Vitória e Albert: o casamento que mudou a história da Grã-Bretanha

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Por séculos, o casamento dinástico pareceu o destino natural de vários príncipes e princesas, durante o período de vigência do antigo regime. Muito além da junção de dois corpos, esse tipo de aliança tinha como objetivo unir politicamente dois reinos distintos. Porém, a questão era bem mais complicada quando se tratava do matrimônio de uma rainha que também era chefe de Estado. Basta utilizar como exemplo o caso de Maria I Tudor, cujo enlace com Felipe II da Espanha quase fez a Inglaterra sucumbir nas disputas continentais e lhe custou a perda de Calais para os franceses no ano de 1557. Escolhas como essa atingiam não só os países envolvidos diretamente no contrato de casamento, como também afetavam reinos vizinhos. Em 1564, Mary I Stuart, por medo de incorrer no desagrado de sua prima, Elizabeth I, desposou um súdito da coroa inglesa, decisão esta que, em última análise, lhe custou o trono da Escócia. Por isso, a escolha do consorte era quase sempre uma decisão arriscada, tomada só após bastante deliberação. Quando a triagem era bem feita, até mesmo novos impérios poderiam ser forjados, a exemplo de Isabel I de Castela, que ao lado de Fernando II de Aragão fundiu a Espanha sob um único cetro. Foi o que aconteceu também com a rainha Vitória I do Reino Unido, que em 1840 desposou seu primo, Albert de Saxe-Coburgo-Gota e juntos fundaram as bases para a construção do nacionalismo britânico.

Príncipe Albert, por John Partridge (1840).

O relacionamento de Vitória e Albert já foi tema de muitos filmes e séries de TV, que quase sempre destacam uma áurea romântica e devocional para retratar a vida do casal. Essa visão, por sua vez, é acentuada pela literatura, pelas artes e demais monumentos que a rainha ordenou que fossem erguidos para enaltecer a memória de seu marido. Porém, poucos sabem que nos primórdios do casamento a relação entre os dois era marcada por vários conflitos e divergências de opiniões. Para início de conversa, é importante destacar que Vitória ponderou bastante se deveria ou não acatar a sugestão de seu tio, o rei Leopoldo da Bélgica, de se casar com o primo, conforme podemos observar numa carta escrita pela rainha em 15 de julho de 1839, na qual elogiava as qualidades de Albert, embora fosse incisiva ao afirmar que “talvez eu não tenha por ele o sentimento necessário para assegurar a nossa felicidade. Talvez eu o ame como um amigo, um primo ou um irmão, mas não mais” (apud MUHLSTEIN, 1999, p. 31). Os dois se conheceram quando tinham 17 anos, durante uma visita de Albert e seu irmão mais velho, Ernest, ao palácio de Kensington.  Naquela ocasião, Vitória havia achado o primo “extremamente bonito” e disse que “o charme de sua fisionomia é a sua expressão, que é muito agradável; c’est à la fois cheia de bondade e doçura, e também muito sábia e inteligente” (apud STRACHEY, 2001, p. 64).

Todavia, ao se tornar rainha do Reino Unido em 1837 e a questão do casamento ser levantada pelo parlamento, Vitória tergiversou. Não estava disposta a dividir seus poderes e prerrogativas reais com um marido e chegou a escrever ao primeiro ministro, Lorde Melbourne, em abril de 1839, que “eu me sinto avessa à ideia de me casar um dia” (apud STRACHEY, 2001, p. 128). Mas a sucessão do trono era algo de máxima importância. O rei George III fora pai de 6 filhos e 4 filhas, mas avô de poucos netos. Por pouco uma crise dinástica não estourou no país até que Eduardo, duque de Kent, já com 52 anos, produziu uma herdeira para o trono. Se Vitória não tivesse filhos, e morresse, a coroa passaria então para as mãos do rei de Hanover. A despeito das evasivas da rainha, de não querer se comprometer formalmente, a opção por Albert como consorte era a mais sensata, não apenas porque era uma rapaz bem dotado intelectualmente e de boa aparência, mas principalmente porque não fazia parte da grande nobreza e não trazia consigo qualquer ambição imperial de alguma potência estrangeira, estando, dessa forma, em situação de desigualdade junto à sua futura esposa. Apesar de jovem, Vitória tinha plena consciência de sua posição social e seus conselheiros estavam dispostos a fazer de tudo para que Albert não interferisse em assuntos que diziam respeito apenas à rainha.

Assim sendo, a escolha do consorte para a rainha da Inglaterra foi, antes de tudo, uma decisão política e não o impulso de uma jovem perdidamente apaixonada, como Vitória posteriormente nos fez acreditar nas suas cartas e nos seus diários. Fazia quase três anos que os dois não se correspondiam e eram quase estranhos um para o outro. Um encontro entre eles foi organizado pelo rei Leopoldo I, principal interessado no casamento de seus sobrinhos. Na época, Albert estava fazendo uma viagem pelo continente, como complemento à sua formação, e a Inglaterra foi convenientemente encaixada no roteiro. A decisão final e o pedido de casamento foram feitos pela rainha no dia 15 de outubro de 1839, conforme ela descreve em carta para seu tio:

Meu tio querido, esta carta, estou certa, vos dará prazer porque sempre mostrastes um interesse tão caloroso por tudo o que me dizia respeito. Estou absolutamente decidida – e falei com Albert sobre isso esta manhã: a terna afeição que ele me demonstrou depois de me ter escutado deu-me grande prazer. Ele me parece uma perfeição e creio que tenho diante de mim uma grande felicidade. Amo-o mais do que poderia dize-lo e farei tudo o que está em meu poder para tornar o sacrifício que ele faz (pois, em minha opinião, faz um sacrifício) tão leve quanto possível. Ele parece dotado de grande tato – qualidade indispensável em sua situação (apud MUHLSTEIN, 1999, p. 33).

Retrato póstumo da rainha Vitória em seu vestido de casamento, por Franz Xaver Winterhalter (1872).

Firmado o noivado, logo questões protocolares apareceram para jogar um véu na felicidade da rainha. Indagações sobre qual seria a posição, o título e o séquito do príncipe consorte foram levantadas pelos ministros. Aconselhada por Lorde Melbourne, Vitória informou seu noivo de que “vossa posição será decidida pouco antes de vossa chegada aqui, assim como vossa posição militar”, pois “o Gabinete é muito fortemente da opinião de que não devereis ser feito par”, uma vez que “os ingleses são muito ciosos da intervenção de um estrangeiro no governo do país e já exprimiram a esperança (em certos jornais que estão bem-dispostos em relação a mim e a vós) de que não vos imiscuireis nele” (apud MUHLSTEIN, 1999, p. 36). Além disso, o parlamento não consentiu com o pagamento de 50 mil libras por ano para as despesas do príncipe consorte. Em vez disso, concedeu apenas 30 mil libras. Como, naquela época, ele não dispunha de meios para impor sua vontade, Albert teve que acatar todas as decisões tomadas por sua esposa e pelos ministros, inclusive quanto à formação do seu séquito de cavalheiros, muitos dos quais escolhidos por Lorde Melbourne, algo que desagradou bastante ao príncipe, especialmente com a nomeação de George Anson, ex-empregado do primeiro ministro, para seu secretário particular.

O noivado da rainha, porém, fora bastante curto. Em 28 de janeiro de 1840, Albert deixou Coburgo depois de se despedir da sua família e partiu novamente para a Inglaterra. O casamento aconteceu no dia 10 de fevereiro. O cortejo seguiu pomposamente em direção à capela do palácio de St. James, onde seria realizada a cerimônia. Albert veio na frente, usando um uniforme de Marechal do Campo britânico, usando a Insígnia da Jarreteira no peito juntamente com a Ordem em diamantes e outras pedras preciosas. Completava o traje do príncipe uma túnica e a Jarreteira também afixada ao joelho. A carruagem de Vitória seguia a alguns metros de distância, atrás. Para a ocasião, ela decidiu quebrar a tradição segundo a qual as noivas da realeza deveriam usar vestidos de cores alegres e chamativas, como a púrpura e o dourado. Em vez disso, a rainha usava um vestido de seda branca, com uma diadema de flores na cabeça. O branco era uma cor mais relacionada ao luto. Vitória, por sua vez, o utilizou como símbolo de sua castidade. Mal sabia ela que, naquele dia, estava criando um poderoso precedente para casamentos em todos os quatro cantos do mundo. Antes do serviço, o arcebispo de Canterbury perguntou à rainha se ela jurava prometer obediência ao marido, ao que Vitória respondeu afirmativamente. A cerimônia fora celebrada em grande pompa e estilo, deixando todos os presentes bastante extasiados.

Casamento da rainha Vitória com o príncipe Albert (10 de fevereiro de 1840), por Sir George Hayter.

Após se apresentarem para a multidão que os aguardava do lado de fora, Vitória e Albert regressaram para o palácio de Buckingham, onde teve lugar o banquete de casamento. Depois dos serviços protocolares, os dois partiram para Windsor, para um retiro de três dias. No dia 11, ela escreveu para Lorde Melbourne que a noite havia sido “desconcertante e deliciosa”, indicando que o casamento fora consumado. Ao tio Leopoldo, ela reiterou que era “a pessoa mais feliz, a mais feliz que já existiu” (apud MUHLSTEIN, 1999, p, 39). Mas as responsabilidades de Vitória enquanto soberana logo a chamaram de volta. Apesar dos protestos do príncipe para que permanecessem mais tempo em Windsor, ela teria dito que “você se esquece, meu amor querido, que eu sou uma soberana e, neste negócio, não se pode simplesmente parar e esperar” (apud SHEARMAN, 1987, p. 33). E “neste negócio”, ao qual Vitória se referiu, Albert era um outsider, sem qualquer atribuição. Para ajudá-la, a rainha tinha seu “querido Lorde M.” e não precisava do auxílio do príncipe. Quando ele, a conselho de seu preceptor, o barão de Stockmar, tentou discutir política com a esposa, ela rapidamente mudou de assunto e passou a falar de trivialidades.

O jovem casal, em litografia feita por S. Reynolds.

Não obstante, Albert logo descobriu que não era apenas na política que sua esfera de atuação junto à esposa era bastante limitada. Até mesmo nos assuntos da casa ele tinha que competir com a baronesa Lehezen, que cuidou de Vitória desde a mais tenra idade. Durante a infância, quando vivia na sombra da Coroa e sua mãe e Sir John Conroy a exasperavam com uma educação bastante severa, Lehezen foi a pessoa a quem ela mais se apegou. Após sua ascensão ao trono, o poder da baronesa cresceu ainda mais. Ela havia se tornado superintendente do sistema real e controladora da Bolsa Privada da rainha. Em outras palavras, cada detalhe da existência do casal seria supervisionado por uma terceira pessoa. Além disso, Albert, na qualidade de filho de um duque estrangeiro que foi alçado à príncipe consorte, sentia-se constrangido diante daquela nobreza palaciana, que o olhava à procura de um mínimo defeito que pudesse ser transformado em algo gigantesco. Sua atenção para consigo mesmo então redobrou. Seus modos eram quase sempre formais e ele tentava de todas as formas se adaptar ao estilo de vida da aristocracia inglesa, adquirindo o hábito da caçada, que era tão valorizado pelos ricos. Anos se passariam até que ele conseguisse vencer seus principais rivais, o primeiro ministro e a baronesa, para então assumir suas funções como marido da rainha da Inglaterra.

CONTINUA…

Referências Bibliográficas:

MUHLSTEIN, Anka. Vitória: retrato da rainha como moça triste, esposa satisfeita, soberana triunfante, mãe castradora, viúva lastimosa, velha dama misantropa e avó da Europa. Tradução de Maria Lucia Machado. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SHEARMAN, Deirdre. Rainha Vitória. Tradução de Achille Picchi. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

SITWELL, Edith. Vitória, rainha da Inglaterra. Tradução de Solena Benevides Viana e Jaime de Barros. Rio de Janeiro: José Olympio, 1946.

STRACHEY, Lytton. Rainha Vitória. Tradução de Luciano Trigo. Rio de Janeiro: Record, 2001.

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4 comentários sobre “Vitória e Albert: o casamento que mudou a história da Grã-Bretanha

  1. Muito bom o relato sobre o casal real. Assisti a serie VICTORIA e me encantei. No início eu e minha mãe nos apaixonamos por “Lord M” devido ao charme do ator Rufus Sewell. O interessante é que na série, Victoria pede ao Lord Melbourne para casar-se com ela. Acho que isso não ocorreu.

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    • De fato, Maria. Esse detalhe é ficção. Lorde Melbourne não estava em posição de se casar com a rainha da Inglaterra e, por mais devotada que ela fosse ao ministro, Vitória não seria capaz de fazer uma proposta insensata como essa.

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    • O mesmo aconteceu comigo em relação a Lord Melbourne. 🙂 O ator Rufus Sewell passou ao personagem histórico sua carga de charme e sex appeal.

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