Catarina de Médicis: os primeiros anos da jovem que se tornaria rainha da França.

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Ao longo da Idade Moderna (um período que convencionalmente optou-se por delimitar entre os anos de 1453, com a tomada de Constantinopla pelos Turcos Otomanos, até a Revolução Francesa, em 1789), as monarquias europeias conheceram a sua fase de apogeu e declínio. Nenhuma delas, porém, foi mais poderosa que a francesa, onde no século XVII Luís XIV afirmava que “a nação não constitui uma entidade: reside inteiramente na pessoa do rei”. Conhecido como o “rei Sol”, ele foi o melhor exemplo da personificação do espírito do absolutismo, sendo atribuída a ele a famosa frase: L’état c’est moi (O Estado sou eu). Embora as mulheres estivessem impedidas de herdar o trono, de acordo com a Lei Sálica do século XIV, muitas delas governaram como regentes, durante a minoridade dos seus filhos, como a própria mãe de Luís, Ana d’Áustria. As rainhas regentes da França foram, na sua maioria, soberanas de pulso firme, que aguentaram com coragem as dificuldades encontradas durante o exercício do poder. Cercadas por uma sociedade que não via com bons olhos mulheres assumindo cargos reservados aos homens, elas tiveram que lutar contra uma série de difamações e calúnias para proteger a Coroa dos filhos. A mais agressiva dentre elas, por sua vez, foi Catarina de Médicis.

A história, especialmente após o século XIX, tem sido muito cruel com a figura de Catarina, em grande parte inspirada pelos romances de Alexandre Dumas e pelos folhetins de Michel Zevaco, que a retrataram como uma mulher vil, cuja personalidade fria e calculista estaria por trás dos horrores desencadeados na fatídica Noite de São Bartolomeu. Buscando redimi-la aos olhos da posteridade, Bruno Astuto escreveu:

Ela não era bonita, não tinha amantes, detestava a ignorância e a violência. Nunca traiu o marido e permaneceu-lhe fiel após sua morte. Imputaram-lhe crimes que jamais cometera e a ciência do veneno que nunca teve, ainda que seus contemporâneos e, sobretudo, sua família, soubessem usá-lo da maneira mais insidiosa possível. Catarina de Médicis tem tudo para ser considerada um dos seres humanos mais vis que a História conheceu. Entretanto, seu maior crime foi amar os filhos – que jamais mereceram tal amor (ASTUTO, 2001, p. 7).

Catarina de Médicis como Delfina da França, por Corneille de Lyon (c, 1536).

Catarina de Médicis como Delfina da França, por Corneille de Lyon (c, 1536).

Mais recentemente, filmes como La Reine Margot (1994), ou mesmo a série de televisão Reign (2013), da CW, insistiram ainda mais nessa imagem de Catarina como uma rainha cruel e ressentida, contribuindo assim para diminui-la aos olhos do público. Com efeito, para se entender mais sobre essa personalidade, a fim de desconstruir essa visão, é preciso olhar mais atentamente para o contexto em que ela nasceu e cresceu.

Nascida em Florença, no dia 13 de abril de 1519, Catarina pertencia a uma das famílias mais importantes da Itália. Originária da região da Toscana, os Médicis fizeram sua fortuna como comerciantes e depois banqueiros, sendo também conhecidos como mecenas de vários artistas do renascimento. Tendo transformado Florença no seu quase reino, eles agiam como “verdadeiros príncipes, ostentavam seu brasão farmacológico, fazendo rir os nobres mais tradicionais. Tinham consciência de sua ascendência, um fato contra o qual não podiam lutar sozinhos” (ASUTO, 2001, p. 15). Mesmo de linhagem não tão distinta, eles estabeleceram conexões poderosas com muitas casas reinantes da Europa, especialmente a dos Valois da França, como também dentro da Igreja Católica. Quatro membros da família chegaram a se tornar papas e graças aos empréstimos concedidos à Coroa Francesa, o rei Luís XII autorizou que eles adicionassem ao seu brasão as três flores de lis, que eram o símbolo da monarquia capetíngea. Como consequência desse apoio mútuo, foi negociado em 1518 o casamento entre Lourenço II de Médicis e a nobre francesa Madalena de la Tour d’Auvergne.  A alegria provocada pelo matrimônio, porém, não durou muito, pois 15 dias após o nascimento de Catarina Maria Romola de Médici, sua mãe morreu, seguida por Lourenço, em 4 de maio do mesmo ano.

Tendo perdido os pais muito cedo, Catarina de Médicis cresceu cercada por familiares. Ela foi criada por suas tias Lucrécia Salviati e Clarisse Strozzi. Ao completar 3 anos de idade, o papa Leão X planejava casa-la com seu primo Hipólito, a quem ela admirava, na esperança de que o casal futuramente viesse a governar Florença. Todavia, os planos do sumo pontífice não chegaram a se concretizar, pois ele morreu de malária, em 1521. Nessa época, a jovem era chamada pelos florentinos de duchessina (duquesinha), e reconhecida como a herdeira de seu pai, duque de Urbino.  Dois anos depois, ascendeu ao trono de São Pedro Júlio de Médicis, que adotou o nome de Clemente VII. O pontificado deste papa seria um dos mais turbulentos da primeira metade do século XVI, devido à invasão das tropas do imperador Carlos V em Roma e o subsequente saque à cidade Santa. Todos então temeram pela segurança de Catarina, principalmente após Clemente ter sido encarcerado no seu próprio castelo. Com a proclamação da república florentina, o povo invadiu o palazzo da família, obrigando assim a jovem e suas tias a se refugiarem no convento Santa Lúcia, partindo logo depois para o convento das Murate, a fim de fugir da peste, que assolava a cidade.

Possível retrato de Madalena de la Tour d’Aurvegne, mãe de Catarina, por artista desconhecido.

Possível retrato de Madalena de la Tour d’Auvergne, mãe de Catarina, por artista desconhecido.

Não tardou muito e os florentinos começaram a acusar as Murate de favoritismo em relação aos Médicis, num complô contra a república. Como instrumento de punição à família, os cidadãos decidiram então usar a jovem Catarina, ameaçando-a de morte. Chegaram, inclusive, a trazê-la de volta para o convento Santa Lúcia, mas dali não conseguiram mais tira-la. “Eles não ousarão levar-me”, disse ela, “irão acusa-los de tirar uma religiosa de sua clausura”. Para a pouca idade que tinha, a duchessina demonstrou uma incrível força de caráter, frente aos perigos da vida. Quando Clemente VII finalmente escapou da prisão, ele conseguiu reconquistar Florença aos Médicis e deu ao seu sobrinho, Alessandro, o título de duque da cidade. Em 1530, o papa voltou a se preocupar com o casamento de Catarina, cogitando para ela diversos pretendentes, como Jaime V da Escócia e Francisco Sforza, duque de Milão. Contudo, quem fechou negócio com Clemente foi o rei Francisco I da França, que solicitou a mão da jovem para seu segundo filho, Henrique, duque de Orleans. Em troca, o papa prometeu incluir no dote da sobrinha as cidades de Pisa, Réggio, Módena e Parma, alimentando assim o sonho do rei francês de conquistar a Itália

O contrato de casamento foi assinado no ano de 1531. Em 1533, tendo apenas catorze anos de idade, Catarina de Médicis partiu para a França, com um dote de 130 mil escudos e deixando atrás de si uma infância perturbada por tumultos políticos. A professora Benedetta Craveri assim resume o acordo nupcial arranjado pelo papa Clemente VII com Francisco I:

Embora o dote da jovem florentina fosse respeitável, tratava-se mesmo assim de uma mésalliance; a moça era apenas herdeira de uma família de banqueiros. Mas o matrimônio tinha sólidas motivações políticas. Para Clemente VII, tio da noiva, por reforçar o entendimento entre os Medici e a Coroa francesa, esse casamento permitiria que o papado não dependesse inteiramente da boa vontade de Carlos V, que apenas seis anos antes havia permitido que os exércitos imperiais saqueassem Roma e subjugassem a cidade santa. E, para Francisco I, o parentesco com o Papa e a dinastia mediciana seria útil para consolidar seus projetos hegemônicos sobre a Itália e contrabalançar a influência da casa de Habsburgo (CRAVERI, 2007, p. 20).

Catarina fez sua entrada em Marselha no dia 12 de outubro de 1522, acompanhada pelo seu tio, seguidos de um cortejo papal, composto de cardeais e outros membros do clero romano. 16 dias depois, as bodas foram celebradas e após as festividades os dois noivos foram conduzidos à câmara nupcial pela rainha Eleonora, irmã do Imperador Carlos V.

Lourenço II de Médicis, duque de Urbino, por Raphael (1515-19).

Lourenço II de Médicis, duque de Urbino, por Raphael (1515-19).

Naquela época, o senso de pudor era bem diferente do nosso hoje em dia, herdado do século XIX. As noções de intimidade, que ganharam ampla difusão com a chamada Era Vitoriana, ainda não haviam ingressado no sentimento das pessoas na França do século XVI. Sendo assim, tanto o rei quanto o papa estavam ansiosos para verificar o desempenho dos jovens na sua primeira noite de núpcias, uma vez que a consumação do casamento era necessária para cimentar a aliança entre os Médicis e os Valois. Segundo as declarações de Francisco I, de que os esposos “se mostraram galhardos”, podemos então presumir que houveram relações sexuais entre Catarina e Henrique, de modo que a noiva já não corria qualquer risco de ser mandada de volta para a Itália. Com isso, as pretensões do rei à herança da noiva, especialmente ao ducado de Urbino, pareciam estar mais do que asseguradas. Entretanto, as ambições de Francisco sofreram um duro golpe quando, menos de um ano depois, Clemente VII morreu, tornando assim vãs as suas promessas feitas no contrato de matrimônio. Dessa forma, o monarca fora forçado a constatar que o casamento de seu filho com a duchessina acabou se tornando um péssimo negócio. Catarina de Médicis estava agora desamparada, dentro de uma corte estrangeira e que lhe era hostil.

Por outro lado, a infância difícil na Itália lhe moldou o caráter de forma a suportar as situações mais diversificadas. Durante os três primeiros anos de casamento, ela era apenas uma Medici entre tantos nobres de linhagem secular, até que o filho mais velho de Francisco I, o delfim, morreu de forma inesperada, fazendo do irmão Henrique o herdeiro do trono. Muitos cortesãos ficaram indignados com o fato de que uma descendente de banqueiros pudesse se tornar rainha da França. Contudo, por ser filha de Madalena de la Tour d’Auvergne, membro da mais alta nobreza da espada, Catarina tinha propriedade para alegar a todos que não era somente uma filha de comerciantes burgueses, e sim uma verdadeira descendente de São Luís. Mulher inteligente e de muitos recursos, ela logo se empenhou em despertar a simpatia da nova família, adaptando-se com rapidez aos costumes da corte: ela aprendeu a falar o francês de forma impecável e seus modos eram bastante complacentes. Em pouco tempo, Catarina conseguiu reverter aquele quadro de hostilidade e conquistou a afeição do seu sogro, um homem já na casa dos quarenta e considerado um dos monarcas mais soberbos de toda a Europa. Francisco I escutava as súplicas da nora com atenção e a incluiu no seu pequeno círculo de favoritos, o chamado petite bande.

O papa Clemente VII celebra o casamento de Catarina de Médicis com Henrique, duque de Orleans, na presença do rei Francisco I.

O papa Clemente VII celebra o casamento de Catarina de Médicis com Henrique, duque de Orleans, na presença do rei Francisco I.

Com efeito, Catarina de Médicis mostrou-se uma ótima companhia para o rei. Para segui-lo nas caçadas, ela desenvolveu um novo modo de montar, conhecido como “à amazona”, com a perna direita por cima da cela e o pé esquerdo dentro do estribo. Não obstante, como admirador da arte e da cultura italiana, Francisco I valorizava o senso artístico da nora, cujo gosto fora refinado em Florença e na corte pontifícia. Graças ao patronato que os Médicis davam a vários artistas, Catarina entrou em contato com muitas coleções e obras-primas, a maioria delas abrigadas dentro do Vaticano. Porém, apesar de ser uma jovem afetuosa, modesta e inteligente, a duchessina ainda não havia cumprido a tarefa principal de uma mulher casada: dar um filho ao marido. Como delfina da França, era de suma importância que ela gerasse um sucessor saudável para a Coroa, especialmente depois de a morte ter levado o primeiro delfim. Escrevendo naqueles anos, o embaixador Matteo Dandolo disse que:

A sereníssima delfina pode-se dizer dotada de excelente compleição, mas que se possa chamá-la, quanto às qualidades do corpo, de mulher de filhos, ela não só ainda não os tem como duvido que venha a tê-los, apesar de não deixar de pôr na boca todos aqueles medicamentos que podem estimular a geração, com o que corre um grande risco de adoentar-se mais. […]. É amada e tratada com carinho extremoso pelo delfim, seu marido; sua majestade também a ama, e é tão amada por toda a corte e por toda a gente, que creio não haver quem não desse o próprio sangue para ela ter um filho (apud CRAVERI, 2007, p. 23).

As opiniões do diplomata, entretanto, não devem ser levadas tão a sério. Em primeiro lugar porque, como já dito anteriormente, muitos cortesãos desprezavam as origens burguesas de Catarina de Médicis, apesar de ela ser descendente de nobres franceses. O fato de não ter conseguido gerar um filho alimentou ainda mais o falatório contra ela, de que não era adequada para o papel de rainha da França. Catarina sofreria com esses comentários por muitos anos ainda, quando finalmente conseguiu engravidar, em 1543. Depois da primeira gestação, ela não teria mais problemas em conceber novamente. Em segundo lugar, ela podia ter conquistado a simpatia do sogro e a amizade da rainha Eleonora e da tia do marido, Margarida de Navarra, mas o que o delfim sentia por ela estava longe de ser o amor que Matteo descreveu e que Catarina certamente nutria pelo esposo. Esse sentimento Henrique devotava a outra pessoa, uma mulher que ele cultuava publicamente e cuja presença na corte fazia a duchessina sofrer em silêncio. Seu nome era Diana de Poitiers, a primeira grande amante da monarquia francesa.

Referências Bibliográficas:

ASTUTO, Bruno. Catarina de Médicis. – Rio de Janeiro: Lacerda, 2001.

CRAVERI, Benedetta. Amantes e rainhas: o poder das mulheres. Tradução de Eduardo Brandão. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.  

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