Entrevista exclusiva com o Paulo Rezzutti, autor de “Domitila: a verdadeira História da Marquesa de Santos”!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Domitila de Castro Canto e Melo, mais conhecida pelo seu título de nobreza (Marquesa de Santos), constitui-se numa das personagens mais fascinantes da História Nacional. A ela foram dedicados vários livros, sejam eles biografias, compilações de cartas, ou romances históricos. No cinema e na televisão, ela é sempre retratada como uma espécie de femme fatale, que conquistou para si a atenção do Imperador e por isso subiu a altos postos na escala social. Entretanto, diferentemente da imagem que muitos fazem da Marquesa, como uma espécie de Pompadour dos Trópicos, a nova biografia da Domitila, escrita pelo arquiteto e pesquisador em história Paulo Rezzutti, apresenta-a como uma mulher humana e sensível, capaz de grandes feitos e de ajudar aqueles que mais necessitavam.

Em 2011, Rezzutti publicou seu primeiro livro, intitulado Titília e o Demonão, que, por sua vez, reúne um conjunto de 94 cartas inéditas de D. Pedro I para a Marquesa de Santos. Por meio de tal documentação, pudemos conhecer um pouco mais sobre a paixão avassaladora que o primeiro imperador do Brasil nutria pela sua amada. Dois anos depois, este mesmo autor nos presenteia com uma nova biografia sobre a Domitila de Castro, totalmente despojada dos muitos estereótipos e historietas que geralmente ligamos ao nome dela, como, por exemplo, a falácia de que ela teria sido responsável pela queda do ministro José Bonifácio.

Particularmente, considero Domitila: a verdadeira história da Marquesa de Santos, um desses livros que, por sua linguagem direta e intensa, se lê em apenas um fôlego. Um ótimo trabalho de erudição e pesquisa historiográfica! Destarte, tive a oportunidade de conversar com o Paulo Rezzutti, e ele de boa vontade aceitou meu convite para responder a alguma perguntas para o Rainhas Trágicas, contando alguns detalhes sobre seu trabalho, sua pesquisa para a biografia da Marquesa, além de algumas impressões pessoais sobre a Domitila e sua história de vida. O resultado dessa conversa, você confere a seguir:

Renato Drummond (D.R.) – Como surgiu seu interesse pela Marquesa de Santos?

Paulo Rezzutti (P.R.) – Lembro que a primeira vez que ouvi falar na Marquesa foi com a mini-série “A Marquesa de Santos”, exibida pela extinta TV Manchete em meados dos anos 70. Depois, quando estava estudando arquitetura, acabei por fazer um trabalho sobre o restauro de seu solar, em São Paulo, até que de uns cinco anos para cá me vi pesquisando sobre ela mais a fundo.

R.D. – Por que até hoje ela mantem ativo o fascínio na mente de tantas pessoas?

P.R. – Num primeiro momento pelo escândalo de seu relacionamento com D. Pedro I. Poucos conseguem ver além disso, mas quando passam a observar as diversas facetas dela, percebem que ela foi uma mulher forte, uma sobrevivente que tomou o destino nas mãos.

R.D. – Poderíamos dizer que a Domitila de Castro se encaixa no perfil da mulher moderna e independente?

P.R. – Sim, porém com ressalvas. Não – por exemplo -, que, quando criança, Domitila sequer almejava se tornar uma mulher independente, com uma fortuna própria e uma das pessoas mais ricas da província de São Paulo. Ela simplesmente fez o que pode com as alternativas que lhe surgiram pela frente. Tanto que ela condena a filha, a Condessa de Iguaçu, quando esta pensa em se separar do marido. A independência que Domitila conseguiu cobrou um preço alto a ela. Como mãe ela não queria que a filha passasse por isso.

R.D. – É notável o preconceito que alguns nutrem com relação à Marquesa de Santos, pelo fato de ela ter sido amante de D. Pedro I. Como você avalia essa questão?

P.R. – Eu acho que ela foi uma mulher esperta. Ela já estava mal falada em São Paulo, separada do marido, com dois filhos para criar e lutando pela guarda deles, quando conheceu D. Pedro, ou seja, ela não tinha muito o que arriscar quando entrou na relação. Agora, o preconceito sempre irá existir, deixo para os moralistas de plantão essa questão, ainda mais em um país machista como o nosso, onde a culpada é a mulher, o homem é sempre facilmente desculpável, mas, no caso do D. Pedro, por ser quem era, estar na posição em que estava, o caso acabou voltando-se primeiro contra ele e depois contra a própria monarquia.

R.D. – A maioria das pessoas costuma acreditar que havia uma rivalidade entre a Imperatriz D. Leopoldina e a Marquesa de Santos. Como você analisa essa situação?

P.R. – Temos que estudar os personagens do século XIX com o olhar do século XIX. Não dá para imaginar alguém, como uma arquiduquesa Habsburgo, se engalfinhando pelos cabelos no chão do paço com uma caipira paulista. Cada uma sabia o seu papel e o seu lugar na hierarquia. Certa vez D. Leopoldina teria dado a entender que seria muito fácil, devido a sua posição, como imperatriz, humilhar Domitila, mas que se ela fizesse isso D. Pedro a odiaria e para ela seria o seu fim. A relação entre elas era civilizada. D. Leopoldina aguentava calada e fingia que nada estava acontecendo, e, ao que parece, baseando-se nos relatos dos embaixadores estrangeiros, Domitila não avançava além do que deveria.

R.D. – Como você interpreta a função de D. Leopoldina no triângulo envolvendo a Marquesa de Santos, D. Pedro I e a própria soberana?

P.R. – Casamentos dinásticos eram tratados internacionais, eram políticos e cada um sabia a sua função. O grande problema do casamento de D. Leopoldina com D. Pedro foi que ele causou uma anomalia, a esposa efetivamente se apaixonou e esse foi o seu fim. D. Leopoldina é uma mulher do início do romantismo europeu, romântica, doce e iludida achando que um dia o D. Pedro iria se transformar efetivamente no príncipe encantado que ela esperava.

R.D. – Existem ainda muitos tabus ligados ao nome da Domitila de Castro, como o de que ela fora uma das responsáveis pela morte da Imperatriz. Como, então, lidar com esses falsos rumores?

P.R. – Não tem como se lutar contra mitos, sempre vai ter alguém, por mais que você explique, que vai querer crer na sua própria verdade. Eu prefiro trabalhar com fatos e não fofocas, mas, até mesmo documentos em preto e branco mentem. Por exemplo, não dá para levar a sério a carta que o D. Pedro escreve para a Domitila dizendo que desde que ele lhe deu sua palavra de honra nunca mais havia namorado ninguém!

R.D. – Por falar na morte de D. Leopoldina, um dos fatos que mais me chamaram a atenção no seu novo livro é a análise que você faz da suposta última carta da soberana, possivelmente fruto de uma falsificação. A quem você acha que essa mentira seria benéfica e por quê?

P.R. – A carta beneficiaria os credores de D. Leopoldina. Era uma prova das dívidas que ela teria feito com eles e de quebra prejudicaria mais ainda a imagem do ex-imperador. Já haviam rumores de que D. Pedro havia agredido a esposa antes de partir para o sul do Brasil, na carta D. Leopoldina afirma que foi vítima de um horroroso atentado e põe a culpa de sua morte no ato realizado pelo marido. A exumação dela, até o momento, não corroborou com o que ela teria escrito na carta.

R.D. – Caso a Imperatriz não tivesse falecido em 11 de dezembro de 1826, você acha que o relacionamento entre a Domitila de Castro e D. Pedro I poderia ter durado por mais tempo?

P.R. – Já que saímos da realidade e partimos para a hipótese acho que se a imperatriz não falecesse em dezembro de 1826 muito provavelmente ela iria fazer o que os rumores indicavam: deixar o Brasil e ir para a Áustria. Imagine o escândalo que isso daria! Eu acho que a morte de D. Leopoldina é que prolongou o relacionamento de D. Pedro e de Domitila.

R.D. – Em sua concepção, seria correto dizermos que a Marquesa de Santos fora a mulher a quem D. Pedro I mais amou?

P.R. – Eu tomaria cuidado com a palavra “amor”, ele sem dúvida foi muito apaixonado por ela, mas amar mesmo, não tenho essa certeza. Sem dúvida foi, de todas as mulheres que ele teve, a que mais soube prendê-lo.

R.D. – Como foi sua pesquisa para o livro Domitila: a verdadeira História da Marquesa de Santos?

P.R. – Longa, cheia de percalços e pequenas aventuras, bastante árida, afinal a pesquisa é sua e enquanto você não tem nada escrito ela só interessa a você. Claro que com a Domitila até rendia um ou outro papo de bar (risos), mas é raro o tema da pesquisa ser interessante para alguém que não seja do seu meio. Porém, quando o livro chega da gráfica você tem certeza que tudo valeu a pena.

R.D. – Há ainda mais detalhes sobre a História na Marquesa que não foram explorados?

P.R. – Por uma confusão ocorrida durante a edição uma parte do que coletei a respeito do que se dizia contra a Domitila na imprensa logo após a abdicação de d. Pedro não foi saiu nessa edição, mas espero inserir em uma próxima.

R.D. – Depois de Titília e o Demonão e Domitila, quais serão os novos rumos de sua pesquisa?

P.R. – Eu gostaria de explorar mais a questão de gênero, no caso da Marquesa de Santos, bem como desenvolver mais as questões referentes à construção da memória dela.

R.D. – Para além da Marquesa de Santos, algum outro personagem da história do Brasil e do Mundo lhe inspira interesse?

P.R. – No momento estou centrado no D. Pedro I, quero muito biografá-lo, pegá-lo pelo lado mais humano. Tenho um grande interesse pelo império russo, os Romanovs, mas principalmente, pelo Príncipe Yusupov, que assassinou Rasputin, esse é outro que gostaria de escrever a respeito.

R.D. – Se pudesse descrever em uma palavra o prazer de escrever sobre a vida de personalidades tão célebres como a Marquesa de Santos, qual seria?

P.R. – Desafiador!

R.D. – Há alguma pergunta sobre a Marquesa que você gostaria que lhe tivessem feito, mas nunca fizeram? Se sim, que resposta você daria?

P.R. – Acredite, eu demorei 24hs para imaginar alguma e não consegui! A Domitila é tão polêmica que eu já me surpreendi com dezenas de perguntas baseadas em mitos que eu nunca havia imaginado que alguém poderia fazer!

R.D. – O que podemos aprender de mais significativo com a história da Domitila de Castro?

P.R. – Acho que a primeira lição é que todas as histórias possuem mais de um lado. Ninguém é inteiramente bom ou ruim. Segundo, que, se a vida lhe jogar limões, faça como a Domitila, venda limonada e fique rico! 😉

R.D. – Paulo, muito obrigado pela sua paciência e disponibilidade para comigo e o Rainhas Trágicas. Desejo-lhe muito sucesso em sua carreira, e um agradecimento especial pelo seu empenho e dedicação em desmitificar e desmistificar a vida deste célebre personagem da história nacional, que é a Marquesa de Santos. Grande Abraço!

P.R. – Eu que lhe agradeço pela entrevista! Um abraço!

Créditos da foto: Douglas Nascimento

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