La reine et La maîtresse: Catarina de Médicis e Diana de Poitiers

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Na história das monarquias europeias, rainhas e princesas não eram as únicas personalidades femininas que recebiam destaque no cenário político da época. Na maioria das vezes, elas tinham que dividir o palco com as chamadas favoritas reais, mulheres que possuíam a chave para satisfazer os desejos dos reis. Muitas delas, como Madame de Maintenon e Madame de Pompadour (amantes dos Reis Luís XIV e Luís XV, respectivamente) se tornaram famosas por serem mulheres cultas e que exerciam um papel importante ao lado dos governantes, muitas vezes ofuscando as próprias esposas deles. A França da Idade Moderna, monarquia de regime absolutista por excelência, foi o reino onde essas damas mais brilharam. Eram praticamente rainhas em tudo, menos no nome! No século XVI, porém, nenhuma delas foi mais famosa do que Diana de Poitiers, a nobre que introduziu o jovem Henrique (futuro rei Henrique II), duque de Orleans, nas artes do amor e acabou tendo total precedência nas atenções dele, em detrimento da esposa do mesmo, Catarina de Médicis. O antagonismo protagonizado por essas duas mulheres, a rainha e a amante, já rendeu assunto para muitas discussões entre os principais estudiosos da França do período e serve-nos para ilustrar os conflitos travados nos casamentos reais, quase sempre organizados por motivos políticos e não sentimentais.

Diana de Poitiers, por Francesco Salviati.

Diana de Poitiers, por Francesco Salviati.

O relacionamento entre Diana de Poitiers e o segundo filho do rei Francisco I remonta a muito tempo antes da chegada de Catarina de Médicis à França, em 1533. Esposa de Louis de Brézé, grão-senescal da Normandia, Diana era conhecida como uma mulher de beleza estonteante e possuía nos tempos de casada uma virtude sem máculas. Ela nasceu no último dia de 1499, sendo, portanto, quase vinte anos mais velha que o duque de Orleans. Na primeira vez em que se viram, ele tinha sete anos e estava de partida, pois ao lado de seu irmão, o delfim, fora feito prisioneiro na Espanha, devido a um acordo de guerra assinado entre Carlos V e o pai dos meninos, que era mantido cativo pelo imperador. O rei da França foi então liberto e seus filhos assumiram o fardo do monarca.  Enquanto todas as atenções estavam voltadas para o herdeiro do trono, aparentemente Diana foi a única que se preocupou com Henrique, comovendo-se com sua angústia do pequeno, dando-lhe um beijo no rosto e um abraço. Essa recordação ficaria gravada na memória da criança durante os quatro anos em que passou na prisão espanhola. Quando finalmente foi liberto, em 1530, uma grande celebração foi organizada, coroada por um torneio em homenagem à nova rainha de Francisco, Eleonora da Áustria, irmã de Carlos V. Na ocasião, foi dito que o príncipe Henrique, que já tinha onze anos, duelou sob o favor da esposa do grão-senescal.

Dessa forma, selava-se uma autêntica declaração de amor por parte do jovem. Porém, diferentemente do romântico cavaleiro de armadura e libré, Diana era ambiciosa e com um profundo sentimento de amor próprio. Na opinião da professora Benedetta Craveri, ela “tinha a frieza, a altivez e a inclinação à castidade da deusa cujo nome era o seu” (2007, p. 26)[1]. Já para Bruno Astuto,

O amor de Henrique por Diana só a despertaria muito depois, ainda que, para ele, tudo tenha começado no dia em que ela lhe deu aquele beijo maternal, antes da dolorosa partida para Madri. A bela era um modelo de esposa e de honra na corte. Dera ao marido duas filhas e ocupava uma posição privilegiada na casa da rainha-mãe, Luísa de Savóia. Sua beleza sobressaía justamente porque não era fácil como suas colegas de palácio. Muito pelo contrário: Diana era inacessível, intransponível, seu belo olhar cegava com frieza os pretendentes (ASTUTO, 2001, p. 43).

De fato, para uma mulher que frequentava a corte do rei Francisco I, uma das mais devassas do período, manter-se casta exigia uma profunda retidão moral que poucas conseguiram manter. Diana foi uma delas, sendo devotada ao marido e às filhas. Essa situação sofreria um revés quando, em 1531, Louis de Brézé morreu, deixando a esposa viúva, aos 31 anos.

Rei Henrique II da França, por François Clouet.

Rei Henrique II da França, por François Clouet.

Apesar de ainda estar numa idade casadoura, Diana de Poitiers não quis contrair segundas núpcias, administrando sozinha a fortuna e os bens da sua família. Foi um dos exemplos mais notórios de mulheres economicamente emancipadas da época, que tinham mais liberdade de ação do que muitas outras casadas. Por outro lado, agora estava livre para ser cortejada pelos homens, tornando assim o caminho mais fácil para o duque de Orleans. Provavelmente a pedido do rei Francisco I, um famoso libertino, Diana permitiu que o príncipe a adorasse publicamente, de acordo com as regras vigentes do amor cortês, e aos poucos ela foi adquirindo completa ascendência sobre ele. Sabe-se também que ela deu bastante apoio ao projeto de casamento entre Henrique e Catarina de Médicis, já que sua avó paterna era irmã do avô materno de Catarina, de modo que as duas eram primas em segundo grau. Entretanto, quando o delfim morreu, em 1536, fazendo do seu irmão o herdeiro do trono, Diana percebeu as vantagens que isso lhe traria e decidiu se tornar amante do jovem príncipe, sem fazer questão de esconder a relação carnal que existia entre eles. Ela já tinha 35 anos e ele 17. Numa época em que mulheres casavam aos 14 e engravidavam cerca de um ano depois, a grã-senescala tinha, portanto, idade para ser mãe do amante. A despeito da indignação causada, Diana resolveu arriscar sua reputação imaculada e expor-se às línguas viperinas da corte.

Só podemos imaginar a tristeza de Catarina de Médicis ao constatar que o marido devotava seu amor a outra mulher, muito mais velha que ela e, não obstante, muito mais bonita. A adoração de Henrique pela amante era tanta, que Catarina chegou a suspeitar que Diana lançava mão de sortilégios para seduzir o delfim. De acordo com o historiógrafo da época, Brantôme, a delfina resolveu então investigar a ligação entre a grã-senescala e o príncipe, chegando a observar através de uma fenda na parede um encontro entre os dois. Para o seu espanto, ela viu “uma mulher lindíssima, branca, delicada e fresquíssima, primeiro de camisola depois nua, que fazia no seu amante mil carícias, afagos e pequenas coisas agradáveis”. Ainda segundo o relato do historiógrafo, Catarina também viu “ele retribuir-lhe as carícias e tudo o mais, de modo que desciam os dois do leito, se deitavam e se abraçavam no tapete macio posto ao pé da cama”. Diante de tal cena, a jovem duchessina se desfez em lágrimas, pois aquela visão contrastava em muito com as suas próprias experiências conjugais. Afinal, em três anos de casada, a delfina ainda não havia gerado um filho, o que deixava sua posição na corte em bastante perigo. Com medo de ter que voltar para a Itália, a jovem então decidiu implorar para o rei, que lhe prometeu que nada disso lhe aconteceria.

Todavia, a ajuda que Catarina de Médicis precisava veio de onde ela menos podia imaginar. Com medo de que a aparentemente submissa delfina fosse substituída por uma princesa menos complacente, Diana de Poitiers a chamou em um canto e conseguiu fazer com ela se abrisse. Catarina revelou à rival que vinha se submetendo a todos os tipos de tratamento, desde mágicos a religiosos, para conseguir engravidar. Rejeitando todas essas medidas, Diana ofereceu conselhos sexuais para a jovem, que poderiam ajuda-la. No seu livro “As Grandes Amantes da História” (1997), a Princesa Michael de Kent diz que:

Diana foi capaz de oferecer-lhe alguns concelhos práticos, inclusive algumas posições alternativas para o ato sexual, pois o útero de Catarina tinha um formato incomum. Diana então convenceu Henrique a submeter-se a uma pequena cirurgia, considerada como pouco mais do que uma circuncisão. O passo seguinte foi muito mais difícil para os três. Em noites preestabelecidas, Henrique se recolhia como de costume com a amante, mas depois de ficar alguns tempos nos braços dela Diana o mandava subir para o quarto de Catarina, que ficava diretamente acima do seu, onde ele fazia amor com a esposa. Logo a seguir, com o dever cumprido, Henrique voltava para a sua amada Diana e ficava com ela pelo resto da noite (KENT, 1997, p. 80).

Graças aos concelhos de Diana, à cirurgia do delfim e às orações da delfina, Catarina de Médicis finalmente conseguiu engravidar. Dez anos após o seu casamento, ela deu à luz um menino no dia 10 de fevereiro de 1543, que foi batizado de Francisco, em homenagem ao avô. Até 1553, Catarina deu ao marido cerca de um filho por ano e passou de esposa estéril a uma das rainhas mais prolíferas da história da Europa.

Nu artístico de Diana de Poitiers, como a deusa da caça Diana (escola de Fontainebleau).

Nu artístico de Diana de Poitiers, como a deusa da caça Diana (escola de Fontainebleau).

Para manter-se desejável por Henrique, Diana de Poitiers adotou uma rotina espartana, desde banhos gelados e exercícios físicos ao ar livre, até o banimento de cosméticos nocivos para a pele. A julgar pelos retratos dela pintados nesse período, podemos observar que a grã-senescala era realmente uma mulher atraente, descontando-se, é claro, as possíveis suavizações dos traços da idade feitos pelo artista na tela. Seguindo um costume incentivado pela renascença, os banhos se tornaram uma prática constante. Foi num cenário como esse que o pintor da corte, François Clouet, pintou um retrato de Diana de Poitiers, nua da cintura para cima dentro de uma banheira. Para a princesa Michael de Kent, foi essa tela que deu início a uma tradição de pintar as damas e cortesãs enquanto tomavam banho. Com isso, a grã-senescala mesclava a figura da deusa virgem com a da amante, misturando realidade e lenda na busca de identificar-se cada vez mais com a divindade homônima. Em outro dos seus retratos mais famosos, já aos cinquenta anos de idade, ela aparece nua no papel da deusa Diana, deitada de lado, apoiada sobre um cervo real. Nesse sentido, “a aventura de uma favorita tenaz, ávida e ambiciosa tomou a forma de uma fabula mitológica que propiciou, pela primeira vez na França, o florescimento de uma arte alegórica” (apud CRAVERI, 2007, p 30).

Catarina de Médicis, por François Clouet.

Catarina de Médicis, atribuído a François Clouet.

Com a morte do rei Francisco I, em 31 de março de 1547, e a ascenção de Henrique II, Diana de Poitiers foi feita duquesa de Valentionis, confirmada na sua função de maîtresse-em-titre (amante titular) e passou a desfrutar de uma autoridade quase sem limites. Ela cumpria uma função semelhante ao de um conselheiro ou primeiro-ministro, discutindo com o soberano decisões de Estado importantes. Quem gostou nenhum pouco disso foi Catarina de Médicis, que apesar de rainha, não tomava parte em assuntos políticos. Ficou claro que ela apenas detinha o título de soberana, mas era a amante do rei quem exercia esse papel. Com efeito, Catarina teve que suportar o fato de ver Diana usando as joias da Coroa e presidindo cerimônias oficias. Além disso, a grã-senescala foi responsável pela educação dos sete filhos do casal real que sobreviveram (assim como os dos seus próprios com Henrique), sendo um duro golpe para a mãe deles. Porém, Catarina podia ao menos se regozijar ao perceber que Diana travava uma verdadeira luta contra o tempo para se manter atraente aos olhos do rei. “Dezenove anos mais moça que a amante do marido, a descendente dos Medici não era nem bonita nem sedutora, mas possuía extraordinária tenacidade e uma inteligência penetrante, a que somava um grande realismo e a arte consumada da dissimulação” (CRAVERI, 2007, p. 36).

Sendo assim, a rainha aprendeu a não deixar transparecer o seu ciúme e a viver na sombra da rival, esperando que Diana envelhecesse e então fosse substituída por outra. Mas o destino resolveu pregar uma peça em ambas, pois durante um torneio organizado para comemorar o casamento da filha Elisabete com o rei Felipe II da Espanha, Henrique II foi atingido no olho por uma lança enquanto duelava numa justa, seu esporte favorito, e não resistiu ao ferimento, falecendo no dia 10 de julho de 1559. Curiosamente, conta-se que Catarina, uma mulher bastante supersticiosa, teve um sonho premonitório e então implorou em vão ao marido para que ele desistisse de competir. Quatro anos antes, o célebre Nostradamus, astrólogo, profeta e conselheiro real, publicou nas Centúrias um verso relacionado ao monarca:

O jovem leão superará o velho,

No campo de batalha em duelo singular,

Na gaiola de ouro lhe furará os olhos:

Duas classes uma, depois morrer, morte cruel.

Apesar da dor pela perda do marido, Catarina de Médicis aproveitou a ocasião para se vingar da rival, pedindo de volta as joias da Coroa e o belo castelo de Chenonceaux. Mas os esforços da agora rainha-viúva foram em vãos, pois Diana era muito bem relacionada na corte e descendia de uma das famílias mais importantes do país. À Catarina, deixou uma mensagem bastante desafiadora, dizendo que não a temia, pois, tendo-a visto “outras vezes tremer e humilhar-se diante dela, não queria fazer o mesmo”, e enfrentaria os inimigos “com muito brio e soberba para que não ousassem causar-lhe dano”. Ao contrário de outras amantes reais, a morte do rei não ocasionou a desgraça de Diana de Poitiers. Até o fim dos seus dias, ela manteve ótimas relações com a nobreza e conservou sua posição de direito na sociedade aristocrática, embora tenha sido afastada da corte. Nela, a deusa e a mulher se fundiam numa só e tal como a divindade mitológica, ela se conservou nos arautos da história como sinônimo de beleza e poder, cujo exemplo seria seguido por outras cortesãs ao longo dos séculos.

Referências Biliográficas:

ASTUTO, Bruno. Catarina de Médicis. – Rio de Janeiro: Lacerda, 2001.

CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  

MICHAEL DE KENT, Princesa. As grandes amantes da história. Tradução de Claudia Gerpe Duarte. 2ª edição. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos, 1997.

[1] Na mitologia greco-romana, Diana (ou Ártemis), era a deusa da lua e da caça, sendo irmã-gêmea do deus do sol, Febo (Apolo).

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