“O Juízo Final dos Reis”: a violação dos túmulos reais durante a Revolução Francesa! – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 14 de outubro de 1793, uma segunda-feira, Maria Antonieta de Habsburgo-Lorena, outrora rainha da França e conhecida pejorativamente como “viúva capeto”, era levada a julgamento pelo Tribunal Revolucionário. Não longe dali, a nove quilômetros de Paris, os emissários da Convenção Nacional davam continuidade ao seu trabalho de profanação dos túmulos reais na Basílica de Saint-Denis. Dois dias antes, os caixões de Henrique IV, fundador da dinastia Bourbon, e do general Turenne foram abertos, revelando corpos surpreendentemente bem preservados. Alguns souvenirs macabros foram extraídos nessa ocasião, como o dedo mindinho do marechal e os pelos da barba do rei. No dia 14, após o horário do jantar dos trabalhadores, às 15h00 da tarde, a exumação dos cadáveres recomeçou. Dessa vez, o interesse da equipe se voltou para o soberano que, de muitas formas, imprimiu sua marca no chamado Grande Século: Luís XIV, também conhecido como o Rei Sol (falecido em 1715, aos 76 anos). Foi dito que seus despojos estavam bastante conservados, exceto pela tonalidade da pele, que apresentava uma variação escura. Já o pai do soberano, Luís XIII (morto em 1643, aos 42 anos) se encontrava em estado análogo de preservação.

Esboço do cadáver de Henrique IV, feito pelo artista-arqueólogo Alexandre Lenoir.

Contudo, o mesmo não poderia ser dito de outros membros da família do Rei Sol, sepultados com ele na cripta dos Bourbon. Falecido em 1711 aos 50 anos, o Grande Delfim da França Louis, filho do monarca, por exemplo, encontrava-se em estado de “putrefação líquida”. Nesse mesmo dia, foram arrombados também os caixões da rainha Maria de Médici, segunda esposa de Henrique IV, morta em 1642 aos 68 anos; Ana da Áustria, a infanta espanhola que se casou com Luís XIII e foi rainha regente da França durante a menoridade de seu filho, Luís XIV; e Maria Teresa da Espanha, consorte do Rei Sol, morta desde 1688 quando tinha 45 anos. Assim como foi feito com os primeiros cadáveres extraídos das sepulturas, estes também foram atirados em uma vala comum, conhecida como Valois. No dia seguinte, os trabalhos na cripta tiveram início às 7h00, começando pelo caixão de Maria Leszczyńska, a princesa polonesa que se casou com o rei Luís XV e faleceu em 1768, aos 65 anos. Os sarcófagos lacrados de diversos outros membros da família também foram violados, como os da princesa Marie-Anne da Baviera (esposa do Grande Delfim, falecida em 1690 aos 30 anos), de seu filho Luís, duque da Borgonha (morto em 1712 aos 30 anos) e da esposa deste, Maria Adelaide de Saboia

De acordo com a crônica, os trabalhadores não pouparam nenhum dos corpos ali sepultados. Todos, com exceção do general Turenne, cujos restos mortais foram objeto de culto e adoração pelos revolucionários, receberam um tratamento ignominioso. Nem mesmo os armários contendo os corações dos mortos (prática ainda vigente nos ritos funerários da nobreza) foram deixados de lado:

Também removemos do cofre os corações de Louis, Delfim, filho de Louis XV, que morreu em Fontainebleau em 20 de dezembro de 1765, e de Maria Josefa de Savóia, sua esposa, que morreu em 13 de março de 1767. O chumbo, em forma de coração, foi colocado na reserva, e seu conteúdo foi levado para o cemitério com todos os cadáveres dos Bourbon. Os corações de chumbo eram banhados com prata dourada: as coroas eram depositadas na municipalidade e o chumbo entregue ao comissário do governo, nomeado comissário dos monopólios.

A lista de pessoas sepultadas na cripta dos Bourbon é bastante longa para citar todas aqui. Esta incluía muitos nomes como os dos infantes Luís, duque da Bretanha, primeiro filho do duque da Borgonha, morto com nove meses e dezenove dias, e de seu irmão Luís, duque da Bretanha, segundo filho do duque da Borgonha, que morreu em 1712 aos seis anos; a infanta Maria Teresa, neta do rei Luís XV, falecida aos 2 anos em 1748; e o duque de Anjou, filho do próprio Luís XV, que faleceu em 7 de abril de 1733 com dois anos, sete meses e três dias.

Esboço dos ossos de Luís VIII, feito pelo artista-arqueólogo Alexandre Lenoir.

Não obstante, membros da família Orleans, descendentes do irmão de Luís XIV, Felipe I, também tiverem seus túmulos violados no dia 15 de outubro. Depois de levarem ao comissário do governo os relicários de chumbo banhados em prata dourada que continham os corações do Delfim Louis e de sua esposa, Maria Josefa de Savóia, os trabalhadores retornaram para a cripta dos Bourbon, onde arrombaram os caixões das filhas de Luís XV: Henriqueta Ana, Luísa Maria e Luísa Isabel. O sarcófago do irmão mais velho de Luís XVI, Luís, duque de Borgonha, morto aos 9 anos em 1761, também foi violado. Nessa lista, também estavam pressentes os caixões do herdeiro suplente de Henrique IV, Gastão, duque de Orleans, bem como de suas esposas, filhos e filhas. Conforme é ressaltado na crônica: “A extração dos caixões, realizada durante o dia de terça-feira, 15 de outubro, não ofereceu nada de notável: da maioria dos corpos saiu um vapor negro e espesso, de forte odor”, repelido com uso de vinagre e pós aromatizantes, “o que não evitou que os trabalhadores tivessem febres que, felizmente, não tiveram consequências desastrosas”. As exumações continuariam apenas no dia seguinte, 16, quando a última rainha absolutista seria decapitada.

O julgamento de Maria Antonieta foi uma peça teatral montada com êxito. Na sua elaboração, não faltaram prólogo, atos e um dramático epílogo. As acusações contra ela foram todas baseadas nas de Luís XVI e o veredito seria o mesmo: morte pela guilhotina. A sentença foi ditada na madrugada do dia 16 e a execução deveria acontecer próximo ao meio-dia na Praça da Revolução, antiga Praça Luís XV. Naquela manhã, os trabalhos na cripta dos Bourbon prosseguiram. Começaram pelo caixão de Henriqueta Maria de França, esposa do rei Charles I da Inglaterra (também decapitado durante o processo revolucionário inglês, ocorrido um século antes). Em seguida, abriram a tampa do sarcófago de sua filha, Henriqueta Ana, primeira esposa de Felipe I de Orleans. A segunda esposa do duque, Elisabeth “Liselotte” Charlotte do Palatinado também teve seu túmulo violado, assim como os de outros descendentes de Felipe I com suas esposas. Os filhos infantes de Luís XIV e Maria Teresa da Espanha, mortos antes de completar a primeira infância, também foram extraídos de suas tumbas e atirados na mesma vala onde jaziam amontoados os corpos desmembrados de seus pais e avós.

Esboço do cadáver de Luís XV, feito pelo artista-arqueólogo Alexandre Lenoir.

Enquanto isso, às 11h00 um cortejo seguia atrás de Maria Antonieta, sentada numa carroça com as mãos atadas nas costas, até a Praça da Revolução, onde ela seria guilhotinada. Para comemorar esse momento, os trabalhadores na Basílica abriram o caixão daquele que selou o acordo matrimonial entre a arquiduquesa austríaca e o herdeiro do trono na França:

Às onze horas da manhã, quando a rainha Maria Antonieta da Áustria, esposa de Luís XVI, teve sua cabeça cortada, o caixão de Luís XV, falecido em 10 de maio de 1774, aos 64 anos, foi removido. Ele estava na entrada da abóbada em um banco ou pedra maciça, elevado a cerca de 2,5 metros de altura, do lado direito, quando se entrava, em uma espécie de nicho feito na espessura da parede; foi lá que o corpo do último rei foi colocado, enquanto esperava que seu sucessor viesse para substituí-lo, e então ele foi levado ao seu lugar na cripta. […] As entranhas dos príncipes e princesas também estavam nesta abóbada, em recipientes de chumbo, colocados sob os cavaletes de ferro que transportavam os caixões; eles os carregaram para o cemitério, e as entranhas foram retiradas e jogadas na vala comum com os cadáveres. Os recipientes de chumbo foram reservados para serem levados, como tudo o mais, à fundição que acabara de ser instalada no próprio cemitério, para derreter o chumbo à medida que fosse descoberto.

Finalizado o trabalho de exumação na cripta dos Bourbon, com todos os cadáveres removidos dos seus respectivos túmulos e atirados numa vala comum, juntamente com suas entranhas e órgãos preservados em invólucros de chumbo, os responsáveis por estes atos arrombaram em seguida as criptas dos Valois, dinastia que terminou com a morte do rei Henrique III, em 1589. Com 261 anos de existência, a casa reinante que sucedeu aos Capetíngios em 1328 com a ascensão de Felipe VI possuía muito mais reis, rainhas e nobres sepultados ali do que os Bourbon.

Com efeito, as exumações nas criptas dos Valois e dos Capetíngios duraram de 17 a 25 de outubro de 1793, sendo que outras tumbas de reis Carolíngios e Merovíngios também foram violadas. O artista-arqueólogo Alexandre Lenoir fez alguns esboços do monumento funerário de Henrique II e Catarina de Médici e do corpo de Luís VIII, morto em 1226, cujos ossos ainda se encontravam envoltos na sua rica mortalha. O destaque ficou para os despojos do rei Carlos V, falecido em 1380, em cujo caixão encontraram “uma coroa de prata dourada bem preservada, uma mão da justiça em prata e um cetro de prata dourada, com cerca de um metro e dois terços (cinco pés), encimado por um buquê de folhagens”. Já no caixão de sua esposa, Jeanne de Bourbon, encontraram também outros objetos de valor, como os restos de uma coroa, “seu anel de ouro, restos de pulseiras ou elos, um fuso ou rolha de madeira dourada, meio consumida, sapatos de formato um tanto pontiagudo, semelhantes aos conhecidos como sapatos Poulaine”. Os corpos de Carlos e Jeanne, por sua vez, “estavam parcialmente vestidos e ainda exibiam os bordados de ouro e prata com os quais haviam sido adornados”. As filhas do casal, Isabelle e Jeanne, que morreram em idade prematura e foram sepultadas na capela junto aos pais, também tiveram seus túmulos arrombados e os itens de valor, saqueados.

Rascunho dos monumentos funerários de Henrique II e Catarina de Médici na Basílica de Saint-Denis

Às 7h00 da manhã de quinta-feira, dia 17, os túmulos de Carlos VI e sua esposa, Isabel da Baviera, foram abertos. O mesmo aconteceu com Carlos VII e sua esposa, Marie d’Anjou; e com Branca de Navarra, esposa de Felipe VI, e sua filha, a princesa Jeanne. Sobre esses corpos sepultados durante o período da Baixa Idade Média, a crônica relata apenas que “nada foi encontrado em seus caixões, exceto ossos secos: sua abóbada havia sido afundada durante a demolição em agosto do mesmo ano. O que havia de mais precioso nos caixões, foi removido”. Em seguida, a capela de Henrique II e Catarina de Médici foi aberta. Dela, retiraram os caixões de seus filhos Margarida de Valois (a famosa rainha Margot, morta em 27 de maio de 1615, aos 62 anos), de François, duque de Alençon, e de Francisco II, marido da rainha Mary Stuart da Escócia, que reinou por um ano e meio após a morte de seu pai, em 1559. Também removeram o pequeno caixão da princesa Marie-Elisabeth, única filha de Carlos IX com a arquiduquesa Elisabeth da Áustria. Ao anoitecer, os trabalhadores arrombaram o chumbo do túmulo de Carlos VIII, morto em 1498, aos 28 anos. “Somente ossos quase secos foram encontrados ali”, acrescentou a crônica dos eventos.

Entre os dias 18 e 25 de outubro, nada menos que 46 túmulos foram violados. Dessa vez, começaram pelos caixões de Henrique II e Catarina de Médici, rainha de origem florentina a quem a historiografia francesa por muito tempo responsabilizou pelo massacre contra os protestantes huguenotes, na madrugada de 24 de agosto de 1572, dia de São Bartolomeu. Seus demais filhos e filhas, como Carlos IX e Henrique III também foram retirados de suas sepulturas e atirados em uma segunda vala, visto que a primeira que havia sido cavada já se encontrava repleta de cadáveres Bourbon. Luís XII e Ana da Bretanha – que compartilhavam um magnífico monumento sepulcral na Basílica – também foram exumados nesse dia: “Duas coroas de cobre dourado foram encontradas em seus caixões de chumbo”, relatou a crônica.  O mesmo ocorreu com o rei Luís X e sua filha, Joana: “Ela foi enterrada com seu pai no chão. Uma pedra oca em forma de anjo, forrada do lado de fora com tiras de chumbo e coberta com outra pedra plana, continha seus ossos. O uso de caixões de chumbo ainda não fora introduzido nesta época. Nada foi encontrado neste caixão, exceto uma coroa de cobre dourado”. Já no caixão de Luís X, encontraram “uma pedra escavada em forma de um anjo, também forrada com placas de chumbo, continha seus ossos secos, com o resto de uma coroa e um cetro roído pela ferrugem”.

Antiga cripta na Basílica de Saint-Denis, com seus túmulos medievais vazios.

Conforme dito anteriormente, todos os objetos de chumbo e metais como cobre e prata foram entregues ao comissariado, para em seguida serem derretidos e utilizados para outros fins. Nos dias seguintes, ocorreram as exumações dos reis Felipe II, Luís VIII, Luís IX (também conhecido como São Luís) e sua esposa, Margarida de Provença, de Felipe IV (o Belo) e de Dagoberto I. Com exceção de São Luís, cujos ossos já haviam sido parcialmente removidos por ocasião de sua canonização, em 1297, a maioria dos remanescentes encontrados dos outros monarcas já estava em avançando estado de deterioração, restando apenas o pó dos ossos e parte dos esqueletos. Cabe ressaltar aqui um trecho da crônica sobre a exumação de Felipe IV, também conhecido como o rei de mármore ou Felipe, o Belo:

Em seguida, desembaraçamos o topo do coro para descobrir os outros caixões escondidos no subsolo. Encontramos o de Felipe, o Belo, que morreu em 1314, aos 46 anos. O caixão era feito de pedra e coberto com uma grande laje. Não havia outro caixão com a pedra entalhada em formato de anjo e mais larga na cabeça do que nos pés, sendo forrada por dentro com uma lâmina de chumbo e outra lâmina forte e larga, também de chumbo, selada nas barras de ferro que fechavam a tumba. O esqueleto estava inteiro; um anel de ouro foi encontrado, um remanescente de uma tiara de tecido de ouro e um cetro de cobre dourado de seis pés de comprimento que terminava em um tufo de folhagem, na qual também havia um pássaro de cobre dourado e colorido com suas cores naturais, que parecia o pintassilgo da Monarquia francesa.

Sobre a exumação de Dagoberto I, rei dos Francos, morto entre 638 e 639, foi dito que a grande estátua que encimava seu sarcófago precisou ser quebrada para revelar a arca de madeira que continham os ossos do monarca e de sua esposa, Natilde, falecida em 642. “Os ossos estavam envolvidos em um pano de seda e os corpos separados por uma tábua intermediária que dividia o baú em duas partes” De um lado do ataúde havia uma placa de chumbo com a inscrição latina: Hic jacet corpus Dagoberti (Aqui jaz o corpo de Dagoberto). Do outro lado, outra placa, também de chumbo, onde se lia: Hic jacet corpus Nanthildis (Aqui jaz o corpo de Natilde).

Até o dia 25, os despojos do monarca renascentista Francisco I e sua esposa, Cláudia de Valois – cujo monumento funerário é um dos mais belos do interior da Basílica – também foram retirados de seu túmulo conjunto. Seus filhos e filhas que partilhavam o mesmo sepulcro tiveram igual destino. Outros soberanos atirados para fora de suas tumbas foram Carlos IV, Felipe V e João II. A última das exumações ocorreu no dia 14 de janeiro de 1794, quando a sepultura da princesa Margarida, filha do rei Felipe V, foi encontra. Quanto aos tesouros encontrados com os mortos em outubro de 1793, a crônica diz o seguinte:

Na noite do dia 11 para 12 de novembro seguinte, por despacho do departamento, na presença dos comissários do distrito e do município de Saint-Denis, o tesouro foi retirado: estava tudo intacto, relíquias etc. Tudo foi colocado em grandes caixas de madeira, assim como todos os ricos ornamentos da igreja, cálices, cibórios, copas, casulas etc. No dia 12, às dez horas da manhã, esses preciosos objetos partiram para a Convenção, em grandes aparatos, em carroções especialmente preparados e acompanhados pela guarda dos moradores da cidade. O telhado de chumbo que cobria a igreja foi removido algum tempo depois, deixando-a exposta à devastação do tempo.

Com as efígies tumulares violadas e os cadáveres da realeza jogados em valas comuns, a Basílica de Saint-Denis foi transformada pelos jacobinos em “Templo da Razão”, completando assim seu processo de dessacralização. Em seguida, ela serviu como depósito de artilharia, teatro para acrobatas e, por fim, em celeiro para farinha e forragem. Entrando no século XIX, o monumento estava em completo estado de depredação, com a grande abóbada despencada. Feirantes então utilizaram o espaço como mercado público e as antigas capelas foram feitas de lojas. Apenas em 20 de fevereiro de 1806, Napoleão Bonaparte decretou que os danos em sua estrutura fossem reparados, para que o monumento pudesse servir novamente como sepulcro para a nova dinastia de imperadores que ele encabeçava.

Túmulos de Maria Antonieta e Luís XVI na Nova Necrópole Real dos Bourbon, construída por Luís XVIII.

Com a queda do império napoleônico e a restauração Bourbon, o rei Luís XVIII, irmão do guilhotinado Luís XVI, ordenou que todos os ossos e sepulturas profanadas pela Revolução fossem novamente transferidas para seu lugar de descanso original. Entretanto, como a medicina forense ainda não estava muito desenvolvida no período, não era possível montar corretamente os esqueletos, ou ter certeza acerca da originalidade dos restos mortais. Assim, clavículas de reis do século XVIII se misturaram a costelas de soberanos da Renascença e úmeros da Idade Média. Foram armazenados em dez urnas construídas na nova cripta da Basílica, com as inscrições dos nomes das 170 pessoas, cujos despojos foram perturbados pela Revolução. Infelizmente, durante o processo de pilhagem dos túmulos, partes dos corpos foram retiradas pelos jacobinos como troféus. Um exemplo é a cabeça do próprio Henrique IV. Certo homem de nome Brulay, que estava presente nas exumações de 1793, teria roubado alguns “souvenirs”, como a mandíbula de Dagoberto, um pedaço do crânio e dois dentes de São Luís, dentes de Henrique III e a perna da rainha da Catarina de Médici. A viúva de Brulay tentou vender essa coleção macabra ao rei Luís XVIII, mas não obteve sucesso.

Adquiridas muito tempo depois em um leilão, os supostos despojos da realeza acabaram parando no Museu Tavet-Delacour. Todavia, muitos historiadores duvidam acerca da autenticidade desses remanescentes. Por fim, para coroar com glória o ato dramático que reafirmaria os poderes da dinastia restaurada, Luís XVIII ordenou que os ossos de Luís XVI e Maria Antonieta, sepultados originalmente em um cemitério na rue d’Anjou, fossem transladados com honras de estado para a nova Necrópole Real dos Bourbon. Ali jazem os despojos dos últimos rei e rainha da França absolutista. A eles se juntaria o próprio Luís XVIII, falecido em 1824, aos 68 anos. Estas três sepulturas são as únicas dentro da Basílica que realmente guardam os corpos que a elas foram destinados. Um armário na abóbada dos Bourbon mantém fragmentos mais ou menos originais dos ossos violados em 1793, recuperados com o passar das décadas. Quanto aos belíssimos monumentos funerários que os visitantes podem contemplar no interior de Saint-Denis hoje, nada mais são do que estátuas jacentes; um simulacro das feições daqueles que um dia foram sepultados dentro da Basílica, na esperança do repouso eterno. Para eles, o “Juízo Final” veio muito mais cedo do que talvez pudessem imaginar em vida.

Referências Bibliográficas:

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Destruction des tombeaux royaux de Saint-Denis en 1793: acte de barbarie sans précédent. 2017 – Acesso em 20 de junho de 2021.

FRASER, Antonia. Maria Antonieta: biografia. Tradução de Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. Tradução de Beatriz Sidou.  2ª ed. São Paulo: Ed. Centauro, 2013.

HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções: 1789-1848 – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Tradução de Bernrado Leitão. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1994.

LINDSAY, Suzanne Glover. The Revolutionary Exhumations at St-Denis, 1793. In Conversations: An Online Journal of the Center for the Study of Material and Visual Cultures of Religion, 2014. doi:10.223322/con.ess.2015.2

PRICE, Munro. A queda da monarquia francesa: Luís XVI, Maria Antonieta e o barão de Breteuil. Tradução de Julio Castañon Guimarães. – Rio de Janeiro: Record, 2007.

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