Maria Antonieta e o dito “que comam brioches”

Por: Adriel Dalmolin Zortéa[1]

Maria Antonieta, nascida em 02 de novembro de 1755, na Áustria, filha dos Imperadores do Sacro-Império Romano, Maria Teresa e Francisco Estêvão, cresceu no ambiente relativamente informal da corte de Viena, onde havia certa distinção entre cerimônias de caráter público e vida privada. A escritora Antonia Fraser ressalta “a intimidade burguesa da vida doméstica do casal imperial, coisa impensável na corte paralela de Versalhes” (FRASER, 2009, p.33).

Maria Antonieta, segundo obra de Jean-Baptiste Gautier-Dagoty (1775)

Como parte do jogo político de sua mãe, a arquiduquesa austríaca, aos 14 anos de idade, desposa o herdeiro da coroa francesa, o delfim Luís Augusto, neto de Luís XV e futuro Luís XVI, cimentando a aliança entre a casa de Habsburgo (sua família) e a casa de Bourbon (a família de seu marido). Assim, Maria Antonieta adentra a corte francesa, a mais ostensiva e suntuosa da Europa, sediada no Palácio de Versalhes, nos arredores de Paris.

O cerimonial arquitetado por Luís XIV, ao transformar o antigo pavilhão de caça de seu pai, Luís XIII, em um dos mais luxuosos palácios da Europa, continuava a ser executado pelos seus descendentes, estando Maria Antonieta sujeita aos pormenores das regras de Versalhes. Como consorte do primeiro na linha de sucessão ao trono, a delfina de França encontrava-se cercada por uma rígida etiqueta, visto que os protocolos da corte acompanhavam os membros da família real francesa constantemente.

Ao acordar, havia o ritual de despertar (lever), onde o toalete formal era realizado com a ajuda de auxiliares – princesas do sangue e damas da mais alta nobreza – seguindo-se o jantar público (grand couvert), onde os membros da corte acompanham a realeza em suas refeições e o ritual de despir à noite (coucher), citando-se a ocasião famosa, onde:

Maria Antonieta já se despira e estava prestes a receber a roupa de baixo, trazida pela primeira dama do quarto de dormir, das mãos da dama de honor. Tudo isso estava de acordo com os planos e a dama de honor já despira a luva, preparando-se para pegar a camisa de baixo. Neste ponto chegou a Duquesa de Orléans, princesa do sangue, indicando a sua entrada pelo som raspado peculiar, que, em Versalhes, equivalia a uma batida na porta. A dama de honor, segundo a etiqueta, entregou a camisa de baixo à duquesa, que então começou a descalçar a própria luva. Maria Antonieta, é claro, ainda estava nua. E assim ficou quando mais uma princesa apareceu, a Condessa de Provença, que, como membro da família real, tinha precedência na cerimônia e assim foi-lhe passada a camisa. Quando a condessa tentou apressar as coisas omitindo o descalçar da luva, conseguiu derrubar a touca real. Durante todo esse tempo Maria Antonieta ficou de pé com os braços cruzados sobre o corpo, tremendo de frio (FRASER, 2009, p.97).

Ressalta-se como, a residência de Maria Antonieta, como rainha de França, envolvia, comumente, cerca de 500 pessoas: essas iam desde a dama de honor oficial, a Condessa de Noailles, até os trabalhadores, que em grupos de quatro, em turnos trimestrais, trabalhavam nos estábulos, na cozinha e no próprio quarto de dormir, virando, por exemplo, o colchão real. Todos os funcionários eram pagos pelo Ministro da Casa Real, sendo a residência de Luís XVI ainda maior, e a de seus irmãos, o Conde de Provença e o Conde d’Artois, com suas respectivas esposas, quase tão grandes como a da consorte do rei.

Maria Antonieta, por Mme. Vigée Le Brun

Porém, destaca-se a extravagância pessoal de Maria Antonieta, visto que, embora os libelles obscenos e as gazetas, quando iniciaram ataques pessoais à figura da rainha, inventassem e exagerassem muita coisa quanto à conduta da mesma, possuíam razão perante aos seus exageros na moda. Estima-se que, desde a ascensão ao trono, com o falecimento de Luís XV e a consequente subida ao trono de Luís Augusto, Maria Antonieta recebia a visita de Rose Bertin, modista imaginosa e extremamente talentosa, em torno de duas vezes por semana. Antônia Fraser cita como, “contra o espetáculo de uma rainha maravilhosamente vestida, sendo sua aparência uma obra de arte por si só – arte francesa –, é preciso pôr na balança a conta dos vestidos que não parava de aumentar e o orçamento para roupas, nunca suficiente” (FRASER, 2009, p.172).

Em meados de 1770, a desastrosa Guerra dos Sete Anos, contra a Inglaterra, rival tradicional da França, e seus aliados, havia deixado o reino à beira da falência, sobrecarregado com um déficit financeiro exorbitante. Quando da ascensão de Luís XVI, o clero e a nobreza ainda eram isentos do pagamento de impostos, onde o fardo de suprir a insuficiência de recursos recaía sobre os membros do Terceiro Estado que, correspondendo a 96% da população, viviam, em sua maioria, em dolorosa pobreza.

A imensa despesa de despachar milhares de soldados e navios franceses para lutar, no Novo Mundo, ao lado das treze colônias norte-americanas que haviam declarado sua independência frente ao seu soberano, o rei Jorge III da Grã-Bretanha e Irlanda mergulhou o governo da França em uma crise financeira maior ainda, onde os gastos de Maria Antonieta apresentavam pouca importância monetária frente aos custos da enorme aventura americana engendrada pelos ministros de Luís XVI. Ademais:

Sendo a economia francesa ainda em grande parte agrária, as condições de vida do povo pioravam drasticamente após uma colheita má. E o inverno de 1774-75, severo e com muita neve, levou a uma das piores colheitas de que se tinha lembrança. Naquele mês de maio, a escassez de grãos e as reformas mal orientadas promovidas por Turgot, o controlador-geral de Luís XVI, impeliu pessoas famintas em toda a nação a promover tumultos conhecidos como as Revoltas da Farinha. Tendo sido informadas de que os membros da família real estavam escondendo grãos e pão, 500 pessoas investiram contra os portões de Versalhes. Para subjugar os amotinados, tanto próximos quanto distantes, Turgot ‘convocou 25 mil soldados e instituiu tribunais sumários e enforcamentos exemplares’, escreveu o historiador Simon Schama. A brutal reação do governo à crise deixou um sabor amargo nas bocas de muitos plebeus mesmo depois que a ordem foi restaurada. No Palais Royal, descontentes reuniram-se para expressar sua fúria diante do episódio, por vezes ao alcance dos ouvidos da cliente bem penteada de Bertin (WEBER, 2008, p.30).

As Revoltas da Farinha ressaltaram os modos frívolos de Maria Antonieta. Assim, o status de que gozava a rainha, como símbolo da moda e da elegância, inicia um processo de declínio. A hostilidade popular pode ter sido exacerbada pelo fato de que, entre as práticas do modo de vida cortesão, figura-se o empoamento do cabelo, onde, um dos ingredientes do pó utilizado para cobrir os prodigiosos penteados, era a farinha de trigo, estritamente ligado à imagem de Maria Antonieta – mesmo sendo anterior a ela e fazer parte dos usos comuns da corte francesa – sendo, no máximo, durante esse período que haveria ocasião para a consorte de Luís XVI ter dito “Que comam brioches” (Qu’ils mangent de la brioche), entendendo-se a associação entre dito e personalidade histórica ao visualizar-se uma rainha com penteados cobertos de farinha frente ao povo sem pão.

Não obstante, ao invés de pronunciar a famosa frase, Maria Antonieta escreveu uma reflexão para a mãe, a imperatriz Maria Teresa, acerca dos deveres da realeza. Para a pesquisadora Antonia Fraser, o teor da carta “era o oposto exato daquela frase, ao mesmo tempo insensível e ignorante, tantas vezes atribuída a ela. ‘É bem certo’, escreveu, ‘que ao ver o povo que nos trata tão bem apesar do seu próprio infortúnio, ficamos mais obrigados do que nunca a trabalhar duramente pela sua felicidade” (FRASER, 2009, p.158), sendo a rainha a única membra da família real francesa que recusava-se a cavalgar sobre os trigais dos camponeses, arruinando os mesmos.

O dito era conhecido há pelo menos um século, quando fora atribuído à princesa espanhola Maria Teresa que, desposara Luís XIV, em uma versão com pequenas modificações: caso não houvesse pão, o povo que comesse a crosta (croûte), do patê. Rousseau, em 1737, tinha conhecimento da fala, ao passo que a frase fora creditada a outras princesas francesas ao longo do século XVIII, como uma das tias de Luís XVI, Madame Sofia, ao reagir à notícia de que seu irmão, o delfim Luís Fernando (pai de Luís XVI),  fora importunado por pedidos de pão em uma visita a Paris. A Condessa de Boigne, que quando criança fora expectadora no Versalhes de Maria Antonieta, atribuiu o dito a outra das tias reais, Madame Vitória.

A prova mais convincente da inocência de Maria Antonieta surge das memórias do Conde de Provença, publicadas em 1823, onde “sem ser nenhum galante guardião da reputação da cunhada, observou que comer pâté en croûte sempre lhe recordava a frase de sua própria antepassada, a Rainha Maria Teresa. Em resumo, era uma piada velha na família real” (FRASER, 2009, p.158-159), especificamente simbólica, visto que o pão, além de alimento básico do campesinato francês e da classe trabalhadora, consumia 50% da renda dos mesmos, além dos 5% gastos em lenha.

Porém, apesar do consenso entre os biógrafos de Maria Antonieta de que a frase letal não fora pronunciada pela mesma, os modos de vida da rainha continuam sendo condenáveis a partir do ponto de vista de outra localidade e de outro período histórico. Contudo, em termos de praticidade, Paris era uma cidade que dependia da colaboração financeira dos nobres e dos ricos para manter a funcionalidade de sua indústria, estritamente ligada à produção e ao comércio de luxo e semi luxo, pois:

Para os estrangeiros, a moda fazia parte da razão de estar em Paris; Thomas Jefferson assinava a revista Cabinet des Modes e mandava gravuras de moda para damas conhecidas suas na América. Como observou a Baronesa d’Oberkirch em sua primeira visita à capital francesa, a cidadã afundaria sem o seu comércio de luxo. Num país onde detalhes de aparência, traje e apresentação eram ‘assuntos vitais’, como observara o embaixador da Saboia a respeito da Condessa de Provença, Maria Antonieta era uma consorte adequada (FRASER, 2009, p.172).

Maria Antonieta aos 28 anos, por Elizabeth Vigeé Le Brun (1783).

Argumenta-se plausivelmente que, uma das funções da rainha da França, centro do mundo do vestuário e da ornamentação e com fortes motivações comerciais para assim permanecer, seria incentivar o florescimento da moda, liderando a mesma. Frisa-se como “as mulheres francesas de todas as posições sociais desejavam parecer-se com sua rainha” (WEBER, 2008, p.127), onde, por exemplo, as penas de verdade utilizadas por Maria Antonieta – embora essa tivesse sido presenteada por Luís XVI com uma joia com plumas (aigrette), ornamentada com diamantes que ele já possuía – ocasionaram o surgimento de um comércio lucrativo. Dessa forma, Maria Antonieta, “em vez de se tornar humanamente grande para todas as épocas, tornou-se típica de sua época” (ZWEIG, 2013, p.111), sendo considerada o símbolo máximo de  representação do século XVIII.

A rainha, como no caso do “Que comam brioches”, encontrou-se exposta ao ridículo, escrevendo à Duquesa de Polignac, como “não temia o veneno: ‘isso não pertence a este século, é a calúnia que usam, meio muito mais seguro de matar a tua infeliz amiga’” (FRASER, 2009, p.503), não sendo a única personalidade do Antigo Regime a ser difamada pelos libelles, mas uma das poucas a ser destruída pelos mesmos, afinal, uma princesa estrangeira encaixa-se perfeitamente bem para o papel de bode expiatório de uma monarquia em crise. A finita vida de Maria Antonieta feneceu no cadafalso, contudo, suas influências ecoam na História, sendo papel do historiador, desmistificar alguns clichês jornalísticos, como o estudado no presente artigo, que vinculam-se, equivocadamente, à rainha consorte de França.

REFERÊNCIAS:

FRASER, Antonia. Maria Antonieta. Trad. Maria Beatriz de Medina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.

WEBER, Caroline. Rainha da moda: como Maria Antonieta se vestiu para a Revolução. Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

ZWEIG, Stefan.  Maria Antonieta: retrato de uma mulher comum. Trad. Irene Aron. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

[1] Universidade Federal de Santa Catarina, curso de História, disciplina de História Moderna, Prof. Dr. João Klug, Florianópolis, SC, Brasil. E-mail de contato: adrielzortea@outlook.com

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s