Por: Renato Drummond Tapioca Neto
No dia 4 de junho de 1871, dois dos maiores chefes de Estado do século XIX se encontravam pela primeira vez: o imperador D. Pedro II do Brasil e a rainha Vitória. O momento ocorreu no Castelo de Windsor, durante a primeira visita do imperador e da imperatriz D. Teresa Cristina à Inglaterra. Na ocasião, ele deixou uma forte impressão na monarca britânica, que o descreveu no seu diário como “muito alto, espadaúdo e corpulento, um homem de boa aparência, mas muito grisalho, embora com 44 anos” (apud BARMAN, 2012, p. 340). Já sobre a imperatriz, Vitória disse que ela era “muito amável e agradável, tão simples e despretensiosa. Ela é baixa e manca”. O Imperador Cidadão finamente ficava cara a cara com a avó da Europa, seis anos mais velha.
A visita era de suma importância para a diplomacia brasileira. Afinal de contas, as relações entre os dois impérios ficaram muito estremecidas entre os anos de 1862 e 1865, quando houve um incidente que ficou conhecido como “A Questão Christie”. Tudo começou quando navios mercantes britânicos naufragaram na costa do Rio Grande do Sul e parte da carga foi saqueada por moradores locais. O ministro britânico no Rio, William Dougal Christie, pressionou o governo imperial exigindo indenização imediata e punição aos responsáveis, adotando um tom arrogante e ameaçador.

Ao mesmo tempo, três oficiais da Marinha Real foram presos em uma briga de rua no Rio de Janeiro, o que Christie interpretou como ofensa à bandeira britânica. Diante da recusa do Brasil em ceder às exigências, a Grã-Bretanha respondeu prendendo cinco navios mercantes brasileiros em 1863, o que gerou revolta nacional. Dom Pedro II cortou relações diplomáticas com Londres e só aceitou arbitrar a disputa com o rei Leopoldo I da Bélgica, que deu ganho de causa ao Brasil na maioria dos pontos. O episódio abalou a imagem do Império, acirrou o sentimento nacionalista e mostrou como a pressão das potências europeias pesava sobre o Brasil no século XIX.
Em 1864, as duas famílias reais ficaram ligadas pelo casamento, já que as filhas de D. Pedro II se casaram com os netos de Luís Felipe, o destronado rei dos Franceses, que também faziam parte dos Saxe-Coburgo-Gota (a família materna de Vitória e de seu finado marido, o príncipe Albert): D. Isabel, princesa imperial, com o príncipe Gastão, conde d’Eu, e a princesa D. Leopoldina com o príncipe Augusto, duque na Saxônia. Os Orléans viviam em exílio na Inglaterra desde a Revolução de 1848. A rainha Vitória já tinha estabelecido laços familiares com os Bragança de Portugal, desde que seu primo, D. Fernando de Saxe-Coburgo-Koháry, se casou com a rainha D. Maria II, irmã mais velha de D. Pedro II, em 1836. As duas rainhas, nascidas em 1819, eram muito próximas e mantinham uma correspondência regular até a morte de D. Maria, em 1853.
Aquela era a primeira vez que D. Pedro II viajava à Europa, depois da Guerra do Paraguai. Antes disso, sua filha, a princesa imperial D. Isabel, estivera em Windsor com seu marido, Gastão de Orléans, conde d’Eu. A rainha Vitória também deixou suas impressões sobre a princesa no seu diário. O neto do rei Luís Filipe, a quem Vitória chamava de Gusty, fora criado praticamente como um príncipe inglês, tendo passado a maior parte de sua infância e juventude no Reino Unido, educado sob o olhar atento da rainha. Pouco antes da chegada do pai, D. Isabel estava na Europa, quando acompanhou sua irmã, a princesa D. Leopoldina, nas suas horas finais. Ela faleceu em 7 de fevereiro de 1871. D. Pedro II vinha ao velho continente visitar o túmulo da filha em Coburgo, enquanto sua primogênita retornava ao Brasil para assumir a regência do trono.
Depois de chegar em Portugal, onde passou alguns dias na companhia de seu sobrinho, o rei D. Luís, e de seu cunhado, o rei D. Fernando, D. Pedro II reviu sua madrasta, D. Amélia de Leuchtenberg, que partiu do Brasil em 1831, quando ele tinha apenas 5 anos. Também teve oportunidade de se reencontrar com suas irmãs, D. Francisca e D. Januária. Em seguida, partiu para Londres, onde conheceu a famosa monarca. Durante a entrevista, estavam presentes os filhos da rainha, Leopold e Arthur, e suas filhas, as princesas Alice e Helena, com seu marido, Christian. Feitas as apresentações, D. Pedro II introduziu seus acompanhantes, Nogueira da Gama e os barões de Bom Retiro e de Itaúna. Vitória foi bastante cordial com a comitiva brasileira, dirigindo-lhes perguntas. Ao final da entrevista, a rainha providenciou veículos para levá-los de volta ao hotel em que estavam hospedados. O cronista Boulanger, descrevendo o encontro dos dois monarcas, “a rainha recebeu os imperadores com as mais puras demonstrações de afeto e cordialidade, entretendo-se com eles por algum tempo acerca de diversos objetos” (apud TASSO, Dom Carlos, 2014, p. 41).

No dia seguinte, 5 de junho, a monarca retribuiu a cortesia e foi até Londres visitar D. Pedro II no Hotel Claridges, onde ele e sua esposa estavam hospedados. Mais tarde, ela deixou uma descrição muito viva dos modos e costumes do monarca brasileiro: “O imperador vai a toda parte e vê tudo, mas não frequenta a sociedade. Ele se levanta às 5 e já está fora às 6! Ele falou com muita gentileza e sabedoria, com a maior apreciação por nossas instituições, que ele disse que a Inglaterra lutara para conquistar nos últimos séculos. Ele é muito simples em suas preferências e gosta de ‘la vie de famille’ [a vida caseira]. Ele pretende visitar a Escócia por conta de Walter Scott, a quem ele tanto admira, e depois ir a Viena e Coburgo para visitar o túmulo de sua pobre filha & depois à Itália” (apud BARMAN, 2012, p. 340).
Porém, o ponto alto da visita foi a alta honraria que a rainha Vitória concedeu a D. Pedro naquele dia: a Ordem da Jarreteira, a mais antiga Ordem de Cavalaria da Inglaterra. Ainda de acordo com o cronista Boulanger em “Viagem de Suas Majestades Imperiais na Europa – 1871-1872”, a rainha chegou ao hotel acompanhada da duquesa de Roxburgh, Mr. Strapford e do seu secretário privado, o coronel Henry Ponsoby: “A visita da rainha foi de 1/3 de hora, no fim da qual S.M. [britânica] recebeu da sobredita duquesa uma caixa que levava e dela tirou por sua mão as insígnias da ordem da Jarreteira, colocando ela mesma no peito do imperador a respectiva Grã-Cruz” (apud TASSO, Dom Carlos, 2014, p. 41).
A atitude da rainha Vitória demonstra o quão elevada opinião e respeito ela tinha pelo monarca brasileiro. Afinal, aquela era a primeira vez que um chefe de Estado sul-americano era condecorado com a Ordem da Jarreteira. Normalmente, a insígnia é um privilégio para poucos e costuma ser concedida numa cerimônia solene no Castelo de Windsor, como no caso de Napoleão III, em 1855. Em vez disso, Vitória foi ela mesma ao imperador lhe entregar a condecoração, fixando-lhe a insígnia na casaca.
Mas as demonstrações de afeto não pararam por aí. Antes de ir embora, Vitória convidou D. Pedro II e D. Teresa para passar um dia com ela em Osborne House, na Ilha de Wight. No dia 18 de junho, o casal de imperadores partiu a bordo do Iate Real, “Albert”, por volta das 13h. D. Pedro II e D. Teresa permaneceram lá com a rainha Vitória até as 16h, tendo participado de um lanche na companhia da família real britânica. Eles desembarcaram em Portsmouth, acompanhados pela Princesa Real, Victoria, pela princesa Louise e pela duquesa de Roxburgh e do coronel Danley de Ros.

D. Pedro II e Dona Teresa Cristina estiveram depois no Novo Palácio de Potsdam, no dia 25 de agosto de 1871. Ali, o monarca brasileiro conheceu a então princesa herdeira, Victoria, e seu marido, o príncipe herdeiro Frederico. Tal como D. Pedro, Victoria era uma amante das ciências, das artes e se correspondia regularmente com muitos pensadores da época. Logo, uma admiração mútua cresceu entre a filha mais velha da rainha Vitória do Reino Unido e o imperador do Brasil. Em suas cartas à mãe, a Princesa Real elogiava o intelecto de D. Pedro II e seu entusiasmo pela Inglaterra e pela Escócia, o que demonstra o respeito e a boa impressão que o monarca brasileiro havia causado em outras famílias reais europeias. Assim sendo, Victoria e Frederico convidaram o soberano do Brasil para ser padrinho de sua filha Margaret, em 1873.
A partir de então, um interesse genuíno surgiu entre a rainha e o imperador, com trocas de cartas dando detalhes a respeito da vida cotidiana. Em junho de 1877, durante a segunda visita do imperador à Europa, ele visitou novamente a rainha Vitória no Castelo de Windsor, onde almoçou com a imperatriz Teresa Cristina. Naquela ocasião, D. Pedro chamou novamente a atenção da rainha pela sua ótima disposição. Acordava às 5h e às 6h já fazia suas andanças pela cidade. “Não se pode dizer o que ele não viu & fez”, escreveu a rainha no seu diário.
Vitória ja estava ciente da rotina do imperador, a partir dos relatos de sua filha mais velha, em Berlim: “A visita do Imperador do Brasil mantém nossas pernas consideravelmente ocupadas! Sua capacidade de ver e visitar é algo prodigioso; mas ele é realmente tão gentil e agradável que é um grande prazer estar com ele; a Imperatriz também é amável – e de tão boa índole, sempre satisfeita com tudo e bem-humorada. Como deve ser horrivelmente cansativo viajar assim, quando já não se é tão jovem”. Alguns dias depois, a princesa herdeira contou à mãe: “A Imperatriz é verdadeiramente uma das almas mais bondosas que já conheci. Ele [D. Pedro II] confessou a ela “je suis pourtant un peu fatigué” [estou realmente um pouco cansado] – mas, apesar disso, nem um item foi retirado do programa” (apud BARMAN, 2012, p. 401).
A princesa testemunhara uma das raras ocasiões em que D. Pedro II admitiu publicamente estar cansado. Na Inglaterra, D. Pedro II seguiu o itinerário pensado para ele, que incluía uma baile de Estado. D. Pedro II, que detestava bailes, apareceu entre a esnobe aristocracia inglesa, usando seu trágico casacão. A rainha Vitória achou graça nisso. Para a filha em Berlim, em 2 de julho de 1877, ela disse: “Mas vir ao State Ball and Concert [baile e concerto de pompa] vestindo uma sobrecasaca – com uma gravata preta e botas – é realmente bastante incompreensível e chocou muito as pessoas”. A princesa herdeira da Prússia, por sua vez, respondeu em 5 de julho: “É lamentável que ele choque as pessoas com a pequena excentricidade, embora não seja exatamente um crime” (apud BARMAN, 2012, p. 401).

Uma década depois, porém, a impressão já era outra. D. Pedro II e D. Teresa Cristina visitaram mais uma vez a rainha Vitória no Castelo de Windsor em 6 de abril de 1888. Naquela ocasião, viajavam com seu neto, D. Pedro Augusto. Vitória observou que o casal imperial “parecia ambos envelhecidos e muito enfermos”. Um ano depois, a República era proclamada. A família imperial, banida para a Europa. Em 28 de dezembro de 1889, a imperatriz D. Teresa Cristina faleceu. Chocada com a notícia, Vitória escreveu no seu diário: “Muito sentida em saber da morte da pobre e boa imperatriz do Brasil em Oporto, após somente alguns dias adoentada. A Revolução sem dúvida matou-a. É muito triste”. O Imperador e a Rainha-Imperatriz nunca mais se encontraram. D. Pedro II morreu exilado em Paris, no dia 5 de dezembro de 1891. Vitória viveu quase 10 anos a mais, falecendo em 22 de janeiro de 1901.
Referências Bibliográficas:
ALEXANDRE, Philippe; DE L’AULNOIT, Béatriz. Victoria: a última rainha (1819 – 1901). Tradução de Fátima Gaspar e Carlos Gaspar. 2ª ed. Lisboa, Portugal: Bertrand, 2002.
AUBYN, Giles St. Queen Victoria: a portrait. Great Britain: Sceptre, 1992.
BAIRD, Julia. Vitória, a rainha: a biografia íntima da mulher que comandou um império. Tradução de Denise Bottman. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.
BARMAN, Roderick. J. Imperador Cidadão. São Paulo: Editora Unesp, 2012.
BRAGANÇA, Dom Carlos Taso de Saxe-Coburgo. Dom Pedro II na Alemanha: uma amizade tradicional. São Paulo: Editora Senac, 2014.
CALMON, Pedro. História de D. Pedro II. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, 5vols.
CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


