Um casamento arranjado: as bodas de D. Pedro II e Dona Teresa Cristina de Bourbon

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Aos 5 anos, Pedro de Alcântara tornou-se Imperador de Brasil. Devido à tenra idade, o governo foi entregue à três regentes e, posteriormente, para apenas um. Essa fase tumultuosa da história do Brasil, que vai da abdicação de D. Pedro I em 1831 até a proclamação da maioridade do príncipe, em 1840, aos 14 anos, ficou conhecido como período regencial. Nesse processo, o país foi palco de muitas revoltas de cunho separatista ou que pregavam o retorno do primeiro Pedro. Essa situação foi parcialmente resolvida com a ascensão do menino-imperador ao trono. Logo, uma preocupação tomou conta dos ministros: era preciso garantir a sucessão ao trono. Em outras palavras, D. Pedro II precisava se casar, de preferência com uma noiva que pertencesse a uma das grandes casas dinásticas europeias, como os Bourbon ou os Habsburgo. Entretanto, havia um problema: “a família imperial não era rica, o Brasil era um país distante, exótico, sem importância”. Além disso, explica José Murilo de Carvalho, havia o precedente de D. Pedro I e seus escândalos extraconjugais. “As famílias reais europeias se perguntavam, naturalmente, se o filho não teria puxado ao pai em matéria de relacionamento” (2007, p. 51). Durante a infância, os instrutores do menino Pedro temiam que ele seguisse o mau exemplo do seu progenitor, educando-o de forma a se tornar o oposto dele.

Detalhe da tela de Johann Moritz Rugendas, retratando D. Pedro II à época de seu casamento com Teresa Cristina.

Detalhe da tela de Johann Moritz Rugendas, retratando D. Pedro II à época de seu casamento com Teresa Cristina.

Segundo Aniello Angelo Avella, na sua recente biografia sobre a Imperatriz Teresa Cristina, “a infância e a adolescência do monarca passaram-se numa severa disciplina, na finalidade de forjar, mediante o estudo e a educação, um ‘príncipe perfeito’, diferente em tudo o que tinha sido seu pai” (2014, p. 44). Muitos biógrafos discordam quanto ao início das negociações para o casamento do segundo Pedro, mas a maioria parece concordar que elas vinham sendo discutidas desde o período da regência. O jovem imperador, entretanto, era um rapaz tímido, que corava frente à ideia de contrair matrimônio com alguma jovem. Mas sua preferência pouco contava nessa questão. Dir-se-ia também que Pedro não demonstrava grande interesse pelas mulheres, conforme nos conta o ministro da França, Saint-Georges: “ostenta o mesmo desprezo e um indiferentismo singular pelas mulheres”.  Seu sucessor, Ney, também notou esse traço do caráter do jovem. Para o diplomata, a culpa devia-se à extrema educação religiosa que o herdeiro do trono brasileiro recebeu das mãos do frei Pedro de Santa Mariana. Por outro lado, o monarca possuía uma boa aparência. Herdou a maioria dos traços físicos da família de sua mãe, como os olhos azuis, cabelos louros, o lábio inferior saliente e o queixo proeminente que distinguia os Habsburgos austríacos das demais famílias europeias.

A primeira opção foi casar D. Pedro II e suas duas irmãs, Francisca e Januária, com a casa real austríaca, dinastia de onde provinha a mãe dos três, a Imperatriz Leopoldina. “O Brasil, única monarquia em todas as Américas, teria assim acrescido seu prestígio no plano político, além do ponto de vista das estratégias nos equilíbrios internacionais” (AVELLA, 2014, p. 36). Naquele período, o líder dos Habsburgo era Ferdinando I, tio dos jovens. Sendo assim, foi enviado à Viena Bento da Silva Lisboa, ministro das relações exteriores, com a missão de negociar os matrimônios. Entretanto, a lembrança das circunstâncias da morte de Dona Leopoldina ainda se mantinha viva na memória dos seus parentes, assim como os maus tratos que ela sofreu nas mãos de Pedro I. Além disso, o Brasil era visto como um país exótico e distante, que não oferecia condições adequadas para uma princesa europeia de grande linhagem. Por dois anos, Bento não obteve qualquer resultado junto ao chancele Matternich, deixando assim o enviado brasileiro numa situação bastante constrangedora, forçando-o a ir procurar apoio em outras casas reais europeias. Enquanto isso, a frustração na corte do Rio de Janeiro só fazia crescer.

Retrato de Teresa Cristina de Bourbon enviado à D. Pedro II por ocasião das negociações do casamento. (atribuído a José Correia de Lima, 1843).

Retrato de Teresa Cristina de Bourbon enviado à D. Pedro II por ocasião das negociações do casamento. (atribuído a José Correia de Lima, 1843).

Nesse ínterim, várias princesas foram cogitadas como possíveis consortes de Pedro II, mas todas as tentativas de negociações resultavam num somatório de fracassos. Para o professor Rogerio da Silva Tjäder, “possivelmente, não tinha havido aprofundamento em nenhuma delas”. Explica ele que:

“Na verdade, tudo se limitava a entabulações vagas, logo relegadas a um plano secundário. Descartadas as possibilidades na Casa dos Habsburgos, foram enviados esforços na corte de Saxe, tendo em mira a princesa D. Maria. Depois foi cogitado o nome da Princesa Alexandrina da Baviera, em seguida o da infanta D. Luiza da Espanha e, por fim, o da Grã-Duquesa Olga da Rússia, sendo que esta possibilidade – segundo Matternich muito mais tarde –, tinha sido iniciada quando já se encontravam em andamentos outras negociações mantidas à revelia da corte austríaca” (TJÄDER, 2015, p. 35).

As negociações secretas a que o autor acima se refere se tratavam das relações mantidas entre Bento da Silva Lisboa e Vincenzo Ramirez, ministro plenipotenciário e representante do Reino das Duas Sicílias em Viena. Ramirez ofereceu a Lisboa uma proposta de casamento envolvendo uma das irmãs mais novas do rei Ferdinando II de Bourbon. Cansado de esperar, Bento resolveu aceitar a oferta de Vincenzo.

Segundo José Murilo de Carvalho, houve desapontamento no Rio de Janeiro quando os súditos descobriram que a noiva em questão se tratava de Teresa Cristina de Bourbon. Conforme diz o historiador, o motivo da reação se deveu ao fato de terem trocado “uma Habsburgo ou uma Hohenzollem por uma princesa oriunda de um dos ramos menos prestigiados dos Bourbon. Para piorar as coisas, Ferdinando II tinha fama de déspota” (2007, p. 51). O contrato de matrimônio foi assinado no dia 1º de abril de 1842, antes mesmo de Bento da Silva Lisboa receber autorização para isso. Ao saber da notícia, o príncipe de Matternich reagiu com bastante indiferença, limitando-se a ressaltar a diferença de idade entre os nubentes: Teresa Cristina era três anos mais velha do que D. Pedro II. As pessoas nas ruas do Rio perguntavam-se: “onde estava a Arquiduquesa pretendida na Casa da Áustria”? Essa situação só sofreu um revés quando o retrato da futura noiva chegou. Pedro a achou “mui bela” e escreveu em seu diário que “das mãos de Aureliano tomo o retrato e corro ao quarto de Mana Januária. Elas já sabiam. Mostrei-lhes o retrato, de que gostaram muito”. Não obstante, os jornais noticiavam que Teresa Cristina era “muito prendada e instruída”.

Casamento por procuração da Imperatriz d. Teresa Cristina, por Alexandre Cicarelli, 1846.

Casamento por procuração da Imperatriz d. Teresa Cristina, por Alexandre Cicarelli, 1846.

O retrato recebido por D. Pedro II, por sua vez, nos mostra uma jovem simpática, com um belo penteado de cachos que emolduravam um rosto gorducho. Ela carrega no peito um broche com o retrato em miniatura do futuro marido. No fundo, pode-se observar o Vesúvio, que atesta a origem da futura esposa. Todos aqueles que viram a imagem convenceram-se da beleza e da elegância da futura Imperatriz do Brasil. Muitas conjecturas acerca da fidelidade desse retrato já foram feitas pela historiografia brasileira. Para alguns, ele não representa Teresa Cristina e sim uma de suas irmãs. Já outros afirmam que o artista suavizou os traços da retratada para convencer o noivo a aceita-la como esposa. Em todo caso, basta uma comparação entre a dita imagem e as demais fotografias de Teresa Cristina para nos convencermos de que a mulher na pintura pouco se parece com aquela que D. Pedro II viu pela primeira vez a bordo da fragata Constituição. O casamento foi realizado por procuração, em Nápoles, no dia 30 de maio de 1843. Para tanto, foi necessária uma dispensa emitida pelo Papa, uma vez que os noivos eram primos. Leopoldo, irmão da noiva, serviu como procurador do esposo desta. Em seguida, houve um baile no salão do Palácio, “verdadeiramente real”, conforme nos conta Bento Lisboa, que conduzira as tratativas em Viena.

No dia 1º de julho, a nova imperatriz foi conduzida ao embaixador de D. Pedro, numa cerimônia onde a real consorte seria entregue aos oficiais brasileiros:

A sala que antecedeu a cerimônia era dividida em duas partes por uma fita cor vermelho escarlate estendida no pavimento: a parte oeste, com uma porta em direção à terra, representava o território napolitano, enquanto a parte leste, com uma porta em direção ao mar, representava o território brasileiro. Terminadas as formalidades protocolares e após os discursos de despedida, Teresa Cristina ultrapassou a fita simbólica, tornando-se oficialmente imperatriz do Brasil.

Logo após a cerimônia, a monarca e a delegação brasileira entraram a bordo da fragata Constituição para uma viagem de cerca de oitenta dias em direção ao Brasil. As despesas do governo do brasileiro, contudo, não foram poucas. No total, gastou-se mais de 3:555$000 (três contos e quinhentos e cinquenta e cinco mil réis) com o presente da noiva (um anel de rubi e ametistas), o retrato do imperador e barras de ouro. Manuel Joaquim da Silveira escreveu que na ocasião do embarque “a tarde estava muito bela”, e apesar da quantidade de pessoas em volta da imperatriz, “o mar apresentava um aspecto maravilhoso”.

Chegada da Fragata Constituição ao Rio de Janeiro. Óleo sobre a tela de Eduardo de Martino.

Chegada da Fragata Constituição ao Rio de Janeiro. Óleo sobre a tela de Eduardo de Martino.

A fragata Constituição aportou no Rio de Janeiro em 3 de setembro. O primeiro encontro do jovem casal de imperadores, porém, foi algo que ainda hoje é motivo de controvérsia entre os biógrafos. Ao que parece, D. Pedro II se sentiu enganado pelo retrato de Teresa Cristina. Sua esposa era uma mulher baixa, sem muitos atrativos estéticos e, alguns dizem, manca. Mais tarde naquele dia, ele chorou nos braços do mordomo-mor, Paulo Barbosa e d. Mariana. “Enganaram-me, Dadama”, ele dizia, ao passo que os dois preceptores do príncipe confortavam-no dizendo que “casamentos de reis e imperadores eram negócios de Estado, não assuntos do coração. O contrato estava assinado, não havia como voltar atrás. Tivesse o monarca paciência e a afeição iria surgir” (CARVALHO, 2007, p. 52). Alcino Sodré comentou que “nos primeiros dias o jovem desapontado deixara de ser aquele temperamento ensimesmado e lacônico para lastimar-se tristemente”. O descontentamento do jovem também não passou despercebido por sua esposa. Anos mais tarde, Teresa Cristina disse para sua filha Isabel que chorou bastante, pois acreditava que o imperador não havia gostado dela. Apesar de tudo, a cidade celebrou durante nove dias de muita chuva o casamento do imperador e a chegada de sua nova imperatriz. Em todas essas celebrações, D. Pedro tentava disfarçar sua frustração.

Retrato de D. Teresa Cristina, recém-casada com D. Pedro II, por artista desconhecido.

Retrato de D. Teresa Cristina, recém-casada com D. Pedro II, por artista desconhecido.

Todavia, Paulo Barbosa e d. Mariana (a dadama) estavam certos: a afeição entre o casal logo surgiria. Para José Murilo de Carvalho, a união contribuiu para o amadurecimento de D. Pedro. “O menino tímido e pouco falante, que impressionava mal os diplomatas, tornou-se mais confiante e mais expansivo nas funções oficiais e na vida social” (2007, p. 52). No mesmo ano, D. Januária se casaria com o irmão de Teresa Cristina, o conde d’Áquila, enquanto Francisca havia se unido a Luís Felipe da França, o príncipe de Joinville. Não obstante, Teresa Cristina logo se mostrou uma boa companhia: gostava de leitura e música, paixões compartilhadas pelo imperador. Uma vez Imperatriz, ela introduziu no Brasil a Ópera Italiana e o estudo da arqueologia. Em 1845, nasceria o primeiro filho do casal, Afonso, seguido um ano depois por Isabel, Leopoldina (1847) e Pedro Afonso (1848). Infelizmente, apenas as duas princesas sobreviveriam à idade adulta, o que abalou profundamente o casal de soberanos. Entretanto, de acordo com a tradição real portuguesa herdada pelo Brasil, as mulheres não estavam impedidas de ascender ao trono, de modo que a sucessão estava garantida através de Isabel. Assim, D. Pedro II cumpriu seu dever de Imperador e deu para os súditos uma mulher formidável, sua esposa, que seria chamada em vida de “a mãe dos brasileiros”. Está na hora de nos aprofundarmos mais na sua história e reverenciá-la no panteão das grandes personalidades nacionais.

Referências Bibliográficas:

AVELLA, Aniello Angelo. Teresa Cristina de Bourbon: uma imperatriz napolitana nos trópicos 1843-1889. – Rio de Janeiro: EdUFRJ, 2014.

CALMON, Pedro. História de Pedro II. – Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, vol 1.

CARVALHO, José Murilo de. Pedro II. – São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. – 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

TJÄDER, Rogerio da Silva. Sua Majestade Imperial D. Thereza Christina Maria de Bourbon e Bragança, “a mãe dos brasileiros”. – 2ª ed. Vassouras: PC DUBOC, 2015.

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5 comentários sobre “Um casamento arranjado: as bodas de D. Pedro II e Dona Teresa Cristina de Bourbon

  1. Parabéns pelo blog e pelo post! Gosto muito de história e é ótimo encontrar artigos assim, que não se prendem a dizer apenas o pq do casamento, onde ocorreu ou quais eram os termos do contrato. É bom ler sobre poderosos ou sobre os imortalizados por grandes feitos sendo pessoas que se frustram, choram, aprendem e sentem.

    Obrigado!

    Abner Antunes
    ahistoriadoseculo.org

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  2. Dª Maria II de Portugal, irmã mais velha, sempre manteve grande afeição pelos seus irmãos brasileiros. Foi especialmente próxima a sua relação com Francisca, a sua irmã mais nova, quem chamava a «mana Chica» a qual reencontrou com emoção em Lisboa quando do seu casamento com Luís Filipe de Joinville. O casal visitou Lisboa várias vezes e Dª Maria II, que era muito próxima dos Orleans, sentiu muito a revolta que colocou Luís Napoleão no poder.

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  3. Eu Nasci dá Data de 06.09.72 comemorando o país sesquicentenário da Independência do Brasil..O Médico Potiguar Iaperi Araújo.pintor escultor dentre outras atividades..Me fez nasce e atribuí meu nome o dá Imperatriz e agregou o Alcântara do imperador Me chamo Tereza Cristina De Alcântara em homenagem a Imperatriz e o imperador.

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