Duas irmãs, um trono: Maria I e Elizabeth I da Inglaterra

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 3 de agosto de 1553, Maria I Tudor fazia sua entrada triunfal em Londres, onde foi aclamada pela população. Aos 37 anos de idade, ela se tornava oficialmente a primeira rainha reinante da Inglaterra. No momento de sua ascensão, era uma soberana extremamente querida pelo povo, que ainda se recordava dos sofrimentos pelos quais ela e sua mãe tinham passado nas mãos de seu pai. Não obstante, a nova monarca possuía muitas qualidades que a tornavam apta para o exercício do poder. Maria não apenas teve uma excelente educação, superior à de outras mulheres nobres, como também passou por muitas experiências difíceis na juventude, que tornaram o seu caráter mais forte e decidido. É irônico perceber que, apesar de todos os esforços do rei Henrique VIII para evitar que o trono passasse para uma mulher, suas duas filhas acabariam por ocupa-lo. Tanto Maria I quanto Elizabeth I abriram as portas para uma monarquia de gênero na Inglaterra, deixando o caminho livre para que outras soberanas, posteriormente, também herdassem a coroa. Porém, o relacionamento dessas duas mulheres nem sempre foi pacífico. Durante o reinado de Maria, a sombra da traição acabou recaindo sobre Elizabeth, deixando um clima tenso entre ambas.

A entrada da rainha Maria I e sua irmã, Elizabeth, em Londres, por John Byam Liston Shaw.

Com efeito, a rainha não podia esquecer do fato de que sua irmã era filha da mulher que causou tanto infortúnio para sua mãe. Além disso, a diferença de ideologia religiosa que existia entre elas era mais um aspecto que a rainha não podia ignorar. Elizabeth era a filha da reforma, a mesma reforma que declarou o casamento dos pais de Maria, inválido. Sendo assim, uma das primeiras atitudes da nova monarca foi reatar relações com o papado, para o qual Henrique VIII e Catarina de Aragão jamais haviam deixado de ser marido e esposa. Dessa forma, a rainha não só revogava seu status de bastarda, como também legitimava sua pretensão ao trono. Quanto a Elizabeth, apesar de presumível herdeira da irmã, permanecia ilegítima tanto para os católicos quanto para os protestantes. Portanto, era de fundamental importância que Maria se casasse e gerasse um sucessor para o trono, evitando assim que a filha de Ana Bolena usasse a coroa. Em 1553, a soberana já tinha 37 anos, sendo considerada uma mulher já velha para os padrões do período. Por isso, a questão requeria urgência. Mas se casar com quem? Qual nobre ou príncipe seria digno de usar a coroa matrimonial e governar o reino de Inglaterra junto com sua nova rainha? A preocupação começou a tomar conta dos ministros.

Todavia, se para a Inglaterra era novidade uma mulher no poder, assim também era o cargo de rei consorte. Maria I, por sua vez, decidiu recorrer ao auxílio do seu primo, Carlos V, para quem ela um dia esteve prometida. O filho do imperador, Felipe, havia acabado de enviuvar e parecia um excelente partido para a rainha, embora fosse 11 anos mais novo do que ela. Porém, havia outro problema em questão: qual seria exatamente a extensão dos poderes do rei consorte? O parlamento temia que Felipe viesse a governar no lugar da esposa, promovendo assim os interesses da Espanha em detrimentos dos ingleses. Sendo assim, foi redigida uma proposta de casamento em 7 de dezembro de 1553, que definia o papel do futuro marido da soberana. O príncipe poderia usufruir da posição e do título de Maria e ajuda-la na administração do reino enquanto o casamento durasse. Porém, os termos do acordo de casamento reduziam Felipe à função de ajudante da esposa, cabendo a ela o exercício pleno do poder. Como a Inglaterra se afigurava num posto interessante, a partir do qual Felipe poderia combater seus pretendentes rivais na disputa pela sucessão holandesa, ele aceitou a proposta. O tratado foi concluído em janeiro do ano seguinte.

Nesse mesmo mês, antes que as negociações de casamento tivessem terminado, ocorreu uma breve rebelião em Kent, organizada por Thomas Wyatt, filho do famoso poeta, que tinha por objetivo fazer a rainha mudar de ideia e se casar no seio da aristocracia inglesa. O protesto fracassou, mas o governo decidiu usá-lo de outra forma, uma vez que não era conveniente admitir que Felipe era tão indesejável pelos súditos. Sendo assim, o movimento foi explicado pelo governo como uma tentativa de derrubar Maria do trono e passa-lo novamente para as mãos de sua prima, Lady Jane, encarcerada na Torre de Londres. No dia 12 de fevereiro, ela e o seu marido, Guilford Dudley, foram decapitados, assim como havia acontecido com o duque de Northumberland, em agosto do ano passado. Ao eliminar uma princesa protestante da sucessão, a rainha sem querer uniu as facções adversárias em prol de sua meia-irmã. A menos que ela gerasse um herdeiro de seu próprio corpo, nunca se livraria da ameaça representada pela sucessão da coroa.  Por acreditarem que Elizabeth estava envolvida na rebelião de Wyatt, os ministros da rainha convenceram-na a ordenar que a jovem fosse trazida a Londres, onde poderia ser monitorada de perto, até que provas contra ela fossem levantadas.

Thomas Wyatt, filho do famoso poeta que liderou a rebelião contra Maria I.

Em 25 de fevereiro, Thomas Wyatt foi interrogado se tinha algum tipo de comunicação com a princesa. O prisioneiro admitiu ter mantido contato com ela duas vezes, a primeira delas advertindo-a para que deixasse a capital, por sua própria segurança, na outra para informar de seu paradeiro. Lorde Russel, um dos líderes rebeldes, por sua vez, confessou que havia entregado cartas de Wyatt para Elizabeth, embora nenhuma delas ou qualquer resposta tenha sido encontrada. Como não havia provas concretas da cumplicidade da princesa, então não poderiam levantar um caso contra ela, mas o embaixador espanhol, Simon Renard, que possuía muita influência sobre a rainha, não via a necessidade de uma prova direta, uma vez que Elizabeth tinha sido “acusada por Wyatt, seu nome mencionado nas cartas do embaixador francês, era suspeita pelos conselheiros, e era certo de que a rebelião foi realizada por sua causa” (WEIR, 2008, p. 252). O Lorde Chanceler, bispo Gardiner, também instava à Maria para proceder contra sua meia-irmã. Ele disse a Russel que “enquanto ela [Elizabeth] viver, eu não tenho esperança de ver o reino em paz”.

Diante de tantas opiniões a favor da culpabilidade da princesa, a rainha começou a acreditar que ela estava envolvida na rebelião, admitindo que “o caráter da minha irmã é justamente aquilo que eu sempre acreditei ser”. Então, em 17 de março, Elizabeth foi levada para a Torre de Londres. De lá, ela escreveu uma carta para a rainha, afirmando que “eu nunca pratiquei, me aconselhei nem consenti em nada que pudesse prejudicar a sua pessoa”, apelando também para o laço de sangue que existia entre ambas, ao dizer que rogava a Deus para que “as más influências não colocassem uma irmã contra a outra”. O período em que Elizabeth passou na prisão foi uma difícil provação para ela. Alguns anos antes, sua mãe também havia estado encarcerada na Torre e não saiu de lá com vida. A perspectiva de ter o mesmo fim de Ana Bolena ou sua prima, Lady Jane, certamente apavorava a princesa. Ela foi submetida a sucessivos interrogatórios, sobre seu envolvimento em conspirações contra a rainha Maria I e sobre suas convicções religiosas. De acordo com o martirologista John Foxe, durante seu cativeiro Elizabeth teria pegado um anel de diamante e riscado no vidro de uma das janelas de sua prisão a seguinte frase: “muito de mim se suspeitou. Nada se pôde provar”.

Em 25 de maio, ela finalmente foi liberta. Thomas Wyatt, assim como outros envolvidos na rebelião de janeiro, haviam sido executados. Como lição para os outros súditos, os corpos dos rebeldes permaneceram pendurados em postes, para lembrar qual era o destino dos traidores. Os cadáveres só foram removidos por ocasião da chegada do noivo da rainha, em julho. As sucessivas execuções e prisões em tão curto espaço de tempo, porém, iniciaram o reinado de Maria em sangue, aproximando-a assim do epíteto pelo muitos ainda a recordam: sanguinária.  No dia 25 de julho, aconteceu o casamento de Maria I e Felipe da Espanha, na Catedral de Winchester. Três meses depois, a rainha começou a sentir sinais de uma possível gravidez. Mas, à medida que o verão avançava e o tão esperado sucessor das coroas inglesa e espanhola não chegava, ficou claro que a rainha, longe de grávida, estava na verdade doente. Aos 38 anos de idade, a possibilidade de Maria conceber era muito menor. Se morresse sem um herdeiro, o trono passaria para as mãos de Elizabeth.

Maria I da Inglaterra, por Hans Eworth.

Enquanto isso, as perseguições aos protestantes, comandadas por Reginald Pole e Stephen Gardiner continuava. Nesse período, a impopularidade de Maria cresceu cada vez mais entre adeptos da religião reformada, influenciando negativamente a forma como os líderes protestantes viam o governo feminino. Da Escócia, o pregador John Knox passou um sermão público, condenando a “monstruosidade” do reinado das Marias, referindo-se à rainha da Inglaterra e à rainha regente da Escócia, Marie de Guise. Não bastasse isso, no final do ano Felipe pediu o apoio naval inglês na sua campanha contra a França, o que ia contra os termos do contrato de casamento estabelecidos anteriormente. Talvez movida pelo desejo de agradar o rei, a rainha concordou com o pedido e em março de 1557 Felipe retornou para a Inglaterra, partindo novamente quatro meses depois. No inverno, a rainha acreditava estar novamente grávida. Contudo, assim como da primeira vez, esta segunda gestação também era falsa. Em 1558, Maria não só estava desiludida, como também os custos da campanha militar travada por seu marido haviam sido muito altos para o tesouro e custaram ao reino a perda de Calais. As colheitas haviam sido escassas e uma epidemia de gripe ceifou a vida de 10 a 15% da população.

Diante destas notícias ruins, o único conforto que a rainha encontrou foi na religião. Em agosto de 1558, ela começou a ficar doente. Em outubro, seu estado de saúde piorou consideravelmente. Segundo o despacho do embaixador espanhol, conde de Feria, ao rei Felipe II, em 9 de novembro, não havia qualquer esperança de que “a senhora nossa rainha” sobrevivesse, “antes pelo contrário, cada hora que passa penso que me virão informar de sua morte, tão rapidamente se deteriora a sua saúde de um dia para o outro”.  A sucessão do trono, porém, havia sido confirmada há alguns dias. Maria, que antes havia afirmado que não era desejo seu ter Elizabeth como sua herdeira, “por certos aspectos em que se parece com a mãe”, voltou atrás em sua decisão e decidiu nomeá-la sua sucessora. No dia 17, a rainha não resistiu e faleceu aos 42 anos de idade[1]. Naquela manhã, Nicholas Throckmorton partiu imediatamente para Hatfield, onde a princesa Elizabeth mantinha residência, para lhe dar a notícia de sua ascensão ao trono. O folclore inglês romantiza esse momento, afirmando que a filha de Ana Bolena, ao saber que se tornara rainha, teria proferido em latim as palavras do salmo 118: “Foi o senhor que fez isto e é maravilhoso aos nossos olhos”!

“Ela foi filha de um rei, irmã de um rei, esposa de um rei, foi rainha e rei ao mesmo tempo”. Com essas palavras, John White, bispo de Winchester, fazia o elogio fúnebre da primeira soberana reinante da Inglaterra, em 14 de dezembro de 1558. Ela governou por apenas cinco anos, marcados por instabilidade política e econômica. No momento de sua ascensão ao trono, era uma monarca bastante querida pela maioria da população, que se recordava dos anos difíceis pelos quais ela passou na juventude. Apesar de carregar consigo uma boa educação e experiências que fortificaram o seu caráter, a pressão que o cargo de governante exerceu sobre ela foi muito pesada. Antes de Maria, nenhuma outra mulher havia ocupado o trono da Inglaterra. O melhor exemplo de autocrata do sexo feminino que possuía era o de sua avó, Isabel. Assim como a primeira rainha reinante de Castela, Maria esperava unir-se em matrimônio com algum príncipe europeu que a ajudasse no exercício do poder. A escolha talvez tenha sido o maior de seus erros e a origem dos seus problemas. As tensões emocionais pelas quais passou na tentativa de agradar tanto ao reino quanto ao marido acabaram por lhe cobrar um grande preço.

O retrato do Pelicano, atribuído a Nicholas Hilliard.

O exemplo da irmã certamente pesou bastante na forma como Elizabeth I lidaria futuramente com a questão do casamento. A filha de Ana Bolena observou atentamente quais foram as falhas e acertos do reinado anterior, aproveitando-se bastante do plano de governo elaborado por sua irmã. Em quase 45 anos, a última herdeira de Henrique soube se aproveitar de todos os elementos simbólicos da realeza para criar uma imagem de soberania, que serviu de exemplo para muitos outros monarcas a posteriori. Durante o período vitoriano, marcado pela afirmação da identidade britânica, o mito da “Bloody Mary”, assassina de protestantes, ganhou ampla divulgação, enquanto a chamada “Era de Ouro”, representada por Elizabeth I, foi usada para engrandecer o imperialismo inglês. Atualmente, a historiografia vem tentando desconstruir essa imagem, ao apresentar Maria como uma mulher muito competente, embora limitada pelas circunstâncias. Ela assumiu suas responsabilidades com bastante seriedade e tomou as medidas que achava necessárias para garantir a paz do reino. Hoje, ela e sua irmã repousam lado a lado na Abadia de Westminster. Num gesto final de reconciliação, o epitáfio no sepulcro contém os seguintes dizeres: “Consortes tanto no trono quanto na sepultura, aqui descansam duas irmãs, Elizabeth e Maria, na esperança de uma ressurreição”.

Referências Bibliográficas:

CHASTENET, Jacques. A Vida de Elizabeth I de Inglaterra. Tradução de José Saramago. 2ª edição. São Paulo: Círculo do Livro, 1976.

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FOXE, John. O livro dos mártires: a história dos sofrimentos e morte dos cristãos primitivos e dos mártires protestantes. Tradução de Marta Doreto de Andrade e Degmar Ribas Júnior. – Rio de Janeiro: CPAD, 2013.

HILTON, Lisa. Elizabeth I: uma biografia. Tradução de Paulo Geiger. – Rio de Janeiro: Zahar, 2016.

LOADES, David.  As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.

PORTER, Linda. The First Queen of England: the myth of ‘Bloody Mary’. New York: St. Martin’s Press, 2008.

STARKEY, David. Elizabeth: apprenticeship. – London: Vintage, 2001.

[1] As causas da morte de Maria I são objeto de especulação. Na opinião de seu biógrafo, David Loades, ela provavelmente sofria de cancro no útero, doença anunciada pelas suas falsas gravidezes (2010, p. 222).

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