Quando os quadros nos contam histórias: o poder da pintura como documentação histórica.

Por: Isabela Mião

São muitas as vezes que nos deparamos com pinturas famosas, como a Mona Lisa de Da Vinci, e paramos para pensar: Quem será que foi essa pessoa? Qual foi a contribuição dela para a época para ser louvada por tantas pessoas?

São mistérios como esse que faz do mundo da arte algo tão fascinante. É fácil sermos embalados e sensibilizados perante tantas cores e maestria no uso das técnicas. Mas, para olhos mais descuidados, muitas coisas que passam despercebidas nos contam histórias sobre aquelas pessoas e sua época.

Com olhos mais atentos, podemos captar cada um destes detalhes e compreender o que houve. Um caso bastante fascinante sobre como quadros nos contam histórias é o Casal Arnolfini, de Jan Van Eyck.

A verdade por trás do casal: Jan Van Eyck e sua época.

O Casal Arnolfini. Jan Van Eyck, 1434.

O Casal Arnolfini. Jan Van Eyck, 1434.

Jan Van Eyck era um pintor holandês do fim do Humanismo (época de 1390 ao início do séc XV), com um estilo fortemente marcado pelo Gótico tardio. Dentre temas religiosos, também executava trabalhos de retratista para pessoas importantes dos Países Baixos.

Seu trabalho mais famoso é o Casal Arnolfini. Terminada em 1434, retrata o casal Giovanni e Giovana Arnolfini, ambos provenientes de famílias de comerciantes da Itália  instalados na Bélgica entre 1420 e 1472. Porém, segundo historiadores, a pintura carrega muito mais do que um simples casal de burgueses da época.

A primeira coisa a ser notada é que é uma cena doméstica, onde temos um leito conjugal. Segundo as teorias, Jan Van Eyck estivera presente no casamento e que seria a noite de núpcias, uma alegoria do casamento e da maternidade.

A segunda coisa a ser notada é os atributos que demonstram a riqueza do casal, como o uso das cores na pintura. O belo azul do vestido de Giovana é proveniente de lápiz lazuli, uma pedra preciosa e muito usada na época para a fabricação de tintas azuis, sendo uma das mais caras.

Outro atributo desta riqueza também se nota nas laranjas que estão sobre a mesa, uma fruta importada das colônias e muito cara na época e também no espelho e no vidro da janela (sim, é possível medir o nível de riqueza de uma pessoa naquela época contando as janelas da casa). Sem falar também nas roupas, Giovana usa um belo vestido de veludo bordado em fios de prata, enquanto Giovanni tem pele de Arminho bordado em sua vestimenta.

A terceira é a representação do casal, onde os dois se encontram em uma posição antagônica, apenas ligados pelas mãos. Isso mostra a posição de cada um na época, com Giovana em uma posição mais curvada, mostrando submissão a seu marido. Apesar de parecer, ela não está grávida, é apenas uma ilusão montada pelo volume das dobras do tecido, atributo que pode ser uma alusão ao casal nunca ter tido filhos.

O simbolismo por trás da pintura:

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O simbolismo na pintura é muito vasto e forte, por isso será citados apenas os destaques aqui. Logo quando olhamos para a pintura, podemos reparar no belo candelabro acima do casal, que tem apenas uma vela acesa. Esta representa um ritual dos Países baixos onde se acendia apenas uma vela na noite de núpcias.

Depois aos pés do casal, vemos um lindo cachorro, outro atributo que representa a riqueza. Focando ainda no chão, reparamos que o casal está descalço, notando-se pelos tamancos espalhados pelo chão. Acreditava-se que ficar descalço ajudava na fertilidade.

Outros objetos que representam a fertilidade e a maternidade dentro do quadro são a cama, a Santa Margarida entalhada na cabeceira e uma das cores no vestido de Giovana. Segundo a tradição da época, era comum ter uma cama na sala de estar, pois era lá que os parentes e os amigos cumprimentavam a mãe e o recém nascido logo após o parto. A pequena Santa Margarida entalhada na cabeceira da cama significava também maternidade, já que esta é a protetora dos partos. O belo veludo verde do vestido da Senhora Arnolfini é uma alusão à fertilidade.

E os últimos dois atributos são mais referentes à sorte do casal. O espelho atrás deles é mais do que outra afirmação de riqueza: acreditava-se que estes podiam afugentar a má sorte. Além disto, podemos notar que em volta deste, entalhado na moldura, há cenas da paixão de Cristo, vinculadas à forte crença religiosa ainda presente no pós medieval. E o último é a pequena gárgula sorridente atrás do casal, representando a infelicidade conjugal, pois Giovanni traía constantemente sua esposa, fato que ajudou o casal a não ter filhos.

Concluindo:

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O poder da arte ao decorrer do tempo é mais do que apenas um meio de decoração, é algo que tem peso, pode ser dentro da literatura e da história. Pinturas nos contam sempre como era o contexto, a sociedade e os valores prezados na época em que foram trabalhadas, o que as torna um importante meio de documentação histórica.

Como vimos em O Casal Arnolfini, temos mais do que a beleza estética e a maestria de Jan Van Eyck ao executar uma obra com riquíssimas técnicas, como o efeito da luz e o toque aveludado da pele e dos tecidos, é uma maneira de nos mostrar o que houve com um casal que aparentemente tinha de tudo para ser feliz, mas não foi.

Atualmente, o quadro pode ser apreciado na National Gallery, em Londres.

Link do texto no blog da autora: clique aqui

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