Santidade do Jaguaripe: mais do que uma crença, uma religião – resenha do livro “A Heresia dos Índios”

VAINFAS, Ronaldo. A Heresia dos Índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial. – São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Ronaldo Vainfas

Referência nacional em estudos acerca da religião indígena antes da conversão dos nativos brasileiros ao catolicismo europeu, “A Heresia dos Índios” (1995), escrito por Ronaldo Vainfas, trás ao leitor importantes considerações sobre o processo de colonização da América do Sul por povos oriundos da península Ibérica e de como sua crença em divindades foi demonizada pelos membros da Igreja católica, que deram início a uma verdadeira onda de massacres contra os povos colonizados, na tentativa de livrar esta terra dos poderes do Demônio (segundo presumiam, Satanás fora expulso do velho mundo e se abrigara no novo, onde para os clérigos e sacerdotes, as almas eram inocentes). Inerente à convicção por parte dos católicos de então de que os habitantes das terras brasílicas eram “como uma folha de papel em branco”, o autor da referida obra objetiva por muito explicitar como os americanos possuíam instituições religiosas e de como elas foram usadas como fator determinante para barrar o avanço colonialista.

Não foi a primeira vez em que Ronaldo Vainfas abordou a temática indígena na sua extensa bibliografia. Em “Trópico dos Pecados” o autor analisa como a sociedade brasileira, nos tempos em que Portugal regia essas terras, estava constituída e de como as relações interpessoais se davam no âmbito da colônia, nos quais os nativos ganham relevância (outra importante contribuição de Vainfas no que tange a temática dos índios apresenta-se em “América em tempos de conquista”). Licenciado em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e também mestre pela mesma instituição, Vainfas é um verdadeiro especialista em História do Brasil, sendo um dos principais nomes da historiografia do país. Concluiu seu doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), no ano de 1988, e em 2007 terminou seu pós-doutorado pela Universidade de Lisboa. Muitos de seus livros são referências nacionais nos cursos de História, dos quais “A heresia dos Índios”, trabalhado nesta dita análise, não foge à regra.

O livro em questão apresenta oito capítulos, divididos em três partes, às quais o autor analisa o conceito de santidade, o contexto em que elas estavam inseridas, de como os padres avaliaram essa prática como demoníaca e por isso instalaram aqui os tribunais do Santo Ofício para punir severamente tal costume. Na primeira delas, intitulada Santidades e Idolatrias Em Perspectiva Histórica, Vainfas estabelece um parâmetro entre a colonização espanhola e a portuguesa, em que ressalta a violência dos primeiros em detrimento dos povos lusos. Sendo assim, o presente estudo focará com mais intensidade nesta etapa inicial da obra, para em seguida trabalhar com as seguintes, uma vez que ela é mais extensa que as demais. Segundo o autor, os espanhóis foram os principais demonizadores da América, que viram na idolatria, ou culto a divindades, uma prática que remontava aos períodos da antiguidade pagã, onde se originou o conceito da palavra aplicada pelos colonizadores à religião dos americanos nativos.

Outro aspecto que chama bastante atenção do leitor nessa primeira parte da obra é quando o Vainfas nos mostra que essa questão da demonização das práticas de idolatria estava presentes no imaginário europeu desde a idade média. Destarte, quando os espanhóis se depararam com as danças, os rituais de antropofagia e os sacrifícios, encontraram argumentos mais que sólidos para julgar tais práticas como diabólicas. Por sua vez, os portugueses não se depararam de início com a religião de seus cativos, como bem afirma o autor, exceto quando deparados com um ritual onde os caraíbas tupis cobriam as faces com uma máscara pintada e sorviam o sumo de certa erva que consequentemente os deixavam em transe, falando baixinho para os demais acerca de eventos futuros. A essas práticas, os portugueses chamaram inicialmente de santidades, afirmando serem festins diabólicos ou réplicas do sabá europeu. A partir daí, o caráter passivo do índio brasileiro, que não tinha nem fé, lei ou rei, cai por terra.

Essa é justamente a proposta de “A heresia dos índios”: enfatizar que mesmo entre os índios havia um sistema religioso repleto de particularidades, e talvez seja esse o principal aspecto que torna a obra dotada de ineditismo, pois até então, exceto pelo trabalho de etnólogos, poucos eram as abordagens historiográficas acerca do tema proposto. Ronaldo ainda chama atenção, em introdução à obra, que praticamente a maioria dos historiadores ignorou a cultura indígena de um ponto de abordagem etno-histórico, desconsiderando também o etnônimo tupinambá para se referir aos povos que se encontravam na costa do país. Nesse contexto, ele chama atenção ao longo dos capítulos para o que foi a Santidade do Jaguaripe, considerada por ele a santidade mais importante do território brasileiro, irrompida no sul do recôncavo baiano por volta de 1580.

Todavia, além de ser importante historicamente, a Santidade do Jaguaripe foi uma verdadeira forma de resistência frente à colonização portuguesa. Sua atuação no contexto da época foi bastante documentada por cronistas e padres jesuítas (desses últimos, muitos estavam envolvidos no processo de catequese dos tupinambás), relatos esses em que aparece inclusive o nome de alguns colonos, como por exemplo, o do senhor de escravos Fernão Cabral de Taíde. Acusado de oferecer aliança e proteção a uma seita que preconizava a morte dos portugueses e o fim da escravidão, o caso de Taíde é um dentre alguns outros em que o autor tenta mostrar que o caráter da Santidade do Jaguaripe angariou adeptos mesmo entre os portugueses. É sobre essa massa de fontes inquisitoriais em que Ronaldo Vainfas encontra a base para a sua pesquisa sobre o fenômeno da santidade, as práticas idolátricas dos índios brasileiros.

A segunda parte da obra tem por título Santidades: morfologia e aculturação no sistema colonial. Enquanto que na primeira o autor discorre acerca do conceito da palavra idolatria, reconstruindo a história da santidade no país, na segunda ele se dispõe a trabalhar essas ditas santidades em linhas mais gerais, utilizando de vasta documentação sobre o ‘profetismo tupi” e dissertando sobre como se davam seus rituais místicos, ao que ele denomina de investigação histórico-antropológica. Já na terceira e última parte, batizada de Santidade: o teatro da inquisição, vem mostrando como se deu a atuação do Santo Oficio, que visitou o nordeste brasileiro entre os anos de 1591 e 1595, com a missão de deter essa manifestação considerada pelos inquisitórios da igreja católica como herética, nas terras colônia. É nesse aspecto que Vainfas afirma que pôde conhecer melhor a natureza da santidade, que está intrínseca à passagem da Inquisição portuguesa pelo Brasil.

Em conclusão ao livro, Ronaldo Vainfas afirma que mesmo tendo sido destruída pelo Santo Ofício em 1585, e devassada em 1591, a Santidade do Jaguaripe permaneceria viva na memória dos índios e presente no imaginário popular brasileiro, principalmente na obra de poetas e romancistas, como José de Alencar em “O Guarani”. Não apenas em forma de arte, mas também nos catimbós e umbandas, onde não inexistem nem Tumandarés e Tupinambás, mostrando assim que mesmo que seus adeptos do passado tenham sido esfacelados, a chama de sua memória continuou viva dentre os descendentes de seus cultos. Por fim, é perfeitamente plausível dizer que Vainfas cumpriu a proposta de seu livro: resgatar a religião dos índios do tempo passado, fazendo uma verdadeira “viagem ao mundo dos mortos”.

Renato Drummond Tapioca Neto

Graduando em História – UESC

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