“Adeus, pois, para sempre, adeus!” – A emocionante carta de Dona Amélia de Leuchtenberg para D. Pedro II!

Por: Renato Drummond Tapioca Neto

Logo após ter aportado na baia de Guanabara, em 16 de outubro de 1829, D. Amélia de Leuchtenberg, segunda imperatriz consorte do Brasil, surpreendeu seus enteados com brinquedos trazidos da Europa e gestos carinhosos. A partir daí, passou a ocupar no coração dos pequenos o posto de mãe, vacante desde que a morte da imperatriz Leopoldina. Mais jovem do que as irmãs, o príncipe Pedro demonstraria uma conexão especial com a madrasta, uma vez que tinha apenas um ano de idade quando se tornou órfão e, portanto, não tinha recordações de sua genitora, exceto pelo que lhe contavam sobre ela ou pelos retratos que via da mesma. A carta que segue, por sua vez, foi escrita por D. Amélia ao enteado, por ocasião da partida desta para Paris, após a abdicação de D. Pedro I ao trono brasileiro. Nela podemos constatar mais uma prova do carinho que a ex-imperatriz nutria pelo garoto e o seu pesar ao deixa-lo, visto que era a “delícia de minh’alma” e a “alegria de meus olhos”. O seguinte texto pretende analisar parágrafo por parágrafo da carta de D. Amélia, apresentando fatos circunstanciais que estiveram ligados à partida de D. Pedro I, assim como o viés emocional da autora. Começando com um triste adeus, a missiva prossegue da seguinte maneira:

Adeus menino querido, delícia de minh’alma, alegria de meus olhos, filho que meu coração tinha adotado: adeus, para sempre adeus! Quanto és formoso, neste teu repouso. Meus olhos chorosos não se podem fartar de te contemplar; a majestade de uma coroa, a debilidade da infância, a inocência dos anjos cingem tua engraçadíssima fronte de um resplendor misterioso, que fascina a mente.

D. Pedro II enquanto criança, por Armand Julien Pallière (c. 1830).

D. Pedro II enquanto criança, por Armand Julien Pallière (c. 1830).

Nesse trecho inicial da correspondência, a autora revela as circunstâncias em que deixava o filho que não era seu, mas que seu “coração tinha adotado”, a sua dor pela partida e a crença de que nunca mais o reencontraria. Na sequência, ela traça um retrato vivo, através de suas palavras floreadas, de como o vira pela última vez: enquanto ele estava dormindo. Os filhos do Imperador que permaneceram no Brasil não presenciaram a partida do pai que, na madrugada de 7 de Abril de 1831, foi aos leitos de cada uma e lhes deitou um beijo de despedida nas faces. Foi enquanto dormia em sono profundo que a Dona Amélia viu aquela criança e apesar de seus olhos enxergarem nela a inocência angelical própria de um menino de cinco anos, já vislumbrava o fardo que ele teria de carregar em tão tenra idade: o da coroa. Os trechos seguintes do documento são ainda mais comoventes:

“Eis o espetáculo mais tocante que a Terra pode oferecer. Quanta grandeza, quanta fraqueza a humanidade encerra representada por uma criança. Uma coroa e um brinco, um trono e um berço! A púrpura ainda não serve senão para estofo e aquele que comanda exércitos e rege um império carece de todos os desvelos de uma mãe.”

Mais uma vez aqui Dona Amélia transparece o medo que sente em deixar um menino sem o zelo materno, ainda mais quando este tem tamanhas responsabilidades que seriam impossíveis de ser compreendidas em tão tenra idade, mesmo por um garoto tão bem dotado intelectualmente como Pedro II. Era ainda tão pequeno, que o manto cor púrpura dos reis servir-lhe-ia como um estofo. O tom de preocupação é ainda mais notável pelo contraste que a escritora faz: enquanto ele dormia ainda em um berço, deveria abdicar dos brinquedos para portar a coroa e reger tão vasto Império. Em seguida, ela diz:

“Ah! Querido menino, se eu fosse tua verdadeira mãe, se minhas entranhas te houvessem concebido, nenhum poder valeria para me separar de ti, nenhuma força de arrancaria de meus braços. Prostrada aos pés daqueles mesmos que abandonaram meu esposo, eu lhes diria entre lágrimas: Não vede mais em mim a Imperatriz, mas uma mãe desesperada. Permiti que eu vigie nosso tesouro. Vós o quereis seguro e bem tratado e quem o haveria de cuidar e guardar com maior devoção? Se não posso ficar a título de mãe, eu serei sua criada ou escrava.”

Partida de D. Pedro, duque de Bragança, D, Amélia de Leuchtenberg, e D. Maria da Glória, na madrugada de sete de Abril de 1831.

Partida de D. Pedro, duque de Bragança, D. Amélia de Leuchtenberg, e D. Maria da Glória, na madrugada de sete de Abril de 1831.

Esse provavelmente é o trecho mais revelador de toda a missiva. Em primeira instância demonstra o pesar de uma mulher que amou uma criança, mesmo sem ser sua, e que se pudesse faria tudo ao seu alcance para ficar ao lado dele. Todavia, por outro lado pode demonstrar uma espécie de reserva para com o menino, na medida em que ela deixa claro que, como não é a mãe do mesmo, teria que se separar dele, apesar de sua vontade em se ajoelhar aos pés “daqueles que abandonaram meu esposo” e implorar para cuidar do pequeno. Nessa frase, Dona Amélia demonstra raiva provavelmente para com os ministros de Pedro, que pouco, ou quase nada fizeram para reaver seu prestígio junto ao povo brasileiro. Já não se via mais como Imperatriz do Brasil e aceitara o fato de que tinha de partir com o marido, para o bem da nação e do regime político. Por fim, o tom do parágrafo fica quase apelativo, quando ela diz que se não podia ficar com o “título de mãe, eu serei sua criada ou escrava”. Na sequência, ela revela um pouco mais do seu pesar por não ser a progenitora daquela criança:

“Mas tu, anjo de inocência e de formosura, não me pertence senão pelo amor que dediquei ao teu augusto pai; um dever sagrado me obriga a acompanha-lo em seu exílio, através dos mares e terras estranhas. Adeus, pois, para sempre, adeus!”

Nessa passagem, Dona Amélia conta ao seu correspondente qual era a sua primeira e verdadeira obrigação: o de esposa. Segundo o costume brasileiro e português daquele período, a mulher de classe aristocrática tinha em sua vida dois responsáveis: primeiro o pai e depois o marido. A partir do momento em que contraía bodas estava condicionada à vontade do cônjuge, devendo obediência a ele em praticamente todas as coisas. A felicidade da mulher, pois, deveria se concentrar no cumprimento de seus deveres conjugais, ou pelo menos era assim que a primeira Imperatriz Dona Leopoldina concebia a vida no casamento e suas particularidades. Dona Amélia, como uma mulher católica praticante, tinha plena consciência de suas obrigações para com Deus e o sagrado estado do matrimônio. Deveria, portanto, acompanha-lo no “exílio, através de mares e terras estranhas”. A última linha desse trecho soa apelativa demais. Afinal, a família imperial retornaria à Europa por um percurso marítimo feito pela própria Amélia quando de sua vinda ao Brasil:

“Mães brasileiras, vós que sois meigas e afagadoras de vossos filhinhos, a par da rola de vossos bosques e dos beija-flores das campinas floridas, supri minha vós; adotai o órfão coroado, dai-lhe todo um lugar em vossa família e em vosso coração.”

D. Amélia,augures de pois de 1839, por Friedrich Dürck.

D. Améllia, por Friedrich Dürck.

A partir dessa parte, D. Amélia lança um apelo às mães brasileiras, para que cuidassem de seu precioso “filho adotado pelo seu coração”. O fato de se dirigir a outros indivíduos naquela missiva endereçada ao seu enteado indica que ela tinha plena consciência que esta seria lida por outras pessoas, além de Pedro II. Desse modo, ela tomou cuidado com cada palavra que escrevia (apesar de expor seu pensamento contrário a alguns acontecimentos, conforme podemos ler em muitas passagens da carta), que muito longe de se tornar um mero artefato pessoal, era um documento de Estado. Não obstante, a mensagem ali contida também estava voltada para as pessoas que se tornaram responsáveis pela guarda do chamado “órfão da nação” após da partida dos novos duque e duquesa de Bragança:

“Ornai seu leito com folha de arbusto constitucional, embalsamai-o com as mais ricas flores de vossa eterna primavera, entrançai, o jasmim, a baunilha, a rosa, o cinamomo, para coroar a mimosa testa, quando o pesado diadema de ouro o tiver machucado.”

Aqui a autora se utiliza de seu suposto conhecimento da flora brasileira para ilustrar que, embora criança e indefesa, as mães do Brasil deveriam lhe prestar louvores, criando, através de suas palavras, a imagem de uma criança enquanto salvadora da pátria, deitada num berço ornado pelas folhas do arbusto constitucional. Deveriam, pois, lhes perdoar as faltas que pudesse cometer para com o país, devido à sua pouca idade e também ao fardo do “pesado diadema”. Nos trechos seguintes, Dona Amélia vai se utilizar de muitas figuras de linguagem para alertar as pessoas sobre a importância de seu pedido, quando ela diz:

“Alimentai-o com a ambrosia das mais saborosas frutas: a ata, o ananás, a cana melíflua; acalentai-o à suave entoada de vossas maviosas modinhas.”

“Afugentai para longe de seu berço as aves de rapina, a sutil víbora, as cruéis jararacas e também os vis aduladores, que envenenam o ar que se respira nas cortes.”

Estes dois parágrafos que acabaram de ser citados, por sua vez, revelam o medo e o da autora: primeiro como, já salientado anteriormente, que fossem gentis com seu menino; segundo que afastem dele pessoas más que, por causa de sua tenra idade, poderiam se aproveitar de suas fraquezas, ainda mais em uma corte como a carioca, onde o bafo dos “vis aduladores” envenenava o ar. Parece que a duquesa de Bragança estava prevendo as desventuras pelas quais o pequeno Pedro passaria no período conhecido como regencial (1831 – 1840). Esse fato se torna tão apócrifo, quanto mais se alisarmos o seguinte trecho da longa correspondência:

“Se a maldade e a traição lhe preparem ciladas, vós mesma armai em sua defesa vossos esposos, com a espada, o mosquete e a baioneta. Ensinai à sua voz tenra as palavras de misericórdia, que consolam o infortúnio, as palavras de patriotismo, que exaltam as almas generosas e, de vez em quando, sussurrai a seu ouvido o nome de sua mãe de adoção.”

D Amélia de Leuchtenberg, então duquesa de Bragança, em seu últimos anos de vida.

D Amélia de Leuchtenberg, então duquesa de Bragança, em seu últimos anos de vida.

Ainda se dirigindo às mães do Brasil, Dona Amélia, que deixou este país em um clima político tenso, diz-lhes que seria preciso incorrer em violência, caso a defesa do pequeno imperador assim o exigisse. Provavelmente, as várias revoltas ocorridas no período regencial pouco afetaram o menino afugentado no palácio de São Cristóvão. No entanto, sua autoridade estava sendo contestada e, portanto, medidas extremadas foram necessárias para garantir a unidade do Império. Não obstante, as palavras de patriotismo a que a autora se refere, foram muito bem utilizadas por D. Pedro II em episódios como a Guerra do Paraguai ou mesmo quando ele passeava pelas ruas do Rio de Janeiro, com seus trajes simples, querendo passar para os súditos a imagem de um “monarca cidadão”. Por fim, ela implora para que não deixem que o pequeno se esquecesse dela, algo que jamais aconteceria.

“Mães brasileiras, eu vos confio este preciosíssimo penhor de felicidade de vosso país e de vosso povo; ei-lo tão belo e puro como o primogênito de Eva no paraíso. Eu vo-lo entrego agora e sinto minhas lágrimas correrem agora com menor amargura. Ei-lo adormecido.”

Aqui, a escritora observa que se sentiria mais tranquila sabendo que seu enteado estaria sob o cuidado atento das mães brasileiras, na medida em que cumprissem com fervor os pedidos que lhes fizeram ao longo da missiva. Por último, ela alude mais uma vez sob em quais circunstâncias o viu pela última vez: dormindo, como o “primogênito de Eva no paraíso”.

“Brasileiras, eu vos imploro que não o acordeis antes que eu me retire. A boquinha, molhada de meu pranto, ri-se à semelhança do botão de rosa ensopado do orvalho matutino. Ele ri e o pai e a mãe o abandonam para sempre.”

No penúltimo parágrafo da longa carta, D. Amélia demonstra a consciência de que sua missiva seria lida primeiro por outras pessoas que não o destinatário. Por isso, agora se dirige às brasileiras, e não somente às que são mães, pedindo-lhes que não o acorde antes que tivesse ido embora “para sempre”. Enquanto o herdeiro do império dormia à semelhança de um querubim, seus pais o abandonavam. Todavia, Pedro, apesar da tenra idade, demonstrava consciência dos motivos pelo quais seu pai abdicava, quando este pedia em correspondência ao mesmo “que nunca se esqueça deste filho que sempre há de guardar a obediência, respeito e amor ao melhor dos pais tão cedo perdido para seu filho” (apud GOMES, 2010, pag. 294). Na última parte da carta, a autora reitera o clima de pesar pela partida, quando escreve:

“Adeus, órfão Imperador, vítima de tua grandeza, antes que a saibas conhecer. Adeus, anjo de inocência e formosura, adeus!”

“Toma este beijo e este… e este último. Adeus, para sempre, adeus!”

“ass. Amélia, Duquesa de Bragança”.

Apesar do clima de tristeza, esse não seria o último adeus entre a agora duquesa de Bragança, e seu enteado. Em 1871, quando D. Pedro II, já com 45 anos, viajava pela primeira vez à Europa ele faria uma visita à madrasta em Portugal, encontrando-a já velha e fatigada pelas dores, tanto que faleceria apenas dois anos depois do felicíssimo reencontro com o soberano. Esta carta, por sua vez, revela  a maturidade na escrita da soberana, uma vez que em 1831 tinha apenas 19 anos de idade. Apesar das distâncias, eles ainda continuariam a se corresponder frequentemente até a morte de D. Amélia, em 1873. Com efeito, até o fim permaneceriam como o “filho que meu coração tinha adotado” e ela como a sua “querida mamãe”.

Referências bibliográficas:

Carta de D. Amélia de Leuchtenberg a D. Pedro II. – Disponível em: http://ateneu1957.blogspot.com.br/2011/09/pedro-ii-e-dona-amelia.html. Último acesso em: primeiro de Maio de 2013.

GOMES, Laurentino. 1822. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

SCHWARCZ, Lília Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. – 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

4 comentários sobre ““Adeus, pois, para sempre, adeus!” – A emocionante carta de Dona Amélia de Leuchtenberg para D. Pedro II!

  1. Confesso que fiquei com os olhos rasos d’água. O texto mostra bem toda a dor contida na carta de despedida de D. Amélia ao seu enteado… Poderia ser, muito bem, apenas mais uma carta “oficial”, documento da História. Mas não sei… A mim falou bem mais alto o sentimento da mãe adotiva e, mesmo sabendo que a carta foi escrita não apenas para os olhos do pequeno Pedro, me comoveu entrever D. Amélia despida dos trajes de realeza, colocada como “mãe de coração”, que adotara, tão jovem, por força do casamento, uma criança que não era sua, mas para a qual parece ter aberto tanto espaço no coração. Enfim.

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    • D. Amélia de Leuchtenberg era uma mulher muito gentil e capaz de amar com sinceridade. Tinha muita fibra e amou ao imperador e seus filhos como se fossem seus. A História do Brasil ainda carece de muitas informações acerca deste ícone. Entretanto, é com satisfação que já tenho percebido uma séria mobilização por parte de alguns pesquisadores a fim de reparar isso, o que é ótimo! 🙂

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  2. Bela homenagem a D.Amélia pela sua dedicação a uma criança que não era sua, provando ter instinto maternal mesmo sendo estrangeira no Brasil.Ainda bem que a história não a esqueceu. Aguardo novas informações desta mulher tão gentil.Mary Tapioca de Freitas.

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  3. Muito triste e emocionante esta parte da história de D. Pedro II…Inclusive do seu exílio para a Europa.. Mesmo sendo um principe deve ter sofrido bastante… Confesso que fiquei emicionada…

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