A balada de Hua Mulan – a lenda da guerreira mais famosa da China

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Em 5 de junho de 1998, milhares de crianças ao redor do mundo foram conferir nos cinemas o lançamento de “Mulan”, animação da Disney sobre a história da personagem homônima, que se travestiu de homem e foi para a batalha no lugar de seu pai e acabou salvando toda a China. Assim como o filme “Anastásia”, da Fifth Century Fox (1997), “Mulan” vem encantando gerações ao longo dos anos. Contudo, poucos sabem que, do mesmo modo que a filha do czar Nicolau II, a encantadora guerreira também pode ter existido e sua verdadeira história é bem mais interessante (e triste) do que o filme da Disney nos faz acreditar. Hua Mulan é uma das mulheres mais lendárias da China Antiga. Apesar de sua fama, não existe prova arqueológica de que ela realmente viveu. Entretanto, contos sobre suas ações heroicas se encontram preservados num texto antigo, bastante conhecido por estudantes chineses, datado do século VI da nossa era, chamado “A balada de Mulan”.

Ilustração de Hua Mulan no "Gathering Gems of Beauty".

Ilustração de Hua Mulan no “Gathering Gems of Beauty”.

Em chinês, Hua Mulan significa literalmente “flor de magnólia” (“Huã” flor + “Mùlán” magnólia), um símbolo da cultura chinesa desde os tempos antigos. Porém, as raízes da personagem são incertas e não sabemos, portanto, a qual família ela pertencia. Em alguns textos, como “História dos Ming”, seu sobrenome seria Zhu, mas em “História dos Qing” aparece como Wei. A única informação segura, porém, é que ela teria vivido no século IV ou V da era cristã. A fonte de sua história provém de uma canção folclórica da Dinastia Wei do Norte (386-557 d.C). Infelizmente, o texto original, datado do século VI, se perdeu com o tempo e a cópia mais antiga que restou da “Balada de Mulan” está presente no Music Bureau Collection, antologia de poemas e canções compiladas por Guo Maoqian entre os séculos XI e XII. Hua Mulan aparece novamente em um conto da Dinastia Ming e depois em 1593, numa peça em dois atos chamada “A feminina Mulan ou a Heroína Mulan vai para a guerra no lugar de seu pai”, do pintor e dramaturgo chinês Xu Wei. No século XVII, o escritor Chu Renhuo publicou o romance histórico “Sui-Tang Romance”, uma estória sobre como a guerreira Hua Mulan permaneceu viva no imaginário de seu povo.

Com efeito, a versão mais antiga da “Balada de Mulan” consiste em 31 dísticos, compostos principalmente de frases com cinco caracteres. Existem, entretanto, muitas outras versões. Abaixo, confira a tradução de uma delas, disponibilizada pelo site Epoch Times:

Suspiro após suspiro,
Mulan tece diante de sua porta.

Ninguém pode ouvir o som do tear,
apenas os suspiros da pobre menina.

Pergunte-a quem está em seu coração,
ou quem está em sua mente.

Ninguém está em seu coração,
e ninguém está em sua mente.

Ela viu os rascunhos militares ontem à noite,
Khan está convocando muitos soldados.

Uma dúzia de listas rascunhadas,
cada uma com o nome de seu pai.

O pai não tem um filho crescido,
Mulan não tem irmão mais velho.

Ela decide adquirir um cavalo e sela,
e alistar-se em lugar de seu pai.

No mercado leste, ela compra um cavalo,
no mercado oeste, uma sela.

No mercado norte, ela compra um freio,
e, no mercado sul, um longo chicote.

À alvorada, ela se despede de seu pai e de sua mãe,
ao anoitecer, ela acampa às margens do Rio Amarelo.

Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas as águas do rio fluindo.

À alvorada, ela deixa o Rio Amarelo,
ao anoitecer, ela chega à Montanha Negra.

Ela não podia ouvir os pais chamando pela filha,
apenas os cavalos selvagens na vizinhança do Monte Yan.

Viajando dez mil milhas ao encontro da batalha,
passando montanhas e serras como se voando.

Ventos amargos carregam os sons do sino do vigia,
uma luz pálida brilha em sua armadura de ferro.

Generais morreram em uma centena de batalhas,
os soldados mais fortes retornaram após dez anos.

Eles retornaram para encontrar o imperador,
o Filho do Céu sentado no palácio imperial.

Ele recordou seus méritos em doze pergaminhos,
e concedeu centenas de milhares de recompensas.

O Khan pergunta a Mulan o que ela deseja,
um título de grande ministro não tem utilidade para Mulan.

Ela pede uma montaria rápida para levá-la a milhares de milhas,
e trazer a filha de volta para casa.

Quando pai e mãe ouvem sobre sua chegada,
eles se apoiam até o portão da cidade.

Quando a irmã mais velha ouve sobre sua chegada,
ela se adorna e a espera em sua porta.

Quando seu irmão mais novo houve sobre sua chegada,
ele afia a faca e prepara o porco e a ovelha.

“Abram a porta de meu quarto ao leste, eu sento no sofá de meu quarto ao oeste.
Removo meu uniforme de guerra, e visto minhas roupas dos velhos tempos.”

De frente para a janela, ela prende seus cabelos macios como nuvem,
no espelho, ela põe flores amarelas.

No portão, ela encontra seus camaradas,
eles ficaram todos surpresos.

Lutando juntos por doze anos,
eles jamais suspeitaram que Mulan fosse mulher.

Lebres macho gostam de chutar e pisar,
lebres fêmeas têm olhos enevoados e acetinados.

Mas se as lebres correm lado a lado,
quem pode dizer qual é ele ou ela?

Apesar das muitas variações na canção, feitas ao longo do tempo, todas as versões conhecidas falam da história da filha que, ao saber que seu pai, Huan Hu, seria recrutado para o exército imperial, tomou uma atitude impulsiva. Crente que seu velho pai dificilmente sobreviveria à guerra, ela então vestiu sua armadura de soltado e se alistou nas tropas como “filho” dele. Na sequência do conto, Mulan aparece indo para a batalha, carregando a espada de seus ancestrais. Lutando durante quase doze anos, ela ganhou prestígio entre seus companheiros e recusou qualquer recompensa, preferindo em vez disso voltar para casa. De acordo com uma versão da estória, no período da guerra, Mulan teria conhecido um oficial, chamado Jin Yong, por quem se apaixonou. A lenda também diz que ela foi promovida a general e que, quando Jin Yong descobriu que seu companheiro era na verdade uma mulher, teria ficado atraído por ela. Os dois sonhavam em se casar e constituir família. Com o tempo, outros soldados também descobriram a verdadeira identidade do brilhante guerreiro.

Ilustração em fases da "Balada de Mulan". Da direita para a esquerda: "Mulan trabalhando no tear; Mulan vai à guerra vestida de homem; Mulan usando roupas femininas diante dos soldados".

Ilustração em fases da “Balada de Mulan”. Da direita para a esquerda: “Mulan trabalhando no tear; Mulan vai à guerra vestida de homem; Mulan usando roupas femininas diante dos soldados”.

Certo dia, depois de uma balhata muito difícil, Mulan decidiu que da próxima vez iria para luta vestida não mais como soldado, e sim com suas roupas femininas. Assim, as tropas finalmente conheceriam sua verdadeira identidade. A reação dos soldados, aparentemente, foi de muito respeito e admiração. Afinal, por mais de uma década aquela mulher lutara ao lado deles, provando ser uma pessoa digna de honra. A revelação de Mulan, sua bravura, graça e coragem motivou seus companheiros a vencerem mais uma vez outra difícil batalha. Com a vitória, o imperador quis conhecer aquele herói do qual tantos falavam e ficou surpreso ao descobrir que se tratava de uma mulher. Recusando a recompensa do monarca, Mulan decidiu voltar finalmente para casa, onde foi recebida com alegria por seus pais e irmãos. Numa outra versão, ao retornar ela teria ficado sabendo da notícia de que seu velho pai há muito tinha morrido e, sentido-se triste e sozinha, sem o amor de sua vida e marcada irreversivelmente pela guerra, ela pôs termo à própria existência cometendo suicídio.

Ao contrário de outros homens, Hua Mulan não se alistou na guerra para conquistar mérito, fama ou realizar grandes façanhas militares. Como mulher, ela sabia que não podia esperar tais coisas, embora inevitavelmente tivesse conseguido tudo isso e muito mais. Seus motivos para se juntar ao exército, porém, foram mais simples, conforme ressaltado anteriormente. Ela queria cumprir o “dever” de seu pai, servindo o país com fidelidade. Na cultura chinesa, seu nome é sinônimo de bondade, coragem, determinação, perseverança e modéstia, sendo uma personagem celebrada em vários textos, ilustrações e estátuas.

Hua Mulan em batalha.

Hua Mulan em batalha.

Todavia, o desfecho da história de Mulan em nada lembra o final feliz da animação da Disney. Como disse no início desse texto, ela teria vivido durante a dinastia Wei do Norte, mas muito da sua história foi acrescentado no reinado da dinastia Tang, por volta da década de 620 d.C. Em 621 d.C., o fundador da dinastia Tang venceu o general do sul Wang Shichong e o líder rebelde Dou Jiande e também, de acordo com algumas fontes, uma certa guerreira, cujo nome não é lembrado. É possível que, durante o século VII, a lenda dessa guerreira e a de Hua Mulan tenha se fundido numa só. Dessa forma, era Mulan uma única personalidade, ou a conjunção de várias guerreiras? A possibilidade é bastante plausível. Entre os séculos IV e V, a China sofreu muitos ataques de um grupo étnico nômade, que ameaçou gravemente o governo central. O conflito iminente parecia pender desfavoravelmente para as tropas imperiais, de modo que elas precisavam de muitos reforços. Não é impossível que mulheres tenham se juntado ao exército para ajudar na batalha. A guerra durou mais de três séculos e afetou muitas partes do império chinês. Nesse contexto, uma guerreira (ou guerreiras) vestida em armadura e lutando seria uma visão bastante inspiradora para muitos soldados..

A China é conhecida por ser uma sociedade bastante tradicional, ainda praticando certos costumes que datam da dinastia Shang (c. 1.500 a.C.). A maioria da população vivia em pequenas ou grandes vilas. No período medieval, entre as dinastias Tang e Ming, a chamada filosofia confucionista, que data do século VI a. C., ditava que as mulheres, por terem uma natureza briguenta, ciumenta e mesquinha, eram, portanto, “inferior” aos homens. Para domar os instintos femininos, elas eram educadas de forma rudimentar, para que desempenhassem com perfeição as tarefas domésticas que se esperavam de uma boa esposa, estando aptas apenas a ler a doutrina do confucionismo. Sua pureza sexual deveria ser mantida a todo custo. Elas se casavam na faixa dos 16 a 20 anos de idade. Uma vez casada, a nova esposa passava por uma fase de teste que durava quatro meses. Se não agradasse ao marido ou à família deste, era então repudiada. Seu status se elevava após se tornarem mães de família, especialmente de um menino. Os direitos de liberdade feminina variavam conforme as dinastias reinantes iam se sucedendo. Sob a influência do budismo indiano e a introdução da filosofia do Taoísmo, a sociedade chinesa passou por transformações significativas.

Assim sendo, a melhor oportunidade para uma mulher chinesa no século IV ou V se juntar ao exército seria disfarçada de homem, pois de outra forma seria impedida. A história antiga, seja no ocidente ou no oriente, pouca referência faz às mulheres comuns. Confinadas no silêncio dos trabalhos doméstico, seus registros foram quase completamente apagados. Se existiu de fato uma guerreira chamada Hua Mulan, que viveu em algum momento entre os anos de 386-557 d.C e lutou no campo de batalha vestida como soldado, isso não podemos dizer. Mas que outras mulheres tenham se insurgido contra as imposições misóginas de gênero e se alistado no exército chinês, disfarçando de todos os modos possíveis as características do seu sexo para defender aquilo que acreditavam, é uma coisa bastante possível de acreditar. Longe de ser o conto de uma só pessoa, penso que “A Balada de Mulan” é um louvor a essas mulheres guerreiras, cujos nomes se perderam com o tempo e que hoje estão imortalizadas na figura de uma simplória camponesa, que partiu para a guerra no lugar de seu pai e acabou salvando todo um povo.

Pôster da animação da Disney, "Mulan" (1998).

Pôster da animação da Disney, “Mulan” (1998).

Referências:

KLIMCZAK, Natalia. The Ballad of Hua Mulan: The Legendary Warrior Woman Who Brought Hope to China. 2016 – Acesso em 03 de setembro de 2016.

LAI, Kristin. The Legendary Warrior That Inspired Disney’s Mulan is Pretty Badass. 2015 – Acesso em 03 de setembro de 2016.

The Ancient Standard. The Real Story of Mulan. 2011 – Acesso em 03 de setembro de 2016.

Women in Medieval China. – Acesso em 03 de setembro de 2016.

WU, David. Hua Mulan, a lendária e corajosa guerreira. 2013. – Acesso em 03 de setembro de 2016.

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7 comentários sobre “A balada de Hua Mulan – a lenda da guerreira mais famosa da China

  1. Esse é um blog que me dá prazer e leitura. Nunca vi o filme da Disney. Acho que nem vou ver, porque dificilmente terá a vivacidade da escrita desse texto. Obrigada por nos conceder tantas informações de forma tão coloquial.
    Memélia Moreira, jornalista

    Curtido por 1 pessoa

  2. Gente! desde que pequena a Mulan foi a minha princesa favorita, eu sonhava em conhece-la pessoalmente e depois de ler esse texto o meu amor por ela (seja ela real ou não) só aumentou. A história em si é fantástica apesar de sabermos se Mulan existiu ou não. Parabéns pelo trabalho e muito sucesso, você merece

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