“MORTE DE NICOLAU ROMANOV!” – Como a imprensa noticiou a execução da família imperial russa!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Assim que a notícia da execução dos Romanov chegou a Moscou, o Kremlin fez de tudo para reter a informação. Às nove horas do noite do dia 17 de julho de 1918, o Soviete Regional do Ural enviou um telegrama codificado, no qual estava escrito: “Diga a Sverdlov que a família inteira sofreu o mesmo destino do chefe. Oficialmente, a família pereceu durante a evacuação”. Iákov Mikháilovitch Sverdlov, então diretor do Comitê Executivo Central, respondeu no dia seguinte que: “vou comunicar sua decisão ao Presidium do Comitê Executivo Central. Não há dúvida de que será aprovada. Comunicados sobre a execução devem partir das autoridades centrais. Retenha a divulgação até seu recebimento” (apud MASSIE, 2017, p. 19). Durante uma reunião do Soviete dos Comissários do Povo, presidida por Lênin, Sverdlov pediu a palavra e, em voz alta, anunciou a todos: “Recebemos a informação de que, por decisão do Soviete Regional do Ural, Nicolau foi executado em Ecaterimburgo. Alexandra e os filhos estão em mãos confiáveis. Nicolau tentou fugir. Os tchecos estavam se aproximando. O Presidium do Comitê Central aprovou”. O silêncio mantido pelas pessoas que estavam presentes na reunião só foi interrompido pelo próprio Lênin, que disse: “Vamos prosseguir na leitura do projeto, artigo por artigo” (apud MASSIE, 2017, p. 20).

Story on the Romanovs, May 1918

Matéria publicada em 16 de maio de 1918, sobre o exílio da família Romanov em Ecaterimburgo (Cherokee Harmonizer).

No dia 20, um comunicado oficial redigido por Sverdlov foi enviado para os jornais Pravda e Izvestia. Os periódicos de Moscou e São Petersburgo apresentavam as seguintes manchetes: “EX-CZAR FUZILADO EM ECATERIMBURGO!” e “MORTE DE NICOLAU ROMANOV!”. O Kremlin, por sua vez, proibiu a divulgação do adendo: “O ex-czar e autocrata Nicolau Romanov foi fuzilado juntamente com sua família… Os corpos foram enterrados” (apud MASSIE, 2017, p. 20). Apenas no dia 22, os jornais tiveram a autorização para publicar a versão da notícia manipulada por Moscou:

Tendo em vista o fato de que bandos da Tchecoslováquia vêm ameaçando Ecaterimburgo, a capital Vermelha dos Urais, e que o assassino coroado pode escapar ao tribunal do povo (recentemente foi descoberto um complô da Guarda Branca para resgatar a família imperial), o Presidium do Conselho Divisional, em consonância com a vontade do povo, decidiu que o ex-czar Nicolau Romanov, culpado diante do povo por inúmeros crimes sangrentos, seja executado. […] Essa decisão se efetivou na noite de 16-17 de julho. A família Romanov foi transferida de Ecaterimburgo para um local de maior segurança (apud MASSIE, 2017, p. 20).

Dessa forma, começou a correr de boca em boca a farsa de que Alexandra, suas filhas e filho, teriam sobrevivido ao massacre e que estavam escondidos em algum lugar do pais. Pessoas de diferentes cidades alegavam ter visto uma mulher parecida com a imperatriz, acompanhada de suas filhas, embarcando de forma incógnita numa estação de trem, ou então caminhando às pressas pelas ruas de um vila.

Trecho de uma matéria do “Journal-Gazette”, publicada em dezembro de 1918, falando dos rumores sobre a morte de Nicolau II.

Durante os próximos oito anos, o governo soviético sustentou a mentira de que apenas o czar teria sido executado. Em Moscou, o embaixador alemão, Riezler, condenou formalmente a morte de Nicolau, enquanto Karl Radek (chefe do Departamento Europeu do Comissariado do Exterior Bolchevique), tentava amenizar os fatos, dizendo-lhe que os supostos sobreviventes estavam sendo mantidos em um lugar seguro e que talvez fossem libertos, “por razões humanitárias”. A farsa era sustentada com a intenção de negociar uma troca de prisioneiros com os alemães. As notícias de que a família tinha sido transferida em segurança para Crimeia foram passadas para a embaixada alemã, pelo próprio Radek. O governo britânico, por outro lado, tinha informações muito mais detalhadas sobre o que realmente aconteceu na madrugada do dia 17 de julho na casa Ipatiev. Em 31 de agosto, o rei George V recebeu um relatório do Departamento de Guerra, dizendo que toda a família tinha sido morta. Para a prima, a princesa Victoria de Battenberg, irmã de Alexandra, o monarca escreveu:

Cara Victoria

May [a rainha Mary de Teck] e eu lamentamos profundamente por você o trágico fim de sua querida irmã e seus filhos inocentes. Mas talvez para ela, quem sabe, tenha sido melhor assim, pois após a morte do querido Nicky ela não teria desejado viver. E as lindas meninas podem ter sido salvas de algo pior que a morte nas mãos daqueles monstros horríveis. Meu coração está com você (apud MASSIE, 2017, p. 22).

Apesar da mensagem, o Ministério do Exterior Britânico decidiu dar prosseguimento às investigações sobre a morte da família, em lugares como a Sibéria, Vladivostok e Ecaterimburgo. O alto-comissário, Sir Charles Eliot, informou ao Parlamento inglês de que a opinião geral dava credibilidade à versão propalada pelo Kremlin. Ele disse que: “Em 17 de julho, um trem com janelas fechadas por persianas partiu de Ecaterimburgo para destino ignorado, e acredita-se que os membros sobreviventes da família imperial estivessem à bordo” (apud MASSIE, 2017, p. 22-3). Quatro anos depois, durante uma conferência internacional em Gênova, um jornalista americano perguntou a Georgii Chicherin, ministro dos Negócios Estrangeiros Soviético, se Moscou havia de fato ordenado a execução das grã-duquesas. Chicherin, por sua vez, respondeu que: “O destino das quatro filhas me é desconhecido. Li na imprensa que elas estão na América” (apud MASSIE, 2017, p. 23).

Entretanto, em 1924 o investigador Nicolai Sokolov publicou em Paris o resultado de suas descobertas sobre o paradeiro da família imperial, feitas quando a cidade de Ecaterimburgo estava sobre domínio do exército tcheco. Segundo Sokolov, nenhum dos membros poderia ter sobrevivido à execução no dia 17. Para comprovar suas afirmações, ele adicionou fotos de ossos, de um dedo que supostamente pertencia ao corpo da czarina, fragmentos de corpetes, dentaduras, entre outros objetos achados nas proximidades da mina Quatro Irmãos, onde os Romanov foram originalmente sepultados (até então, não se sabia que os corpos foram novamente enterrados em uma cova anônima, na floresta Koptyaki). Em outubro 1918, o jornalista americano Herman Bernstein chegou à Sibéria e de lá partiu para Ecaterimburgo, até o gabinete do juiz Sergeev, em busca de informações mais concisas. Bernstein tinha escutado pelo menos seis versões diferentes sobre o destino de Nicolau e sua família: de que o czar teria sido queimado vivo na floresta; de que ele fora morto por uma bomba; que na verdade fora fuzilado na casa Ipatiev; ou assassinado numa passagem secreta que dava para o exterior do edifício; e até mesmo de que ele tinha sido levado para a Alemanha por oficiais russos; ou que estava vivendo refugiado junto com a família nos montes Urais.

Trecho de uma notícia publicada em um jornal de Londres, no dia 27 de julho de 1918, comunicando que o czar Nicolau II e sua família estavam a salvo em um monastério na Sibéria.

Em fevereiro de 1919, Herman Bernstein enviou uma reportagem para o Washington Post e para o New York Herald, dando detalhes de suas investigações, mas sem chegar a qualquer conclusão efetiva. Segundo ele, o povo de Ecaterimburgo reagiu com indiferença à notícia da morte de Nicolau: “Quem liga para o czar? Estou em melhor situação do que ela agora, vivo ou morto”, disse um entrevistado (apud HAPPAPORT, 2010, p. 295). A melhor informação que o jornalista obteve, contudo, veio de um oficial russo:

O czar está morto – esteja ele vivo ou não (…) a Rússia é uma terra de acidentes. A Rússia se libertou por acidente. Perdeu sua liberdade por acidente. Pode retomá-la por acidente. Mas de uma coisa estou certo, tenha o czar sido assassinado ou não, os negócios do czar estão mortos na Rússia (apud HAPPAPORT, 2010, p. 295).

Em Londres, o Daily Express de 12 de setembro de 1918 disse ter “informações inquestionáveis” de que a imperatriz Alexandra, suas filhas e filho, juntamente com os criados a seu serviço, tinham sido assassinados ao lado do imperador. De sua parte, o Kremlin continuava a negar essa versão, conforme demonstra o depoimento de Georgii Chicherin, publicado em 1924 no Chicago Tribune e no Times de Londres. O ministro dos Negócios Estrangeiros Soviético afirmou ainda que: “O czar foi executado pelo soviete local sem o prévio conhecimento do governo central”, reiterando que suas filhas tinham sobrevivido e estavam vivendo de forma reclusa na América (apud HAPPAPORT, 2010, p. 296). Essa versão pareceu ganhar maior veracidade quando, na década de 1920, a polonesa Anna Anderson reivindicou para si a identidade da grã-duquesa Anastásia. A partir de então, a quarta filha de Nicolau II da Rússia se tornou a mais famosa dentre as suas irmãs.

Matéria de 13 de setembro de 1918 do jornal “The Daily Mirror”, falando sobre a possibilidade do assassinato de Alexandra e suas filhas.

Com efeito, Anna Anderson sabia de tantos detalhes sobre a intimidade da família imperial, que muitas pessoas próximas aos Romanov, como os filhos do Dr. Botkin (assassinado junto com Nicolau), deram crédito à sua versão. A mídia ficou bastante interessada em sua narrativa e logo Anna começou a dar entrevistas para muitos jornais. No Brasil, a edição de 23 de agosto de 1958 da revista O Cruzeiro trazia na capa uma foto dela, acompanhada da manchete EU SOU A GRÃ-DUQUESA DA RÚSSIA. O periódico possuía uma matéria de 10 páginas assinadas pelo jornalista Ed Keffel, contendo fotos inéditas e depoimentos da impostora. Em 1997, a Fox popularizou essa versão na animação “Anastásia”, alimentando assim a esperança de milhares de crianças acerca da possibilidade de sobrevivência da princesa. Contudo, nem Anna Anderson era quem dizia ser, nem a filha mais nova de Nicolau II teve um final feliz como o da animação. A descoberta em 2007 dos remanescentes humanos dos dois últimos descendentes do imperador pôs abaixo qualquer possibilidade de fuga para a grã-duquesa. 102 anos depois da execução da família imperial, a mídia ainda continua fascinada pelo seu destino, mostrando assim que o interesse público em torno dos Romanov está longe de terminar.

Referências Bibliográficas

MASSIE, Robert. K. Nicolau e Alexandra: o relato clássico da queda da dinastia Romanov. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2014.

_. Os Romanov: o fim da dinastia. Tradução de Angela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

RAPPAPORT, Helen. As irmãs Romanov: as vidas das filhas do último tsar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Objetiva, 2016.

_. Os últimos dias dos Romanov. Tradução de Luís Henrique Valdetaro, Rio de Janeiro: Record, 2010.

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