Ana Bolena, rainha dos mil dias – filme Anne of The Thousand Days (1969)

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Qual seria a receita consagrada para o sucesso de um filme do final dos anos 1960? A resposta é bem simples: misture desejo com intriga, adicionando paixão, poder e ódio, em contraste com uma época de turbulências servindo como pano de fundo e você então terá uma grande obra, digna de admiração até os dias de hoje. Sem dúvida, foi esse o molde usado por Charles Jarrot para criar um dos maiores clássicos sobre a vida da mais controversa rainha da Inglaterra, Ana Bolena. Indicado a dez categorias do Oscar, e vencedor de três Globos de Ouro (incluindo melhor diretor e melhor atriz), Anne of the Thousand Days traz no seu elenco principal ninguém menos que Richard Burton, famoso por filmes como Cleópatra (1963) e Irene Papas, nos papéis de Henrique VIII e Catarina de Aragão, respectivamente. Contudo, é Geneviève Bujold, na pele da intrigante dama da corte que fez valer sua vontade perante o homem mais poderoso, o rei da Inglaterra, quem merece o maior destaque de toda a produção. A história é aquela já conhecida e debatida pelo grande público, não apresentando muitas novidades, porém, faz uma narração ímpar dos acontecimentos, o que por sua vez o torna delicioso aos olhos daqueles mais interessados.

Ana Dos Mil Dias

Capa do filme Ana dos mil dias, com Richard Burton e Geneviève Bujold.

O filme se inicia em 1536, quando Henrique, ao assinar os papeis da execução dos cinco homens acusados de adultério com a rainha, tem um súbito surto de memória ao pegar no documento que selaria o destino daquela jovem vistosa, que atiçou sua paixão enquanto dançava graciosamente em meio à corte, num baile de 1527. Envolvido pelo passado, o monarca deixa-se levar até aquele dia, dando continuidade ao desventurado conto que acabaria por culminar naquele momento presente. Na ocasião, Ana Bolena, uma dama recém-chegada da França, estava acompanhada de Lord Henry Percy (interpretado por Terence Wilton), com quem desejava casar-se. Mas, para o infortúnio de ambos, o rei interessou-se pela moça e tão logo ordenou ao cardeal Wolsey (irreverentemente vivido por Anthony Quayle)  que dissolvesse aquela união. Destarte, em vias de precisão histórica, sabemos que o relacionamento dos jovens era algo secreto, de modo que quase ninguém sabia da intensão dos dois, até o dia em que o cardeal desmanchou qualquer pretensão matrimonial que um pudesse nutrir com relação ao outro. Esse aspecto é alterado da história original, o que, penso, fez com que se tornasse um elemento não tão empolgante na trama de 145 minutos de duração.

Todavia, o filme demonstra algumas das qualidades que outras produções similares resolveram passar por cima, como o talento de Henrique VIII para a dança, bem como o de Ana Bolena. É praticamente irresistível não admirar os dois em paços muito bem coreografados nas varias cenas de festejos que aparecem no longa-metragem. Entretanto, no que concerne aos fatos, alguns aspectos merecem ser levados em consideração: Henrique descreve Ana ao cardeal Wolsey como tendo 18 anos na época do grandioso baile da corte, o que é um erro, uma vez que é aceito como a provável data de seu nascimento o ano de 1501, ou seja, ela estaria com cerca de vinte e seis anos em 1527; por esse período, também já havia sido separada de Henry Percy e banida para o castelo de Hever, em Kent. Excluindo-se esses pequenos detalhes, a trama se desenvolve com toda a maestria, exaltando as repelidas nada amistosas de Ana para com o rei, até que ele toma a maior decisão de sua vida: separar-se da filha dos reis católicos, Catarina de Aragão, para desposar sua amada e torná-la a nova rainha da Inglaterra.

Em cena Irene Papas como Catarina de Aragão,e Richard Burton como um "moreno" Henrique VIII.

Em cena Irene Papas como Catarina de Aragão,e Richard Burton como um “moreno” Henrique VIII.

Com efeito, Catarina jamais cederia aos desejos daquele que sempre considerou seu marido, e muito menos às tristes justificativas por ele empregadas. A cena em que Henrique tenta convencer a esposa de que o casamento deles era ilegal, provavelmente é uma das mais interessantes do filme: ali vemos uma mulher já cansada de tantas lutas, chorando aos pés do homem que amava, para que ele não a repudiasse. Essa passagem se torna ainda mais interessante quando comparada com os registros históricos, uma vez que ela confere perfeitamente com os mesmos. No entanto, o momento em que se reúne o tribunal para julgar o casamento dos reis é praticamente um dos mais chatos de todo o longa-metragem, não fazendo qualquer menção ao honroso discurso de Catarina ou à exaltação das pessoas quando de sua chegada para prestar depoimento na corte presidida pelos legados papais Wolsey e o cardeal Campeggio. O insucesso do julgamento em declarar uma sentença seria então o estopim para que Ana acusasse o cardeal Wolsey de incompetência, levando Henrique a repudiá-lo. Geneviève Bujold merece aqui mais uma vez meus parabéns. A forma como demonstra as variações de humor da personagem é praticamente perfeita. Logo no início da trama era a garota doce que sonhava em se casar com o amor de sua vida e agora se tornara uma mulher disposta a tudo para se vingar.

Em vias de fato, muitos pesquisadores atuais têm tentado desconstruir essa imagem de Ana Bolena como uma mulher ressentida e maquiavélica. Porém, nos anos 1960 era essa a interpretação que os historiadores faziam da mesma, tanto em romances quanto em livros empíricos. Dessa forma, qualquer crítica feita ao filme no tocante ao comportamento de Ana deverá ser analisada de acordo com esses termos, para assim descontá-lo da opinião pessimista de muitos telespectadores ansioso por verem uma rainha bondosa e martirizada pelo marido cruel. Com Catarina afastada e o cardeal em desgraça, Henrique se vê livre para romper com a igreja e se casar com quem ama.  Providencia imediatamente o seu casamento com a amada e em seguida a coroação da mesma. Nesse caso, é preciso frisar que Anne of the Thousand Days é um dos poucos filmes em que podemos ver a procissão de coroação da nova rainha, assim como as demonstrações de hostilidade do povo, que dirigia ofensas à sua soberana enquanto ela fazia seu desfile ao lado do rei. Na ocasião, Ana estava grávida, mas o que ninguém esperava era que o tão sonhado filho acabou sendo uma filha, e nada se podia fazer para evitar a tristeza do pai da criança, que esperava um varão para pacificar o reino da Inglaterra. Não demorou muito então para que uma nova dama ocupasse as atenções do monarca: Jane Seymour (Lesley Paterson).

Cena da procissão de coroação de Ana Bolena.

Cena da procissão de coroação de Ana Bolena.

Enquanto isso, a doença se apoderava do corpo de Catarina de Aragão, que já estava com seus dias contados. A cena em que Maria (Nicola Pagett), única filha da ci-devant rainha com o rei Henrique, aparece no leito de morte de sua mãe é pura ficção, pois ambas estavam separadas desde 1531, mantendo contato apenas através de cartas. A partir daí, o filme, que até então seguia uma espécie de linearidade temporal, começa a apresentar suas falhas. Convencido de que Deus o havia castigado, Henrique ordena a seu novo secretário, Thomas Cromwell (vivo em sua malevolência por John Colicos), que encontre um motivo para livrar-se de sua segunda esposa, já que todos os filhos que tivera com ela após o nascimento de Elizabeth não vingaram. Ele tortura o tocador de alaúde da rainha, Mark Smeaton (Gary Bond), e arranca-lhe uma falsa confissão de que a rainha havia cometido adultério com ele e com mais quatro homens, incluindo seu próprio irmão. Por consequência disso, Ana foi presa na torre de Londres. Até aí a trama confere com os fatos, mas o julgamento da consorte real foi o mais puro fruto do criacionismo da mente do diretor, pois além da ré, estavam presentes no tribunal o seu irmão (interpretado por Michael Johnson), seu pai (Michael Hordern) e o tocador de alaúde, quando na realidade nenhum deles se encontrava na referida ocasião.

Ainda no que diz respeito ao inquérito, diferentemente do que o filme nos mostra, Ana Bolena não interrogara qualquer testemunha, mesmo porque no tribunal não havia nenhuma pessoa presente para esta finalidade. Henrique também não comparecera neste dia ou sequer intercedera a favor de sua esposa. Tais passagens são uma clara interferência do que se convêm denominar de licença poética, por parte de Charles Jarrot. Sendo assim, depois de ser condenada á morte e retornar para a torre, o rei lhe faz uma visita e oferece à Ana sua liberdade em troca da recusa do seu direito de rainha e de sua filha como herdeira. Mais uma vez aqui os fatos seguem uma ordem distinta da história conhecida, visto que Henrique não visitara sua ex-esposa na prisão e ela realmente assinara uma declaração de que seu casamento era nulo desde o princípio, para assim não causar problemas futuros para a pequena filha. A decapitação de Ana Bolena também deixa no espectador o desejo de ver o momento no qual ela faz seu imortalizado discurso de despedida aos súditos, mas no final ela só recebeu a benção do padre e em seguida curvou-se à vontade da lei. Henrique, que estava a quilômetros de distância, partiu ao encontro de Jane Seymour após ouvir os disparos de canhão que anunciavam que o ato havia sido cumprido.

A pequena Elizabeth (Amanda Jane Smythe).

A pequena Elizabeth (Amanda Jane Smythe).

E assim se encerra o filme, com a imagem de uma pequena garotinha de cabelos ruivos, que carrega em seus ombros todas as esperanças de sua finada mãe. É um filme muito interessante, mas por ser antigo (1969), ele desperta mais a curiosidade de quem já conhece a história de Ana Bolena e daqueles que têm maior capacidade de compreender todos os efeitos por trás do longa-metragem, do que no grande público (acostumado a produções equiparáveis com The Other Boleyn Girl), pois na época em que foi feito, as noções de se atuar eram bem dramáticas e teatrais, quase beirando a nostalgia, até mesmo porque o roteiro do filme é uma adaptação da peça da Broadway de 1949. O próprio Richard Burton consideraria essa uma de suas piores atuações, ficando, contudo, surpreso ao ser indicado para a categoria de melhor ator no Oscar. Além do mais, os cenários e principalmente o figurino do filme são excelentes. Poucas foram às produções cinematográficas que se apresentaram tão fieis à moda da época. Algumas mais recentes, como a série The Tudors, se perderam completamente quanto a este quesito. De qualquer forma, vale à pena conferir e se deleitar com a perfeita atuação que Geneviève faz daquela mulher que moldou seu próprio destino dentro de uma sociedade hierarquizada, na qual ser mulher significava ser submissa. Só mesmo alguém como Ana Bolena para mudar as regras, transcendendo aos olhos da contemporaneidade como exemplo feminino de força e coragem.

Confira abaixo o trailer de Anne of The Thousand Days:

Texto editado a partir de:  A Veracidade e a Vaidade em Anne of The Thousand Days

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7 comentários sobre “Ana Bolena, rainha dos mil dias – filme Anne of The Thousand Days (1969)

  1. Já vi e adorei esse filme! Na verdade, a partir de “The Tudors” fui em busca de toda cinematografia que envolve Henrique VIII e Ana Bolena! E o que mais gosto é no final, quando ela diz: “Elizabeth será grande, vc vai ver” algo assim, nao to dizendo que é essa a fala certa, mas eu admiro demais a estória deles, e o fruto que deu de tudo isso: Elizabeth I. Mas acho que se o filme tivesse tido a mesma paixão erótica apresentada no “The Tudors” não haveria porque haver essa série, a questao é que os filmes de antigamente tinham um certo pudor…. essa paixão e erotismo apresentado hoje em dia nas séries de época faz com que atraiam as pessoas para a História, infelizmente é assim que tem que fazer pra atrair, porém até que curto, porque sei lá se isso é verdadeiro, mas é interessante ver como se estivessemos ali…eu ainda pretendo falar de Ana Bolena em meu blog! (na verdade era pra ser essa semana, que é perto do dia em que ela morreu…mas to sem tempo)
    Ótimo post! 😀

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    • Muito Obrigado. A fala final é a seguinte: “Minha Elizabeth será Rainha, e meu sangue não será vertido em vão”. Mesmo que a verdadeira Ana não tenha falado isso, essa frase faz uma total referência à grandeza que aquela menina de apenas 3 anos de idade incompletos demonstraria quando se sentasse no trono antes ocupado pelo pai.

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    • O que mais me intriga, é que o Henrique deve ter se mordido de raiva ou se achado o maior besta pelo machismo dele após “ver”Elizabeth I no trono e o sucesso que foi….porque ele só queria que um homem ocupasse o trono dele, a ambição e o orgulho dele era tão grande em relação a isso que vamos dizer “sufocou” o menino da Jayne e ele morreu sem deixar um varão no trono, mas é q tá, ele nao deixou um guri, mas ele deixou a Elizabeth, que cumpriu o papel melhor do que ninguém! ^^
      Outro fato que dizem muito por ai, é que Henrique somente amou a Jayne, eu nao sei, pra mim ele amou a Ana Bolena, se nao, nao teria tido a Elizabeth (pode ser romantismo da minha parte), o problema é que os 2 sao muito parecidos principalmente nos defeitos, e Ana era muito impulsiva as vezes, faltou ter um pouco mais de tato pra nao ter tido a cabeça cortada, e tambem nao deveria ter prometido o impossivel, outro problema daquela época, nao havia meios de ver o sexo do bebe antes de nascer ou mesmo de escolher…e ela instiga o homem a ponto de mudar tudo por acreditar que vai ter seu varão através dela? é muito arriscado, ainda mais como um rei “mimado”, “impulsivo”, “autoritário” e outras coisas que ele era! Acredito que teria feito tudo como Ana Bolena, a História deles me fascina, acho que sou louca kkkkkkk (nao me leve a mal)…

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  2. Muito pertinente se comentário. Adorei! Eu acredito que quando da morte de Henrique, em janeiro de 1547, nem sequer se passava pela cabeça dele que Elizabeth um dia viria a possuir o trono. Ela mesma na época não acreditava nisso. De modo que se ele soubesse, poderíamos dizer que seria um choque e tanto. Esse medo de mulheres no poder não era partilhado apenas por ele, mas por todos os outros monarcas europeus. Afinal, o nome da família era passado através dos filhos homens, e não da filhas. Quanto à esposa que Henrique mais amou, acredito que essa tenha sido a Catarina de Aragão. Eles passaram mais de 20 anos casados e tiveram filhos, embora só Maria sobrevivesse. Penso que se Catarina tivesse dado ao rei um varão saudável, certamente ele nem sequer cogitaria separar-se dela ou romper com Roma. Ana, pra mim, representa mais o mistério; a tentação; a mulher inalcançável. Por isso ela é tão irresistível mesmo quase cinco séculos após sua morte.

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    • Acho que ele amou Catarina, mas não era uma paixão. Por Ana ele teve uma paixão avassaladora e um desejo de conquista, não acho que tenha sido um “amor puro” mas creio que tivesse algo forte sim. A Jane foi um amor “perfeito”. Ela foi a que ele mais amou, porque ela morreu dando a ele um filho homem. Ela deu a ele o que ele mais queria, e morreu antes que pudesse magoar ou decepcionar ele (assim é fácil ser inesquecível né).
      As outras nem contam. Para mim a segunda Catarina foi só tesão, a Anne de cleaves foi friendzone e a ultima Catarina foi conveniência.

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    • Henrique teve um filho com Catarina de Aragão, também chamado Henrique, no ano de 1511, mas a criança durou pouco mais de um mês. Teve também o filho bastardo com Bessie Blount chamado Henry Fitzroy, que morreu em 1536. Um ano depois, Jane Seymour, terceira rainha de Henrique VIII, deu à luz um filho homem, a quem chamou de Eduardo. A criança se tornou rei em 1547 após a morte do pai, tendo apenas 9 anos de idade. Infelizmente, falecera seis anos depois, sendo então sucedido pela sua meio-irmã Maria, apesar das tentativas daquele de excluir esta da sucessão.

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