Mary Stuart, rainha da Escócia: uma vida em 10 objetos

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Antes de sua execução, em 8 de fevereiro de 1587, Mary Stuart, rainha da Escócia, distribuiu a maioria dos seus objetos de uso pessoal entre as poucas damas de companhia que ainda lhe prestavam auxílio no seu cativeiro forçado na Inglaterra, remetendo também algumas lembranças aos seus parentes na França, como o rei Henrique III. Após a lâmina do machado descer sob seu pescoço, a maioria das suas posses foi parcialmente destruída para que não fossem criadas relíquias cultuando a memória da rainha católica, ou simplesmente se perderam com o tempo, de modo que pouquíssimos dos seus itens pessoais chegaram até os dias atuais. Ainda assim, existem em alguns museus da Inglaterra e da Escócia, entre outras coleções particulares, certos objetos associados à soberana que sobreviveram ao deslustre do tempo e que hoje contam a história da ascensão e do declínio desta que foi uma das mulheres mais importantes do século XVI. Abaixo, fizemos uma lista desses objetos, acompanhada de uma breve biografia da cada peça, para que você, leitor, entenda quais as conexões que podemos estabelecer entre tais artefatos e Mary Stuart.

1) Vestido exposto no castelo de Stirling

Mary Stuart foi uma mulher conhecida por sua elegância, tanto na forma como se vestia, quanto no comportamento. Tendo vivido por mais de uma década na corte dos Valois, ela absorveu muito do modo de vida da nobreza francesa, como seu respeito pela hierarquia, os modos e costumes e, principalmente, a moda. Ao retornar para a Escócia, em 1561, poderíamos dizer que era mais francesa que escocesa, não só na sua preferência pelo uso do idioma, mas principalmente pelo seu aspecto físico. A indumentária, por sua vez, teve uma função fundamental na criação dessa imagem. Basta observarmos a maioria dos retratos contemporâneos de Mary Stuart e poderíamos facilmente confundi-la com uma princesa da França. Porém, nenhum dos seus suntuosos vestidos de seda e veludo, bordados a fios de ouro, sobreviveu. Com base em alguns documentos, como listas compras, retratos pintados, entre outros, foi possível recriar um dos seus vestidos. A peça, exposta no castelo de Stirling, na Escócia, reflete a elegância e o bom gosto de Mary.

2) Sapato em Traquair House

Ainda no que tange à moda, existe em Traquair House, na Escócia, um sapato que, acredita-se, teria pertencido a Mary Stuart. As histórias ligadas à peça são um pouco controversas.  De acordo com uma versão, a soberana usou este calçado durante a sua visita a Jedburgh, mas foi descartado por ela por conta de um salto quebrado. A família que abrigou Mary durante sua estadia no local guardou o artefato, juntamente com outros pertences da monarca. Entretanto, o sapato é muito pequeno para uma mulher do tamanho da rainha, que tinha mais de 1,80 m de altura. Segundo informações da curadoria do local, o sapato, assim como dois outros itens, foram doados por uma dama, cuja família manteve a posse desses objetos por gerações e possuíam conexões com Mary Seton, uma das damas de companhia de Mary Stuart.

3) Coroa, espada e cetro usados na coroação de Mary

Mary Stuart se tornou rainha da Escócia quando ainda não tinha completado uma semana de vida. Em 14 de dezembro de 1542, quando tinha apenas 6 dias de nascida, seu pai, o rei Jaime V, morreu, deixando seu reino para uma bebê e sua mãe francesa, Marie de Guise. Em 9 de setembro do ano seguinte, a garota foi coroada rainha. Para a ocasião, foi confeccionada uma coroa proporcional ao tamanho de Mary, com base num modelo mais antigo, e usada pela primeira naquela cerimônia. Atualmente, é a coroa mais cantiga do Reino Unido. A peça pode ser apreciada no Castelo de Edimburgo (Escócia).

4) Pomander

Era um costume medieval e renascentista, principalmente entre as mulheres da nobreza, utilizarem em seus vestidos um cinco do qual pendia uma corrente, geralmente enfeitada com pérolas e pedras preciosas. Na ponta da corrente, era preso um pomo, em cujo interior se colocavam substâncias aromáticas ou ervas de cheiro, para dissipar o odor provocado pela falta de saneamento em determinados locais. Podemos observar a presença desse acessório nos poucos retratos onde Mary aparece de corpo inteiro. No Palácio de Holyrood, onde ela nasceu, se encontra exposto o Pomander de prata que teria pertencido à rainha, doado em 1951 por Mrs Makgill-Crichton-Maitland, que, por sua vez, o recebeu de Ethelred Ann, Lady Hopetoun.

5) Caricatura da sereia

Esse desenho, de caráter injurioso, apareceu pela primeira vez no Mercat Cross em 1566, logo após o assassinato de Henry Stewart, Lord Darnley, segundo marido Mary. A imagem mostra a rainha da Escócia representada como uma sereia, que poderia ser interpretada como sinônimo de prostituta. De cada lado da sereia, as inicias da soberana “M.R.” (Maria Regina). Abaixo, uma lebre, que também aparece no brasão de armas de Jaime Hepburn, Lord Bothwell, circulada por lâminas, apontando ele como o assassino do rei. Era crença comum que Mary havia se aliado a Bothwell para assassinar Darnley e toma-lo em seguida como consorte. Pesquisas recentes, porém, comprovaram a inocência da rainha nesse caso.

6) O baú de prata

Esse baú de prata, atualmente exposto em Lennoxlove House, em East Lothian (Escócia), possivelmente foi o recipiente que continha as supostas cartas de amor escritas por Mary para Bothwell, conhecidas também como “as cartas do baú”. Esses documentos desempenharam um papel crucial nas acusações dirigidas a Mary e Bothwell, com relação ao assassinato de Darnley. Quando Mary fugiu para a Inglaterra em busca da ajuda de sua prima, Elizabeth I, a soberana inglesa se recusou a lhe prestar auxílio até que a rainha da Escócia estivesse livre da mácula do assassinato do rei. A história diz que Bothwell enviou seu pagem para recuperar as cartas, mas este foi interceptado pelos Lordes protestantes. Mais tarde, durante o inquérito em York, cópias dos documentos originais foram apresentadas como provas contra a rainha. É indubitável que a correspondência foi falsificada ou adulterada, para incriminar Mary, provando que ela já estava tendo um caso com Bothwell antes da morte de Darnley, e de que sabia da trama para assassina-lo. No final, Elizabeth decidiu que nenhum dos lados provara seu caso adequadamente, embora a reputação de Mary continuasse manchada, o que justificaria seu cativeiro. Interpretações recentes, porém, provaram a inocência da rainha da Escócia nesse caso.

7) Bordado

Se os vestidos de Mary não sobreviveram à ação danosa do tempo, o mesmo não se pode dizer dos seus trabalhos de agulha. O bordado e a costura eram duas das atividades que faziam parte da educação feminina durante da Idade Média e a Renascença. Mary Stuart, por exemplo, era uma excelente costureira. Durante os 19 anos em que permaneceu no cativeiro da Inglaterra, ela costumava passar o seu tempo cavalgando pelos bosques vizinhos (nas raras ocasiões em que isso lhe era permitido), lendo, escrevendo e bordando. Entre alguns de seus trabalhos, encontra-se um painel quadrado com duas videias de galhos frutíferos separadas por outra de galhos áridos, ramificados pelo chão. Acima, a mão de um podador aparece ameaçando ceifar a metade árida sob o lema “Virescit Vulnere Virtus” (A Virtude Floresce Ferindo-se). Muitos costumam interpretar essa imagem como uma alusão ao relacionamento da rainha da Escócia com Elizabeth I. A rainha da Inglaterra estaria associada ao galho seco e estéril, que precisava ser podado para que a videira frutífera (Mary) florescesse.

8) Rosário e Livro de Oras

Esse Rosário e o Livro de Oras teriam sido presenteados a Mary por Lord Herries, durante sua fuga para a Inglaterra. Consta que a rainha manteve esses objetos em suas posses até o dia de sua execução, em 8 de fevereiro de 1587, quando os utilizou para compor sua indumentária. Mary caminhou até o patíbulo com o Rosário numa das mãos e o Livro de Oras na outra, demonstrando com isso que pretendia morrer pela fé. O Rosário pode ser visto em muitos dos retratos da soberana, especialmente o pingente de ouro com o Cristo crucificado e as pérolas pendentes. Atualmente, estes dois objetos fazem parte da coleção particular do duque de Norfolk.

9) Ilustração da Execução de Mary Stuart

Antes de se entregar à lâmina do machado do carrasco, Mary Stuart despiu-se de todas as suas vestes de soberana, incluindo o Rosário e o Livros de Oras, revelando por baixo dos trajes negros o manto escarlate da peregrina, a cor do martírio católico. Uma aquarela holandesa, de artista desconhecido, possivelmente testemunha ocular do evento, retrata o exato momento em que Mary, ajoelhada sob o bloco de madeira, se prepara para receber o golpe do mochando, enquanto do lado de fora uma grande fogueira é preparada para queimar os objetos da soberana.

10) Máscara mortuária

Era prática recorrente, até o final do século XIX, gravar as feições da pessoa morta com cera. Após a execução de Mary Stuart, consta que um ou mais moldes de cera foram retirados de sua cabeça morta, para preservar a memória de seu rosto. Um desses moldes serviu como base para a efígie tumular de Mary Stuart, na Abadia de Westminster. Atualmente, existem duas máscaras mortuárias que supostamente pertenceram à soberana da Escócia.

Máscara mortuária em Jedburgh.

A primeira delas, possivelmente a mais famosa, foi encontrada pelo Dr Charles Hepburn of Glasgow em Peterborough, onde Mary foi originalmente sepultada. Infelizmente, a máscara foi pintada à mão, o que certamente adulterou as feições originais da máscara. Para compor o visual da cabeça, foi adicionada uma peruca de cabelos acobreados, como os de Mary eram em vida, além de um toucado cujo modelo era bastante utilizado pela soberana. A peça atualmente se encontra exposta em Jedburgh, juntamente com outros pertences da soberana.

Máscara mortuária em Lennoxlove House

A outra versão conhecida se encontra exposta em Lennoxlove House. Foi descoberta no século XIX, no Palácio de Holyrood. Apesar de linda, apresenta o rosto de uma mulher de proporções muito pequenas. Para Antonia Fraser, autora de uma das biografias mais completas de Mary Stuart, a máscara apresenta apenas uma semelhança superficial com Mary. Na opinião da autora, a máscara possivelmente guarda as feições de alguma dama da família Hamilton, que guardou o objeto ao longo de gerações.

Bibliografia Consultada:

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FRASER, Antonia. Mary Queen of Scots. – New York: Delta, 2001.

Objects associated with Mary, Queen of Scots. – Acesso em 18 de fevereiro de 2018.

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