O império da “boa sociedade”: a corte do Rio de Janeiro (1850-1870)

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A fase do segundo reinado brasileiro foi um dos momentos mais ricos da nossa história, não só pelas personalidades que marcaram a época como também pelos acontecimentos no plano político e cultural, que vão fazer da corte no Rio de Janeiro um verdadeiro centro de sociabilidade para aqueles que queriam ser aceitos entre as classes senhoriais. O período que vai das décadas de 1850 a 1870, também chamado de “a era Mauá”, foi acentuado por investimentos na área financeira e industrial, com a implantação das estradas de ferro, iluminação a gás, calçamento das ruas com paralelepípedo, rede de esgoto, abastecimento de água em domicílio, bondes puxados a burro, entre outros aspectos que vão ser implementados para vender ao estrangeiro a imagem do Brasil como nação civilizada, a despeito do regime escravocrata que ainda vigorava no país. O grande modelo de importação de modos e costumes de viver era a Paris da época de Napoleão III, com seu neoclassicismo e aburguesamento dos padrões de convívio. Porém, aqui modus vivendi europeu foi adaptado para a realidade dos trópicos de uma forma bastante singular e por vezes distinta do original.

No reinado de D. Pedro II, as capitais eram divididas em avenidas e bairros elegantes e em ruas do trabalho escravo. Na corte, por ser o centro do Império, foram construídos nos locais de fácil acesso, palácios e palacetes, como o Paço Real e o Paço de São Cristóvão; os prédios da Academia Imperial de Belas-Artes e o Palácio do Comércio; e os primeiros jardins públicos, como o Campo de Santana e a Quinta da Boa Vista. “Nas novas avenidas, melhor pavimentadas, o tílburi entrava no lugar do cabriolé, com grande velocidade e preços mais convidativos”, diz Lília Moritz Schwarcz (2012, p. 106). “Nesse contexto”, complementa a autora, “a rua do Ouvidor transformava-se no símbolo dileto dessa nova forma de vida em que se pretendia, nos trópicos, imitar a mesma sociabilidade das cortes ou dos mais recentes bulevares europeus” (p. 107). Imagine, caro leitor, as damas a percorrerem as vitrines das lojas, usando saias longas e amplas, que cobriam totalmente as pernas, com chapéus pequenos e xales de seda da Índia. Nos dias de calor do Rio de Janeiro, tal vestimenta se constituía num verdadeiro sufoco para elas, mas o que importava era estar na moda, de acordo com os países nórdicos, não importando o incômodo causado por aquelas roupas mais apropriadas a um clima frio.

Fotografia da Ruo da Ouvidor (sec XIX)

Fotografia da Ruo da Ouvidor (sec XIX)

Assim como a rua Chile em Salvador (Bahia), a rua do Ouvidor no Rio de Janeiro era um grande chamativo para a moda europeia importada. Foi também o cenário de muitos romances urbanos de José de Alencar e Machado de Assis. Em A Pata da Gazela, Alencar constrói a personagem de Horácio, apelidando-o de “leão da rua do Ouvidor”, como eram conhecidos os homens elegantes que se preocupavam com a própria aparência. Para esse romancista, Horácio representava a vida frívola, artificial e fútil da corte carioca. Era um desses homens que, tal como a personagem Fernando Seixas em Senhora, frequentavam os bailes e festas a procura de uma moça que tivesse um bom dote para oferecer em casamento. Era ali, na rua do Ouvidor, onde se inauguravam, praticamente uma atrás da outra, lojas de modistas francesas, joalheiros, floristas e charuteiros. Isso sem falar das confeitarias e cafés, que vão se tornar num dos principais pontos de encontro para as classes mais abastadas. Em muitos sentidos, era como se uma rua de Paris tivesse sido trazida diretamente para o Brasil.

Enquanto costureiras estrangeiras cuidavam da moda, as pessoas faziam concorrência para serem atendidas no salão do senhor Charles Guignard, famoso cabeleireiro. Além disso, havia a perfumaria Desmarais, com essências fortes para disfarçar o odor corporal provocado pela temperatura, acentuada pelas roupas quentes. Entre as confeitarias, a preferida era a Carceler, que servia sorvetes em forma de pirâmide. Como a máquina de gelo era importada dos Estados Unidos, o preço dessas iguarias ficava em torno de 320 réis. Perto de uma botina de couro, que geralmente custava 8 mil-réis, o valor do sorvete era um tanto alto, de modo que nem todos tinham acesso a essa delícia gelada. Os cafés, por sua vez, eram muitos: havia o Belle Helène, o Café de la Paix e o Alcazar, por exemplo. Já os restaurantes, estes ofereciam uma boa refeição ao preço de 1$500 a 2$000 réis, e pratos mais modestos por 600 réis. No cardápio, constava caldos preparados a base de galinha escaldada e legumes, além de vinho do Porto, frutas tropicais, pudim de laranja, arroz de leite de canela. As pessoas geralmente almoçavam às dez horas da manhã e jantavam às quatro da tarde. Às oito da noite, tinha lugar a ceia, tomada em casa com a família.

Com efeito, para completar o glamour da corte, haviam as livrarias Garnier e dos irmãos Laemmert, que publicavam desde romances de autores nacionais a estrangeiros, como Alexandre Dumas, incluindo manuais de etiqueta, jornais, revistas e catálogos. Porém, não era só a rua do Ouvidor que atraia as atenções. De acordo com Lília Moritz Schwarcz,

A cidade fluminense, sede da corte, passará a funcionar como um pólo centralizador e difusor de hábitos, costumes e até linguagens para todo o país, além de se transformar no cenário principal em que se desenrolava a dramatização da vida social da boa sociedade. Não é à toa que enquanto as ‘mocinhas casadoiras’ sonhavam com as diversões da corte, os grandes fazendeiros do interior e de outras províncias temiam pela entrada de seus filhos nas ‘delícias da babilônia fluminense’ (2012, p. 110).

Autores conservadores como José de Alencar vão se colocar contra essa importação dos costumes europeus para o Brasil, por temerem a corrupção de certos valores sociais ligados à família nuclear. Sendo assim, estes romancistas vão usar suas obras como espaço para criticarem esse aspecto. Muito do discurso de Lucíola, A Pata da Gazela, Sonhos d’Ouro e Senhora está pautado em cima disso.

Exemplo da moda feminina importada para o Brasil entre as décadas de 1850-70.

Exemplo da moda feminina importada para o Brasil entre as décadas de 1850-70.

Durante os anos de 1840 a 1860, o Rio de Janeiro vai presenciar uma verdadeira febre por festas, bailes, concertos e reuniões. Desse modo, a corte se colocava em oposição à província, como formadora dos hábitos de civilidade, ratificado pela importação dos bens culturais da Inglaterra e da França. Se a intenção do indivíduo era ver e ser visto, os teatros eram com certeza uma das melhores opções para isso. Entre eles, destacava-se o São João, fundado em 1812, e também o Teatro Lírico. Ali apresentava-se a Lucia de Lammemoor, A Noite do Castelo, de Carlos Gomes, e foi onde estreou em 2 de dezembro de 1870, dia do aniversário do imperador, a peça O Guarani, adaptação do romance homônimo de José de Alencar. Muitos músicos nacionais e internacionais passaram por esses estabelecimentos. O estrangeirismo da elite vai se confirmar cada vez mais nesse período. Nas reuniões, por exemplo, os homens jogavam gamão, xadrez, voltarete e whist, enquanto as mulheres passavam o tempo se divertindo com jogos de flores, prendas, bastão e/ou lenço queimado.

Entre os escritores que mais criticaram esse estrangeirismo das elites, estava Martins Pena, que teve algumas de suas comédias encenadas nos teatros. Na peça Os dois ou O inglês maquinista, de 1871, Pena satiriza o francesismo da corte.

Clemência – As mestres de Júlia estão muito contentes com ela. Está muito adiantada. Fala francês e daqui a dois anos não sabe mais falar português… […]. É muito bom colégio. Júlia cumprimenta aqui o senhor em francês.

Júlia – Ora mamã.

Clemência – Faça-se de tola!

Júlia – Bom jour, Monsieur, comment vous portez-vous? Je suis votre serviteur.

João – Oui, está muito adiantada

Clemência – Como é mesa em francês?

Júlia – Table.

Clemência – Braço?

Júlia – Bras.

Clemência – Pescoço?

Júlia – Cou.

Clemência – Menina!

Júlia – É cou mesmo, mamã, não é primo? Não é cou que significa?

Clemência – Está bom, basta.

Eufrásia – Estes franceses são muito porcos. Ora, veja, chamar o pescoço, que está ao pé da cara, com este nome tão feio… (apud SCHWARCZ, 2012, p.112).

No entanto, apesar das críticas de Pena e outros escritores, a corte nem por isso deixou de atrair as pessoas, aparecendo como o local mais divertido do Rio de Janeiro.

Baile do Cassino

Baile do Cassino

Os bailes e os serões, por sua vez, constituíam-se numa outra forma de diversão para as elites do período. Na introdução do seu livro Salões e Damas do Segundo Reinado, Wanderley Pinho diz que “num salão esmeram-se várias artes: a de receber ou preparar um ambiente de cordialidade e espírito; a de entreter a palestra ou cultivar o ‘humor’; dançar uma valsa ou cantar uma ária; declamar ou inspirar versos, criticar com graça e sem maledicência (2004, p; IX). Escritores como Machado, Macedo, Castro Alves, Joaquim Nabuco, entre outros, deixaram um vivo retrato desse cenário nas suas obras. Alencar, por exemplo, num folhetim de 1858, dizia que:

… no salão recebem-se todas as visitas de cerimônia ou intimidade; dão-se bailes, reuniões dançantes e concertos. Conversa-se ao som da música, conferencia-se a dois no meio de muita gente – de maneira que nem se fala em segredo, nem em público.

Se a palestra vai bem procura-se alguma chaise-longue num canto da sala e a pretexto de tomar sorvete ou gelados, faz-se uma transação, efetua-se um tratado de aliança. Se a conversa toma mau caminho, aí aparece uma quadrilha que se tem de dançar, uma senhora a que se devem fazer as honras, um terceiro que chega a propósito, e acaba-se a conferência, e livra-se o ministro do dilema em que se achava, do comprometimento de responder sim ou não (apud PINHO, 2004, p. XIII-XIV).

Tais lugares de sociabilidade também ofereciam espaço para certos tipos de acordos, sendo um dos locais preferidos para tanto. O próprio barão de Cotegipe certa vez disse que “não se faz política sem bolinhos”. Embora D. Pedro II comparecesse a poucas dessas reuniões (o que não era de se esperar, pois o imperador era a figura central da corte), os bailes e eventos persistiram mesmo sem a presença dele. “Com ou sem imperador a sociedade carioca experimentava as maravilhas da convivência social e fazia dos trópicos o último grito da moda parisiense” (SHWARCZ, 2012, p. 115). Contudo, se brilhava por meio das grandes festas, na ótica da corte o fato da escravidão e do mundo do trabalho deveria permanecer quase invisível e silencioso. O contraste entre uma sociedade que se afirmava desenvolvida, fiel seguidora dos costumes europeus, mas que ao mesmo tempo se apegava ao modelo escravista de produção, é quase irônico. De acordo com o Almanak Laemert, em 1851 havia na corte uma população de 226 habitantes, entre os quais 110 mil eram escravos. Até bem perto do final da monarquia brasileira, a escravidão seria a maior contradição de um império que se pretendia, em grande parte, civilizado!

Referências Bibliográficas:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. História da Vida Privada no Brasil. – São Paulo: Companhia das Letras, 1997, v. 2.

CARVALHO, José Murilo de (coord.). A Construção Nacional: 1830-1889. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2012, v.2.

PINHO, Wanderley. Salões e damas do Segundo Reinado. – 5ª ed. São Paulo: GRD, 2004.

SCHWARCZ, Lília Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. – 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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4 comentários sobre “O império da “boa sociedade”: a corte do Rio de Janeiro (1850-1870)

  1. “… criticar com graça e sem maledicência.” Que belos tempos, quando isso era ainda possível :)! Mas aqui só cabem elogios rasgados. Delicioso post! Grata.

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  2. Acho que esse foi o melhor artigo que você fez Renato! Aprendi muito, parabéns!!! Apesar da escravidão -nenhuma época é perfeita – O Brasil Imperial (1808 – 1889) foi a época mais glamourosa do Brasil, por isso é a minha época predileta!
    Abraço e faça mais posts do século XIX!

    http://www.blogofcabral.blogspot.com

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