda a obra luta em aceitar ou não o amor de Fernando, acaba se rendendo à felicidade do casamento.

Dessa forma, é possível dizer que José de Alencar, apesar de contestar a moral e os costumes da sociedade carioca do século XIX, não conseguira ultrapassá-la, uma vez que apresentara, no desfecho de seu romance, a submissão de Aurélia perante a vontade masculina. Nesse sentido, ele abriu caminho para que Machado de Assis transpassasse esses limites (D’INCAO, 2001, p. 237-240). Todavia, Alencar, como cronista de seu tempo, apresentou um perfil da sociedade imperial bastante crítico, especificamente no que se refere à distribuição dos papéis femininos e masculinos em sua obra. Por isso, torna-se pertinente revisitar a sua obra, no intuito de compreender o processo histórico da construção das questões de gênero no Brasil através da literatura nacional.

Nota:

¹Comunicação apresentada no VIII Seminário de Pesquisa em História da UESC

Referências Bibliográficas:

CÂNDIDO, Antônio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. São Paulo: Martins, 1969, v. 2.

CHARTIER, Roger. O mundo como representação. In: Estudos Avançados. Vol. 5 n.º 11, São Paulo, Jan./Apr. 1991.

DEL PRIORE, Mary (org.). História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Contexto, 2001.

ELIAS, Norbert. A sociedade de corte. Tradução de Pedro Süssekind; prefácio de Roger Chartier. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.

PERROT, Michelle. Os excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

 . Mulheres públicas. São Paulo: UNESP, 1998.

RODRIGUES, Carla Festinalli. Mulheres alencarianas: considerações sobre o perfil da mulher do século XIX a partir da perspectiva literária em “Lucíola” e “Senhora”. Revista Ideias, Minas Gerais, n. 26 – Jul/Dez 2010.

SCHWARCZ, Lília Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

THIENGO, Mariana. O perfil de mulher no romance Senhora, de José de Alencar. Revista Travessias: Educação, Cultura e Arte, Paraná, v. 3. Acesso em: 19 de novembro de 2013.

WATT, Ian. A ascensão do romance. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

Anúncios

Um comentário sobre “A sociedade de corte e a representação da mulher no romance “Senhora” (1875)¹

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s