Irmãs e rainhas: as filhas de Isabel I de Castela – Parte I: Isabel de Aragão, rainha de Portugal

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

A união entre Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão não foi importante apenas para a unificação da monarquia espanhola, como também para outras casas reinantes da Europa. Através de suas quatro filhas: Isabel, Joana, Maria e Catarina, os reis católicos estabeleceram importantes alianças políticas com outros estados e estenderam sua margem de influência para além do oceano. As filhas de Fernando e Isabel tiveram mais em comum do que os mesmos pais. As quatro foram rainhas, se apaixonaram, experimentaram o poder e tiveram um final bastante infeliz. Em maior ou menor grau, essas mulheres possuíam muito da personalidade forte da mãe, especialmente na forma como lidavam com seus problemas, tendo em Isabel um grande modelo de mulher. Modelo esse que, por sua vez, seria transmitido para as suas próprias filhas, netas da primeira rainha reinante de Castela. Graças a ela, o mundo ocidental teria um forte exemplo de que o sexo feminino era tão apto a governar quanto o masculino, contrariando assim as ideias de inferioridade da mulher em tais assuntos. As filhas e as netas de Isabel fizeram o possível para dar continuidade ao seu legado, mantendo abertas as portas para que outras rainhas chegassem o poder. Vamos, portanto, às histórias delas.

Isabel de Aragão, rainha de Portugal (1470-1498)

Detalhe da infanta Isabel, no quadro da família real espanhola, pintado por Fernando Gallego (1490-5).

A primeira das filhas da rainha Isabel nasceu quando sua mãe ainda nem era rainha, e sim uma presuntiva herdeira da coroa. As possibilidades de Isabel vir a herdar o trono de Castela estavam ameaçadas desde o casamento com seu primo, príncipe Fernando de Aragão, por contrariar a vontade do rei Henrique IV, que cogitava outras possibilidades de matrimônio para sua jovem irmã. A criança nascida em 2 de outubro foi batizada em homenagem a sua mãe e avó. O fato de ser uma garota deixava seus pais uma posição delicada, pois, embora a lei de sucessão em Castela não excluísse as mulheres, em Aragão vigorava a lei sálica, pela qual o monarca deveria ser um representante do sexo masculino. Como os príncipes ainda eram jovens e Isabel se mostrou fértil ao conseguir engravidar em poucas semanas após o casamento, em 19 de outubro do ano anterior, era um sinal de que um menino logo poderia chegar. Até lá, a infanta Isabel permanecia a herdeira de seus pais. Em 1474, quando o rei Henrique IV morreu, Isabel reclamou o trono de Castela para si, dando início a uma verdadeira campanha militar para que os nobres castelhanos reconhecessem seu direito à coroa.

Sendo assim, não se pode dizer que a infância da infanta Isabel foi das mais tranquilas. Durante a guerra de sucessão, na qual Isabel e sua sobrinha, Joana, disputavam pelo trono, a infanta Isabel, quando não acompanhava seus pais na campanha militar contra os portugueses, era deixada em Segovia. Numa dessas estadias, a cidade foi tomada por uma revolta popular contra a administração de Andrés de Cabrera e sua esposa, Beatriz de Bonbadilla. Até que a ordem fosse restabelecida em Segovia, a infanta, então com sete anos, permaneceria confinada na Torre de Alcázar. No ano seguinte, em 1478, nasceu Juan, futuro príncipe das Astúrias e legítimo herdeiro de seus pais. Já que as possibilidades de se tornar sucessora da mãe ficaram mais distantes, restou para a infanta Isabel o destino de muitas princesas europeias: o casamento dinástico. Para selar a paz com Portugal, em 1479, a rainha Isabel prometeu a mão de sua filha ao neto do rei Afonso V, da casa de Avis. Pelos termos do Tratado das Terçarias de Moura, os reis católicos se comprometiam a pagar um vultoso dote pela sua filha, além de consentir que Isabel residisse em Portugal, como garantia de que seus pais comprimiriam com o acordo. Aos 10 anos, a jovem infanta partiu para o reino vizinho, para viver na companhia do seu futuro marido, príncipe Afonso.

No entanto, a vida em comum não duraria o tempo esperado: no início do ano de 1483, os reis de Portugal concordaram em devolver a infanta para seus pais. Até o ano de 1490, Isabel viveria com eles e ao lado dos seus irmãos, Juan, Joana, Maria e Catarina. A infanta tinha um papel de destaque na corte espanhola, como podemos observar no episódio de Medina del Campo, em 1489, quando a princesa dançou ricamente vestida diante dos embaixadores ingleses. Segundo Joana Bouza Serrano,

A beleza e a esmerada educação faziam da infanta um partido extremamente interessante, mas mais atrativo aos olhos daqueles que a pretendiam como noiva era o seu lugar na sucessão aos tronos castelhano e aragonês, imediatamente atrás do único varão, de saúde débil. […] Pretendida em Inglaterra, na casa de Áustria e em França, os reis católicos acabaram por decidir casar a sua primogênita com o herdeiro português, uma vez que não queriam arriscar um eventual reavivar das pretensões de D. Joana, conhecida em Portugal como a “Excelente Senhora” e rival de D. Isabel no trono castelhano (2009, p. 216).

A infanta, por sua vez, herdara da mãe não só a aparência física (era loira, com pele rosada, rosto redondo e olhos azuis) como também o seu gênio forte. Iria para a corte portuguesa com a missão secreta de controlar sua tia, considerada na Espanha uma bastarda. Além disso, é possível que tanto Afonso quanto Isabel, que viveram juntos na infância, desejassem a concretização daquele casamento. Em 1490, ela mais uma vez partiu para Portugal.

Isabel I de Castela, por artista anônimo (Royal Collection).

Com efeito, a união dos dois príncipes estava fadada a ter vida curta, assim como seu noivado, dez anos antes. Em 13 de julho de 1491, o príncipe faleceu em decorrência de um traumatismo provocado pela queda de um cavalo. Aos 20 anos, Isabel ficou viúva, deixando que “lhe cortassem os longos cabelos louros de que tanto se orgulhava, que a vestissem de almáfega e que lhe cobrissem a cabeça de negro, juntando-se à rainha D. Leonor, ambas em grande, dolorido e desconsolado pranto” (SERRANO, 2009, p. 223). Recluídos em seu luto, os reis e a princesa recusavam-se a sair de casa e recebiam poucas visitas, “e aquele real casamento, tantos anos desejado […] com tanto gosto e prazer de toda a Hespanha […], como foy em sete meses ter tão desastrado caso apartado para sempre”, conforme registrou a Chronica do Senhor rei D. Affonso V (apud SERRANO, 2009, p. 223). Com a morte do príncipe, entrava em questão a sucessão portuguesa, já que a rainha D. Leonor conseguira ter apenas uma gravidez saudável. Enquanto esse assunto era resolvido pelo rei D. João II, filho de Afonso V, a infanta Isabel foi enviada novamente para Castela. De volta à sua pátria, ela foi testemunha da vitoriosa campanha de seus pais contra os Mouros e finalmente a tomada de Granada, ao sul da península.

Após a morte do rei D. João II, em 1495, subiu ao trono português seu cunhado, rei Manuel I, cujos laços de amizade com o reis católicos haviam sido reforçados durante sua estadia em Castela, anos antes. Aos 26 anos, o novo rei ainda era solteiro e o casamento com uma infanta espanhola começou a ser cogitado. Como Joana estava prometida ao arquiduque Felipe da Áustria e Catarina ao príncipe Arthur da Inglaterra, restavam Isabel e Maria. Contudo, desde a morte do príncipe Afonso, Isabel se recusava a contrair segundas núpcias. Tornara-se uma mulher triste e recluída. Seus pais, dispostos a respeitar sua decisão, ofereceram então Maria como noiva. Ciente da estima que a viúva de seu sobrinho granjeara entre a povo, o rei de Portugal manifestou desejo de se casar com Isabel, que trazia consigo uma boa pretensão aos tronos dos pais. Depois de muita insistência, a rainha Isabel finalmente convenceu sua filha a aceitar a proposta. No ano de 1497, ela foi recebida em Portugal pela terceira vez. Ali ficaria sabendo da morte de sua irmão, em 4 de outubro, e que a esposa deste, a arquiduquesa Margarida, grávida à época da morte do príncipe, dera à luz uma criança morta. Semanas depois, Dona Isabel e D. Manuel I receberam uma carta dos reis católicos, convocando-os a comparecer em Castela, onde seriam jurados herdeiros de todos os seu reinos.

Fernando II de Aragão, por artista anônimo (Royal Collection).

Os novos príncipes das Astúrias foram acompanhados de uma grande comitiva, com honras de Estado, rumo ao reino vizinho. Uma vez em Castela, foram recepcionados pelos duques de Alba e de Medina Sidónia, que dispensaram aos reis de Portugal grande reverência e generosidade. Dias depois, chegaram à cidade de Toledo, onde eram aguardados por Fernando e Isabel, à frente de uma grande multidão. “O rei D. Fernando foi ao encontro da filha e do genro, que abraçou afetuosamente. Isabel, ‘com muito amor e cortesia’, fez menções de beijar a mão do rei seu pai, que não lhe quis dar, abençoando a filha” (SERRANO, 2009, p. 232). A rainha Isabel também não cedeu sua mão para que a filha a beijasse, recebendo-a com um abraço. Como rainha de Portugal, Isabel estava no mesmo patamar hierárquico de seus pais. Após essa recepção, a princesa se encontrou com as duas irmãs, as infantas Maria e Catarina, juntamente com sua cunhada, a princesa-viúva, Margarida da Áustria. Só quem não estava presente foi Joana, que desde o seu casamento com o arquiduque Felipe se encontrava nos Países Baixos. No domingo seguinte, os reis de Portugal foram solenemente proclamados príncipes das Astúrias, em ilustre cerimônia.

O motivo de júbilo era ainda maior para o reino português, já que sua rainha se encontrava grávida de D. Manuel. Aquela criança teria direitos inquestionáveis a todos os reinos da península, antecipando assim a União Ibérica. À medida que o momento do parto ia se aproximando, Dona Isabel se sentia cada vez mais indisposta e com medo de morrer. No dia 23 de agosto de 1498, ela deu à luz um filho, batizado de Miguel. Quem deu a notícia à corte foi o próprio rei Fernando, anunciando a todos: “deem graças a Deus que temos um filho varão”. Com isso, a questão da sucessão da coroa aragonesa, que não admitia mulheres, parecia estar resolvida. Infelizmente, a rainha de Portugal não sobreviveu ao parto do filho. Assim como outras mulheres em situações semelhantes, ela contraiu uma forte hemorragia, que lhe custou a vida. “Morreu a força de sangue, que se lhe soltara sem lhe poderem estancar” (apud SERRANO, 2009, p. 234). Faleceu nos braços de seu pai, o rei Fernando. Essa morte abalou profundamente a rainha de Castela. Por quase oito anos, Isabel foi sua única filha. Recebeu mais atenção dos pais do que qualquer uma de suas irmãs, sendo possivelmente a sua preferida, especialmente pelo seu caráter, gosto e personalidade. A população chorou bastante a morte de sua princesa, ao mesmo tempo em que celebravam o nascimento de seu filho.

D. Manuel de Portugal, em iluminura do frontispício do “Livro 1 de Além Douro” (15??-1521).

Com efeito, essa criança carregava consigo as esperanças dinásticas de seu pai e avós. Sobre ela repousava a promessa de uma União Ibérica. Portanto, era de suma importância mantê-la em segurança junto aos reis católicos. Do contrário, os reinos ibéricos estariam à mercê das pretensões imperialistas do arquiduque Felipe, marido a infanta Joana. Com apenas um mês de nascido, o infante D. Miguel da Paz foi jurado herdeiro do trono de Aragão e, quatro meses depois, príncipe das Astúrias. Contudo, mais uma vez, a morte cumpriu seu papel e levou a criança antes mesmo que ela completasse dois anos de idade. Assim sendo, a herança castelhano-aragonesa passou para Dona Joana, confirmando assim os maiores temores de Fernando e Isabel. Quanto ao rei de Portugal, este passou a planejar novo casamento com a irmã de sua finada esposa, a infanta Maria, no intuito de conservar sua aliança com os reis católicos. O corpo do infante Miguel da Paz jaz ao lado do de sua mãe, num túmulo imponente em Granada, compartilhado com os avós. Ali, membros da família real espanhola e portuguesa descansam, na ilusão da promessa de uma União Ibérica, ocorrida décadas depois, sob o reinando do neto de Joana, Felipe II de Espanha e I de Portugal.

Referências Bibliográficas:

BENEVIDES, Francisco da Fonseca. D. Isabel de Castela: primeira mulher de D. Manuel I (1497-1498). In: Rainhas de Portugal: as mulheres que construíram a nação. 4ª ed. Portugal: Marcador Editora, 2011, p. 222-228.

DOWNEY, Kirstin. Isabella: The Warrior Queen. New York: Anchor Books, 2014.

SANCHEZ, Luiz Amador. Isabel, A Católica. Tradução de Mário Donato. – Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1945.

SERRANO, Joana Bouza. Isabel de Castela (1470-1498): a cobiçada primogênita dos reis católicos. In: As avis: as grandes rainhas que partilharam o trono de Portugal na segunda dinastia. 2ª ed. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2009, p. 205-235.

STEVENS, Paul. Fernando e Isabel. Tradução de Edi Gonçalves de Oliveira. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

VILLANUEVA, Fernando Díaz. Isabel La Católica. – Madrid: Edimat Libros, 2007.

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