D. Maria I: a louca? – Mary Del Priore desconstrói o mito da soberana insana de Portugal em nova biografia!

Por: Renato Drummond T. Neto

Uma das personagens mais irreverentes da história de Portugal e do Brasil, Dona Maria I permanece como uma figura bastante controversa na historiografia de ambos os países. Conhecida por epítetos pouco lisonjeiros como “a viradeira” e “a rainha louca”, suas atitudes enquanto soberana permanecem obscurecidas por uma série de más interpretações, reforçadas ao longo do séculos, que ajudaram a criar uma caricatura deprimente daquela que foi a primeira mulher a governar um império português em seu próprio nome, numa época em que a Europa era dominada por imperatrizes poderosas, como Maria Teresa da Áustria e Catarina II da Rússia. Tendo que lidar com uma série de preconceitos ligados ao seu sexo, Dona Maria demonstrou pragmatismo e sensatez na condução dos negócios de Estado. Esse aspecto, por sua vez, costuma ser pouco abordado pela versão tradicionalista da nossa história. Felizmente, novas pesquisas têm resgatado a imagem irreverente de uma rainha que amava o seu povo e por ele era igualmente adorada, conforme podemos observar na recente biografia D. Maria I – as Perdas e as Glórias da Rainha que Entrou Para a História Como “A Louca”, da historiadora Mary Del Priore.

Autora de mais de 50 livros sobre História do Brasil e vencedora de vários prêmios nacionais e internacionais, entre os quais três Jabutis, Mary Del Priore é um dos grandes nomes da historiografia brasileira. Conhecida por sua linguagem bastante acessível e lírica, Mary se tornou bastante popular entre o grande público, por meio de biografias e livros como O Príncipe Maldito, A Condessa de Barral, A Carne e o Sangue, O Castelo de Papel, Histórias Íntimas, As vidas de José Bonifácio, entre outros. Sua narrativa prende o leitor ao apresentar histórias reais, contadas com a mesma emoção das grandes obras da literatura. Em D. Maria I – as Perdas e as Glórias da Rainha que Entrou Para a História Como “A Louca”, publicada no segundo semestre deste ano pela editora Benvirá, Mary desconstrói um dos mitos mais recorrentes na história do Brasil e de Portugal, apresentando sua biografada como o ser humano que ela foi e não como a mulher louca que muitos ainda insistem em adjetivar. Destarte, tive o prazer de conversar com a Mary sobre seu trabalho como historiadora e seu novo livro, que já está disponível em sites e livrarias do país. O resultado desse ótimo bate-papo você confere logo abaixo:

Mary Del Priore

Mary Del Priore é autora de mais de 50 livros sobre História do Brasil e vencedora de vários prêmios nacionais e internacionais, entre os quais três Jabutis.

Rainhas Trágicas (R.T.): Mary, muitíssimo obrigado pela sua disponibilidade em responder algumas perguntas para os nossos leitores. Entre as suas obras, é recorrente o tema do Brasil imperial. Você possui alguma predileção por essa fase da história do país?

Mary Del Priore: Tenho predileção por arquivos, qualquer arquivo, e o que eles nos contam. Ando sempre atrás do que chamo carinhosamente de “os mortos que falam”, ou seja, documentos que nos tragam o vivido das pessoas. Não interpretações. Essas deixo para os especialistas. Quero a carne e o sangue dos atores históricos e não arcabouços teóricos. E os arquivos do Império estão extremamente bem preservados, sem contar o auxílio de colecionadores particulares, sempre dispostos a ajudar. E dentro das gavetas, como “falam” os nosso antepassados…

R.T: Pode nos contar um pouco sobre o processo de escrita dos seus livros? Como você escolhe os temas e seleciona o material para compor as narrativas?

Mary Del Priore: Picasso dizia que os temas e as cores o encontravam. Comigo é a mesma sensação. Vou aos arquivos em busca de algum personagem ou história e tropeço em outro. Originalmente, eu pretendia escrever sobre “as mulheres do Imperador D. Pedro II”: irmãs, mãe, avó e bisavó. Mas quando me deparei com a rainha, fiquei tão encantada com sua personalidade e tão impressionada com a falta de informações sobre seu reinado, que resolvi me debruçar sobre ela. Infelizmente, não fui à Portugal. Fiz muita pesquisa por internet, debrucei-me sobre muitas teses e me vali da pouca historiografia existente. Acho que, só em parte, refiz o retrato de uma mulher sensível e sofrida, que é conhecida pelo que nunca foi: a louca.

R.T: Sua obras possuem uma linguagem muito acessível e gostosa de se ler. A leitura flui quase como um romance. O que você considera fundamental para a escrita de um livro destinado ao grande público?

Mary Del Priore: Sem dúvida a narrativa é fundamental. Penso que a linguagem pode se mostrar profundamente antidemocrática e exclusiva. É o caso das teses de história que afastam o leitor de seus ancestrais. Acredito numa poética da história: na junção entre literatura e história. Não no sentido de ficcionalizar personagens ou fatos, mas de conta-los de forma a transportar o leitor ao passado. De mais descrever do que simplesmente escrever sobre as situações. Gilberto Freyre, inspirado em poetas americanos, falava numa escrita sensorial. Estava certo. Uma narrativa com sons, cheiros, sensações e emoções é a melhor maneira de fazer o leitor identificar-se ao que ele consegue “ver”, através de uma bela história que se conta e que se lê.

R.T: Você já biografou personalidades importantes da história do Brasil oitocentista, como D. Pedro I, Dona Leopoldina, a condessa de Barral, a princesa Isabel e, mais recentemente, José Bonifácio e Dona Maria I. Qual dessas figuras lhe exerce maior fascínio?

Mary Del Priore: Pedro Augusto de Saxe e Coburgo, o “príncipe maldito”, por sua trajetória absolutamente atual. Sua história versa a história de um adolescente a quem se prometeu o céu e que, em resposta, ganhou o inferno. O abandono em que viveu, transformou o menino angelical num ressentido, capaz de atraiçoar o avô e a tia. O livro revela que a família imperial que se vê nas fotos, sofria das mesmas tensões que qualquer outra. Ciúmes, inveja e falta de amor foram os ingredientes para uma história trágica e que se repete na atualidade, entre reis e plebeus.

R.T: Quais imagens de Dona Maria I costumam ser mais recorrentes na historiografia brasileira e portuguesa?

Mary Del Priore: Infelizmente, a da rainha louca. Um epíteto que se lhe colou a pele e que foi difundido pelos republicanos portugueses. Com caricaturas – a de D. João glutão ou Carlota Joaquina, ninfomana – eles pretendiam enterrar definitivamente a monarquia e criar seus próprios heróis. Tanto filmes quanto novelas, reproduzem o clichê sem se perguntar o que aconteceu com a personagem histórica. Lamentável. É preciso conhecer mais e melhor a história.

Em D. Maria I – as Perdas e as Glórias da Rainha que Entrou Para a História Como “A Louca”, Mary desconstrói um dos mitos mais recorrentes na história do Brasil e de Portugal.

R.T: No momento da ascensão de Dona Maria ao trono, havia algum receio de que o seu sexo fosse ameaça para a estabilidade do reino de Portugal e suas colônias de além-mar?

Mary Del Priore: O secretário de D. José, o futuro marques de Pombal, apesar de “ilustrado”, era visivelmente misógino e contrário a sua assunção ao trono. Queria um herdeiro e não uma herdeira e incentivou o casal de monarcas a tentar ter filhos homens o quanto pudessem. Não deu certo. Depois que Maria os sucedeu, Pombal jogou seu filho D. José contra ela, numa conspiração discreta, porém malsucedida. Já existiam poderosas rainhas na Europa, como Maria Teresa da Áustria, modelo para Maria, como queriam alguns de seus cortesãos.

R.T: Quais a principais medidas políticas de Dona Maria como soberana? Podemos considerar a primeira rainha reinante de Portugal uma monarca popular?

Mary Del Priore: Adorada pelo povo, a quem se misturava, de pés descalços, em procissões religiosas e festas, Maria era também o foco das esperanças de todos os inimigos de Pombal. Mas soube preservar a burocracia que ele construiu, benéfica para o Estado, com a agenda da velha aristocracia que foi por ele perseguida. Aproveitou o que o governo anterior havia deixado de útil e conjugou o tradicionalismo com as inovações da Europa em transformação. Fundou Academias, refez o Ordenamento Jurídico, cuidou das capitais renovando-as, incentivou melhoramentos urbanísticos no Rio de Janeiro, ergueu teatros, enfrentou a Inconfidência Mineira e a Sublevação dos Pinto, em Goa, enfim: uma rainha com perfeita compreensão do seu papel que se destacou pelo interesse que sempre demonstrou pelas classes desfavorecidas, ampliando o paternalismo característico do regime absolutista. Ela foi a mão que batia e abençoava, ao mesmo tempo.

R.T: Como você avalia o governo de Dona Maria I?

Mary Del Priore: Seu governo é o retrato de Portugal ao final do século XVIII. Um reino embebido em crenças religiosas, em valores tradicionais que caracterizavam a identidade de um povo. Ela representava esse povo: “os pequeninos portugueses”, no dizer do grande literário Eduardo Lourenço. A piedade e a fé foram a moldura de sua vida. Se, por isso, estava em descompasso com os avanços da Inglaterra ou França, mantinha-se em estreito compasso com sua gente. Um governo de admirável coerência, pois a unanimidade religiosa abraçava Portugal inteiro.

R.T: Apesar de ter sido a primeira mulher a usar a coroa por direito próprio, Dona Maria não foi a primeira rainha a governar o país. No século XVI, por exemplo, tivemos Dona Catarina da Áustria, que foi regente durante o reinado de Dom Sebastião. Como você enxerga o papel político da mulher dentro da monarquia portuguesa?

Mary Del Priore: Ela enfrentou dificuldades por ser mulher e ser considerada, por alguns, como inapta e pouco educada para o poder. Depois que ficou viúva teve que enfrentar maledicências dos que achavam que seu marido, D. Pedro, é quem governava. Ela seria apenas um peão no jogo político. Sua irmã, Maria Benedita, também conspirava para tirar-lhe a coroa. Mas, ao contrário, e até ficar doente, Maria governou e esteve presente junto aos seus súditos, procurou ministros que a pudessem ajudar, tentou inserir D. José, seu filho, na governança, enfim, fez o que era possível para alguém com suas humanas limitações.

R.T: Você considera o rótulo “a rainha louca” como uma estratégia para invisibilizar o papel de Dona Maria I enquanto rainha reinante de Portugal?

Mary Del Priore: O epíteto foi criado depois de sua morte, numa manobra de republicanos para caricaturar os Bragança. E na família real, como sabemos, ela não foi a única vítima. No Brasil, a família de D. Pedro e ele mesmo foram alvo de todos os ataques da jovem República proclamada em 1889.

Dona Maria I

Tendo que lidar com uma série de preconceitos ligados ao seu sexo, Dona Maria demonstrou pragmatismo e sensatez na condução dos negócios de Estado.

R.T: Quais fatores contribuíram para o desenvolvimento de um possível quadro de desequilíbrio emocional na rainha portuguesa?

Mary Del Priore: Fatos terríveis que fragilizariam emocionalmente qualquer ser humano. Mais ainda, alguém que se dedicava de corpo e alma à família. Maria tinha um casamento perfeito com D. Pedro e era mãe extremamente amorosa. Num espaço curtíssimo de tempo, perdeu o marido, dois filhos e dois netos. Viu partir a mãe, a quem considerava “admirável conselheira” e o tio, o rei de Espanha, com quem trocava correspondência e tinha parceria política. Como se não bastasse, seu único amigo e padre confessor que lhe dava apoio moral, se foi também. Ela viveu um terremoto de perdas afetivas. Ao mesmo tempo, tinha que se defender das conspirações dentro da Corte. Sentiu-se abandonada por Deus e possuída pelo Maligno, em cuja existência, na época, se acreditava. O atraso da medicina lusa fez o resto: serviu para que sua depressão fosse interpretada como “um banho do Diabo”. Extremamente piedosa, Maria afastou-se de tudo e todos, em busca de remissão dos pecados que nunca cometeu, mas, que acreditava serem os responsáveis pelo fim de entes tão queridos. Hoje, Maria seria apenas uma mulher com depressão, como tantas de nós.

R.T: Recentemente, foi sugerido que o príncipe Dom João estaria envolvido em um complô para afastar sua mãe do poder. Suas pesquisas encontraram alguma pista que corrobore essa interpretação?

Mary Del Priore: Há indícios de que ele teria se deixado manobrar, apesar do amor imenso que tinha por sua mãe. Lembro que na época, as razões dinásticas vinham em primeiro plano. Portanto é possível que, pensando na coroa e em Portugal, ele tenha agido contra os interesses maternos. Mas não encontrei provas na documentação que utilizei, pois não estive nos arquivos da “terrinha”.

R.T: Como era o relacionamento de Dona Maria com os demais membros de sua família, especialmente a esposa de Dom João, Carlota Joaquina?

Mary Del Priore: Amoroso e filial. Carlota foi muito pequenina para a Corte portuguesa e acompanhava D. Maria em cavalgadas, passeios e teatros. Jogavam cartas juntas e Carlota substituiu a filha, D. Mariana Vitória, que tinha partido para casar-se com um príncipe espanhol e faleceu precocemente. A rainha adorava a nora e foi sua querida companheira até apresentar os primeiros sintomas de depressão. Mesmo depois da doença, Carlota a acompanhou quando vieram para o Brasil. Vale lembrar que Carlota tinha planos pessoais que, muito provavelmente, a afastaram da sogra.

R.T: Por falar em Carlota Joaquina, sua figura costuma ser retratada pela historiografia de forma quase tão controversa quanto a de Dona Maria I. Você possuí algum plano de biografa-la no futuro?

Mary Del Priore: Já existe uma excelente biografia de Carlota no seu período brasileiro, feito pela grande historiadora Francisca Nogueira de Azevedo. Valeria a pena examinar melhor o período em que, menina, viveu em Espanha, recém-casada em Portugal e depois do seu retorno do Brasil. É preciso esclarecer se foi ela que mandou envenenar D. João VI. Mas as próximas biografias serão sobre Januária e Francisca, respectivamente a “fera” e a “bela”, irmãs de D. Pedro II.

R.T: Mary, muitíssimo obrigado pelo seu carinho e paciência em responder nossas perguntas. Qual mensagem você teria para o leitor e a leitora do blog, que estão aprendendo mais sobre a história de Dona Maria I através das páginas do seu livro?

Mary Del Priore: Eu diria apenas que aceitem meu convite para gostar de História, esse universo sem fim de histórias, fatos e personagens que nos ajudam a entender nossa identidade. Sem saber quem fomos, jamais saberemos quem somos.

Um comentário sobre “D. Maria I: a louca? – Mary Del Priore desconstrói o mito da soberana insana de Portugal em nova biografia!

  1. Muito bom, estou em Portugal e aqui o nome da Rainha D. Maria está presente em todos os lugares de Lisboa, se percebe facilmente a importância que teve o seu reinado. Parabéns pelo site!

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