O “Concerto da Europa”: Dona Leopoldina e suas impressões sobre o Congresso de Viena!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Após um período de mais de vinte anos de guerras ininterruptas na Europa, as antigas monarquias se reuniram em setembro de 1814 e em junho de 1815, em Viena, na Áustria, com o objetivo de restabelecer a velha ordem, sacudida pelos ideais revolucionários propalados pelo exército napoleônico. Conforme ressaltou o historiador Eric Hobsbawm: “Os escombros de duas décadas tinham de ser varridos, e a pilhagem territorial, redistribuída” (3013, p. 165). Assim, o mapa da Europa foi reconfigurado de acordo com os interesses e as conveniências de cada um dos líderes dos regimes vitoriosos. Para tanto, seus representantes trataram de elaborar um mecanismo para a manutenção da paz, uma vez que qualquer acordo elaborado naquelas reuniões, por mais diligente que fosse, não resistiria às pressões estatais e às circunstâncias mutáveis do tempo. Por meio de congressos regulares, eles pretendiam resolver os problemas das “grandes potências” (termo inventado nesse período), à medida em que estes fossem surgindo. Para tanto, decisões cruciais foram tomadas nesses encontros, a fim de garantir a durabilidade do “Concerto da Europa”, nome dado a esse sistema de equilíbrio de poder que perdurou de forma vacilante até a eclosão da Primeira Guerra Mundial, cem anos depois.

Arquiduquesa Maria Leopoldina, por artista desconhecido.

Com efeito, uma das finalidades do Congresso de Viena consistia na criação da chamada “Santa Aliança”, que envolvia o Império Austríaco, o Império Russo e o Reino da Prússia. Seu objetivo era claro: quaisquer movimentos de caráter liberal e revolucionário deveriam ser suprimidos em nome dos interesses da ordem monárquica e manutenção do status quo. Acima de tudo, tratava-se de resolver uma questão dinástica, que tinha por objetivo restituir às cabeças coroadas o controle dos seus antigos domínios. Aqueles encontros, decorridos antes e depois do governo dos 100 dias – quando Napoleão I, saído do exílio na Ilha de Elba, foi definitivamente derrotado na batalha de Waterloo – atraíram os olhares de todo o continente, interessados em saber quais reinos seriam devolvidos aos seus antigos senhores. O imperador Francisco I da Áustria, que havia abdicado da coroa do Sacro Império Romano-Germânico (dissolvido juntamente com o título de seu último representante, em 1806), foi quem liderou a Santa Aliança, selada imediatamente após as deliberações do Congresso. As reuniões de setembro e outubro de 1814, com efeito, deram oportunidade para que a segunda filha do monarca austríaco, a arquiduquesa Leopoldina de Habsburgo-Lorena, nossa futura imperatriz, fizesse a sua primeira aparição pública de destaque.

Naquela ocasião, cerca de 216 chefes de delegações estrangeiras se reuniram em Viena para o tão falado “Congresso de Paz”, no qual apenas alguns poucos líderes e diplomatas de fato decidiram o destino do continente, guiados pelo príncipe Klemens Wenzel von Metternich, ministro da Coroa austríaca e verdadeiro artífice do “Concerto”. Enquanto isso, os que ficavam de fora das decisões importantes eram distraídos com bailes, caçadas, jantares intermináveis e entretenimentos de todos os tipos. Quase todos os príncipes da Europa afluíram para Viena, que voltava a ser um importante centro da vida política europeia. Sobre aqueles eventos, Leopoldina deixou um interessante registro no qual descrevia a chegada dos convidados e suas impressões sobre os monarcas da Europa. Em 28 de setembro de 1814, ela escreveu do palácio de Schönbrunn uma carta para sua irmã, Maria Luísa:

Amada Luísa!

Escrevo-te apenas algumas linhas para que vejas como sou aplicada e que se não escrevo mais é apenas por falta de tempo. Minha saúde está melhorando, mas demasiado lentamente, porque é o estômago e um pouco de reumatismo. Mal posso esperar por tua chegada e divertir-te com minhas histórias. Nossa vida atual não me agrada em nada: das dez da manhã às sete da noite estamos continuamente em vestido de gala, de pé, passando o dia em cumprimentos e ociosidade. Todos os dias temos um jantar de 34 pratos, que começa às quatro e dura três horas, já que o czar da Rússia[1] deixa-nos esperando durante duas horas; gosto muito do rei da Prússia[2], pois é um príncipe muito bonito e bem educado. A czarina da Rússia também tem todo o meu aplauso, é um tanto embaraçada, mas de resto tem bom coração. Hoje chegaram o rei[3], a rainha, o príncipe herdeiro e o Príncipe Carlos da Baviera, que me agradam muito. Estamos todos muito cansados e confesso que não consigo me alegrar, como as outras pessoas, vendo todos esses soberanos. Fico bastante desolada quanto tu, querida irmã, tem frequentemente aquelas dores d’alma e podes ter certeza de que me solidarizo contigo. Não vejo mais teu filho; […] há pouco, quando a princesa Taxis e o rei da Dinamarca[4] o viram do escritório, o acharam a criança mais adorável e linda do mundo; a princesa me pediu que eu te apresentasse seus respeitos e te dissesse como se solidariza contigo na tua situação; falei com ela após o almoço um dia desses durante meia hora. Espero receber teus relatos de viagem, pois desde que partiste recebi apenas a primeira das tuas três cartas. Kozeluch está terrivelmente zangado, pois quase não tenho aulas com ele desde que os soberanos estão aqui. Não sei como agradecer à Condessa Montesquieu pela atenção que tem comigo, pois me dá notícias tuas quando não as recebo. Estamos frequentemente com tia Teresa e o Príncipe Antônio; o coitado me dá pena, assim como toda família saxônica, pois não são nada bem tratados. Meu desejo é que pudesses comemorar conosco o dia onomástico do querido papai, que passaremos aqui em toda tranquilidade, e com certeza ele ficaria feliz.

Adeus, abraço-te mil vezes e permaneço

tua irmã que te ama ternamente,

Leopoldina (apud KANN, 2006, p. 214-15).

Após a derrota de Napoleão I na batalha de Batalha de Leipzig, em outubro 1813, e seu consequente degredo para a Ilha de Elba, no Mediterrâneo, no ano seguinte, Maria Luísa deixou a França e retornou para Viena, onde passou a residir em Schönbrunn. Mas, devido à sua união com o imperador dos franceses, ela foi aconselhada a se ausentar das reuniões do Congresso por conveniência, retirando-se em seguida para a cidade de Baden. Além desta carta endereçada à irmã mais velha, por quem nutria grande afeição, Leopoldina também manteve uma espécie de diário de anotações sobre os eventos a que fora convocada a participar, oferecidos em honra aos príncipes estrangeiros que afluíam para a capital da Áustria[5]. Sua função, assim como a de suas irmãs menores, era a de entreter os convidados da melhor forma possível, o que não impediu, entretanto, que ela fizesse comentários bastante perspicazes sobre o comportamento e a aparência de alguns deles. Para Carlos H. Oberacker Jr. (1973, p. 25), o ponto de vista dela sobre aqueles acontecimentos era o de uma jovem inexperiente, falando apenas daquilo a que testemunhou: as recepções feitas aos diversos monarcas, as visitas que a madrasta, Maria Ludovika de Modena, recebia, assim como as festas a que participava.

Após um período de mais de vinte anos de guerras ininterruptas na Europa, as antigas monarquias se reuniram em setembro de 1814 e em junho de 1815, em Viena, na Áustria, com o objetivo de restabelecer a velha ordem, sacudida pelos ideais revolucionários propalados pelo exército napoleônico. Assim, o mapa da Europa foi reconfigurado de acordo com os interesses e as conveniências de cada um dos líderes dos regimes vitoriosos.

Dessa forma, ela se divertiu com seu sotaque britânico de Lorde Castelreagh ao falar a língua francesa, durante o cerimonial de entrega da Ordem da Jarreteira ao seu pai; discorreu sobre o péssimo comportamento do rei de Württemberg, descrevendo-o no dia 22 de setembro pejorativamente como gordo e mal educado:

Cedo, às 8h30, já fomos para a cidade; às 10 horas estávamos vestidas com vestidos ricamente bordados de prata que me pareceu ficar ridículo, pois era o primeiro que eu vestia e me era extremamente pesado; fomos para junto da querida mamãe onde esperavam o Rei de Württemberg […]. [Ele] contra toda a polidez estava sentado à direita, não tirava o chapéu para saudar, apesar do querido papai estar descoberto; parecia um vitelo que se levasse a vender em carro aberto. […] Ele é pequeno, tem a fisionomia dos wüttenberguenses, usa ainda uma trança, que é amarrada de um modo singular na nuca e tem dois rolos de cabelo de cada lado (apud REZZUTTI, 2017, p. 59).

Com efeito, ela também não gostava quando o filho de sua irmã com Napoleão era insultado pelos convidados. Na época, a criança tinha apenas 3 anos e era tratada com muito carinho pela tia, que se referia ao menino como “meu tesouro”. Em contrapartida, ela não se limitava a fazer críticas ao imperador Alexandre I da Rússia, que ela achava ter “cara de lua”, ao passo que apreciava o rei da Dinamarca por dizer francamente o que pensava: “considerava uma vergonha para todo o príncipe alemão não falar por toda a parte a sua língua materna” (apud OBERACKER, 1973, p. 26). Já sobre o rei da Prússia, a arquiduquesa comentou que o achava “um dos mais amáveis, valiosos e valentes, principalmente com sua fisionomia encantadora, um bigode saliente e uma barba terminada em ponta. Reúne a uma bondade extraordinária de coração muito talento militar” (apud OBERACKER, 1973, p. 26). Mas, quando viu o príncipe de Talleyrand, responsável pelo casamento de Napoleão I com Maria Luísa em 1810, perguntou-se: “se é Lúcifer ou o demônio em pessoa”.

Para a filha do chefe da Santa Aliança, então com 17 anos, uma das coisas mais interessantes a se observar naquele encontro histórico era o fato de “os príncipes alemães não falarem outra língua senão o alemão”, algo que ela elogiou na postura do rei da Dinamarca. Não obstante, ela enxergava esse aspecto como “uma obrigação da Liga da Virtude (Tugendbund), que, de certo, caso tenha somente objetivos como este, deve ser muito nobre” (apud OBERACKER, 1973, p. 26). A Liga da Virtude, à qual Leopoldina se refere, era um grupo de caráter maçônico, fundado em 1808, que tinha por objetivo trabalhar por uma transformação no território alemão, de cunho científico, moral e militar. O elogio da princesa à Liga demonstra o resultado da evolução de seus pensamentos com relação à política, que foram aprimorados no Congresso de Viena. Na opinião de Andréa Slemian:

Nesse sentido, em sua trajetória se pode observar como os tempos em que vivera sua infância a adolescência foram de profunda transformação nos padrões políticos, em relação aos quais as cortes europeias não estavam imunes. Desde a eclosão da Revolução Francesa, a ascensão e a queda de Napoleão Bonaparte, e logo a reação conservadora que assistira de perto desde os 17 anos devido ao seu epicentro ser exatamente Viena, sob a tutela do imperador Francisco I, seu pai. Foi assim que entre os anos de 1814 e 1815, ali reuniram-se, representantes da França, da Prússia, da Rússia e da Grã-Bretanha, entre outros, em nome da preservação da legitimidade dinástica e contenção dos princípios revolucionários por eles associados aos radicalismos que existentes nas concepções de “soberania do povo” e da “nação” (2016, p. 56).

Assim, os projetos discutidos no famoso “Concerto da Europa” tinham por objetivo não apenas restaurar o mundo ao status quo anterior à Revolução Francesa e ao Império Napoleônico, como também defender os princípios monárquicos e fazer frente aos movimentos sociais que iam na contramão desses ideais. Por essa razão, Leopoldina lamentaria mais tarde em cartas para a sua irmã sobre as revoltas ocorridas em Parma, onde Maria Luísa foi nomeada como arquiduquesa regente. Da mesma forma, preocupavam-na os levantes que surgiram no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, ao qual ela se viu ligada pelo casamento em 1817.

Cerca de 216 chefes de delegações estrangeiras se reuniram em Viena para o tão falado “Congresso de Paz”, no qual apenas alguns poucos líderes e diplomatas de fato decidiram o destino do continente, guiados pelo príncipe Klemens Wenzel von Metternich, ministro da Coroa austríaca e verdadeiro artífice do “Concerto”.

Naquele outono de 1814, a arquiduquesa se entretinha nos jantares e recepções oferecidas aos convidados, incluindo desfiles de carruagens, explosões de fogos de artifício e bailes quase intermináveis, como o que ocorreu no dia 5 de outubro, no qual ela registrou que dançou com segurança cerca de 20 polonaises, com os diversos príncipes ali presentes. No dia seguinte, teve lugar a uma grande festividade, que coroou os projetos debatidos pelos líderes das “grandes potências”. Leopoldina detalhou o evento com as seguintes palavras:

Houve um grande banquete na cidade e depois do mesmo, às 4 horas, houve um passeio nos jardins externos na mesma ordem que no Prater; descemos todos e fomos a uma galeria armada no estilo gótico antigo enfeitada com veludo azul e laços de prata. Havia um grande circo rodeado por cavilhas onde estavam os melhores cantores. O préstito aproximou-se: em primeiro lugar vinha a música turca do Regimento Hiller, com seus tambores de campo, todos os componentes tinham barba longa; então viera 12 cavalarianos armados, 8 corredores, 6 cossacos e 6 tártaros em cavalos turcos para apostarem corridas; depois Bach com a sua sociedade e por fim 400 inválidos que desfilavam irrequietamente com um oficial que andava de muletas e os guiava. Foi um momento comovente, ver estes jovens ativos, usavam a Cruz do merecimento por motivo de guerra. Agora começavam no gramado os jogos, os corredores e em seguida os cavaleiros turcos com suas bandeiras; iam até o fim da aleia e voltavam ganhando como prêmios bandeiras de diversas cores […]. Quando escureceu fomos ver a mesa dos inválidos onde foi bebido à saúde das altas autoridades; fomos a um campo próximo onde tinham sido levantadas palcos nos quais executavam danças nacionais das diversas nações que formam o Império da Áustria; a iluminação não havia ainda começado, o que foi grande pena, pois mal podíamos ver; nos 4 cantos estavam armados troféus das batalhas ganhas, que escondiam a banda turca; daí atravessamos a grande aleia pisando em tábuas tão finas que poderíamos quebrar o pé (apud REZZUTTI, 2017, p. 62).

O Congresso de Viena teve uma forte contribuição para a formação do caráter da jovem princesa Leopoldina, que amadureceu bastante e adotou uma visão mais pragmática sobre a política. Na infância, ela sentiu de perto o impacto dos ideais revolucionários, difundidos pelas guerras napoleônicas: o Sacro Império Romano-Germânico, do qual seu pai fora o último imperador, dissolveu-se, e a Santa Aliança, formada logo após o Congresso, buscava defender os princípios de legitimidade monárquica, aos quais a princesa se mostrava tão afeita. Uma vez no Brasil, ela passou a nutrir pavor pelas revoltas e sempre procurava uma resolução inteligente para os problemas enfrentados por seu marido, durante a regência. Educada de acordo com os princípios da religião, da moral e das ciências, Dona Leopoldina logo adotou uma postura firme quanto ao futuro político do país, procurando aliar seus interesses tanto aos dos liberais, quanto aos dos conservadores, visando a manutenção da Coroa do nascente Império Tropical sobre a fronte de D. Pedro I. Nesta arquiduquesa austríaca, que passou a se enxergar brasileira de coração, a teoria e a prática se aliaram de forma harmônica, em prol ordem pública e do bem do Estado.

Referências Bibliográficas:

HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções, 1789-1848. Tradução de Maria Tereza Teixeira e Marcos Penchel. 32ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

KANN, Bettina; LIMA, Patrícia Souza. D. Leopoldina: cartas de uma imperatriz. – São Paulo: Estação Liberdade, 2006.

MAGALHÃES, Aline Montenegro; MARINS, Álvaro; BEZERRA, Rafael Zamorano. (Orgs.). D. Leopoldina e seu tempo: sociedade, política, ciência e arte no século XIX. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 2016.

OBERACKER Jr., Carlos H. A imperatriz Leopoldina, sua vida e época: ensaio de uma biografia. – Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1973.

REZZUTTI, Paulo. D. Leopoldina: a história não contada: a mulher que arquitetou a independência do Brasil. Rio de Janeiro: LeYa, 2017.

Notas:

[1] Alexandre I (1777-1825).

[2] Frederico Guilherme III (1770-1840).

[3] Maximiliano I (1756-1825), Rei da Baviera.

[4] Frederico IV (1768-1839)

[5] Esse documento se encontra hoje preservado no Arquivo Histórico do Museu Imperial.

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