Por: Renato Drummond Tapioca Neto
Imagine um vestido feito de milhares de contas de cerâmica, tecidas à mão numa rede que imita lápis-lazúli e turquesa. Agora imagine que ele foi costurado por volta de 2550 a.C. para uma mulher do Egito Antigo. Conheça a “Beadnet dress”, a peça de alta costura do reinado do faraó Quéops que prova que a moda já era poder, status e arte há mais de 4.500 anos.
Feito entre 2551 e 2528 a.C., durante o reinado de Quéops da IV Dinastia, esse vestido de rede de contas foi descoberto em 30 de março de 1927, na tumba G 7440 Z de Gizé, pela Expedição Harvard-MFA. A cor original desbotou, mas os arqueólogos sabem: a rede era azul e verde-azulada, feita de faiança e ouro, para imitar pedras preciosas como lápis-lazúli e turquesa. Luxo puro!

Os vestidos egípcios desse período eram sustentados por uma ou duas alças finas e chegavam até o tornozelo. A parte superior podia ser usada acima ou abaixo dos seios. E tem mais: o comprimento do vestido indicava a classe social de quem o vestia. Quanto mais longo e elaborado, mais alta a posição da mulher. Bordados com miçangas ou penas também eram usados como enfeites, reforçando o status.
Representações de mulheres na arte egípcia mostram esse padrão em losango que vemos na “Beadnet dress” (acima, esquerda). Acredita-se que o desenho represente exatamente esse trabalho com contas, costurado sobre o linho ou usado como uma rede separada por cima. Esta é a peça sobrevivente mais antiga desse tipo de vestimenta.
O vestido foi meticulosamente reconstruído por Millicent Jick a partir de aproximadamente 7 mil contas encontradas em um sepultamento intacto de uma mulher contemporânea do Rei Quéops (abaixo, esquerda). Embora o fio que unia as contas tenha se desintegrado, algumas ainda estavam em seu padrão original sobre e ao redor da múmia. Isso permitiu uma reconstrução precisa. Não sabemos quem era a dona. Uma rainha? Uma sacerdotisa? Uma nobre da corte? O que sabemos é que foi enterrado junto com ela um dos artefatos de moda mais antigos e sofisticados da história.

No Egito Antigo, a moda feminina não era só adereço. Era distinção de classe. Era poder costurado no corpo. Um vestido desses levava meses para ficar pronto e só a elite tinha acesso. Não à toa, a deusa Nut, a senhora do céu, é representada em tumbas e papiros usando um traje idêntico. Vestir-se como uma deusa era literal.
Hoje, a “Beadnet dress” está exposta no Museum of Fine Arts de Boston. Desbotada, mas imortal. Prova de que estilo, vaidade e a vontade de se destacar não são invenções modernas. São humanas. E têm pelo menos 4.500 anos.
Fonte: Museum of Fine Arts de Boston













