Duas rainhas numa mesma ilha: Elizabeth I da Inglaterra e Mary Stuart da Escócia – Parte II

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Com o passar do tempo, tempo Mary Stuart foi percebendo que tanto esforço empreendido em prol do marido talvez não tivesse valido a pena. Lorde Darnley logo se mostrou um homem indigno de sua esposa, recusando-se a assumir suas obrigações de rei consorte, insultando-a publicamente e se entregando à bebedeira. Também passou a exigir a coroa matrimonial, o que lhe daria direitos de sucessão ao trono, no caso da morte de Mary. O pedido, porém, lhe foi negado, o que deixou Darnley bastante furioso. Ele se ressentia da influência que outros conselheiros exerciam sobre a esposa, especialmente David Rizzio e começou a espalhar boatos de que a rainha e seu secretário italiano eram amantes. Juntamente com outros nobres, entre eles o conde de Moray, Darnely assentiu num plano para assassinar Rizzio, que foi apunhalado diante de Mary, então grávida de 6 meses. A rainha foi feita prisioneira pelos conspiradores, fraca demais para organizar qualquer resistência contra esse ato de traição. Porém, o que faltava na rainha em força física, sobrava em astúcia. Aos poucos ela convenceu o marido de que Moray o trairia e que, assim que estivesse livre, concederia a ele o seu perdão real. O rei acreditou nos argumentos da esposa.

David Rizzio é assassinado aos pés de sua senhora. Tela de John Opie, 1787.

David Rizzio é assassinado aos pés de sua senhora. Tela de John Opie, 1787.

Na madrugada do dia 12 de março, Mary Stuart e Lorde Darnley conseguiram escapar do palácio de Holyrood rumo ao castelo de Dunbar, residência de James Hepburn, IV conde de Bothwell. Com a ajuda do conde, Mary organizou o contra-ataque, subjugando os rebeldes cinco dias depois. No dia 18, ela marchou triunfalmente sobre Edimburgo, reassumindo o trono. A imagem da rainha montada num cavalo, lutando pela sua coroa, foi bastante utilizada por historiadores e romancistas de séculos posteriores, que construíram a imagem de Mary como uma heroína romântica, mulher que foi derrotada apenas pelas escolhas que fez no campo matrimonial. Seu ressentimento para com o marido cresceu ainda maiores. Ela jamais esqueceria acena de Rizzio sento assassinado diante de si, enquanto um punhal era apontado para o seu ventre. O clima de tensão só foi temporariamente interrompido por ocasião do nascimento do herdeiro do trono, o príncipe Jaime. Tendo o bebê nos braços, a mãe de 23 anos exclamou que “este é o filho que, segundo espero, unirá os reinos da Escócia e da Inglaterra”. A madrinha escolhida para a criança foi ninguém menos que a rainha Elizabeth I, que presenteou a criança com uma pia batismal de ouro.

Em 24 de dezembro, a rainha assinou uma proclamação convidando seu meio-irmão, Moray, e os assassinos de Rizzio a regressarem para a Escócia. Com que finalidade ela teria feito isso, não podemos afirmar com certeza. Havia uma rivalidade crescente entre o rei e os conspiradores, devido à traição de Darnley à sua causa. Teria Mary se aproveitado dessa situação para se vingar do marido? Ela dava mostras cada vez maiores de querer se livrar dele, que só vinha lhe causando aborrecimentos. Em janeiro de 1567, o rei estava bastante doente, tendo contraído sífilis. Por medo de que a moléstia pudesse contagiar o príncipe, seu pai foi transferido para a antiga igreja de St. Mary, rebatizada de Kirk o’Field, localizado a 2 km do palácio de Holyrood, para que pudesse se recuperar. Todos os cuidados para o conforto do rei foram providenciados por sua esposa, o que deixou a corte bastante intrigada. Poucos meses antes, Mary demonstrava abertamente seu desprezo por ele e agora mudava seu comportamento diante da doença do cônjuge. Além disso, rumores davam conta de que a rainha e o conde Bothwell estavam mantendo um caso extraconjugal, o que deixava suas atitudes carinhosas para com o marido muito mais suspeitas.

Os corpos seminus de Darnley e seu escudeiros foram encontrados abaixo de um pomar, após a explosão da casa onde o rei passava a noite. Detalhe de painel contemporâneo à morte de Darnley, que retrata as circunstâncias em que seu corpo fora encontrado.

Os corpos seminus de Darnley e seu escudeiros foram encontrados abaixo de um pomar, após a explosão da casa onde o rei passava a noite. Detalhe de painel contemporâneo à morte de Darnley, que retrata as circunstâncias em que seu corpo fora encontrado.

Estaria Mary Stuart tramando alguma coisa? Já se sugeriu que a mudança de comportamento da rainha foi premeditada, para despistar qualquer envolvimento seu no assassinato de Lorde Darnley em 10 de fevereiro. Historiadores como Antonia Fraser e Alison Weir discutiram até que ponto a rainha estaria implicada nesse atentado. É certo que a rainha estivera mais cedo naquele dia com o marido, mas precisou deixa-lo com a desculpa de que havia prometido “a Christiana Hogg e a Batistan Page que dançaria na mascarada do seu casamento”. Dormiria aquela noite em Holyrrod, mas voltaria no dia seguinte. Porém, nunca mais voltariam a se ver. Na madrugada, por volta das 2 da manhã, a população acordou com o barulho de uma grande explosão, vinda de Kirk o’Field. Quando uma comitiva partiu para o local, encontraram o corpo do rei, nu da cintura para baixo, e do seu pajem, debaixo de um pomar, a sessenta passos do edifício em chamas. Mas, para espanto de todos, não foram notadas quaisquer marcas da explosão na vítima. A conclusão que tiraram foi que Darnley havia sido estrangulado e que o incêndio foi provocado apenas para despistar a causa real da morte.

Com efeito, como ninguém testemunhou o crime, logo começou a se suspeitar quem teria sido o assassino. A opinião geral parecia concordar que o responsável era o conde de Bothwell, com o consentimento de Mary Stuart. Logo, vários boatos começaram a circular, dizendo que a rainha mandou matar o marido para se casar com seu amante. Da Inglaterra, Mary recebeu uma carta bastante franca de sua prima, datada de 24 de fevereiro:

Senhora: meus ouvidos ficaram tão ensurdecidos, minha compreensão tão aflita e meu coração tão assustado ao saber das terríveis notícias do abominável assassinato de vosso louco marido e meu primo morto que mal tenho inteligência para escrever sobre isso […]. Não posso dissimular que estou mais pesarosa por vós do que por ele. Ó Senhora, eu não cumpriria a função de prima leal, nem de amiga afeiçoada, se me preocupasse mais em agradar a vossos ouvidos do que em me empenhar em preservar vossa honra. Não vou, porém, esconder o que a maioria das pessoas está falando: ou seja, que procureis obter com as próprias mãos a vingança desse ato […]. Contudo, eu vos exorto, suplico-vos que leveis essa coisa tão a peito que não temais tocar mesmo aquele que tendes mais próximo de vós se a coisa o tocar, e que nenhuma persuasão vos impeça de fazer um exemplo disso para o mundo: que é uma nobre princesa e uma esposa leal (apud DUNN, 2004, p. 322)..

Elizabeth I da Inglaterra, por Nicholas Hilliard.

Elizabeth I da Inglaterra, por Nicholas Hilliard.

Contudo, nesse aspecto mais uma vez Mary Stuart deixou a mulher dentro de si ter precedência sobre a soberana. Ela não só conseguiu inocentar Bothwell de qualquer envolvimento na morte do rei através de um julgamento realizado em abril, como também o desposou em 6 de maio daquele ano. Aos 24 anos, Mary já havia se casado três vezes, mas essa nova união, mais do que a anterior, se mostraria extremamente prejudicial para ela. Se os lordes escoceses não toleravam o fato de ter um homem como Darnley como rei, a perspectiva de ver James Hepburn usando a coroa era ainda pior. Ainda que tenham alegado que a rainha foi forçada a este casamento, pois foi violentada pelo conde, ao se casar com o suposto assassino do seu marido, Mary parecia confirmar as suspeitas do povo de que havia ordenado a morte de Darnley para deixar seu caminho livre para Bothwell.

Se Mary Stuart tivesse seguido os conselhos de sua prima, então talvez não tivesse se encontrado numa posição tão delicada como ficou em decorrência deste terceiro casamento. Os partidários do conde de Moray, apoiados por Sir James Balfour, se juntaram novamente contra a soberana. Diferentemente de agosto de 1565, desta vez a população não estava do lado de Mary. Suas tropas estavam bastante desmotivadas e não conseguiram vencer o exército inimigo em 15 de junho de 1567. Em troca de um salvo-conduto para o marido, a rainha se rendeu. Bothwell seria expulso da Escócia, sendo posteriormente preso na Dinamarca, onde veio a falecer alguns anos depois. Deixou sua esposa grávida, sozinha e à mercê dos inimigos. Humilhada, usando vestes indignas de uma soberana, Mary foi exibida pelas ruas de Edimburgo. À sua passagem, a multidão lhe gritava impropérios. Nas palavras de uma de suas biógrafas: “desgrenhada na derrota, Mary parecia falível e feminina, não a magnífica figura de uma rainha ordenada por Deus e assomando acima das outras mulheres” (DUNN, 2004, p. 351).

Curiosamente, Elizabeth I foi a única monarca europeia que se solidarizou com a condição de Mary Stuart. “Sua revolta com todo o lamentável episódio concentrou-se no fato de uma soberana ser tratada com tanto desrespeito, sobretudo pelos lordes que sabiam muito bem que isso não podia ocorrer” (DUNN, 2004, p. 352).. Apesar de ter feito uma defesa inflexível da soberania da prima, uma rainha reinante assim como ela, os lordes não aceitaram libertar Mary. Depois de ter sofrido um abordo de gêmeos, em 24 de julho ela foi forçada a abdicar em favor do filho de 1 ano, finando a regência a cargo do conde de Moray. A rainha foi ameaçada pelos lordes confederados a assinar os papeis, pois se não o fizesse, revelariam o conteúdo comprometedor de um baú contendo supostas cartas de amor de Mary para Bothwell. A simples evidência de tais documentos seria o suficiente para incrimina-la no assassinato de Lorde Darnley. Durante onze meses, ela ficou detida em Lochleven, até que conseguiu fugir graças a um plano arquitetado pelos Hamilton, uma das famílias mais poderosas da Escócia e partidários de Mary. Uma vez que a soberana havia sido posta em liberdade, trataram de organizar a resistência.

James Hepburn, IV conde de Bothwell. Artista desconhecido, 1566.

James Hepburn, IV conde de Bothwell. Artista desconhecido, 1566.

Vários nobres, inimigos do conde de Moray, haviam prometido a Mary Stuart devolvê-la ao trono. Com um exército de aproximadamente 6000 homens em suas costas, a rainha abjurou sua abdicação e estava decidida, mais uma vez, a enfrentar as forças do seu meio-irmão. Infelizmente para ela, suas tropas foram derrotadas e centenas de soldados foram massacrados na batalha de Longside. Diante do fracasso, Mary se viu numa situação bastante difícil. Tendo definitivamente perdido sua coroa e seu filho, para onde iria? A corte do rei Carlos IX estava fora de cogitação, pois “jamais voltarei à França como fugitiva. Não a um país onde me casei e já fui coroada”. Por fim, decidiu-se pela Inglaterra, uma vez que Elizabeth já havia lhe dado mostras de sua solidariedade e amizade. Dessa forma, Mary partia de uma vez por todas da Escócia. Deixava um cativeiro sem saber que estava indo direto para outro, no qual ela permaneceria confinada até o fim de seus dias.

Leia a primeira parte, clicando aqui!

Referências Bibliográficas:

DUNN, Jane. Elizabeth e Mary: primas, rivais, rainhas. Tradução de Alda Porto. – Rio de Janeiro: Rocco, 2004.

FRASER, Antonia. Mary Queen of Scots. – New York: Delta, 2001.

LOADES, David.  As Rainhas Tudor – o poder no feminino em Inglaterra (séculos XV-XVII). Tradução de Paulo Mendes. – Portugal: Caleidoscópio, 2010.

STEPANEK, Sally. Maria Stuart. Tradução de José Carlos Barbosa dos Santos. – São Paulo: Nova Cultural, 1988.

WEIR, Alison. The life of Elizabeth I. – New York: Ballantine Books, 2008.

ZWEIG, Stefan. Maria Stuart. – Tradução de Alice Ogando. 12ª edição. Porto: Livraria Civilização, 1969.

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